![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
Benjamim Costallat e a ruptura modernista revisitada
Andréa Portolomeos (UFF)
Este pequeno texto pretende pôr em relevo uma das questões que desenvolvo na minha tese de doutorado, isto é, pretende reavaliar o caráter de ruptura da Semana de Arte Moderna, tendo em vista a produção de escritores que não participaram do evento paulista e que, no período dos anos 10 e 20, optaram por trabalhar para um público mais amplo, utilizando novos suportes, como o jornal, e novas tecnologias da comunicação, como a propaganda.
Esse diferente campo de atuação artística, iniciado já no século XIX com José de Alencar cronista, intensifica-se posteriormente e parece-nos de fundamental importância para a cultura brasileira na medida em que tenta ultrapassar nosso escasso contingente de leitores, insuficiente para deslanchar um processo de autonomização do literário entre nós. Muitos escritores do início do século optaram por um veículo literário alternativo ao livro e mais popular. Objetivavam, assim, conciliar sua escrita à formação de uma comunidade leitora que pudesse ativar um circuito profícuo de produção e consumo de textos no Brasil.
Silviano Santiago, em seu texto "Vale quanto pesa", vai nos mostrar que a recepção, via livro, do texto literário sempre se limitou a uma restrita camada social culta. Analisando parte das obras modernistas, o crítico argumenta que o leitor de livros de ficção está associado a um cosmopolitismo cultural burguês que, em última instância, é determinante na própria produção da obra. Diante dessa constatação, Silviano demonstra o ressentimento da produção literária modernista alicerçada na dubiedade entre suas propostas subversivas e suas práticas conservadoras.
Ainda segundo o crítico, esse círculo vicioso da produção modernista só pode se romper no momento em que surgir um leitor diferente o qual requisite do escritor posturas diferentes. A grande questão é como alçar o indivíduo médio à condição de leitor ou de romancista. Nesse sentido é que, ao lado de uma proposta educacional, outras vias devem ser pensadas. Vem daí a importância de projetos que privilegiem um suporte mais acessível e popular, como o jornal, para formação e ampliação de um público leitor que possa ir além de seu perfil burguês culto.
É claro que esse projeto não é simples, pois envolve outra questão complexa: o mercado massificador que achata as individualidades. Entretanto, antes do mercado, havia entre nós outro elemento regulador da produção literária nacional: o Estado. Sabe-se que D. Pedro II tentou resolver o impasse da nossa literatura romântica sem leitores, assumindo, pelo menos em nível econômico, a função do público. Ou seja, ele acolhia a atividade artística no século XIX, incentivando-a financeiramente. Segundo Antonio Candido, em Literatura e Sociedade , essa atitude paternal do governo criou um problema no que diz respeito à autonomização do literário. Isto é, o favor imperial exigia de seus autores funcionários e pensionados uma padronização de comportamento que, segundo o crítico, levou à produção de uma literatura de fundo conformista.
Dentro desse quadro nada simples, que se estende ao século XX, surgem escritores, como Benjamim Costallat, que optaram pela prática da literatura no jornal. Costallat foi um cronista carioca muito popular que escreveu para a Gazeta de Notícias e para o Jornal do Brasil , nos anos 10 e 20. Investiu largamente nesse gênero que, segundo ele, melhor se ajustava ao semovente da sociedade carioca marcada pela modernização. Todavia, muitos dos autores que elegeram a folha diária como suporte ou foram banidos da história da literatura brasileira - como é o caso do próprio Benjamim Costallat, de Théo Filho e de Álvaro Moreyra entre outros - ou ficaram restritos à classificação de pré-modernos e foram situados a reboque da nossa modernidade estética (lembro-me de Lima Barreto e de João do Rio). É justamente essa desclassificação ou rígida classificação canônica que questionamos.
Nesse sentido, gostaríamos de analisar algumas questões que permeiam a produção jornalística de Benjamim Costallat. Suas crônicas abrem espaço para uma narrativa inovadora, em sintonia com a modernização do Rio de Janeiro, que objetivava imprimir hábitos de leitura numa sociedade que vivia a popularização da tecnologia e que, por isso, estava comprometida com a visualidade e com a velocidade.
Costallat escrevia para um público médio burguês que ainda não tinha hábito de leitura, porém seus textos conseguiam ultrapassar esse limite pelo fato de contar com um suporte mais popular cuja leitura, muitas vezes, era feita em voz alta e comentada entre amigos. Suas crônicas eram preparadas para que o leitor, ao se deparar com a página impressa, encontrasse ali elementos de sua realidade que tornassem a recepção mais fácil e atraente. Os burgueses, por exemplo, reconheciam-se nos ambientes, nos trajes e nos comportamentos que perpassavam os textos. Podemos ler em "A Mulher Fatal" o perfil da mulher burguesa dos anos 20:
A mulher fatal hoje usa tailleur , um simple e sobrio tailleur desenhando-lhe o corpo; é pequenina, quase imperceptível no meio da multidão, não faz nenhuma pose de vampiro, nem tem olhos que nunca mais se acabam (.) A mulher fatal de hoje tem apenas um palminho de cara interassante (.) A cada passo encontramo-la. Pela Avenida, nas casas de chá, nos dancings , em toda parte. (.) Andam a passos curtos, rapidamente. Fazem compras, tomam chá e vão ao cinema, como todo mundo (Costallat, 1924,p.62).
Além dessa identificação em relação ao que é factual, os leitores reconheciam-se no andamento da própria narrativa que dramatizava o ritmo frenético em que viviam. Dessa forma, o cronista seguia as trilhas abertas por João do Rio, o qual havia investido numa reforma do nosso jornalismo sisudo, tornando os textos mais ágeis. Mas a escrita de Costallat mostra-se mais sintética, como se revelasse uma maior intimidade com os aparalhos técnicos que iam se popularizando. O jornalista Paulo Silveira observava em O Paiz , no início dos anos 20: "Nada de circunlóquios românticos, de paradas líricas. Benjamim Costallat escreve de automóvel e por isso se aproxima muito de nós futuristas que escrevemos de aeroplano."
O cronista investia nas frases curtas e com poucos adjetivos. Colocava em prática verbos de ação, parágrafos curtos e estruturas coordenadas. Seu ritmo é aquele da linguagem telegráfica que será preconizado pelos nossos modernistas canônicos. Observava Costallat na crônica "Cocaína literária": "Nossas frases hoje valem pelos capítulos intermináveis dos nossos avós. E eles, avós e capítulos, eram realmente intermináveis! Tuso é síntese hoje na arte moderna. Tudo consiste em descobrir o traço dominante das coisas, dos ambientes, das paixões (Costallat,1923,p.155)."
Na introdução que faz para Cock- Tail , título de uma reunião de crônicas, o autor articula analogias entre a bebida cock-tail e seus textos, entre o barman e o cronista, enfatizando a importância do ritmo e da visualidade para sua escrita. Diz ele: "Uma mistura de cock-tail é a mistura de crônicas deste livro (Costallat,1923,p.11)". O barman , assim como o cronista, reúne uma série de elementos e "sacode tudo com ritmo". "No cálice chato e geladinho vem se depositar, então, um líquido de todas as tonalidades, conforme a mistura; ora cor de cereja, ora cor de maçã, ora claro, ora escuro, e bebe-se tudo aquilo mais pela cor do que por outra coisa (Costallat,1923,p.11).
A propaganda também é um ponto forte desse cronista que se torna o maior sucesso editorial do seu tempo, segundo dados de Beatriz Resende. Nesse sentido, Costallat segue os passos de Monteiro Lobato, o qual impulsionou sua produção infantil publicando um anúncio de página inteira do livro Narizinho . Nosso cronista não chegou a comprar uma página de jornal para anunciar seu produto, contudo encontrava meios de ter seus lançamentos anunciados pela imprensa do Rio, de São Paulo, do Nordeste e do exterior. Jornais de Buenos Aires, por exemplo, deram a notícia do lançamento de dois de seus livros: Cock-tail e Depois da meia noite . Sobre o lançamento de Mutt, Jeff e Cia , em 1921, encontramos uma grande variedade de textos publicados em vários jornais e revistas, como a Gazeta de Notícias , A Noite , O Imparcial , Fon-Fon , Para Todos , Careta , A Noite e Correio da Manhã.
Embora o sucesso de Benjamin Costallat tenha sido grande na época, chegando a dobrar o preço do Jornal do Brasil , sua obra nunca despertou maior interesse da crítica. Talvez porque a mediação técnica tão presente nos seus textos, e sua diferente concepção de cultura como processo de produção e consumo, exigissem novas formas de leitura do literário, o que implicaria pôr em questão a formação e a solidez do cânone modernista. Apesar dos caminhos trilhados nesse sentido, sobretudo a partir dos anos 80, com Silviano Santiago, Flora Sussekind, Marisa Lajolo e Regina Zilberman, ainda nos resta uma longa jornada crítica adentro.