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Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra entre a deriva de uma África pós-colonial e o arraigamento de arcaicas tradições
Rita Maria de Abreu Maia (CEFETCampos-RJ/ Universidade Estácio de Sá)
Os sentimentos do narrador-personagem de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra 1, de Mia Couto (2002), ao desembarcar em Luar-do-Chão, não parecem ser da mesma ordem das sensações do teórico Todorov 2 quando de seu retorno a Sófia, após 18 anos de exílio, por ele nomeado de "circunstancial", em Paris. O tempo de afastamento do jovem universitário Marianinho de sua ilha natal também assim poderia ser adjetivado. Como o teórico búlgaro, fora para a cidade, na outra margem do rio, para estudar e preparar-se para uma vida outra, diferentemente da que viveria caso permanecesse no chão materno. Ao contrário, contudo, do autor de O homem desenraizado , o narrador miacoutiano não confronta duas geografias culturais administrativamente distintas, como a França e a Bulgária, ambas caras a Todorov. Primeiro, porque os fatos narrados por ele ocorrem em um mesmo país; segundo, porque seus relatos centram-se no presente desse lugar arcaico e tradicional que se vê agredido pelas inserções culturais e políticas, não somente do estrangeiro cosmopolita e ocidentalizado, mas, sobretudo, do próprio homem negro que se quis "embrancar". Sua fratura provavelmente seja mais dolorosa, pois que é um estrangeiro em sua própria terra.
O enredo da ficção moçambicana desenvolve-se quando Mariano, o neto, atravessa o Rio Madzimi para os funerais do avô Dito Mariano, patriarca dos Malilanes, nome que o aportuguesamento transformou em Marianos, e experimenta, desde a travessia de barco para o lado de lá, o choque cultural de quem vivia em cidade marcada cultural, social e politicamente pelo colonizador europeu. O móvel dessa viagem de retorno ao centro de sua terra interior foi, repito, a morte desse avô de quem herdou o nome e a origem bantu. O contato com a terra natal, uma ilha fluvial poeticamente nomeada de Luar do Chão, trará ao narrador-personagem, experiências insólitas que brotam de uma ordem outra, não naturalmente lógica, que o leva a transitar entre o natural e o sobrenatural, o profano e o sagrado, o capitalista e urbano e o religioso e místico, estabelecida por ancestrais ritos da coletividade negra, profundamente atingida pela cultura dos brancos portugueses.
Visto assim, o texto do escritor moçambicano converge para uma "territorialidade", para um "lugar", na compreensão que Marc Augé 3 atribui ao termo, pois que busca fortalecer laços de pertencimento à cultura e às tradições que resistem ao desaparecimento em um mundo possibilitador de deslocamentos e ligamentos cada vez mais velozes e intensos entre os povos. Diante disso, o embate entre o local e o global intensifica-se na produção literária da África pós-colonial, além de estabelecer-se como signo de defesa de sua alteridade em relação à cultura hegemônica. É nesta direção que me aproprio como leitor da história de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra , cujo título aponta para reflexões que envolvem o tempo e o espaço, a história e a cultura, o homem e sua inserção num mundo partido entre o presente devastador das raízes e o passado que nos inscreve definitivamente na história e no espaço de nossa geografia interior.
O rio, desta forma, faz-se a única e frágil linha divisória entre o continente colonizado e europeizado, e a ilha permeada de tradições arcaicas. No continente, está a invasão cultural; na ilha, a resistência popular. No continente, estão as regalias econômicas e políticas que, segundo o autor, uma certa elite retira de um processo de alienação da cultura e das riquezas de seus países 4. Na ilha, estão os que sonharam com outra construção política para o país, como Fulano Malta - que não encontra nome para sua identidade em crise -, e viram os sonhos serem afogados em águas impuras ou arrastados pela correnteza dos que fazem aliança com o poder, como o Tio Ultímio:
Meu Tio Ultímio, todos sabem, é gente grande na capital, despende negócios e vai politicando consoante as conveniências. A política é a arte de mentir tão mal que só pode ser desmentida por outros políticos. Ultímio sempre espalhou enganos e parece ter lucrado, acumulando alianças e influências. (p. 28)
Separando e dividindo o país partido, o rio, entretanto, reúne os dois espaços, pois oferece condição para a travessia, para a passagem entre uma margem e outra. Se, de um lado, leva quem da ilha parte, de outro, traz de volta o filho que partiu, e constituiu-se, no entendimento de Pires Laranjeira, a imagem do tempo que, na forma de rio que atravessa a aldeia, é o senhor de tudo - terra, casas, pessoas, animais, coisas, vida e morte, ou seja, a História em processo modifica a matéria, incluindo a natureza, todos os seres e suas representações 5. O rio, como tempo em correnteza, permite a renovação. Por brotar, porém, das cavernas interiores da terra, é símbolo de arraigamento, da essência das raízes culturais que nos fixam no solo, por isso, na aldeia o rio autoriza a travessia. Ao desembarcar na Ilha, há que se pedir licença a ele para adentrar-se à terra:
Quando me dispunha a avançar, o Tio me puxa para trás, quase violento. Ajoelha-se na areia e, com a mão esquerda, desenha um círculo no chão. Junto à margem, o rabisco divide os mundos - de um lado, a família; do outro, nós, os chegados. Ficam todos assim, parados, à espera. Até que uma onda desfaz o desenho na areia. Olhando a berma do rio, o Tio Abstinêncio profere:
- O homem trança, o rio destrança .
Estava escrito o respeito pelo rio, o grande mandador. Acatara-se o costume. Só então Abstinêncio e meu pai avançam para os abraços. (p.26)
Como grande parte da África pós-colonizada, Moçambique encontra-se fraturada por culturas senão antagônicas, pelo menos, múltiplas e diferenciadas. Mais vivo em Luar-do-Chão que no continente, o país de Marianinho experimenta o drama do embate entre profundas expressões identitárias e experiências político-administrativas exógenas, estranhas à vida de seus habitantes:
Dói-me a Ilha como está, a decadência das casas, a miséria derramada pelas ruas. Mesmo a natureza parece sofrer de mau-olhado. Os capinzais se estendem secos, parece que empalharam o horizonte. À primeira vista, tudo definha. No entanto, mais além, à mão de um olhar a vida reverbera, cheirosa como um fruto em verão: enxames de crianças atravessam os caminhos, mulheres dançam e cantam, homens falam alto, donos do tempo. (p. 280)
O olhar atento de Mariano percebe essa reverberação, não vagueia turisticamente como um passante descompromissado. O protagonista não retorna à Nyumba-Kaya - a casa do avô e da avó Dulcineusa - para encontrar as ruínas de Luar-do-Chão, mas para reerguê-las. Fora ele o escolhido pelo avô, ousando contrariar as tradições determinadoras que delegavam ao filho mais velho o comando do funeral do patriarca, o que, no caso dos Malilanes, estaria destinado ao Tio Abstinêncio. O velho avô sabia que seu neto necessitava de apurar o olhar ou de reaprender a ver sua ilha de dentro, reintegrando-se à terra, experiência que pode ser metaforizada no encontro de Marianinho com o corpo e o amor de Nyembeti. Desde forma, não correria mais o risco de seus familiares o "irreconhecerem" como ocorrera na chegada à casa da família: Há anos que não visito a Ilha. Vejo que se interrogam: eu, quem sou?Desconhecem-me. Mais do que isso: irreconhecem-me (p.29).
É sobre esse sujeito que se interroga sobre sua identidade cultural e sobre a qual lado pertence, é que se tece a narrativa do autor de Terra sonâmbula :
As ruas estão cheias de crianças que voltam da escola. Algumas me olham intensamente. Reconhecem em mim um estranho. E é o que sinto. Como se a Ilha escapasse de mim, canoa desamarrada na corrente do rio. Não fosse a companhia da Avó, o que eu faria naquele momento era perder-me por atalhos, perder-me tanto até estranhar por completo o lugar (p.91).
Para relatar essa viagem do jovem Mariano em busca de seu outro lugar ou da aceitação de pertencer a um entrelugar, Mia Couto cria um mistério em torno do resistente enterro de Dito Mariano, morto que resiste morrer e terra que insiste em não se abrir para receber o corpo do ancestral da família dos Malilanes. Se de um lado, há um segredo familiar a ser desvelado - o que enreda o leitor na trama ficcional repleta de referências culturais e rituais moçambicanos -, há, noutra direção, questões coletivas, voltadas para o desrespeito às ideologias e costumes locais e aos universais desmandos e abusivas atitudes - sociais e ecológicas - do poder político e econômico, que exigem reflexão e mudança de todos. De modo não linear e não óbvio, a ficção desse romancista branco, filho de portugueses, biólogo, poeta e contista, aprofunda inquirições antes apontadas em sua produção que se voltam para o preconceito contra os indianos, para as tensões entre o local e o global, o campo e a cidade, o choque cultural, as relações de alteridade e os traços de identidade, os ritos e os costumes, as "novas excelências" e os novos ricos, metonimizados na figura do Tio Ultímio, além de relativizar o sentimento de (des)pertença, e de sinalizar para a apropriação indiscriminada e perversa da natureza em nome do progresso e do capitalismo.
Discutir tais questões faz-se mais pertinente quando se consideram as mudanças na configuração espacial que o mundo globalizado e os processos migratórios têm trazido às nações e despertam, paradoxalmente, o desejo de singularização que se contrapõe à desterritorialização cultural. Em relação ao romance de Mia Couto, que transita entre o fantástico e o verossímil, entre o familiar e o estranho, Pires Laranjeira entende que nele a desterritorialização cultural não conflui para os conceitos de mestiçagem, raça, etnia, terra ou pátria: É antes uma elegia melancólica ao desvirtuar do aconchego da tradição e da inocência e contra o uso criminoso do Progresso positivista, a que se contrapõe uma proposta telúrica 6.
Diante disso, não estaria na estória de Mariano um anúncio de que a memória pode se estabelecer como um espaço de territorializar-se? Nela se daria o encontro entre o passado que desenha no sujeito suas marcas identitárias, e o presente que lhe expõe as fraturas entre o ser que foi e aquele que não pode mais ser, porque viveu a experiência do deslocamento. Somente pela reconstituição de sua história pessoal, das condições de seu nascimento, o protagonista poderá reconstituir-se e aceitar sua condição "entre". Nesse sentido, a narrativa dá conta desse trajeto, pois apresenta um morto que ainda não realizou a passagem, um avô que na verdade é pai, uma tia que geneticamente é mãe, uma verdade que, descoberta, permanecerá em silêncio, um sonho de independência política que não se cumpriu completamente, uma aldeia insular, nem continente, nem apenas água, uma mulher que conhece os segredos mais recônditos da terra, a ponto de surgir das cavernas, mas que domina, ocultamente, a língua do branco colonizador. Cartas reveladoras, enunciadas pelo pseudo morto, grafadas pelo pseudo neto, um tio que, diurnamente, se abstém das causas e das lutas, desejando "insubstantivar-se", mas que , à noite, se embriaga de sexo e de álcool, como forma de ir-se, de se desterritorializar.
Ao relativizar os pertencimentos, a ficção de Mia Couto torna tênue a idéia de fronteiras que se confirma na voz do "filósofo" popular de Luar-do-Chão, Juca Sabão: Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras. Mas só há duas nações - a dos vivos e a dos mortos (p.13). Se, de um lado, há questões locais que gritam por resistência e permanência, há, por outro, a consciência de que a terra é de todos. As fronteiras são criações humanas nascidas da ambição desmedida e do desejo desmesurado de posse.
A imagem do rio, nesse caso, é fundadora de uma proposta singular de novos pertencimentos. O rio são as águas que envolvem o ventre no feto, por isso, Mariano, o jovem, inicia sua narrativa nele e a partir dele, já que voltar à Ilha, pelos caminhos da água, seria enroscar-se no centro do útero que o fecundou: Vou pelo corredor, alma enroscada como se a casa fosse um ventre e eu retornasse à primeira interioridade (p.111). E o que é o útero senão um lugar de passagem, da primeira experiência de travessia humana, um entrelugar?
Sendo líquida e fluída, a água é impossível de ser retida pelas mãos. Esvai-se. Mesmo contida em recipientes, evapora. O rio traz o passado, mas caminha para o futuro, brota do interior, mas segue em direção à exterioridade absoluta que é o oceano. O rio é o tempo, é a história que corre, mas é também o espaço, o lugar do entre, do trânsito, da navegação. Haveria, então, melhor imagem para emoldurar o destino humano?
É sobre passagens, travessias, destinos, lugares e existências em trânsito que a narrativa de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra fixa sua raiz, numa enunciação em primeira pessoa, mais receptiva à audição do outro que a de um narrador onisciente, o que permite ao leitor penetrar numa experiência cultural insólita, onde os limites entre imaginário e realidade podem romper-se a qualquer instante, instalando em quem acompanha os fatos o sentimento de estar transgredindo a própria condição humana.
COUTO, Mia. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra . São Paulo: Cia das Letras, 262 p., 2003.
TODOVOV, T. O homem desenraizado. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 1999, p 15. Todas as citações foram retiradas desse edição.
AUGÉ, Marc. Non-lieux: introduction à une anthropologie de la surmodernité, Paris : Seuil, 1992.
LARANJEIRA, Pires. "O riso e a melancolia". Jornal de Letras . Paços d´Arcos. 30 de outubro de 2002.