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Eros em Navalha na Carne
Raquel Fonseca (UEMG)
Pareceu-nos, desde o primeiro contato com as obras dramáticas de Plínio Marcos, em especial, Navalha na Carne que o erotismo toma uma dimensão direcionadora que nos permite compreender o texto literário não como reflexão, mas enquanto tradução de um momento de tensões político-sociais metamorfoseadas na tensão presente no discurso dramático.
Navalha na carne provoca no leitor/espectador um estranhamento; a atitude inicial despertada é a de não-aceitação de que qualquer tipo de semelhança ou relação possa se estabelecer entre o universo criado na obra e a idéia que temos de civilização. Temos a impressão de que a obra nos apresenta seres totalmente estranhos e desconhecidos; entretanto, ao adentrarmos na obra como ignorarmos o encontro que temos com nós mesmos? A figura do homem se nos descortina lenta e enfaticamente na progressão da obra, sendo construída em um processo no qual a estrutura do texto juntamente com o esquema dos diálogos, revela-nos a natureza mais profunda das personagens ( e do homem).
Considerações a respeito de Eros feitas por Bataille, Marcuse e Foulcault nos foram imprescindíveis nesta pesquisa. Como a clara distinção entre o erotismo e a atividade sexual, pelo direcionamento que o erotismo toma ao se distanciar da simplicidade da atividade sexual animal, mostrando-se independente da reprodução como fim; as mudanças às quais Eros se viu submetido, impostas pelas estratégias que transformam as carências e a coação irracional em privilégios e distinção do homem; o papel do discurso sexual, muitas vezes, sustentado por estratégias de silêncio sistematicamente organizadas que cercam por todos os lados a sexualidade da sociedade cristã ocidental.
Octavio Paz sugere-nos o escândalo ou surpresa que teriam os comensais de O Banquete de Platão, na hipótese de observarem a nossa sociedade em seu relacionamento com Eros: Sexo, matéria de debate político?¹ No passado foi comum a fusão do erotismo e da religião, mas o que se observa nos nossos dias é que o erotismo perdeu sua dimensão espiritual e passional ao ser absorvido pela política. Segundo o poeta/crítico, o ano de 1968 foi marcado por um relevante acontecimento, a chamada Explosão da sexualidade , cujo grande mérito teria sido atrever, com exemplar ousadia, proclamar e tentar levar a prática as idéias liberais dos poetas e escritores da primeira metade do século.
Entretanto essa liberação sexual que poderia ter sido marco de uma liberação maior do homem, foi, já em seus primeiros momentos, absorvida por uma sexualidade racional e sistematizadora, cuja lei maior é o lucro. Eros teria sido submetido a uma transformação que lhe afetou a própria essência, perdendo seu aspecto afetivo, tornando assim quase impossível ver no outro a parte que nos completa, a resposta certa a ânsia de continuidade vital do homem em sua eterna busca de si mesmo e do divino para o qual quer convergir. Como conseqüência a pessoa perde a alma, torna-se apenas um corpo, um objeto do qual se pode apossar em busca de benefícios pessoais.
O crime dos revolucionários modernos foi o de expulsar do espírito revolucionário o elemento afetivo. E a grande miséria moral e espiritual das democracias liberais é sua insensibilidade afetiva. O dinheiro confiscou o erotismo porque antes as almas e os corações já haviam sido secado. (PAZ, 1994, p.154)
Silviano Santiago, Flora Sussekind ao analisarem a arte literária que se desenvolve nos anos da ditadura militar observam a presença de temas como: a utópica conscientização político- ideológica em obras de ideário esquerdistas que não puderam sair do espaço limitado ao próprio meio de sobrevivência dos intelectuais e artistas; apontam ainda a percepção por parte dos artistas, em especial dos tropicalistas de que a esquerda também encontrava-se presa a moldes de excessiva racionalidade já que nela o indivíduo perdia seu valor pessoal em face da contemplação do social.
Plínio Marcos fez do elemento erótico um recurso na construção do seu texto, a latência do erótico manifesta-se em toda a obra, confrontando-nos com revelações a cerca de diferentes aspectos da vida humana relacionados ao erotismo. É por meio do erótico que o dramaturgo nos apresenta as personagens,elas são seres sexuais: os fatos, as ações têm estrita relação ou são conseqüência direta da vida sexual das personagens que vivem do e para o sexo. As personagens estão presas a uma sistemática cuja estrutura é o sexo; ao mesmo tempo que são resultados desta sistemática, são responsáveis por sua continuidade.
No mundo sistematizado, portanto racional, onde Vado, Neusa Sueli e Veludo são peças básicas e fundadoras, cada um deles recebe atributos diferentes, são seres distintos. Neusa Sueli, por exemplo, tanto acredita na validade de ser explorada, mera mercadoria de Vado que suporta a abstinência sexual, como se fosse realmente válida a relação que vivenciam, tanto que luta ferozmente para conservar o relacionamento; Vado, por sua vez, não se mostra nada constrangido em somente receber favores da mulher e ofertar-lhe seu desprezo como recompensa, afinal está convencido de que à espécie masculina pertence o poder, o controle, a força, mas não percebe a fragilidade desse poder, que em diversos momentos é desmascarado porque perde em eficácia (a confissão do roubo só é conseguida após a intervenção da prostituta e da navalha).
Os elementos que formam o universo do "quarto três" estão intimamente ligados ao erotismo. Os desejos sexuais inatos transformaram-se, tornando-se parte coesa de um todo social com regras e objetivos bem definidos e que sobretudo ignora a possibilidade da prática do ato sexual. O desejo sexual toma uma dimensão diversa da sexualidade animal e quase não o reconhecemos; o sexo em Navalha na Carne é convenção.
Neusa Sueli deseja o ato sexual com Vado buscando um complemento, um sentido para os desencontros que é a vida; para ela o sexo é afeto, todavia não o encontra, pois procura algo que não mais existe. Por outro lado, a quase realização do ato sexual entre Vado e Veludo não tem o mesmo sentido atribuído pela prostituta, sendo antes o resultado de um jogo, onde o que excita é a possibilidade de dominar o outro, o uso da palavra dissimulada que emudece o outro; é a razão que se manifesta poderosa e não permite a mínima afetividade.
Desafiado pelo homessexual, Vado se demonstra frágil e abre espaço para que uma nova relação de dominação ocorra: a primeira fora estabelecida entre o cafetão e a prostituta no início da obra; a segunda, surge com o enfraquecimento de Vado diante da sedução de Veludo. Em meio a um jogo violento de submissão, de negação, de masoquismo e de sadismo, o discurso autoritário e dominador de Vado perde em potencial e ele se submete derrotado pelo desejo sexual. As mesmas estratégias usadas para dominar Neusa Sueli, são as empregadas por Veludo a fim de ter o domínio sobre o cafetão
A vida sexual destroçada, descaracterizada, sem sentido das personagens é posta em primeiro plano por meio do sexo, ou melhor, pela ausência dele. È neste espaço de ausência que o dramaturgo configura um grito transgressor e revolucionário que causa repugnância à sociedade racionalizada pelo modus operandi da reificação. A navalha em sua tentativa de arrancar fora e castrar - o que poderia efetivamente provocar uma mudança radical em todas as estruturas - é arma usada para refrear a transformação, castrando a sexualidade do prazer ou seria o prazer da sexualidade?
¹ PAZ, Octavio. A Dupla Chama: amor e erotismo. Tradução Wladyr Dupont. São Paulo: Siciliano,1994)