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A diáspora caboverdiana como expressão poética - Relações com o pasargadismo brasileiro
Rubens Pereira dos Santos (UNESP- Assis)
Podemos pensar no termo diáspora de duas formas. A primeira consiste na efetiva e concreta migração de pessoas e ou povos para outras terras em busca de uma vida melhor. Neste caso, o exemplo da África é o que melhor se aplica.
Durante muitos séculos, foi muito grande o número de africanos que migrou - por necessidade - principalmente para a Europa e Estados Unidos. São bem conhecidas as razões para o êxodo: a pobreza e a miséria existentes no continente, provocadas pelo atraso da sociedade africana, devido principalmente ao grande domínio dos colonizadores europeus. Uma colonização que durante séculos não permitiu ao povo quaisquer possibilidades de progresso. Assim os descontentes logo, e quando podiam, saíam em busca de ares mais livres, atrás de uma vida mais digna. A falta de perspectiva assinalava para os africanos uma saída para terras distantes.
Um segundo significado do vocábulo está relacionado com o imaginário. É a esta concepção que vamos ocupar. Está claro que há uma ampliação dos significados do termo, porém, há certas nuanças que os separa. A diáspora vista do imaginário também pode ser relacionada com a África. Aqui podemos ligá-la às questões da vida difícil, do caráter melancólico do ser africano e da busca da identidade. O nosso recorte será sobre o imaginário da África portuguesa de maneira geral, e, em especial, sobre o imaginário caboverdiano.
Cabo Verde é, talvez, o país da África lusófona que mais expressou poeticamente a diáspora africana. Muito provavelmente pela sua situação geográfica (um Arquipélago, composto por dez ilhas e alguns ilhéus) e pela sua situação climática (longos períodos de estiagem). O caboverdiano possui uma característica muito particular entre os africanos, pois a própria diferenciação como país colonizado já antecipa a diferença. Os portugueses não tinham muito o que procurar nas Ilhas. Do ponto de vista comercial não havia nenhuma riqueza, todavia era um ponto estratégico importante, devido à proximidade com os continentes africano e americano. A resolução de povoar as ilhas foi para que aquele espaço servisse de ponto de parada para os navios e descanso para os marinheiros. O tráfico negreiro serviu-se do Porto Grande, depois embarcações de várias bandeiras européias passaram também a usá-lo.
O povo caboverdiano vivia então um dilema: a chegada das embarcações estrangeiras aguçavam a curiosidade dos nativos que desejavam conhecer novos mundos, viver outras realidades. Esses sonhos com uma vida nova além-mar foram interpretados poeticamente pelo poeta Jorge Barbosa
O Mar!
pondo reza nos lábios,
deixando nos olhos dos que ficaram
a nostalgia resignada de países distantes
que chegam até nós nas estampas das ilustrações
nas fitas de cinema
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros
quando desembarcam para ver a pobreza da terra
.................................................................
Este convite de toda a hora
que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir
e ter que ficar!
A diáspora caboverdiana traduzia este sentir do povo. Aliás, o mar sempre foi motivo para sonhos na poesia de língua portuguesa, vejamos fragmentos da Ode marítima de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos
Ah, quem sabe , quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?
Quem sabe se não deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim,
Um grande cais cheio de pouca gente,
Duma grande cidade meio-desperta,
Duma enorme cidade comercial, crescida, apoplética,
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?
Essa "dúvida" pessoana ecoou na literatura de Cabo Verde. A par da necessidade de conhecer o desconhecido, de sentir saudade do nunca visto, o poeta caboverdiano queria descrever o modo de ser caboverdiano, no sentido de revelar a sua identidade. O mar teve o papel desencadeador de uma poética voltada às reminiscências e à exaltação da terra. De Portugal, Fernando Pessoa e do Brasil, Manuel Bandeira, foram nomes importantes para a nova poesia caboverdiana. Os poemas de Manuel Bandeira chegaram às mãos dos poetas do Arquipélago por meio da Casa dos Estudantes do Império (CEI). Na casa, encontravam-se estudantes, intelectuais e cidadãos africanos que viviam em Portugal, estabelecendo ramificações por outros países da Europa. Constantemente recebiam visitas de diplomatas e intelectuais de nações simpáticas ao movimento. Os brasileiros radicados ou em visita a Portugal, estavam entre eles. Ribeiro Couto - diplomata em Portugal - foi o responsável, em grande parte, pela divulgação da literatura brasileira nos países africanos de língua portuguesa. Bandeira, Jorge de Lima e o próprio Ribeiro Couto, tornaram-se conhecidos pelos coirmãos africanos.
De todos eles, Bandeira foi o que mais se aproximou das características caboverdianas. Poeta intimista, lírico, memorialista, deu aos caboverdianos um material importante para o fazer poético. Foi a partir de Bandeira que a poesia caboverdiana ganhou impulso. Criou-se o movimento chamado de Pasargadismo, movimento este que explorou poeticamente aquele sentir caboverdiano, o desejo represado, o sonho contido pela diáspora. Jorge Barbosa, Osvaldo Alcântara, Manuel Lopes, representantes do movimento, que expressava a utopia da Pasárgada como um tema diaspórico. O imaginário traz a mensagem da terra e do caminho longe. O que haveria além do mar, o que o homem encontraria no desconhecido?
Ao mesmo tempo de conhecer novas terras, havia o desejo de ficar, reconhecer naquela terra árida terra o seu chão, o seu verdadeiro lugar. O conflito caboverdiano entre a utopia da diáspora e a utopia do ficar, do viver em solo ilhéu, onde a mãe-terra, mesmo não sendo portentosa, dedicava a seus filhos um grande amor
Nas feridas do seu parto
As raízes do nosso umbigo beberão a seiva
E no ventre da "mamãe-terra"
Germinarão as sementes das nossas certezas
E nos embriagaremos da carne dos seus frutos...
As crianças nascerão sem metas nos olhos
E as suas mãos sujar-se-ão
Do mal do nosso olhar....
As crianças serão as crianças!
Negras e loiras e brancas
Serão pétalas da mesma flor...
(Onésimo Silveira, Hora Grande)
A Evocação do Recife causou um verdadeiro alumbramento entre os caboverdianos.
Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem o Recife que aprendi a amar depois - Recife
das revoluções literárias
Mas a Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e
partia as vidraças de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava pincenê na
ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras,
mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!
À distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
.................................................................................
Os versos de Bandeira repercutiram muito fortemente em Cabo Verde. Os poetas sentiam que aquela poesia tinha muito a ver com o sentir caboverdiano: as saudades da terra, a nostalgia do passado, o conflito entre o ir e o ficar.
Osvaldo de Alcântara, pseudônimo poético do filólogo e escritor Baltasar Lopes da Silva, escreveu os seguintes versos, misturando a Pasárgada com a Evocação do Recife
Saudade fina de Pasárgada...
Em Pasárgada eu saberia
onde é que Deus tinha depositado
o meu destino...
E na altura em que tudo morre...
(cavalinhos de Nosso Senhor correm no céu;
a vizinha acalenta o sono do filho rezingão;
Tói Mulato foge a bordo de um vapor;
o comerciante tirou a menina de casa;
os mocinhos da minha rua cantam:
Indo eu, indo eu,
a caminho de Viseu...)
Na hora em que tudo morre,
esta saudade fina de Pasárgada
é um veneno gostoso dentro do meu coração.
O sonho, as reminiscências, a busca de um ' locus amenus' , são preocupações dos poetas do pasargadismo, tão bem representadas nos poemas referidos acima. Manuel Lopes em Poemas de quem ficou reforça de maneira muito feliz a idéia do imaginário poético da Pasárgada
Eu não te quero mal
por este orgulho que tu trazes
por este ar de triunfo iluminado
com que voltas...
O mundo não é maior
do que a pupila de teus olhos;
tem a grandeza
das tuas inquietações
e das tuas revoltas
...que teu irmão que ficou
sonhou coisas maiores ainda
mais ricas e belas que aquelas
que conheceste...
Crispou as mãos à beira-do-mar
e teve saudades estranhas de terras
estranhas
como bosques, como rios, como outras
montanhas,
- bosques de névoa, rios de prata,
montanhas de oiro -
que nunca viram teus olhos
no mundo que percorreste...
Trata-se de um poema em que o eu poético de certa forma se rebela com aquele que sai, apesar do poeta ser considerado pasargadista. Todavia, é com os versos de Ovídio Martins - poeta que representa o chamado antipasargadismo - que teremos uma mudança radical de perspectiva
Pedirei
Suplicarei
Chorarei
Não vou para Pasárgada
Atirar-me-ei ao chão
E prenderei nas mãos convulsas
Ervas e pedras de sangue
Não vou para Pasárgada
Gritarei
Berrarei
Matarei
Não vou para Pasárgada
Assim, a diáspora no imaginário caboverdiano se liga à utopia da Pasárgada e ao mesmo tempo à atopia da Pasárgada. De um lugar de sonho e felicidade, passa a ser - para os autores do antievasionismo, um espaço desagradável, hostil.
A prosa caboverdiana também explorou literariamente o tema da utopia. Baltasar Lopes da Silva com o romance Chiquinho , escrito em 1947, tratou da questão. O personagem principal (Chiquinho) acaba por ceder aos apelos de familiares e parte para a América em busca da autonomia econômica. Todavia foi o romancista Manuel Lopes que escreveu o romance mais significativo sobre o assunto. Em Os flagelados do vento leste , a evasão é vista como uma fraqueza. José da Cruz - personagem principal do romance - não quer sair de suas terras, pois acredita na possibilidade de uma vida melhor, de uma terra mais fértil.
O romance de Manuel Lopes foi escrito tendo como motivação Vidas Secas de Graciliano Ramos. A temática da seca e as conseqüências adversas que a longa estiagem produzem no solo caboverdiano são muito semelhantes ao que ocorre no nordeste brasileiro. As personagens de Vidas Secas estão sempre migrando, fugindo do fantasma da seca, na esperança de melhores dias. Fabiano e José da Cruz - cada qual a seu modo - lutam e rezam para permanecerem na terra, porém a natureza perversa não lhes dá a oportunidade e a tragédia, já anunciada, vem - em especial para José da Cruz que se vê obrigado a deixar a sua plantação, completamente transtornado, pois perdera toda sua família. Com Fabiano, as coisas acontecem de outro modo, ele permanece com sinha Vitória e seus filhos, fadado a viver correndo de sítio em sítio, até um dia encontrar o caminho para o sul salvador.
A diáspora caboverdiana como expressão do imaginário foi amais importante manifestação de uma literatura que procurou seu próprio caminho e estabeleceu na África lusófona os alicerces de uma literatura crioula.
ANDRADE, Mário de. Antologia temática da literatura africana. 1 vol. Sá da Costa, Lisboa, 1975.
BANDEIRA , Manuel. Meus poemas preferidos. Ediouro, Rio de Janeiro, 208 p., 2004.
PESSOA, Fernando. Obra Poética. 8 a . edição. Ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 772 p., 1983.