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O fora de lugar em A face do abismo
Simone Aires Vogel (CEFET/SC)

Nos séculos XIX e XX, o Brasil foi alvo de grandes imigrações de países europeus. No caso alemão a imigração ocorreu através de um processo de expulsão, por parte da Alemanha, e atração, por parte do Brasil. Mas esse fato não foi contínuo, por causa das guerras e da falta de cumprimento das leis de migração. O processo imigratório foi interrompido várias vezes, até extingüir-se por completo na metade do século XX.

No que diz respeito ao relacionamento entre alemães e brasileiros, nesse período do início da imigração no país, a população luso-brasileira muitas vezes condenava os colonos por seu isolamento, chamava-os de anticidadãos brasileiros e os censurava por cultivar suas tradições e sua língua. Mas este problema foi gerado por um descaso do governo brasileiro da época que deixou os colonos no maior abandono.

Os alemães viviam praticamente isolados nas colônias, era difícil a integração entre os brasileiros, que os viam como inferiores, pois estavam no país para "substituir o braço escravo." Além disso, pertenciam a outro "grupo" com fortes marcas culturais, pois suas identidades estão além da "fronteira imaginária" que os cercam. O imigrante tornou-se uma figura estereotipada pelo brasileiro. Em contrapartida, o brasileiro tornou-se vítima também de preconceitos por parte dos imigrantes, que, segundo sua cultura, consideravam-nos preguiçosos.

Giralda Seyferth diz que o Brasil é um país que possui um grande pluralismo étnico 1 e junto a esse grupo pode somar-se outros grupos menores de não-imigrantes que também sentem-se "diferentes". Segundo a autora, os imigrantes mantêm uma ligação com sua cultura, e os fenômenos que chamamos de "aculturação" não impedem os imigrantes, ou descendentes, de preservar traços da etnicidade, mesmo estando estes integrados à sociedade a que pertencem. A idéia de nação dos imigrantes e descendentes está acima da idéia de Estado e do que ele representa:

A identidade étnica ou nacional é dada pela origem e atualizada através de certos elementos culturais considerados importantes: a língua materna, a capacidade de trabalho, o conhecimento do folclore alemão, a participação nas atividades das associações, etc. A idéia de uma nação está acima do Estado e não se confunde com ele, nada tem a ver com a concepção brasileira de nacionalismo, traduzida pela frase "quem nasce no Brasil é brasileiro". No caso do "germanismo" concebido pelos teuto-brasileiros, quem nasce no Brasil é brasileiro, mas se tem origem alemã é também alemão no sentido nacional. 2

 

A língua, um dos maiores fatores de integração, é para a comunidade algo muito forte. Segundo Benedict Anderson, para essas comunidades, qualquer que seja a língua que a história tenha feito sua língua materna é motivo de integração. Por meio dessa língua que se recebe no colo da mãe e se abandona apenas no túmulo, reconstituem-se os passados, imaginam-se solidariedades, sonham-se futuros. 3 Os membros dessa comunidade imaginada jamais se conhecerão, mas a ligação que existe entre eles (imaginada), por fazerem parte de uma mesma sociedade, permite-lhes até mesmo matar e morrer por ela, despertando em seus integrantes um sentimento de "companheirismo profundo e horizontal." 4

Os imigrantes - objeto citado nessa questão de deslocamento cultural a que estamos nos referindo -, por mais distantes que estejam da sociedade de origem, conseguem guardar consigo alguma "forma de identificação étnica" 5, por mais que haja uma absorção da cultura local, mas a distância da terra natal acaba fazendo com que ocorra a formação de uma cultura híbrida.

Mas este alemão imigrante a que nos estamos referindo aqui embora acabe criando e transformando a cultura no sul do país, não é ele o "fora de lugar" neste contexto, uma vez que, na sua chegada e durante alguns anos conservou aqui, um lugar "sagrado", tipicamente germânico.

É essa cultura trazida pelos alemães e essa identidade que, aos poucos, se transforma e transforma a cultura já existente e que encontramos no romance A face do abismo , através das narrativas de festas, comidas, tradições, trato com a família, posição ocupada pela mulher dentro da casa. E são essas questões, esse modo de viver num "entre lugar" - como afirma Homi Bhabha, quando diz que a ligação entre diferentes culturas procura validar esses hibridismos culturais que surgem em "momentos de transformação histórica" 6

A obra do escritor Charles Kiefer aborda em sua literatura a vivência desses alemães no espaço geográfico do Brasil. No seu romance já citado, A face do abismo, o autor narra uma das formas de como ocorreu a colonização alemã no Rio Grande do Sul, através da trajetória de doze famílias de descendentes de alemães que juntas saíram da colônia de São Leopoldo 7 para formar uma nova colônia, a fictícia cidade de San Martin, onde se passa a história do romance.

Voltando então a idéia de Bhabha, percebemos que também no romance que esse hibridismo acontece, mas depois de muitos anos. A população da cidade fictícia de San Martin, predominantemente germânica, resiste a figura do homem rude, que representa, nesse espaço o estrangeiro, fora do seu espaço - José Tarquino, o bugreiro é então o "fora de lugar" no romance.

O autor relata, em sua obra, algumas dificuldades enfrentadas por esses imigrantes, homens, mulheres e crianças corajosos, que deixaram sua pátria rumo ao desconhecido, em busca de um futuro melhor. Algumas passagens históricas referentes à colonização são retratadas pelo escritor, tais como as dificuldades enfrentadas pelos germânicos na chegada à nova terra e o perigo representado pelos índios e animais selvagens.

Aproximadamente oitenta anos de história são narrados em A face do abismo, incluindo a trajetória, as dificuldades, as diferenças culturais, os problemas de identidade cultural e os preconceitos praticados e vividos pelas doze famílias que, presentes no universo ficcional, rápido se multiplicaram, fundando uma nova cidade.

Nesse espaço alemão criado no sul do Brasil é José Tarquino quem primeiro sofre as conseqüências dessa "comunidade germânica imaginada". Filho de uma índia e um tropeiro, o bugreiro, como é chamado por causa da sua função de exterminar co os índios, tem a pele escura e não faz parte do universo imaginário criado pelos colonos. Dessa forma, é diferente, e não faz parte da comunidade em questão. Era um homem forte, exterminava os índios, mas não conseguia romper as barreiras culturais que o separavam dos alemães; com o passar do tempo, no entanto, acabou "sendo convidado" a fazer parte desta comunidade.

Ao longo da rua principal distribuíam-se as doze residências dos colonos e mais a sua e a de seus empregados, afastadas do núcleo central, pois ainda não fora admitido totalmente pela comunidade. Olhavam-no sestrosos, evitavam-no. Esperavam, ansiosos, que juntasse as suas coisas e os seus homens e partisse, mas nenhum jamais tivera suficiente coragem para expressá-lo. José Tarquino tentava integrar-se, convidava os alemães para caçadas e pescarias, rodadas de carteado e churrascos, ensinava-lhes coisas, esforçava-se por aprender a língua alemã. 8

 

Nesta passagem onde José Tarquino aparece sendo excluído, é através da língua que percebemos o maior fator de exclusão como afirma Anderson. Mas por outro lado o roance também trabalha com a representação do excluído e se por um lado os alemães formavam um grupo fechado, quase não permitindo a entrada de descendentes de outras raças, a imagem do gaúcho, sua representação "temida" 9, também influenciava e inibia os alemães, que reconheciam em José Tarquino um indivíduo de outro grupo, com uma identidade distinta, e respeitavam essa imagem.

[...] aceitaram a sugestão de José Tarquino Rosas para o nome do lugar porque San Martin lembrava-lhes o líder da Reforma, Martinho Lutero. Sim, talvez o tivessem feito por medo, a voz do homem era potente e impunha respeito além de que as armas usadas contra os índios ainda fumegavam. 10

Nesse romance, um pouco da história da colonização alemã é contada através da vida da família Zeller, que representa, junto com José Tarquino, o centro da narrativa, onde outras histórias se entrecruzam para formar o romance e contar como se desenvolveram a ocupação do solo e a colonização no estado do Rio Grande do Sul.

No romance A face do abismo , os capítulos se alternam entre presente e passado e passado e futuro na voz de dois narradores que contam duas versões da história; o fio temporal é percebido na vida de José Tarquino Rosas, que é o fundador e também responsável pelo progresso da cidade. E esse homem dúbio, excluído pelo grupo de alemães que documenta com sua existência várias temáticas abordadas ao longo do romance. Entre elas esta também o preconceito existente por parte de determinados alemães, mesmo depois de algumas gerações, para com os de outras raças.

Ainda que José Tarquino pintasse o corpo de branco, demudasse a cor dos negros olhos para o azul-celeste e a dos cabelos, barba e sobrancelhas para castanho-claro ou o vermelho-ruivo, ainda que falasse a língua alemã com perfeição, ainda assim não seria um deles porque simplesmente não tinha a alma branca. 11

 

O bugreiro José Tarquino, aos vinte e sete anos e cansado da vida de andanças e lutas, pois saíra de casa aos dezessete anos para lutar na revolução de 1893, resolveu então fixar residência no vilarejo, juntamente com três capatazes seus. Essa atitude desgostou os alemães que ali viviam e que esperavam que o homem cansasse da vida calma e seguisse viagem. Mas o homem resistiu e ficou, mesmo contra a vontade dos moradores, na cidade, montando nos fundos de sua casa uma serraria.

Um ano depois da fundação da cidade, na festa organizada por Frau Zeller, a viúva Herta Müller pôde tirar o luto que vestia pela morte do marido. Percebendo a hostilidade dos alemães para com José Tarquino e vendo nele a única possibilidade de sentir-se mulher novamente, diz a todos ter sido ela quem o convidou. Essa atitude desgosta os moradores da cidade, principalmente Frau Zeller, levando Alberta, durante sua narrativa, a questionar o destino da cidade se outra houvesse sido a atitude de Herta.

Meses depois, José Tarquino e Herta se casam. Em uma noite em que saíram os dois para buscar os filhos de Herta, algum morador ateou fogo na casa do casal. Apesar de tudo, José Tarquino nunca acusou ninguém e tampouco se incomodou com o fato, era um outro homem. Cuidava da casa, tratava bem a esposa e tinha uma devoção de pai para com os filhos do primeiro casamento de Herta. Começou então a ser aceito entre os alemães do povoado, com exceção de Frau Zeller, que tinha por ele um ódio profundo. Algum tempo depois, o casal tem um filho, Gumercindo Rosas. No seu nascimento, Herta Müller-Rosas foi vítima da febre puerperal, perdendo o domínio da mente e deixando o marido praticamente sozinho na criação de todos os seus filhos.

O tempo passa e a cidade se desenvolve rapidamente. Chegam famílias de outras regiões. Alguns anos mais tarde, José Tarquino torna-se amante de Milena Zeller, vivendo os dois um grande amor. No entanto, aos olhos dos outros moradores, os dois amantes se odiavam cada vez mais, trocando ofensas e provocações. E assim a cidade vai criando uma nova cultura através da troca de suas experiências.

No Livro do Gênesis , a criação do mundo é apresentada através do surgimento da terra. Não havia nada, ou havia sim, havia água. Deus contemplava a face do abismo, do nada, e pairava sobre as águas. Então Deus criou o mundo. Daí se estabelece a analogia existente no romance A face do abismo, do escritor Charles Kiefer, onde a personagem José Tarquino, filho de uma índia guarani e um tropeiro uruguaio, é incumbido da missão de "brincar de Deus", limpando 12 uma determinada região para o surgimento de uma nova cidade. Só que nessa terra, diferente da história bíblica da criação do mundo, já havia vida, pois os índios habitavam o citado lugar. Mas José Tarquino os mata, extermina aquela raça sem demonstrar culpa, mesmo sabendo que eles possuem o mesmo sangue seu. Fica visível aqui mais uma "crise de identidade" de José Tarquino, ele sabe que ele é? Tem definida sua identidade? Podemos dizer que no seu próprio meio, pela questão racial, e desta vez envolvendo a sua origem indígena, o brugreiro, por estar distante do seu povo, ou pela miscigenação já vivenciada, ele também esta "fora do seu lugar".

Para alguns alemães que vieram viver naquelas terras, índio não tem alma 13 , e, sendo José Tarquino filho de uma índia, os alemães entendiam este fato porque entende-se que, por ser meio índio, ele também não possuía uma alma. E assim, pelas mãos desse homem desalmado , inicia-se, para algumas famílias que ali chegaram, um novo mundo. E José Tarquino, homem rude e cruel, mas apaixonado e sensível acaba sozinho, vivenciando no seu ser a grande frustração de nunca encontrar o "seu lugar".

 

Notas:

O termo correto é "estrutura pluralista", e não é de Seyferth e sim de Eisenstadt, e refere-se a uma sociedade composta por diferentes grupos étnicos de imigrantes e que mantêm um certo grau de identidade separada. Seyferth usa o exemplo de Eisenstadt e aplica-o no processo de construção de identidades no Brasil

SEYFERTH, Giralda. Imigração e cultura no Brasil . UNB: Brasília, 1990. p. 9.

ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional . São Paulo: Ática, 1989. p.168.

ANDERSON, Benedict. Op. Cit., p. 16.

Idem, Ibidem, p 79.

BHABHA, Homi K. O local da cultura . Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. p. 21.

A Real Feitoria do Linho Cânhamo, posteriormente denominada São Leopoldo, foi a primeira colônia alemã no Estado do Rio Grande do Sul. Fundada em 1824, com a chegada de 38 imigrantes, tinha como finalidade ocupar e cultivar a terra.

KIEFER, Charles. A face do abismo . Porto Alegre: Mercado Aberto, 1994. p, 33.

Uso o termo "temida" porque o mito do gaúcho é muito forte não só na literatura como também na maneira como eram vistos pelos outros integrantes da sociedade. Regina Zilberman relata como era visto o homem gaúcho pelos demais e como sua representação era temida. A coragem e a disponibilidade para a luta eram suas características marcantes. Suas andanças pelas revoluções fazem do cavalo não só um companheiro inseparável como parte integrante de sua figura. ZILBERMAN, Regina. Literatura gaúcha: temas e figuras da ficção e da poesia do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: LP&M, 1985.

KIEFER, Charles. Op. Cit., p. 25.

Idem, Ibidem, p. 46.

Expressão usada no romance A face do abismo que designa a matança de índios e animais de uma determinada região para o estabelecimento de famílias.

KIEFER, Charles. Op. Cit., p. 24.