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Fábulas de Monteiro Lobato: a renovação da literatura infantil.
Grasielly Lopes (UNESP - Assis)

Monteiro Lobato viveu em uma época em que os livros infantis transpareciam o modo como o adulto queria que a criança visse o mundo, deixando de lado as necessidades da infância. Como afirmam Lajolo e Zilberman (1985), a projeção de uma utopia e a expressão simbólica de vivências interiores do leitor não são necessariamente contraditórias, porque a visão do adulto pode-se completar com a adoção da perspectiva da criança. Estes dois pontos formam a tensão que direciona a produção ficcional infantil e que se mostra como desafio ao escritor, desafio este que Lobato soube enfrentar com êxito na construção de sua obra infantil.

As obras que cuidavam do público infanto-juvenil, antes de Lobato, sejam elas adaptações, traduções ou originais, traziam a natureza da educação recebida pelos brasileiros desde meados do século XIX, ressaltando valores do sistema herdado, tendo como alicerces o nacionalismo, intelectualismo, tradicionalismo cultural, moralismo e religiosidade. As carências na área eram perceptíveis e este estado de coisas foi lentamente superado somente quando vem a público a produção lobatiana.

Tendo em vista a falta que fazia às crianças uma literatura especializada e de qualidade, Lobato manifesta um primeiro interesse por tal caminho já em 1916 em carta enviada ao amigo Godofredo Rangel:

 

Ando com várias idéias. Uma: vestir à nacional as velhas fábulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo nas moralidades. Coisa para crianças. Veio-me diante da atenção curiosa com que meus pequenos ouvem as fábulas que Purezinha lhes conta. Guardam-nas de memória e vão recontá-las aos amigos - sem, entretanto, prestarem nenhuma atenção à moralidade, como é natural. (LOBATO, 1956, 104)

 

Com isso, após plantada a semente o crescimento da mesma foi inevitável. Como uma primeira tentativa procurou adaptar umas fábulas de João Kopke, enviando-as para apreciação a Rangel em 13 de abril de 1919.

Mesmo esta idéia não tendo tanta repercussão a semente da literatura infantil prossegue dando frutos e Lobato, desejando fazer livros onde as crianças pudessem morar, cria o mundo mágico do Sítio do Picapau Amarelo. Tudo começou em 1920 com o livrinho A menina do Narizinho arrebitado - "segundo livro de leitura para uso das escolas primárias" - que foi avidamente lido pelas crianças. E a partir de O Saci (1921), que ressalta elementos da cultura brasileira; de Fábulas (1922), a revolução das "verdades absolutas" e de Reinações de Narizinho o mundo encantado do Sítio do Picapau Amarelo e seus personagens invadem o imaginário infantil com demais frutos. A saga infantil iniciada em 1920 chega a mais de trinta histórias entre adaptações e produções originais.

Pode-se destacar como exemplo nítido da postura inovadora de Monteiro Lobato a obra Fábulas , pois mesmo sendo uma adaptação deixa de o ser, simplesmente, a partir do momento em que encontra-se nela o pensamento do autor acerca de seu contexto infantil, que se desenvolverá por toda a sua obra. Assim, segundo Ana Mariza R. Filipouski em Atualidade de Monteiro Lobato (1983) o autor assume o compromisso de apontar erros às crianças, para torná-los possíveis de serem corrigidos; em decorrência, compromete-se, também, com uma moral de situação por ele instaurada, a qual altera a visão tradicional de valores como a liberdade e a verdade.

A literatura brasileira destinada à criança, desde então, rompe com a dependência européia responsável pela difusão de uma visão conservadora de seus receptores, preocupada em veicular noções didáticas e pedagógicas: religião, moral, educação ou civismo.

Trabalhando com verdades camufladas, a fábula tem o propósito de destilá-las pela boca de animais, pois da boca de uma raposa ou cordeiro o homem não se nega a ouvi-las e sem julgar que as morais se direcionem a ele as encara com naturalidade. A partir disso, Lobato reestrutura toda a forma clássica das fábulas dando-lhes brasilidade e simplicidade, ao perceber que seus filhos as ouviam com extrema curiosidade, mas sem, entretanto, prestarem atenção às moralidades, pois estas não lhes diziam nada, estavam ultrapassadas.

Lobato, como um homem que viveu as transformações de seu país e representou o seu tempo, sempre buscando o nacional , o progresso político e econômico, deixou brotar em seu fazer literário a necessidade interior vinculada a sua época, escolheu certos temas e assumiu determinadas posturas como a adaptação das fábulas de forma contestadora e simplificada, para promover uma leitura desvinculada do tradicional preocupada com o progresso ideológico e criativo da criança.

No que concerne às fábulas adaptadas por ele o leitor participa ativamente das inovações e vive o ideal do autor, como também o seu projeto nacional por meio das personagens do Sítio do Picapau Amarelo e de suas reações e posturas diante de cada fábula apresentada. Mesmo, em sua maioria, conservando a seqüência original das fábulas clássicas Lobato optou por transportar tais textos para o mundo mágico do Sítio, provocando inquietações na recepção do leitor, pois este passa a se identificar com os comentários das personagens e por fim se posiciona criticamente frente a tais relatos. Portanto, a partir das questões suscitadas pelas fábulas o leitor passa do mundo encantado do Picapau Amarelo para o mundo real que o rodeia, sabendo compreendê-lo um pouco mais, até mesmo modificá-lo. Como o leitor não é mais um sujeito passivo perante a leitura, também não o será em relação à realidade.

O ideal pedagogizante tradicional é destruído e Lobato por não ignorar que a criança mais cedo ou mais tarde deverá enfrentar o mundo desmistifica a moral imposta, procurando orientar as crianças para que estas percebam e cheguem ao universo não mais do Sítio do Picapau Amarelo e sim da inteligência, da participação e da criticidade.

Monteiro Lobato, em Fábulas , apresenta mais de 70 narrativas conduzidas pela voz de D. Benta, pois é ela quem as conhece e as reconta para seus interlocutores, sendo estes, diretamente, as personagens do Sítio - Emília, Narizinho, Pedrinho, Visconde de Sabugosa, Tia Nastácia - e, indiretamente, os leitores. D. Benta ao contar para as personagens, conta para o público, ao refletir com as personagens, reflete com o público. Desta forma, a obra em questão possui uma estrutura metafórica, na qual D. Benta está para Monteiro Lobato, as personagens estão para o público e o Sítio está para a realidade ideal.

Fábulas é a obra que primeiramente demonstra o ambiente livre do Sítio onde o que prevalece é a força do diálogo. A atenção do leitor após a leitura de cada fábula se concentra na discussão posterior entre as personagens, ansioso pelo desfecho verifica nos embates uma atmosfera positiva que sempre permite concordar ou discordar das lições de moral apresentadas:

 

- Não concordo, vovó! Disse Pedrinho. Se toda gente ficasse fazendo romaria em casa, a vida perderia a graça. Eu gosto de aventuras, sem que volte de perna quebrada.

- Eu também - berrou Emília, e hei de escrever uma fábula ao contrário dessa. (Fábulas, p. 36)

 

As discussões apresentadas após cada fábula permitem a constatação de que há uma leitura compreensível, se é compreensível é significativa e se é significativa é enriquecedora, pois transmite uma idéia. O diálogo é o segredo e permite que a criança reconheça sua capacidade de discernimento e compreensão frente ao livre-arbítrio, valorizando-se como indivíduo crítico e capaz. Fugindo a toda moral convencional, revolucionando as verdades absolutas, reformulando as fábulas clássicas, e até mesmo criando novas, Lobato causou muita polêmica e inaugurou o caminho ideológico que permeou sua obra.

Conceitos como verdade, liberdade, independência, solidariedade e sabedoria são discutidos e interiorizados pelas crianças sem a preocupação de pontificar moralismo, comportamentos ou padrões. A alegria, a espontaneidade e a afinidade com a realidade caracterizam Fábulas como uma obra que se projeta para além de seu tempo, pois os conceitos nela contidos são universais e sempre bem vindos à formação de jovens leitores. Além disso, tal livro pode também caracterizar-se como um portal que prepara os leitores para adentrar o túnel crítico e ideológico que se firmará nas demais obras de Monteiro Lobato, que por toda a sua extensão exigem leitores astutos e participativos.

Tendo em vista a importância das Fábulas , que vai além do contexto bibliográfico do autor, mostrando-se evidente por suas formas em relação ao gênero, como também em relação ao contexto de sua produção, vale retomar o percurso de tal obra por meio das diferentes edições, isso porque as edições apresentam diferenças no título e na estrutura. Para realizar o cotejo foram consultadas as seguintes edições:

•  Fábulas de Narizinho . 1 a . edição. São Paulo: Monteiro Lobato e Cia - Editores, 1921.

•  Fábulas . 2 a . edição. São Paulo: Monteiro Lobato e Cia - Editores, 1924. 184 p.

•  Fábulas . 11 a . edição. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1945. 157 p.

•  Fábulas, Histórias diversas, Histórias de Tia Nastácia e Peter Pan. 13 a .edição. São Paulo: Brasiliense. s/d. v.03 197 p. (Fábulas até página 55) - Obras Completas

•  Fábulas e História diversas. 1 a . edição. São Paulo: Brasiliense, 1947 v.15 300 p. (Fábulas até páginas 188)

•  Fábulas . 17 a . edição. São Paulo: Brasiliense, 1958. 195p.

•  Fábulas . 20 a . edição. São Paulo: Brasiliense, 1964.

•  Fábulas . 50 a . edição. São Paulo: Brasiliense, 1994. 59 p.

 

O primeiro projeto de Monteiro Lobato de recriação das fábulas clássicas se efetivou em 1921, cinco anos depois de sua primeira idéia, sendo batizado de Fábulas de Narizinho e editado pela Monteiro Lobato e Cia Editores em São Paulo. Tal livro compõe-se de 28 fábulas que são introduzidas por uma nota explicativa que ressalta a importância das fábulas.

No ano seguinte, em 1922, Lobato lança Fábulas , sendo esta obra uma ampliação da anterior, reunindo e contando outras pequenas fábulas de La Fontaine e Esopo. Esta também publicada pela Monteiro Lobato e Cia Editores agora com 174 páginas. Passou por 11 edições até obras completas, por tal obra não estar disponível para consulta, utilizou-se a 2 a . edição.

Neste ponto já ressaltam-se algumas diferenças importantes, sendo a primeira delas a alteração do título da obra de Fábulas de Narizinhos para Fábulas . Em Fábulas de Narizinho há uma nota introdutória que deixa de compor Fábulas , e esta sendo aprovada pela Diretoria da Instrução Pública dos Estados de São Paulo, Paraná e Ceará, reafirma a intenção destacada na nota introdutória de Fábulas de Narizinhos : "moral como sabedoria". Assim, nota-se, neste momento, uma postura vinculada ainda à postura utilitária européia, ou seja, como afirma Perrotti este seria o discurso reduzido à utilidade, o discurso preocupado com a moral e com o ensinamento. Tal fato é próprio da fábula desde o seu surgimento, principalmente no século XVIII quando tal gênero parece reservado à infância. Mas se o utilitarismo é próprio do gênero, não pode-se dizer que seja próprio de Monteiro Lobato.

Ainda segundo Edmir Perrotti (1986) em Lobato o artista não sucumbe ao educador, isso porque o seu discurso é polifônico, permeado por várias consciências e diferentes modos de percepção da realidade. Desmistifica-se a "certeza absoluta", a "voz que sabe", reforçando-se o caráter de julgamento pessoal dos ensinamentos transmitidos. Tais dados começam a aparecer ainda nestas duas primeiras edições, pois além do título ser alterado as fábulas passam de 28 para 77, sendo estas resultantes de novas adaptações e de criação própria de Lobato como "Os dois viajantes na macacolândia". Além disso, a fábula "A cigarra e a formiga" passa da versão original em Fábulas de Narizinho para a versão "A cigarra e as duas formigas" em Fábulas (2 a . edição), apresentando a formiga boa e a formiga má, fato que já demonstra a preocupação com a relativização do maniqueísmo, mas ainda não alcança a desmistificação.

Somente entre a 3 a . e 10 a . edições, o que compreende os anos de 1924 a 1945, Monteiro Lobato alcançará êxito em seu projeto, não é possível precisar a edição exata em que tal processo se deu por haver uma lacuna entre estas edições, o que impossibilitou a pesquisa de dados pontuais. É exatamente entre estas edições que o autor lança mão do recurso da polifonia e inova o gênero fábula, desvinculando-o do possível utilitarismo por meio das vozes de seus personagens do Sítio do Picapau Amarelo, até então ausentes no discurso fabular. Esse recurso mostra a preocupação de Lobato com o desenvolvimento do espírito crítico do leitor por meio da construção de uma narrativa aberta, que se distancia do utilitarismo mesmo tendo como objetivo a formação do leitor. Neste sentido vale citar Perrotti: "assim, se educar está nos planos de Lobato, nem por isso seu trabalho reduz-se ao ensinamento 'útil'." (p.63-64, 1986)

A 11 a . edição, obra ilustrada por Wiese, comparada a 2 a . edição, não ilustrada, se difere bastante pois apresenta a inclusão de comentários das personagens, semelhante aos das edições atuais, dado importante para o crescimento estético da obra e, além disso, não apresenta as fábulas "As abelhas e os zangões", "O olho do dono", "Os demandistas" e "O burro, o cachorro e a onça", como também modifica os nomes de algumas fábulas.

A 11 a . edição comparada a 13 a . edição, ilustrada por Manoel Victor Filho, apresenta uma pequena alteração, pois nesta aparece novamente a fábula "O olho do dono", as demais permanecem iguais, obedecendo a mesma ordem no índice. Já comparadas a 1 a . edição de Fábulas e Histórias diversas (obras completas), ilustrada por Le Blanc, mostram-se diferentes, isso porque esta edição não apresenta, como nas anteriores (11 a . e 13 a .), as últimas fábulas "A pele de urso" e "Liga das nações", assim a última fábula "As duas panelas" finaliza esta 1 a . edição e por isso apresenta um final diferente em relação a 13 a e 20 a . edições.

As demais edições selecionadas, 17 a ., 20 a . e 50 a ., se equivalem, apresentando as mesmas fábulas. Comparando-as à 1 a . edição de Fábulas e Histórias diversas se diferenciam por retomarem as fábulas "A pele de urso" e "Liga das nações", e equiparam-se à 13 a . edição de Fábulas .

Desta forma, feito o percurso, de acordo com as edições disponíveis, foi possível verificar o quão indispensável é este trabalho, pois por meio deste levantamento tornaram-se mais claros os caminhos de Lobato na construção e efetivação de seu primeiro projeto para a Literatura Infantil que se fazia necessária no Brasil. Mesmo apresentando no início um discurso aparentemente pedagogizante, Lobato, em seu processo de criação, caminho refeito por este cotejo, desvela nas diversas modificações a sua insatisfação procurando a cada nova tentativa sucumbi-la. Incansável e persistente, procura cada vez mais aperfeiçoar sua obra, tal fato pode ser constatado não só nas modificações arroladas acima, como também em suas correspondências enviadas a Godofredo Rangel em 13/04/1919, na qual Lobato pede ao seu amigo uma análise crítica de seus primeiros passos, como também na enviada em 01/02/1943, na qual Lobato fala sobre a revisão de seus livros para publicá-los na Argentina.

Além de Rangel, com quem Lobato mais trocou cartas ressaltando o seu desejo de penetrar os campos da Literatura Infantil por meio das fábulas, há outro referente para a troca de idéias e sugestões para este projeto: José Oiticica. Em 03/09/1923, Oiticica envia uma carta a Lobato para dizer que havia terminado um livro de fábulas e mais adiante, em 31/10/1923, envia o livro a Lobato e informa contar com adaptações de fábulas de La Fontaine - "ótimas para escolas" - sugerindo a Lobato que faça com elas o que aprouver e finaliza dizendo que nova amostra irá depois. Tal carta encontra-se no acervo do Cedae - Unicamp.

De fato as idéias proliferaram e Fábulas de Lobato, com o auxílio de colegas e releituras, passaram por diversas transformações até alcançarem o ponto final, o ponto ideal, o trabalho estético. Assim, desvinculando a estrutura fabular do útil, Monteiro Lobato faz nascer um gênero próprio: " Fábulas de Monteiro Lobato ".

 

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________________ . Fábulas de Narizinho . 1 a . edição. São Paulo: Monteiro Lobato e Cia - Editores, 1921.

­­­­­­­­­­LOBATO, Monteiro. Fábulas . 2 a . edição. São Paulo: Monteiro Lobato e Cia - Editores, 1924. 184 p.

________________ . Fábulas . 11 a . edição. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1945. 157 p.

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________________. Fábulas e História diversas . 1 a . edição. São Paulo: Brasiliense, 1947 v.15 300 p. (Fábulas até páginas 188)

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