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O relato híbrido do imigrante na obra de Milton Hatoum
Stefania Chiarelli (PUC/RJ)

No final da década de 50 o árabe Nacib Saad, de Gabriela, cravo e canela , foi apresentado ao leitor brasileiro pelas mãos de Jorge Amado. Dotado de características mais próximas do tipo, Nacib é descrito como um "brasileiro das Arábias", perfeitamente aclimatado ao solo pátrio, local em que chegou com apenas quatro anos de idade. Sírio naturalizado brasileiro, Nacib é espécie de marco da presença do imigrante árabe na série literária brasileira. Ainda que seja um dos personagens principais da trama, não se caracteriza por problematizar questões referentes ao universo da cultura oriental de modo específico, atuando mais como elemento pitoresco no desenho geral do romance.

É somente em 1975 que se dá o aparecimento na literatura brasileira de uma narrativa que tematiza o imigrante árabe de maneira central, com o surgimento de Lavoura Arcaica , de Raduan Nassar. Apesar de não se configurar em tema principal, Nassar ambienta a trama do romance em uma família de origem árabe, marcada pela obediência a um rígido patriarca, Iohaná, cujos preceitos revelam a força do legado da cultura oriental no funcionamento familiar. À diferença de um autor como Jorge Amado, Nassar pôde revelar determinadas facetas do imigrante árabe a partir de ótica interna, uma vez que descende de pais libaneses. De acordo com Leyla Perrone-Moisés,

 

Lavoura Arcaica é o primeiro grande livro sobre a imigração libanesa no Brasil. Longe dos estereótipos, das tipificações e do pitoresco, o que aí vemos é o difícil processo de transculturação, a transformação dos valores e os choques decorrentes em três gerações da mesma família. 1

 

Abordando temática semelhante à da prosa nassariana, Milton Hatoum lança seu primeiro romance, Relato de um certo oriente , em 1989. Famílias em conflito, desagregação do clã, embate entre visões de mundo antagônicas, diferença cultural, são todos elementos presentes em ambos os romances, que acabam por sondar de modo visceral determinadas questões centrais do universo de indivíduos marcados pelo transplante cultural.

Guardadas as devidas diferenças entre os autores, é possível constatar em Nassar e Hatoum o modo exuberante de narrar, o predomínio de uma linguagem quase barroca, que revela o gosto pelo ornamento da palavra. Não seria exagero perceber na dicção dos autores a marca quase visível do arabesco, da dicção voluptuosa, tributária sem dúvida do modo oriental de narrar. Quanto a Hatoum, afirmou certa vez que seu romance era narrado por uma "Sherazade do Amazonas".

A família de origem libanesa liderada por Emilie, o marido e quatro filhos está no centro de Relato de um certo Oriente . Proprietários da loja A Parisiense , vivem em função da atividade comercial. Agregadas a este grupo, duas crianças adotadas pela matriarca, sendo a filha aquela que vai narrar toda a história. Esse personagem retorna a Manaus para reencontrar-se com Emilie após muitos anos fora da cidade, mas se depara com sua morte recente. O romance, então, é uma espécie de carta que revela ao irmão na Europa a morte da matriarca. A narradora, cujo nome permanece oculto na narrativa, tenta recuperar sua história através de fitas, depoimentos, e reflete sobre a forma que daria a isso tudo quando retorna à casa de Emilie e encontra-a já morta. Para narrar a história familiar, convoca diversos pontos de vista diferentes, e dessa maneira vai incorporando diferentes falas - dela própria, do seu tio Hakim, do fotógrafo Dorner, de seu pai, da amiga Hindié Conceição.

Embora tematize personagens imigrantes em suas obras, Hatoum tampouco pode ser considerado um escritor da imigração por excelência. Seus romances ultrapassam de certa forma essa temática, pois também tratam da situação da pobreza e decadência da região norte do país, bem como do tema da herança indígena daquelas localidades. A busca da origem e de um tempo perdido na memória também se coloca de modo central em sua escrita.

Quanto aos imigrantes de que fala, vale notar que os personagens que povoam as páginas de Relato de um certo Oriente estão em processo de mistura com as gentes do Brasil e da própria Amazônia, o que resulta em um interessante caldeirão de referências mescladas, permitindo assim leituras diversificadas na caracterização do imigrante.

Semelhante realidade parece marcar o amazonense descendente de libaneses Milton Hatoum. Conforme afirmou em diversas entrevistas, o autor sempre viveu uma realidade híbrida, pertencendo a dois mundos e a uma situação intervalar, o que provocou seu trânsito entre duas linguagens culturais. Neste sentido, vale lembrar que se define como "membro de uma cultura ocidental-árabe-amazônica 2".Retomando a questão da tradução cultural, Hatoum afirmou:

 

Minha mãe é uma amazonense de origem libanesa e meu pai é libanês. Estou marcado por essa dualidade: dois países, duas línguas, duas culturas, duas religiões . (...) Há coisas em mim que são do imigrante: uma melancolia, um certo mutismo. O imigrante é aquele sujeito que diz: "Percebi que não tenho nenhum lugar para ir e não tenho também nenhuma razão para ir para algum lugar". 3(grifo nosso)

 

Fica patente, desde o início, a experiência da linguagem como único espaço possível para articular esse desmembramento - das línguas, da vivência, da experiência de estar entre dois - ou três - mundos distintos. Para o autor, a língua afigura-se como pátria, a casa possível e desejável, espaço que abriga e equaciona, ainda que de forma tensa, esses dilemas e conflitos referentes aos múltiplos pertencimentos. Afirma em outro momento Hatoum:

 

O Norte, depois da errância e do exílio, é menos uma geografia do que um lugar que se busca. Lugar que já não mais existe, ou lugar utópico que só existe na memória. Em outras palavras : essa tentativa de um retorno à terra natal só é possível através da linguagem : 'instância poética da recordação que comemora' 4(grifo nosso)

 

Assim sendo, a literatura de Milton Hatoum aponta para o sentido de desvendar o caráter híbrido da vivência do imigrante, da duplicidade. Este sentido de instabilidade e de provisoriedade evoca de forma bastante significativa uma realidade sem contornos precisos, cujas fronteiras encontram-se em permanente mobilidade em Relato de um certo Oriente . Nesse retalho de vida que se narra, existe a preocupação de não idealizar a cultura árabe, uma vez que contradições e fissuras são encenadas. Hatoum não tenta definir um tipo fixo para seus personagens árabes, construindo uma identidade fechada. Pelo contrário, ele situa suas personagens no hibridismo, no lugar em que o brasileiro, o manauara, o árabe se encontram e se interpenetram.

Com isso, reforça ainda uma vez a noção de relatividade atrelada ao conceito de hibridismo, radicalmente oposto da idéia de sincretismo, do único, que inúmeras vezes é evocado quando se fala do Brasil. À ficção da democracia racial, Hatoum oferece amplo painel em que personagens carregados de códigos de distintas culturas negociam constantemente suas identidades. Sobre a questão da chamada barganha cultural feita o tempo todo pelos estrangeiros que aqui chegaram, o historiador Jefrey Lesser afirma: "Esses imigrantes tanto manipularam quanto modificaram o sistema, tornando-se, rapidamente, parte integrante da nação brasileira moderna, à medida que eles desafiavam as idéias de como essa nação deveria ser imaginada e construída." 5

O velho rádio Philco da casa em que se passa a história de Relato de um certo Oriente , apesar de transmitir notícias do Brasil, capta estações do Cairo e de Beirute, em uma sintonia Ocidente/Oriente capaz de elucidar essa duplicidade de referências dos personagens também. O patriarca do Relato faz suas orações diárias com o corpo voltado para a cidade sagrada de Meca, enquanto Emilie, cristã maronita, cultua santos católicos e se dedica a cozinhar quitutes cujos ingredientes vão das frutas amazônicas ao fígado cru do cordeiro. Ao c ontar histórias do Oriente, inventa todos os dias um idioma híbrido, próprio para dar conta dessa realidade mesclada de linguagens culturais distintas.

Esse Oriente muito particular, cravado em uma certa Amazônia do final dos anos 50, será recuperado pela voz da narradora, que se debate em dúvidas de como articular tantas referências distintas de sua história pessoal, de um tempo perdido na lembrança marcada por lapsos e lacunas. Diante do problema que se impõe: "como transcrever a fala engrolada de uns e o sotaque de outros?", coloca-se na posição privilegiada para contar a história: "Restava então recorrer à minha própria voz, que planaria como um pássaro gigantesco e frágil sobre as outras vozes."(p 166).

O "coral de vozes dispersas" aludido pela narradora é o resultado de cada voz que se constitui como um dos muitos relatos do texto, e que ao final constituirá um único relato, filtrado pela voz da personagem-narradora. O referido coral remete à idéia da rapsódia , da junção de músicas de lugares diferentes, espécie de palimpsesto em que a noção de originalidade pura não existe. Fantasia musical que abrange temas improvisados do cancioneiro popular e folclórico, a rapsódia na música é um processo de composição que envolve grande variedade de motivos, e incide na idéia do improviso, de múltiplas referências musicais reunidas em uma só 6.

Neste relato, à semelhança dos rapsodos, os narradores promovem a união de retalhos e fragmentos de diferentes memórias, constituindo espécie de tapete persa tecido por vozes indígenas, amazônicas, árabes, brasileiras. Estão presentes terapias da fauna amazonense, trechos das Mil e uma noites , lembranças de rituais indígenas, passagens do Alcorão, orações em nhengatu. Cada narrador organiza suas memórias, completa lacunas e as ordena de acordo com sua imaginação, originando relatos diferentes a serem orquestrados pela narradora.

O modo exuberante da narrativa de Hatoum, marcado por uma linguagem extremamente visual, convida o leitor a adentrar esse rico universo de cores e cheiros exóticos de um certo Oriente e de uma certa Amazônia, lançando mão de artifícios próprios para dar a dimensão dessa mistura de culturas e linguagens.

A partir dessa constatação, meu intuito foi o de refletir sobre o Relato a partir de chave conceitual que perceba a questão identitária como lugar de confluência do múltiplo, possibilitando uma visão do texto como espaço em se equacionam diferentes linguagens. Cito Zilá Bernd:

 

Se as identidades são múltiplas e compósitas, a arte e as escrituras que delas se originam serão conseqüentemente híbridas, 'dúcteis e maleáveis', como afirma Nestor Garcia Canclini, um dos primeiros a valer-se do termo 'híbrido' para caracterizar a cultura das Américas. 7

 

Dessa forma, as múltiplas vozes que compõem o romance de Hatoum tentam tomar posse de uma fatia de vida daqueles indivíduos marcados pela tradução cultural, organizando de forma fragmentada a narração que vai prover um formato fixo a tamanha vida em ebulição, memórias perdidas, tempos dispersos. As lacunas, neste caso, são bem vindas, uma vez que a idéia é justamente operar com certos vislumbres, zonas de sombra que nem sempre serão iluminadas por inteiro. Caberá ao leitor - companheiro nessa viagem ao tempo perdido e provisoriamente reencontrado - prover sentidos e significados distintos a uma obra que convida de forma permanente à reflexão e ao questionamento.

 

 

"Da cólera ao silêncio" In Cadernos de Literatura Brasileira, n 2, Instituto Moreira Salles, 1996, p. 69

Entrevista a Terciane Alves In MARETTI, Eduardo. Escritores . São Paulo: Limiar, 2002, p. 219

Entrevista a José Castello, Estado de São Paulo, 14 de novembro de 1998.

"Escrever à Margem da História", texto de Milton Hatoum apresentado no Instituto Goethe de São Paulo em 1993

LESSER, Jeffrey. A negociação da identidade nacional: imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil . São Paulo: UNESP, 2001, p. 19

Em Macunaíma , a que Mário de Andrade chamou de rapsódia, diferentes registros como a crônica, a paródia e a lenda coexistem. Vale lembrar que o herói sem nenhum caráter andradiano começa e termina seu périplo justamente na Amazônia.

BERND, Zilá. "Identidades compósitas: escrituras híbridas"In Revista Matraga no 12, Rio de Janeiro, UERJ, 1999, p 5