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Blade Runner, o elogio do simulacro.
Maria Antonieta Jordão de Oliveira Borba (UERJ)

Apresentação

 

A presente comunicação insere-se em um projeto mais abrangente: o da tese de doutorado intitulada Humanóides pós-naturais , que pretende investigar a relação entre a subjetividade contemporânea e o mito literário Frankenstein 1, a partir de seus desdobramentos na cultura moderna e contemporânea. Constituem o corpus daquela pesquisa, o romance L'Éve Future 2 (1886), de Villiers De L'Isle Adam, o pop star Michael Jackson e o filme Blade runner (1982), de Ridley Scott.

Este trabalho abordará a questão do simulacro através da análise da personagem Roy, líder dos andróides em Blade runner, e de sua relação com seu criador, o cientista biotecnólogo Tyrell .

Pretende-se, aqui, fazer uma leitura nietzscheana da referida personagem, que será comparada à criatura artificialmente criada por Victor Frankenstein, considerada uma versão do super-homem anunciado por Zaratustra ( Nietzsche, 1999), conforme foi defendido em minha dissertação de mestrado.

A questão do estatuto ontológico dos andróides, central em Blade runner , é indissociável daquela referente ao estatuto do simulacro na cultura contemporânea.

Tido como um marco da ficção científica cinematográfica pós-moderna, na qual prevalece a chamada "estética do simulacro", Blade runner é um dos mais cultuados filmes do século passado. Para estudá-lo recorrerei, além de Nietzsche, às reflexões de Jean-François Lyotard acerca da pós-modernidade.

 

III - Roy, o super-simulacro

 

Para compreenderrmos Blade Runner e particularmente a personagem Roy, líder dos andróides é interessante termos claras algumas características da arte pós-moderna. Tanto do ponto de vista estético quanto temático, Blade Runner pode ser considerado um dos mais completos representantes cinematográficos deste movimento oriundo da arquitetura que, nos anos oitenta, invadiu todos os setores da sociedade.

Jean-François Lyotard, na obra que leva o irônico título Le Postmodern expliqué aux enfants 3, discute, sem pretensões conclusivas, idéias suas e de outros autores sobre o tema, tanto de apologistas quanto de ferrenhos combatentes do sempre polêmico "pós-moderno".

Chamou-se pós-moderna, refere-se Lyotard, à arquitetura que rompeu com o funcionalismo arquitetônico e revogou a "hegemonia concedida à geometria euclidiana"( Portoghesi apud , Lyotard 1999, p.93). Outro aspecto da arquitetura pós-moderna que rompe não apenas com o funcionalismo mas com a principal marca moderna - a própria ruptura - é o ecletismo estilístico e histórico., A tradição da modernidade é, precisamente, romper com a tradição. Ao revisitar estilos e períodos vários, o pós-moderno interrompe a compulsão moderna de apresentar sempre o "novo". Neste sentido, Blade Runner é emblemático: em uma Los Angeles sombria, sob constante chuva ácida, prédios futuristas que evocam paradoxalmente pirâmides egípcias são o cenário de uma metrópole caótica, onde as mais diversas línguas e etnias se mesclam e naves voam desordenadamente, de modo nada euclidiano, em todas as direções.

A descrição acima enquadra-se perfeitamente na de Lyotard sobre o cenário pós-moderno: "uma espécie de 'bricolage': uma abundância de elementos roubados a estilos ou períodos anteriores, clássicos ou modernos; a pouca consideração para com o meio-ambiente , etc" (p.94, grifos meus).

Outro aspecto fundamental da pós-modernidade, segundo Lyotard, é o fato de o "pós" de seu nome não significar obrigatoriamente que chegamos a um momento posterior à modernidade, o que seria um contra-senso, vez que "moderno" significa atual. O autor prefere considerar a pós-modernidade como o momento em que a modernidade reflete sobre si própria, revendo seus fundamentos e certezas, até então, "universais". Uma dessas certezas que foi estruturalmente abalada, refere-se a própria noção de humano. Conforme foi argumentado, a biotecnologia põe em crise critérios básicos de "humanidade", tais como a inteligência e o código genético. Em Blade Runner, já nem mesmo a capacidade de sentir emoções diferencia humanos de andróides.Sua moral parece ser: nos dias atuais não há certezas, nem mesmo ontológicas.

A crise do sujeito moderno - centrado e cartesiano - é notória na contemporaneidade, mas seus sinais se fazem sentir desde há muito tempo. Isso é claramente perceptível em Frankenstein, uma obra romântica. Nesta, o protagonista divide-se em um duplo antagônico, sua criatura, na qual ele não se reconhece e por quem nutre um ódio mortal e em quem conseqüentemente desperta um sentimento recíproco. O monstro é simultaneamente uma metáfora do inconsciente de Victor Frankenstein - espécie de ancestral do Mr. Hyde , de Stevenson - e representação da alteridade cultural, de tudo que foge à normalidade do mesmo ou centro , que na sociedade ocidental moderna é encarnado pelo ser: humano, do sexo masculino, branco, heterossexual e bem sucedido financeiramente. Logo, o monstro pode assumir vários papéis, todos marginais, como a criatura, em Frankenstein ou um andróide, em Blade Runner. O que importa é que estes "monstros" põe em cheque o narcisismo do sujeito ocidental moderno, que passa a desconfiar de sua universalidade. Porém, como já disse o poeta "narciso acha feio o que não é espelho", e este Outro é invariavelmente rejeitado por quem dita os parâmetros vigentes, como ocorre aos andróides. Neste sentido, eles podem ser lidos como versões da criatura frankensteiniana: igualmente criados através da ciência e rejeitados por seu criador. Este, por sua vez, tem mais diferenças do que afinidades com Victor Frankenstein - embora seja inegavelmente sua versão contemporânea, pois atualiza o mito criando, através da ciência, seres artificiais que o destruirão.

Enquanto Frankenstein era movido primordialmente pela hybris de tornar-se "um novo Deus de uma nova espécie", sem interesses financeiros, a hybris de Tyrell é sua desmedida ambição, que lhe impede de dormir à noite, quando calcula seus lucros.

Na modernidade e, principalmente, na pós-modernidade, a ciência torna-se tecnologia, como vimos na análise do mito Frankenstein . Isso significa que não há ciência ou cientista desvinculados dos interesses capitalistas, muitas vezes dissimulados sob o ideal "humanista" do progresso, cada vez mais desacreditado. Eis o que afirma Lyotard a propósito do declínio do projeto moderno:

Este declínio do projeto moderno não é, no entanto, uma decadência. É acompanhado pelo desenvolvimento exponencial da tecnociência. Ora não há e não haverá mais recuo nos 4 saberes e nos "saber-fazer", a não ser que seja para destruir a humanidade. É uma situação original na história. Traduz uma verdade antiga que hoje explode com uma violência particular. Nunca a descoberta científica ou técnica foi subordinada a uma procura com origem nas necessidades humanas (...) é que o desejo de saber-fazer e de saber é incomensurável relativamente ao benefício que se pode esperar de seu crescimento ( p.102 e 103, grifos meus).

 

O cientista Tyrell sofre de um individualismo ainda maior do que o de Frankenstein. Enquanto este se isolou e se sacrificou para salvar a humanidade de sua criação, a única "ética" de Tyrell - solitário e sem amigos - é obter cada vez mais lucro, criando seres "mais humanos que os humanos". Como Frankenstein, Tyrell também almeja o "além-homem" nitzscheano, superior ao humano e que o ultrapassará. Contudo, como vimos, a motivação de Tyrell nada tem de filosófica ou humanitária, sendo meramente lucrativa. Uma vez fracassada a "grande narrativa" moderna de uma igualdade universal, os cientistas, a exemplo de Tyrell, podem assumir sem culpa ou hipocrisia seu mercenarismo.

É interessante notar que, enquanto em Frankenstein Deus está completamente ausente - proclamando assim sua morte antes de Nietzsche fazê-lo na filosofia - em Tyrell, ele retorna, mas como farsa. Antes de matá-lo, Roy assegura a seu criador não haver feito nada, em seus quatro anos de vida, que lhe impedisse de "entrar no céu da biomecânica". O retorno da tradição (no caso, a cristã) sob a forma de pastiche e através de um simulacro (Roy) é outro traço tipicamente pós-moderno de Blade Runner .

Em Assim falou Zaratustra 5, uma mescla de filosofia e poesia, Zaratustra anuncia a morte de Deus e considera-se o profeta que prepara a vinda do super-homem, como foi exposto anteriormente. Tão esperada vinda significa, na verdade, um retorno : o de Dioniso.

Nietzsche reconhece nos heróis trágicos a onipresença de Dioniso, de quem aqueles, até Eurípides, não passariam de máscaras; e é tal idéia que interessa reter aqui, pois Nietzsche considera Prometeu o mais dionisíaco dos heróis da tragédia ática, aquele que em momento algum arrepende-se de sua hybris . É a afirmação dionisíaca a tudo, o SIM prometeico até mesmo ao sofrimento, que Eurípides, juntamente com Sócrates, baniu do drama grego, através da exaltação do homem teórico. Esse espírito afirmativo, dionisíaco, "além do bem e do mal", que Nietzsche espera que retorne através do super-homem, não necessitará de deuses ex-machinas , nem do céu cristão para justificar sua existência, pois seu "consolo metafísico" é a própria vida, que permanece após passarem as ilusórias individualidades forjadas por Apolo.

Cabe ressaltar que a referida noção nietzscheana de herói trágico denota a idéia de uma unidade entre os seres, para a qual a consideração da individualidade seria a causa do mal, pois, segundo o mito, a paixão dionisíaca - o dilaceramento sofrido pelo deus - gerou os diferentes indivíduos, que representam o princípio apolíneo , individualizador.

No romance de Mary Shelley, o monstro foi criado a partir de pedaços de cadáveres, dilacerados por Frankenstein e artificialmente reunidos para formar um novo organismo, que o cientista ressuscitou através da eletricidade. Também os andróides são "ativados" através da eletricidade e, embora não sejam formados por cadáveres, possuem identidade igualmente heterogênea pois, além de serem uma fusão de humano e máquina, muitos deles (sem o saber) receberam implantes de memórias de terceiros, como é o caso de Rachel.

Em Blade Runner , como em Frankenstein , o simulacro é superior em força e inteligência à grande maioria do seres humanos. Tal fato desconstrói, a um só tempo, a lógica platônica e a aristotélica, que forneceram as bases da doutrina eclesiástica. Platão considerava o simulacro - a arte - "cópia da cópia" e, portanto, a instância mais degradada de representação da Idéia, origem de tudo. Aristóteles, por sua vez, descordava de seu mestre quanto à questão da arte (simulacro), não vendo nada de errado na imitação( mimese ), porém julgava ser o homem o ponto máximo na escala dos seres, o mais próximo da perfeição divina. Ora, tanto o monstro frankensteiniano quanto Roy são superiores até moralmente ao humanos, como demonstrei a respeito de Frankenstein e como já havia ressaltado, anteriormente, Décio Cruz (1998) a respeito dos andróides, em sua tese de doutorado sobre Blade Runner . Isso podes ser percebido no diálogo final entre Roy e Deckard, quando este é salvo pelo andróide a quem tentara "aposentar". É também neste sentido que vejo Roy como uma versão do super-homem, pois integra em si suas características principais. Ele, o mais perfeito entre os andróides, foi criado para ser mais humano que o humano , sendo "dionisiacamente" excessivo em todos seus atributos: força, beleza, inteligência e "humanismo". Roy é Dioniso que retorna. É interessante notar que Zagreu, embora filho do próprio Zeus, teve pais adotivos. Tal "orfandade"é comum a Roy, que embora tenha tido a mente criada por Tyrell - espécie de Zeus pós-moderno - foi conjuntamente criado por outros projetistas, como Sebastian.

Por fim, enfatizo que a principal marca dionisíaca de Roy é seu espírito afirmativo que, qual Prometeu, de nada se arrepende e a tudo afirma. Esses aspectos são evidentes no referido episódio em que Roy diz a Tyrell que, embora tenha feito coisas "questionáveis", nada havia que lhe impedisse de ir para o "céu da biomecânica", e na evidente apologia que faz - especialmente quando está prestes a morrer - da vida em si, com tudo de dor e prazer que ela contém, inclusive a vida de seu próprio inimigo.

Quero ressaltar, ainda, que embora a dimensão desta monografia impeça um maior aprofundamento nos temas tratados -- o que deverá acontecer ao longo da pesquisa de doutorado -- o presente trabalho revelou uma hipótese a ser investigada com particular atenção: a de que o andróide, por enquanto existente apenas na ficção científica, seja uma máscara sob a qual retornará a força dionisíaca do super-homem, que nos superará.

 

 

Referências Bibliográficas

LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno explicado às crianças. Lisboa: D.Quixote, 1999.

NIETZSCHE, Friederich W. Os pensadores. Trad. Rubens Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

_____. Assim falou Zaratustra . Trad. Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claket, 1999.

_____. O nascimento da tragédia ou Helenismo e pessimismo . 2. ed. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Cia. das Letras, 1992.

 

Notas:

CRUZ, Décio. Postmodern Metanarratives: Literature in the age of image . Scott's Blade Runner and Puig's novels. Tese de doutorado. State University of New York at Buffalo. EUA, 1998.

SHELLEY, Mary. Frankenstein . England, Penguin Classic, 1992.

L'ISLE-ADAM, Villiers, L'Éve Future . São Paulo, EDUSP. 2001.

  LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno explicado à crianças . Terceira edição. Lisboa. Editora D. Quixote, 1999

NIETZSCHE, Friedrich, Assim falou Zaratustra . São Paulo: Martin Claket, 1999.