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A vingança feminina em As velhas de Adonias
Sandra Maria Pereira do Sacramento (UESC)

1-As metanarrativas da modernidade e sua construção discursiva

As metanarrativas identificaram-se geralmente com os ideais iluministas, com o otimismo em relação ao papel da ciência, a crença no progresso ou a busca de verdades, de valores universais e atemporais. Jean Françoise Lytoard em A condição pós-moderna (1998) identifica duas narrativas que nortearam a Modernidade cientificamente: a narrativa política, encerrada no discurso emancipatório da Revolução Francesa e a narrativa filosófica , esteando-se na obra de Hegel, quando situa o conhecimento em uma dimensão histórico-evolucionista. Hegel tem uma visão panteísta da História ; para ele existe um espírito, uma intuição transcendental que constitui a origem criadora da realidade universal. A idéia evolui sob o signo da dialética do espírito. Sendo o real essencialmente o devir, este avança inexoravelmente rumo à marcha ternária da tese-antítese-síntese. A História, ao ser criação do espírito, não passa de uma manifestação exterior ao desenvolvimento da idéia ; por isso o curso da História segue uma linha evolutiva: os povos orientais (cultura místico-religiosa) representarão a tese; a Antigüidade Clássica( Cultura racional), a antítese a Idade Moderna. Marx, partindo do hegelianismo e utilizando o seu conceito dialético, transfere-o para a esfera material e econômica: o materialismo dialético; substitui, portanto, a concepção intelectual do absoluto, enquanto espírito, por outra material. A sociedade, assim, teria trilhado a estrutura social hierarquizada (tese), a economia capitalista (antítese) e o socialismo moderno (síntese).

Augusto Comte, filósofo francês também bastante influenciado pelo racionalismo via no progresso da Ciência a chave para a emancipação do gênero humano. O conhecimento religioso e a filosofia metafísica seriam explicações imaginárias presentes em setores da realidade social que ainda não haviam chegado ao conhecimento científico, completamente racional. Assim, o homem havia passado pelo estado religioso (politeísmo feiticista), metafísico (monoteísmo) até chegar ao estágio racional, preso à observação dos fatos(positivismo).

A modernidade, com suas promessas de igualdade universal, empenhou-se, através de crenças e práticas ideológico-culturais, em estabelecer socialmente esferas, sob o princípio de separados mas iguais ; assim a divisão de propriedade, de recursos e trabalhos, segundo as diferenças cunhadas entre homens e mulheres, brancos e negros, proprietários e trabalhadores, colonizadores e colonizados estruturaram o mundo administrado em visões hierárquicas que deviam se justificar por si sós.

A periodologia canônica privilegiou sempre uma visão etnocêntrica da História e mesmo as Histórias da Literatura de países colonizados como o Brasil também não deixaram de reproduzir o essencialismo quando conceberam a literatura regional como algo "em anexo", à parte do todo. Isto deixa transparecer a dificuldade que tiveram os nossos intelectuais, tanto os produtores de arte, quanto os historiadores de verem aquilo que fosse Brasil.O próprio professor Antônio Cândido não ficou imune a este condicionamento em Formação da Literatura de 1959, já que trabalha com noções como: dialética, superação, forma, conteúdo, etc. No fundo, o modelo europeu ainda constitui a única verdade como referencial.

 

2- As metanarrativas e o hibridismo cultural

 

As metanarrativas têm a pretensão de serem totalizadoras. Interessante notar que o romantismo alemão com o culto ao Volksgeist ensaia a valorização do dado local , contrapondo-se ao universalismo e atemporalidade dos franceses. Muito tempo depois, no pós-estruturalismo, Derrida retoma essa conceituação quando desacredita de qualquer significado fixo e estável - o que chama de significado transcendental (gramatologia). A gramatologia desconstrói o pensamento metafísico, fundamentado em princípios inquestionáveis que legitimam uma hieraquia de significações. Diz ele: que tem de haver significado transcendental para que a diferença entre significante e significado seja absoluta e irredutível em alguma parte. (1997:30) . O significado é, pois, o resultado de uma cadeia de significantes sem referentes ou significados estáveis. O que se toma como significado é, de fato, um significante, do qual se interrompeu o jogo de disseminação.

Entende-se por jogo, a impossibilidade do significado transcendental uma vez que a linguagem constitui o elemento mediador ao que chamamos realidade e toda experiência é a experiência do significado e um efeito da différance

O neologismo funde as noções contidas em différer ( adiar, diferir, procrastinar) e diférer ( citar, deferir). Tomar a différance como condição para a linguagem significa que suas peças ao mesmo diferenciam, citam, adiam. Ou seja, em vez de revelarem uma presença ( um referente que seria indicado) a simulam, a citam, a adiam. (LIMA,1988:338)

 

Uma vez que toda linguagem na sua concepção é algo metafórico; e tanto a linguagem oral quanto a escrita constituem sistemas que se opõem. Neste processo, as produções culturais de países periféricos como o Brasil reforçaram, não poucas vezes, as narrativas hegemônicas enquanto construção discursivas auto-centradas; porém, a partir do movimento modernista de 22 houve umamudança de perspectiva, na medida em que a pesquisa estética se fez presente no sentido de valorizar aquilo que fosse mais próximo de nossas raízes. È interessante notar que Machado de Assis, em texto de 1879, apesar de sua literatura alegórica e corrosiva , defendia a idéia de que o influxo externo é que determina a direção do movimento (1985 : 826)

O Manifesto Antropófago, por outro lado, enquanto resposta da nação híbrida, apresenta uma perspectiva que foge ao etnocentrismo europeu, ainda que, em certa medida, o europeu permaneça como referência. Osvald de Andrade propõe o matriarcado de Pindorama, como solução ao concerto das noções ocidentais. Estudos etnográficos feitos por Lévi Strauss, em Antropologia Estrutural (1993), em uma perspectiva estruturalista, chegam a criticar o etnocentrismo europeu, mas, ao mesmo tempo, defendem: não é menos verdadeiro que[...] a civilização ocidental mostrou-se mais cumulativa do que os outros. ( p.355) ou que toda história é cumulativa, com diferenças de graus . (p.357)

Entretanto, a partir dos Pós-Estruturalistas, dos movimentos feministas e do Pós-Colonialismo, metáforas alternativas surgem como possibilidade de entendimento efetivo, isto é, é preciso levar em conta que há um relacionamento estreito entre o social e o simbólico, em que o jogo de poder se faz presente, mas não através de ações, antes pela negociação de sentido , ou seja, não são os fatos políticos ou históricos que detêm em si o poder, mas a maneira como a população os concebe. Logo:

O baixo invade o alto, ofuscando a imposição hierárquica; criando, não simplesmente o triunfo e uma estética sobre a outra, mas aquelas formas impuras e híbridas do grotesco ; revelando a interdependência do baixo com o alto e vice-versa, a natureza inextricavelmente mista e ambivalente de toda a vida cultural. (HALL,2003:226)

 

Assim, a construção de cada limite funda-se no exercício arbitrário do poder cultural, da significação e da exclusão, pautados em uma tradição ou formação canônica, em uma clausura cultural hierárquica. Esta hierarquia simbólica é contraditória em si mesma.

 

2.  Matriarcado e nação em As Velhas

Segundo Lucia Helena, em Queremos a Revolução Caraíba: Identidade Cultural e Construção Discursiva em o Manifesto Antropófago: [...] O mundo encontra-se dividido em dois hemisférios culturais: o do matriarcado antropofágico(o "matriarcado de Pindorama") e o da cultura patriarcal messiânica (1996:61).

A cultura ancorada no matriarcado estaria para o direito materno, para o Estado sem classes

e a propriedade comum do solo. Nesta perspectiva, a herança tupi da sociedade antropófaga indicia uma sociedade sem Estado, portanto, sem pai. Em oposição a esta sociedade, estaria a sociedade de classes do mundo civilizado, o pátrio poder, a propriedade privada do solo, a cultura messiânica, como base ideológica do escravismo e de toda a sua economia.

Ora, em As Velhas de Adonias Filho o que prevalece é uma narrativa respaldada em referenciais próprios da nação colonizada. Aí o matriarcado, em uma perspectiva de vingança, faz com que, cada uma das personagens, à sua maneira, reivindique algo perdido no passado. Tal perda lhes causou bastante tristeza, mas foi o desparador para a vida em comunidade não hierárquica como as que se delineiam na obra. A índia Tari Januária quer de volta os ossos de seu marido branco, Pedro Cobra, morto nas ocupações de terra em guerra entre índios e os plantadores de cacau como seu marido:

[...] Tarai Jnauária, naquele momento justo no couro de boi, não devia dormir. Pensaria nele, Tonho Beré, e nos ossos de Pedro Cobra. Índia pataxó, aquela mãeque tem, capaz de todas as raivas. E ele mesmo, Tonho Beré quanto pataxó não lhe corre nas veias! Deitado, a rede parada, a fogueira. E escuta a voz que , ordenando, exclama:

- Eu quero os ossos! (p.10)

 

Esta lamenta a perda de Pedro Cobra, branco que a raptou entre os pataxós e lhe deu muitos filhos: Tonho Beré, imbuído da missão de reaver os ossos do pai, Inuá, Moá, Branca Ita, além de possuir vários bichos de estimação. Outra personagem bastante forte em As Velhas é Zefa. Esta, após a morte dos seus pais em contendas de terra, torna-se mulher do estrangeiro e vingativa, devido à dilaceração de dois filhos por onças tangidas por Pedro Cobra, vindo a matá-lo também.

 

Essa velha Zefa Cinco, que viu pai e mãe assassinados na várzea das goiabeiras, e viu aos dois meninos arrebentados por um par de onças, também viu Chico Paturi morrer depois de quarenta e cinco anos juntos. (p.54)

 

Entre as perdas, Zefa Cinco sonhava com a volta da filha Lina de Todos. A filha de Zefa passou a ter este nome porque Timóteo Lapa, o raposo, apostou-a no carteado e como mulher era algo caro nas terras do cacau, Lina transformou esta agressão; passando negociar o próprio corpo: [...] Era de qualquer um ou de todos, o corpo trocava por serviços na terra que possuía. Cada plantio novo de cacau teve suor de homem como adubo . (p.115)

Vale notar que, em muitas passagens do texto, a tragicidade da existência impõe uma coordenada outra de sobrevivência, fazendo com que papéis definidos de gênero alcancem uma dimensão pujante, presa a valores locais, plenos de hibridismo, em que a síntese sugerida pelas metanarrativas teleológicas tornem-se poucos críveis ; por isso a presença do fonocentrismo nestetexto, ainda que legitimado por vozes que, no nosso ponto de vista, não anseiam por encerrar o significado trancendental , isto é, a verdade derradeira que está na base da filosofia ocidental.

Há o resgate da voz, pois são velhas que têm muito o que contar e possuem uma sabedoria semelhante àquela do narrador de Walter Benjamim que viveu muito e toma o presente como algo propiciador de um resgate do passado via memória. A modernidade, entretanto, esquece esta possibilidade de existência que não valoriza o urbano.Várias vozes se cruzam em As Velhas , inclusive com vozes da própria floresta, como se houvesse algo premente a ser contado e vingado.A última velha a narrar as suas desditas é a negra Zonga:

 

Eu vi no momento o sangue do Calupo na terra, morrendo para fazer o que tínhamos, seus ossos no chão. Vi também os umbigos dos meus filhos plantados neste mesmo chão. Tudo isso eu vi, de repente, com a garganta apertando e os olhos já cheios de sangue. Não, nem ele, nem eu, ninguém sairia do que era nosso! Isso eu disse, gritando, e nos prepararmos para a guerra.

-Pois então seja assim - Coe concordou. (pp.81-82)

Zonga teve seu pai empurrado para fora da terra em que plantava cacau e uniu-se a Coé, negro trabalhador, para que isso não ocorresse. Tem personalidade forte e coloca-se como mantenedora de uma ordem, em que todos lhe rendem distinção.[...] Negros e índios mistura com outros, homens e mulheres e meninos, todos como se fossem caititus (p.64 ); - É uma rainha de abelhas. Tonho Beré observaria, mais tarde, quando a sós com Uirá ". (p.67) . A negra alta de quase dois metros, velha de oitenta anos, magra o esqueleto, sempre com a calma no rosto e a voz macia, não precisa de energia para comandar. Não ordena, pede .(p.68)

 

As Velhas narram a vida de quatro parcas que têm os fios de suas existências tecidos de forma trágica e violenta. Tari Januária, a índia pataxó, presa aos valores de sua tribo, quer reaver os ossos do marido para que sirvam de cabos de facões para os seus filhos. Zefa Cinco, a assassina de Pedro Cobra, nega-se a entregar os despojos, desde que os mensageiros, Tonho Beré e Uirá, filho e neto de Tari Januária, tragam de volta a filha Asa que fugiu com Binô de Itororó. Zonga, negra que, com destaque, ocupa uma comunidade agrária e deu pouso ao casal há alguma tempo. Lina de Todos instaura uma estrutura matriarcal autoritária em que os filhos, netos e agregados encontravam-se sob seu domínio. Asa é seqüestrada pelo filho mais novo de Lina de Todos , Pedro de Lina; vindo a falecer, deixando uma filha pequena, Marimari. Esta se torna mulher de um neto de Lina, mas foge com Uirá.

São narrativas que se cruzam em sua tragicidade e em suas demandas. Tari Januária não tem os ossos em seu poder porque Zefa Cinco não sabe onde enterrou Pedro Cobra. Zefa não consegue rever sua filha Asa, porque já está morta. Lina não consegue deter a filha de Asa e Zonga também tem sua existência presa à memória de perdas do passado. São procuras com mais desencontros.

O Poder patriarcal ancora-se nas matas do Sul da Bahia relativizado, apesar de percebermos, através da enunciação do narrador, marcas do poder masculino sobre o feminino.Entretanto, o poder feminino se coloca muito mais como possibilidade de uma relação entre gêneros de forma mais simétrica.

O discurso da modernidade, calcado em pares dicotômicos que se excluem, encontram em narrativas como As Velhas a impossibilidade de estreitamento a paradigmas amparados em pré-conceitos porque não refletem a realidade histórico-sociológico-cultural de nações colonizadas que alcançam uma dimensão muito além da Norma, esteada no falso ou verdadeiro.

 

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