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Crise à vista: uma leitura sociológica do romance O Presidente Negro, de Monteiro Lobato
Enio Passiani (USP)

A intenção deste trabalho é discutir a derrocada de Monteiro Lobato no interior do campo literário paulista - e mesmo nacional - ,e a conseqüente perda da posição hegemônica que ocupou entre meados dos anos 10 do século XX e 1926, a partir da análise sociológica de seu único romance, O presidente negro. Publicado em 1926 1, e já há algum tempo afastado da atividade propriamente literária 2, esse livro tem sido pouco tratado pelos críticos e estudiosos de Lobato, provavelmente porque se trata de um livro que denuncia e anuncia justamente o naufrágio do autor no seio do campo literário. No entanto, veremos que o desdobramento da precária condição em que Lobato se encontra no mundo literário o levou a outras paragens, onde conseguiu recobrar todo o prestígio que fora perdido.

O primeiro ponto que chama atenção é a escolha do tema: uma ficção científica cujo foco de atenção se concentra sobre os Estados Unidos no ano de 2228. O próprio autor justifica a Rangel a escolha do tema: "Sabe o que ando gestando? Uma idéia-mãe! Um romance americano, isto é, editável nos Estados Unidos. Já comecei e caminha depressa. Meio à Wells, com visão do futuro" 3. À primeira vista o argumento parece bom: gestar o tal "romance americano", ou seja, um romance ambientado na terra do Tio Sam, com temática que interesse ao público norte-americano, pois o interesse maior do escritor é publicá-lo na América do Norte. No entanto, é preciso indagar por que Lobato, afinal de contas, resolveu concentrar todos seus esforços e mobilizar sua "pulsão expressiva" para escrever e editar um romance nos Estados Unidos e não no Brasil. Por que Lobato não se voltou para os problemas e questões nacionais que ainda preocupavam nossa intelligentsia , como já fizera anteriormente, mas se voltou para um outro público e outro assunto? Publicar noutro país, tornar-se universal, não implica necessariamente em abandonar temas locais.

Este caso é possível compreender sob uma chave sociológica. Do período que se estende de 1870 até a chamada segunda geração modernista - que toma conta do decênio de 30 - há uma profícua produção de projetos para o Brasil e de reflexões sobre o país, porque existia, indubitavelmente, uma demanda do nosso campo intelectual por esse tipo de trabalho. Em 1926, portanto, ainda havia essa mesma demanda por certos temas e por experimentações estéticas, só que Lobato, naquele momento, encontrava-se incapaz de respondê-la, ao passo que os modernistas, entronizados na posição dominante no interior do campo literário, atendiam de modo mais do que adequado às exigências que a comunidade intelectual e artística lhes impunha. Enquanto os modernistas respondiam a contento às necessidades engendradas no campo, percebemos o engessamento criativo de Lobato presente nas páginas de O presidente negro - o que ajuda a explicar, em parte, ao final de acirrada disputa a vitória modernista e a queda daqueles literatos, entre eles Lobato, que a partir de um determinado momento da história da formação do campo literário nacional não mais correspondiam às expectativas nele geradas.

Essa "verdadeira curiosidade literária", essa "brincadeira de talento", de acordo com amenizadora Nota dos editores que apresenta a edição da Brasiliense, abre mão da reflexão sobre o Brasil, marca registrada do texto lobatiano - mesmo aqueles que não podem ser considerados propriamente literários - e se recusa a falar do presente, jogando para um futuro longínquo uma questão que poderia muito ter sido tratada no contexto brasileiro da época, a saber, as conflituosas relações raciais entre brancos e negros.

Resumidamente, o livro trata da possibilidade de se perscrutar o futuro a partir da invenção do Prof. Benson, cientista brasileiro apesar do nome inglês, o "porviroscópio". Com a morte do professor, sua filha, Miss Jane (igualmente brasileira ainda que o nome sugira o contrário), oferece ao amigo e ajudante do professor, Ayrton Lobo, a chance de conhecer o futuro. Mais do que isso, Miss Jane propõe a Ayrton que ele escreva uma novela a respeito do choque das raças que ocorrerá nos Estados Unidos da América no ano de 2228. A máquina do tempo conduz, então, leitores e personagens a um futuro no qual o líder afro-americano Jim Roy vence seu adversário, Kerlog, representante da raça branca, no pleito eleitoral. Todavia, este último, em nome da "harmonia dos partidos brancos", a serviço da "união da raça branca" e por "razões de raça" resolve utilizar todos os meios possíveis para proteger o "sangue ariano", mas sem provocar a desestabilização do regime político e desde que evitasse o combate sangrento entre as raças. A solução é dada por um de seus cientistas: a esterilização dos negros por meio dos raios ômega, que se apresentava como um inofensivo método para alisar os cabelos da população negra nos recém criados "postos desencarapinhantes", que contou, é claro, com a imensa aceitação dos negros. Toda a população afro-americana estava condenada ao desaparecimento sem o saber, exceção feita a Jim Roy - que também alisou o cabelo -, comunicado pelo ainda presidente Kerlog. Diante de tal tragédia o líder negro comete suicídio e são convocadas novas eleições, cujo resultado final aponta a reeleição de Kerlog. Após sua vitória o tenebroso segredo de estado é revelado para toda a população americana, negros e brancos e, em seguida, é aprovada a "moção Leland", segundo a qual o pigmento negro passava a ser incluído "entre as taras que implicam esterilização" 4.

Junto à ficção científica - a viagem através do tempo - corre paralelamente uma história de amor, sentimento este cultivado por Ayrton desde quase o início do romance mas não correspondido, pelo menos não explicitamente correspondido, por Miss Jane. Ao final, para ser mais exato na última página, o amor entre ambos se realiza com "o beijo de Barrymore", um beijo cinematográfico.

A despeito de algumas curiosidades que a obra de fato apresenta, como por exemplo o "rádio-transporte", uma verdadeira revolução da comunicação segundo o narrador, que tornava possível transportar palavras, sons e imagens por meio de ondas eletromagnéticas - e que nos faz lembrar de imediato das novas tecnologias de comunicação contemporâneas como a internet -, e da presença de algumas características clássicas do texto lobatiano, como a crítica à frase empolada e o elogio à simplicidade literária, a defesa da criação e uso de neologismos, crítica à inépcia do governo e ao parasitismo etc. - que, no entanto, aparecem apagadas diante do conjunto da obra -, a escolha do tema e a abordagem dispensada ao assunto, principalmente esta última, parecem não coadunar com as exigências do campo intelectual e artístico do final dos anos 20. Não que o debate sobre as relações raciais no Brasil fosse de menor importância; ao contrário, ocupava um lugar destacado em meio às querelas que envolviam a intelligentsia brasileira durante os anos 10, 20 e 30 do século XX (e mesmo posterior e anteriormente). Contudo, vale lembrar, Lobato projeta a questão racial para além das fronteiras nacionais, evitando tratar do assunto no contexto nativo. Mesmo a solução literária proposta por Monteiro Lobato no desfecho do texto não corresponde às discussões que formavam o clima intelectual daquele momento 5, dividido entre aqueles que desde o final do século XIX e início do seguinte já propunham uma abordagem anti-escravista e anti-racista, como Joaquim Nabuco, Alberto Torres, Manoel Bomfim e o ensaísta pernambucano José Maria Belo, até desembocar nas perspectivas culturalistas ensaiadas antes dos 20 por Roquete Pinto e desenvolvidas no decênio de 30 por Gilberto Freyre; e, de outro lado, os defensores da tese do branqueamento por meio da miscigenação, entre os quais se destacam Sílvio Romero, Afrânio Peixoto e Oliveira Vianna.

 

Reparem que a saída proposta por Lobato ao final do romance não contempla, obviamente, o discurso anti-racista e até integrador das raças e nem tampouco a tese do branqueamento, que em nenhum momento propunha a expulsão dos negros do país (hipótese aventada pelo líder branco Kerlog ao longo de O presidente negro ) ou seu extermínio via esterilização - ao contrário, a tese do branqueamento pressupunha a miscigenação do elemento negro ao elemento branco, a qual levaria, inevitavelmente, ao fim do primeiro devido ao fato de o "gene branco" ser "mais forte". Poder-se-ia argumentar que Lobato, interessado em atingir o mercado norte-americano, tenha desconsiderado o debate nacional e tecido um enredo cujo fecho estivesse mais de acordo com tal mercado.

O tratamento estético oferecido por Monteiro Lobato também não atendia às regras estéticas engendradas pelo campo. Em 26 o campo literário brasileiro respirava os cânones modernistas, a realização do projeto estético que, segundo João Luiz Lafetá, caracterizava a primeira fase do modernismo fincava com mais vigor suas raízes no solo literário nacional e passava a determinar os padrões artísticos. O livro de Lobato sofria um julgamento a partir de critérios elaborados por aqueles que outrora estiveram numa posição inferior em relação ao escritor vale-paraíbano e mostrava-se em termos estilísticos aquém dos seus primeiros textos literários, quando seus contos respondiam às necessidades e exigências formais do campo ao qual pertencia. Mudados os agentes responsáveis pelas regras da arte mudava-se também o tipo de demanda a qual os escritores deviam satisfazer. Lobato não conseguiu dar conta dessa nova demanda, o que contribuiu ainda mais para a diminuição de seu capital simbólico e, conseqüentemente, a perda de espaço social no campo literário.

Em relação à organização formal da obra, o primeiro fato que salta aos olhos é a mudança de gênero empreendida pelo autor. Lobato abandona o conto, do qual tinha se transformado num mestre 6, e resolve abraçar o romance. A passagem da narrativa curta e concisa para uma mais longa implicou certo prejuízo para o autor. Na primeira, Lobato possuía domínio da técnica literária, do ritmo do texto, da colocação precisa de palavras e expressões, do próprio desenvolvimento da narrativa até a chegada do clímax da história. Tal domínio abria espaço para sua experimentação estética, para a radicalização da linguagem literária, não só pela mobilização dos recursos que a própria linguagem literária oferece mas também pela incorporação de outras linguagens à literatura, como a cinematográfica por exemplo. Se no conto Lobato apresenta várias inovações, na narrativa longa o escritor não encontra lugar para vôos estilísticos mais radicais: quase não ocorre a invenção dos neologismos tão ao sabor lobatiano e o uso de metáforas que transformavam palavras em imagens autênticas, inexistem as onomatopéias que Lobato utilizava para conferir certa musicalidade e até mesmo verossimilhança ao texto; o autor abusa das expressões estrangeiras, e desta vez sem a costumeira ironia que servia para valorizar a língua nativa em detrimento de todas as outras; os desenvolvimentos e desfechos inesperados cedem lugar à obviedade, ao previsível, o texto não possui a mesma cadência visível em boa parte do conto lobatiano - ainda que o escritor continue utilizando o recurso do diálogo constante para conferir um certo ritmo à sua prosa, a técnica não se mostra suficiente para alcançar tal efeito-, sem falar do desenlace piegas pintado com cores exageradamente sentimentais.

Mais uma vez é possível afirmar que Lobato resolveu deixar de lado tais recursos formais porque tinha como grande objetivo conquistar o público norte-americano, daí a impossibilidade da sua utilização, uma vez que a tradução para o inglês seria, provavelmente, prejudicada ou mesmo, em alguns casos, impossível. Contudo, volto a afirmar: optar exclusivamente por um outro público leitor - e por isso a adaptação de forma e conteúdo para os virtuais novos ledores - demonstra o quanto Lobato encontrava-se marginalizado no campo literário brasileiro. E tal marginalização se reflete na fatura da obra.

Decidido a concretizar seu projeto, Lobato envia os originais de seu romance, já vertidos para o inglês, para a agência literária Palmer, com sede em Hollywood, no final de 1927. Mas a resposta do editor-chefe, William David Ball, acaba por sepultar os planos do escritor:

"(...) o enredo central é baseado em um assunto particularmente difícil de se abordar neste país, porque ele irá, certamente, acender o tipo mais amargo de sectarismo e, por esta razão, os editores são invariavelmente avessos à idéia de apresentá-lo ao público leitor(...)".

 

E prossegue o editor americano:

"Estivesse o senhor lidando com a invasão de uma nação estrangeira, ou raça, a reação seria bem diferente; mas o negro é um cidadão americano, uma parte integrante da vida nacional, e sugerir seu extermínio por meio da sabedoria e da capacidade superior da raça branca levaria a uma dissensão tão violenta no espírito dos leitores quanto faria um conflito entre dois partidos políticos, ou duas religiões, em que um extirparia o outro" 7 .

 

O romance não encontra publicação onde Lobato inicialmente planejara, os EUA, representa um fiasco no mercado editorial interno e é mal recebido pela crítica nacional. Ora, não é difícil perceber as razões responsáveis por tal malogro. A busca pelo leitor, a sua conquista, é legítima e necessária; e Monteiro Lobato tentou alcançar um novo público 8. Até aí não há nenhum problema, pois todo artista, de uma forma ou de outra, pretende tornar-se universal. A estratégia do escritor, no entanto, mostrou-se sem efeito: Lobato pretendia atingir esse outro leitor abandonando justamente aquilo que sua arte tinha de local, isto é, deixar de lado os traços que tornavam sua literatura genuinamente nacional, uma literatura formada de acordo com as exigências, princípios e regras específicas do campo do qual fazia parte, do campo no qual foi gestada. O autor escolheu um tema e a composição literária que julgava, equivocadamente, apropriadas para sua empreitada; e equivocadamente porque Lobato era um elemento alienígena no campo literário norte-americano, portanto, não conhecia suas normas e critérios, não os tinha incorporado sob a ação de um habitus muito particular. Logo, o tema e a composição não respondiam, em nenhuma medida, às necessidades daquele campo do qual pretendia participar 9. E o motivo do fracasso de seu romance no Brasil não é muito diferente. Como disse acima, Lobato quis se desvencilhar do colorido nacional de sua obra e ao fazer isso passou a não atender também aos requisitos do campo literário brasileiro, escrevendo, pois, uma obra igualmente estranha ao "gosto" - formado a partir dos critérios sociais de produção e recepção da obra, características peculiares de cada campo - local. Sua aventura literária foi uma tentativa frustrada de recuperar fama e prestígio alhures, já que sua condição no ambiente literário nacional da época era precária. Basta apenas lembrar que Lobato já dava mostras da perda de seu fôlego literário até mesmo antes de seu romance, demonstrada na derrota por uma das imortais cadeiras da Academia Brasileira de Letras para o obscuro Adelmar Tavares. Parece, pois, que O presidente negro é o ponto final da curva descendente percorrida por Monteiro Lobato em 1925 e 1926.

 

 

O texto aqui utilizado para análise é de 1979, publicado pela Editora Brasiliense e corresponde à 13 a edição do livro.

O último livro de contos publicado por Lobato foi O macaco que se fez homem , de 1923; e em 1924 o escritor publicara o seu Jeca Tatuzinho . Depois deles vem à tona o romance lobatiano O presidente negro.

LOBATO, Monteiro. A barca de Gleyre . São Paulo: Brasiliense, 1951, vol. 2. p. 293.

Todas as expressões utilizadas entre aspas nesta página correspondem àquelas utilizadas pelo próprio Lobato,e cuja referência completa, com a indicação das páginas respectivas, é a seguinte: LOBATO, Monteiro. O Presidente Negro . 13 a ed. São Paulo: Brasiliense, 1979. pp. 145, 155, 163, 181, 182, 183, 206.

Um livro que faz um bom e útil balanço histórico da questão racial no Brasil, principalmente no que tange ao debate intelectual em torno do tema, é SKIDMORE , Thomas E. Preto no branco. Raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. 2 a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

Para dar força a tal afirmação - a de que Lobato era um mestre do conto - lembro que num períodico chamado Revista Acadêmica , do ano de 1938, Mário de Andrade foi convidado a elaborar uma lista com os dez contos que ele julgava ser os maiores da literatura brasileira. Mário de Andrade, então, ofereceu uma dúzia de contos e entre eles figurava "Chóóó! Pan!", de Monteiro Lobato - depois rebatizado como "A vingança da peroba". Este conto faz parte do livro Urupês .

LOBATO, Monteiro apud AZEVEDO, Carmen Lucia; CAMARGOS, Márcia; SACCHETTA, Vladimir. Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia. São Paulo: Senac, 1997. p.312.

A fim de sublinhar a quem o "romance americano" era dirigido, escreve o autor no jornal A Manhã , edição de cinco de setembro de 1926: "Cumpre, todavia, não perder-se de vista que O choque foi escrito especialmente para o público americano, e pois havemos de julgá-lo não do nosso ponto de vista, mas do ponto de vista do grande povo da Norte América." O próprio Lobato nos oferece as pistas para entender os motivos que levaram ao fracasso d' O presidente negro , tanto aqui, no Brasil, como lá, nos Estados Unidos.

O próprio Lobato afirmaria mais tarde: "(...) para a América não serve, sou hoje o primeiro a convir. Necessita de uma séria remodelação que nunca me animo a fazer por falta de entusiasmo" ( LOBATO, Monteiro apud AZEVEDO , CAMARGOS & SACCHETTA , O p. cit. p. 222).