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virada de jogo na imprensa esportiva
Marcelino Rodrigues da Silva (UNINCOR-MG)
Em sua biografia de Nelson Rodrigues, Ruy Castro conta que Mário Filho foi contratado pelo jornal O Globo por Roberto Marinho em 1931, pouco depois que este assumiu a direção da empresa. O Globo havia sido fundado em 1925 por Irineu Marinho, que morreu no mesmo ano e foi substituído na direção do periódico por Eurycles de Mattos. Nos primeiros dias de maio de 1931, Eurycles de Mattos também faleceu e Roberto Marinho resolveu tomar as rédeas da empresa fundada por seu pai, convidando Mário Filho para, nas palavras de Ruy Castro, "assumir a página de esportes" do jornal. O jovem Mário, que se formara na redação de A Manhã e Crítica (duas folhas sensacionalistas fundadas por seu pai, Mário Rodrigues) não apenas aceitou a proposta, como levou os irmãos Joffre e Nelson Rodrigues para integrar sua equipe. 1 Embora não seja possível saber com precisão as funções que esses jornalistas desempenharam ao chegar, a leitura das edições dessa época deixa claro que houve, a partir daquele momento, uma acirrada disputa pelo controle editorial das páginas esportivas desse jornal.
Nos primeiros meses de 1931, o noticiário esportivo d' O Globo já ocupava espaços bem maiores do que as "duas míseras colunas" a que costumam se referir os textos sobre Mário Filho. Nas edições matutinas de segunda-feira, toda a capa, que geralmente trazia apenas uma manchete e uma reportagem fotográfica, e todas as páginas 2 e 8 eram dedicadas à cobertura das competições da véspera. Nos outros dias, a seção " O Globo nos sports", normalmente publicada na página 8, ocupava espaços menores, que iam de duas colunas a uma página inteira. Também era comum que informações sobre assuntos esportivos fossem publicadas na seção "Última Hora". A edição do noticiário esportivo d' O Globo esteve, nessa época, sob a direção do jornalista Netto Machado e contava com a declarada simpatia do diretor do periódico, Eurycles de Mattos. Apesar desse relativo destaque, as páginas de esporte desse jornal ainda eram produzidas segundo uma concepção jornalística bastante tradicional, muito semelhante à que havia predominado ao longo das décadas anteriores em toda a imprensa esportiva brasileira. 2
Na escolha das pautas, a seção de esportes d' O Globo rendia-se ao crescimento do futebol e dedicava-lhe maior destaque do que a outras modalidades esportivas. Mas ainda eram comuns as notas sobre os eventos sociais que animavam a vida dos grandes clubes, as críticas preconceituosas e seletivas ao mau comportamento dos atletas e torcedores e as fotos de cartolas e jogadores em terno e gravata. No aspecto formal, a seção esportiva d' O Globo também continuava reproduzindo o padrão tradicional. As diversas notícias eram dispostas em um só texto e precedidas por um comentário inicial que as submetia a um enquadramento analítico único. No alto da página, o título da seção, " O Globo nos sports", abaixo do qual vinham todas as notícias separadas apenas por pequenos subtítulos, encarregava-se de dar expressão gráfica a essa organização discursiva. Na página 2 das edições matutinas de segunda-feira, o relato dos eventos da véspera era precedido por um lead com uma sinopse do noticiário e por um comentário. Nos outros dias, a seção também era aberta por um comentário, em que os fatos do momento eram analisados e hierarquizados. Muitas vezes esses comentários iniciais apareciam sob o subtítulo "Reparo do dia", ganhando a feição de uma coluna de opinião cuja autoria era, certamente, de Netto Machado. Nesses espaços de análise e opinião que enquadravam o noticiário, continuavam a ser exaltados valores como civilidade e cavalheirismo e defendidas as fronteiras físicas e simbólicas que separavam a vida esportiva das elites.
Nas últimas edições de maio de 1931, surgiram os primeiros indícios de uma disputa pela definição da linha editorial das páginas de esportes d' O Globo . O espaço dedicado aos assuntos esportivos durante a semana passou a ocupar, eventualmente, toda a página 8 e parte da página 7. O número de fotos e desenhos que ilustravam o noticiário aumentou e, no início de junho, começaram a aparecer textos um pouco diferentes, que já deixavam entrever um novo estilo de cobertura jornalística. Durante as primeiras semanas de junho, esse novo estilo editorial foi ganhando espaço e se fazendo mais perceptível, até que, na primeira edição do dia 17 de junho, o processo teve seu lance decisivo. Na página 8, o clichê com o título da seção foi substituído por uma manchete e toda a página foi ocupada por matérias autônomas, com enfoques que variavam do dramático ao humorístico. Deslocada de seu espaço original, a seção " O Globo nos sports" foi publicada na página 7, com apenas três colunas e iniciada por um comentário em que se fazia o tradicional elogio às virtudes diplomáticas do esporte. A partir daí, a página 8 passou a ser sempre encabeçada por uma manchete e preenchida por matérias autônomas, enquanto na página 7 continuavam a ser publicados textos nos moldes da antiga seção de esportes do jornal. Em algumas oportunidades, os dois espaços chegavam a se contrapor ostensivamente, emitindo opiniões francamente contrárias sobre algum assunto. Na página 7 costumavam aparecer até mesmo algumas críticas explícitas ao modo como o esporte era abordado na página 8. Como na primeira edição do dia 4 de julho, em que o "Reparo do dia" afirma:
Há muita gente (...) que se mete a falar e a tratar de sport , sem saber o que é sport ! (...) Sport não é brincadeira, é exigência social; não é divertimento, é fator de aperfeiçoamento físico para o apuro das raças. Quando vem um pobre diabo a gastar tinta e papel, pensando que faz graça sportiva, o que desejamos é que lhe entre um sopro de consciência pela cabeça a dentro, para que não se meta a enxovalhar, com sandices, assunto racial tão delicado.
A disputa entre os dois estilos editoriais permaneceu assim ao longo de todo o segundo semestre de 1931. No final do ano, após o término da temporada oficial de futebol, a seção " O Globo nos sports", na página 7, se tornou intermitente. No final de março do mesmo ano, com o início da temporada futebolística, os assuntos esportivos voltaram a dominar totalmente as páginas 7 e 8, mas ambas passaram a ser produzidas no novo estilo de abordagem jornalística dos esportes e encabeçadas por manchetes. O "Reparo do dia", encravado no meio da página 8, e as duas primeiras páginas da edição matutina de segunda-feira eram tudo o que restava da antiga seção de esportes d' O Globo . Assim terminava o que, ao que tudo indica, foi uma batalha entre os jornalistas Netto Machado e Mário Filho pelo controle editorial das páginas de esporte daquele jornal.
A nova seção esportiva do periódico era, nos mais diversos aspectos, muito diferente da antiga. Visualmente, ela se tornou mais leve e atraente, recebendo um tratamento gráfico mais elaborado e criativo. A diagramação, como vimos, deixou de ser feita como se todas as notícias fossem parte de um só texto. O título " O Globo nos sports", no alto da página, foi substituído pela manchete, que colocava em destaque algum dos assuntos do dia. Os comentários, informações e depoimentos passaram a ser veiculados em matérias autônomas, que eram dispostas em blocos gráficos independentes e separadas por fios, molduras, espaços em branco, vinhetas e passe-partouts adornados com arabescos. Essas matérias traziam títulos e subtítulos em tipos bem maiores do que os do texto, marcando sua independência lógica em relação ao resto da página e enfatizando algum aspecto de seu conteúdo. As manchetes, que também tinham a função de ênfase, eram sempre realçadas por fios e vinhetas gráficas. No corpo dos textos, começaram a ser utilizados tipos com tamanhos e formatos variados e espaços entre linhas maiores, sublinhando as passagens mais interessantes e contrastando com a massa compacta de letras pequenas e uniformes da antiga seção de esportes do jornal. Além disso, a maior parte das matérias era ilustrada por fotografias, desenhos, fotos-legendas e montagens fotográficas. Era nos desenhos que o jornal mais se distinguia, especialmente a partir de julho de 1931, quando Antônio Nássara, que havia trabalhado com Mário Filho em Crítica , passou a integrar a equipe, produzindo títulos com letras desenhadas, charges e caricaturas.
Havia, nesse novo tratamento gráfico, uma evidente preocupação com a legibilidade e a harmonia estética da página do jornal, com o objetivo de seduzir o público e aumentar as vendagens. Algo que só poderia ser feito por meio de uma ampliação do perfil social dos leitores, dos quais já não se deveria exigir um conjunto muito amplo de competências de leitura. As características mais importantes desse novo tratamento gráfico, no entanto, eram a fragmentação e a disputa entre os diversos recursos de ênfase pelo olhar do leitor. Quebrando a unidade visual da página, a fragmentação do noticiário correspondia a uma mudança importante nos próprios textos, que se abriam a diferentes formas de aproximação do universo esportivo. Disputando a atenção do leitor, como vozes que se avolumam para serem escutadas em um diálogo, os recursos de ênfase sublinhavam essa diversidade, contrapondo pontos de vista e abolindo as hierarquias temáticas que a diagramação tradicional estabelecia e sustentava.
Articulada a esse novo tratamento gráfico, portanto, houve também uma importante transformação no modo como as notícias eram obtidas e transformadas em texto. Concorreu para isso o fato de que os dois tipos de abordagem jornalística dos esportes conviveram por algum tempo no jornal. Assim, as principais informações e os comentários de praxe sobre os eventos esportivos eram quase sempre antecipados pelas primeiras páginas das edições matutinas de segunda-feira e pela página 7 das demais edições, onde o enfoque tradicional ainda prevalecia. Por isso, a página 8 tinha que se desdobrar para produzir um material original, que despertasse a curiosidade dos leitores. Convergindo com essa necessidade, a experiência de Mário Filho e seus colaboradores na redação de A Manhã e Crítica havia deixado, como legado, uma concepção bastante incomum do trabalho jornalístico. Numa declaração publicada pelo Jornal do Brasil em 17 de setembro de 1966, logo após sua morte, o próprio Mário Filho definiu essa concepção: "quero que meu jornal não se limite a publicar a notícia, mas [se proponha] também a criar a notícia, a ser ele mesmo a notícia".
Livre da função de informar e comentar os acontecimentos mais importantes, esse espaço editorial se dedicava sobretudo ao que antes era considerado pouco importante ou mesmo inadequado às páginas dos jornais. Em lugar dos elogios ao comportamento cavalheiresco dos atletas, das críticas aos "sururus" e dos comentários sobre a elegância da platéia e o glamour dos bailes em que a juventude esportiva se confraternizava, surgiu uma nova temática. Ampliando a noção do que era considerado fato jornalístico, a nova seção de esportes d' O Globo abria seu espaço a assuntos como as opiniões, emoções e expectativas dos atletas e torcedores, os detalhes cômicos ou dramáticos dos treinos e dos jogos, as polêmicas que agitavam os bastidores dos clubes e a vida privada dos cracks .
Para explorar essa nova temática e desencravar do cotidiano esportivo o material para suas notícias, a equipe da página 8 lançava mão de um farto repertório de procedimentos de investigação e obtenção dos fatos jornalísticos. Inspirado no jornalismo sensacionalista, O Globo enviava seus repórteres aos treinos dos times, aos vestiários dos jogos, à casa dos atletas e aos bares e cafés que eles freqüentavam, para entrevistar jogadores e cartolas, conseguir furos, fazer novas fotografias e surpreender episódios curiosos ou conversas reveladoras. Essa postura invasiva e impertinente era tão importante que as peripécias do repórter em busca da notícia acabaram se transformando em um dos temas prediletos do jornal. Era comum que as matérias trouxessem referências ao trabalho de reportagem, registrando o modo como a notícia tinha sido obtida, as circunstâncias particularmente difíceis ou curiosas que a cercaram e os esforços que foram necessários para consegui-la. O repórter, sempre de "ouvidos atentos", "memória sensível" e "curiosidade voracíssima", se tornava um verdadeiro personagem do mundo esportivo.
Por fim, as transformações chegaram também ao modo como a notícia era redigida, à forma como os fatos e depoimentos obtidos pelo repórter eram expostos ao público. Já foi mencionada a substituição do título geral da seção esportiva pela manchete e o uso de títulos e subtítulos. Houve também uma mudança na linguagem, que abandonou o tom oratório da crônica esportiva tradicional e se tornou mais simples e coloquial, acompanhando a nova temática. Além disso, como vimos, a estrutura dos textos sofreu uma transformação importante, relacionada à fragmentação do noticiário em matérias autônomas. Em lugar do formato tradicional, que emoldurava o relato com comentários de análise e avaliação, eram publicados textos mais curtos, em que cada um dos temas era abordado de uma forma específica. A narrativa, o diálogo e o depoimento passaram a ser mais utilizados, disputando com o comentário o controle sobre os sentidos e valores dos fatos e produzindo textos estruturalmente mais abertos à incorporação de diferentes perspectivas interpretativas.
Com essa nova abordagem, a equipe dirigida por Mário Filho produzia um jornalismo esportivo radicalmente diferente do usual, libertando-se dos limites impostos pelas regras e valores que regulavam a vida esportiva oficial. Como exemplo dessa transformação e do potencial de conflito que ela carregava, vale a pena citar um texto publicado no dia 23 de junho de 1931 como apresentação da coluna "No vestiário depois do jogo", em que a reportagem d' O Globo revelava, quase sempre em humorístico, a intimidade dos bastidores esportivos:
O vestiário dos jogadores, imediatamente depois da peleja, sempre oferece aspectos de um pitoresco único. (...) É no vestiário que os jogadores se mostram mais sinceros, de uma franqueza perfeita. Revelam todos os sentimentos que os agitam, sem reticências. Têm, no momento, a voluptuosidade da confissão. Não há intimidades de alma que não [se] sacrifiquem à curiosidade voracíssima do cronista. Isso porque o calor da peleja ainda os inflama, a febre os estonteia, emudecendo, anulando os sentimentos coibitivos, apagando, momentaneamente, o pavor das verdades indiscretas.
Glosando o título de um livro de Jesús Martín-Barbero, pode-se dizer que essa transformação deve ser vista por duas perspectivas diferentes e complementares. A primeira seria a perspectiva (teórica) dos "meios", em que interessam os processos de produção, o modo de funcionamento semiótico e as funções potenciais dos bens culturais veiculados pela comunicação de massa. A segunda seria a perspectiva (histórica) das "mediações", ou seja, do modo como esses produtos culturais se relacionam a um determinado contexto político e social, oferecendo-se ao uso de atores sociais concretos e interagindo com suas demandas materiais e simbólicas. 3
Da perspectiva dos meios, vimos que a nova abordagem jornalística desenvolvida pela equipe de Mário Filho abandonou uma série de recursos de representação cuja finalidade era manter sob controle as possibilidades de interpretação do esporte. Valendo-se da escolha dos temas e formas textuais, dos métodos de obtenção da notícia, das escalas de valores que orientavam os juízos e até da diagramação, a imprensa esportiva tradicional construía e reiterava um modo único de viver e compreender o futebol. Na nova seção esportiva d' O Globo , todos esses recursos foram reelaborados, de forma a ampliar as possibilidades de interpretação do esporte e abrir as páginas dos jornais ao que escapava àquela perspectiva homogeneizante. Pode-se afirmar, então, que, na página 8 d' O Globo , rompe-se o caráter monológico e unívoco da imprensa esportiva tradicional e constrói-se um discurso jornalístico mais aberto ao diálogo e ao contato com a diferença, mais permeável às formas de fruir e interpretar o futebol que vinham se desenvolvendo clandestinamente desde o início de sua popularização.
Resta-nos, então, refletir, da perspectiva das mediações, sobre o que representou essa transformação na história da disputa pelo controle simbólico do futebol no Brasil. A obra de Jesús Martín-Barbero, que se concentra justamente no modo como a comunicação de massas se prestou a um combate pela hegemonia sobre as representações culturais, propõe algumas idéias que podem ser bem úteis a essa operação. Depois de fazer um apanhado das teorias que vêm balizando o debate sobre os meios massivos e dos precedentes históricos da mediação de massa na modernidade européia, Barbero se dedica à discussão do processo de formação da cultura de massas na América Latina. Num primeiro momento, como conseqüência do desenvolvimento capitalista e da urbanização, entram em cena as turbulentas e heterogêneas massas urbanas. Alijadas de suas formas tradicionais de expressão e sociabilidade, elas ameaçam a hegemonia política e cultural que as elites haviam construído, no início do século XX, a partir de práticas e valores importados da Europa. Nesse contexto, os meios massivos surgem como uma forma de pedagogia e controle social, oferecendo às massas uma linguagem em conformidade com as exigências da modernização. Para ser eficaz, no entanto, essa linguagem tinha que se submeter a um processo de "mediação", conectando-se às demandas simbólicas, formas de expressão e matrizes culturais das multidões desenraizadas.
Partindo desse pano de fundo histórico, Barbero analisa um amplo conjunto de produções culturais veiculadas pelos meios massivos na América Latina, buscando interpretá-las pelo ângulo dos usos, leituras e apropriações e mapear suas relações com a história política e social da região. Nessa análise, ele aponta uma série de elementos que cumpririam a função de conectar os produtos culturais à memória e à experiência dos pobres: o melodrama, os heróis-bandidos e outros personagens arquetípicos, o jornalismo sensacionalista e as iconografias narrativas, o humor, o grotesco, o pastiche, a catarse etc. Para o autor, esses elementos funcionam como mecanismos de interpelação e reconhecimento, por meio dos quais os menos favorecidos se vêem minimamente projetados nos meios massivos. Enraizados nas matrizes culturais populares, eles contaminam a comunicação de massas com uma heterogeneidade e um potencial de conflito que perturbam a hegemonia dos discursos modernizantes forjados pelas elites.
Não é difícil perceber o quanto essa análise do panorama cultural da América Latina é pertinente ao caso específico do futebol e da imprensa esportiva no Brasil. Ao longo das três primeiras décadas do século XX, as elites brasileiras se esforçaram para fazer do esporte um instrumento de pedagogia, homogeneização e controle social. A popularização do futebol, no entanto, foi resultado de um processo de apropriação, em que os diferentes grupos sociais desenvolveram seus próprios modos de fruí-lo e interpretá-lo. Se desde o decênio de 1910 o futebol já havia se contaminado pelas contradições das massas urbanas, a imprensa esportiva havia permanecido como um discurso homogeneizante, propagandeando as funções pedagógicas do esporte e levantando barreiras para manter na marginalidade essa contaminação.
Daí a importância do estilo editorial inovador desenvolvido pela equipe de Mário Filho durante o segundo semestre de 1931. Com sua abertura estrutural ao diálogo e ao contato com a diferença, a página 8 d' O Globo rompeu deliberadamente essas barreiras e trouxe à tona aquele mundo subterrâneo que a imprensa tradicional ocultava e reprimia. O mundo das paixões clubísticas e regionais que inflamavam as multidões, dos cracks suburbanos, com suas histórias de vida e seus desejos de prosperidade e reconhecimento, da irreverência com que jogadores e torcedores se manifestavam na intimidade dos vestiários e no calor das gerais. Levados às páginas dos jornais, esses dados dos bastidores esportivos funcionavam como mecanismos de interpelação e reconhecimento, incitando, articulando e legitimando os valores e sentidos que os menos favorecidos projetavam no futebol. Por isso, era natural que esse tipo de jornalismo despertasse a ira dos que queriam manter a vida esportiva distante dos barbarismos da massa.
CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues . São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 115.
Cf. SILVA, Marcelino Rodrigues da. Mil e uma noites de futebol; o Brasil moderno de Mário Filho . 2003. Tese (Doutorado em Letras - Estudos Literários.), Faculdade de Letras da UFMG, Belo Horizonte.
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia . Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.