![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá: do desencanto à utopia
Keli Cristina Pacheco (UFSC)
Logo no início do romance Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, Lima Barreto dá a paisagem focada pelos olhos de suas criaturas - Gonzaga de Sá e Augusto Machado, sendo este último criador do primeiro, já que seu biógrafo e narrador do romance - enorme dimensão que parece tomar conta de toda narrativa. Esta gira basicamente em torno dum caminhar quase incessante pelas ruas do Rio de Janeiro, onde dois flâners ponderam sobre diversos assuntos num movimento pendular entre passado e presente, vida e morte.
A paisagem - presente na tradição da literatura brasileira, muitas vezes construída como um símbolo para se tentar fixar uma identidade nacional, lembremo-nos "da paisagem da paisagem 1" de Alencar (criada pelo olhar europeizado) - pode ser entendida como uma cena natural, mediada pela cultura (o olhar). Porém, em Lima Barreto a paisagem acarreta uma dimensão diferente daquela que antes aparecia "como local de prazer, com função de sedativo que regala os olhos, [...] ou com a finalidade de estudos naturalistas". Em Vida e Morte... "a paisagem contribui para o autoconhecimento, a redescoberta e exploração do que ainda podemos encontrar. Em outras palavras, por meio de um modo alternativo de olhar, [...], resgata as longas ligações entre a memória coletiva da paisagem e o nacionalismo, a identidade e tradição cultural". 2
Dentre os elementos que compõem a paisagem o mar recebe atenção especial 3, conforme confessa Augusto Machado: "Pouco olho o céu, quase nunca a lua, mas sempre o mar. Embora o não encontrasse logo, o espetáculo do mar distraiu-me" 4. Deleuze e Guattari em Mil Platôs apontam que o mar é "o espaço liso por excelência." E esse espaço "é ocupado por acontecimentos ou hecceidades, muito mais do que por coisas formadas e percebidas. É um espaço de afectos, mais que de propriedade. É uma percepção háptica , mais do que óptica" 5. Já a paisagem, pelo contrário, é de percepção ótica, seria então o "espaço estriado", e "o que cobre o espaço estriado [...] é o céu como medida, e as qualidades visuais mensuráveis que derivam dele" 6. Ao privilegiar o olhar para o mar e não para o céu, podemos dizer que já ao início do romance há uma espécie de recusa daquela paisagem já formada, estriada, o que aponta para uma tentativa de construção de uma outra paisagem. Assim, logo o olhar antes focado no mar se perde na paisagem e a remonta num devir passado-presente:
Gonzaga lembrou-me depois que Estácio de Sá viera a morrer do ferimento por frecha, recebido em combate, naquela ilha do Governador, que estava ali, na minha frente.
Olhei o canal, segui com o olhar as mangueiras centenárias do Galão, demorei-o sobre as paredes enegrecidas do ilhote; e, quando pousei os olhos nas águas mansas do canal, como que vi as canoas de Estácio de Sá com os seus frecheiros e mosqueteiros deslizarem, levando o conquistador para a morte..." (BARRETO, 2001, p. 576).
Há uma tentativa de negar uma posição centrada, "a raiz pivotante", que é a paisagem fixa, esta passa então a ser vista também como rizoma. "O rizoma conecta um ponto qualquer com outro ponto qualquer e cada um de seus traços não remete necessariamente a traços da mesma natureza [...] ele não é feito de unidades, mas de dimensões". 7
Deste modo, vemos o pensamento de Augusto Machado unindo temporalidades e transmitindo "um sentido mais premente da interdependência das coisas" 8. Edward Said em Cultura e Imperialismo nos diz que "mesmo que se deva compreender inteiramente aquilo no passado que de fato já passou, não há nenhuma maneira de isolar o passado do presente. Ambos se modelam mutuamente, um inclui o outro [...], um coexiste com o outro" 9. Noção esta, como podemos ver, já presente no romance de Lima Barreto. 10
O mar, na sua imutabilidade, concorda Osman Lins, "surge como a imagem de um tempo onde coexistem épocas diferentes" 11. Quando, do contrário, se sugere uma separação, entre passado e presente, estabelece-se um "radical falseamento", então, "a cultura é exonerada de qualquer envolvimento com o poder, as representações são consideradas apenas como imagens apolíticas a ser analisadas e interpretadas". Já quando se opta pelo movimento, assim como Machado, pelo passado inacabado diluído no presente, adota-se um "modelo mais comprometido, cujos traços [irão se aglutinar] inevitavelmente em torno da luta contínua pela própria questão imperial" 12, que tem por fim, o projeto utópico de transbordar as fronteiras .
O mar estava calmo naquelas alturas [...]. Começara já a viração. Ao fundo e, na frente, as montanhas saíam nitidamente do painel em que pareciam pintadas. Uma ilhota, com sua alta chaminé, não diminuía o largo campo de visão que o mar oferecia. Alonguei a vista por ele afora, deslizando pela superfície imensamente lisa. Surpreendi-o quando beijava os gelos do pólo, quando afagava as praias da Europa, quando recordava as costas da Ásia, e recebia os grandes rios da África. Vi a índia religiosa, vi o Egito enigmático, vi a China hierática, as novas terras da Oceania e toda a Europa abracei num pensamento, com a sua civilização grandiosa e desgraçada, fascinadora, apesar de julgá-la hostil. E, depois de tão grande passeio, minha alma voltou a mim mesmo, certificando-me de que, aqui como naqueles lugares, era, ora a mais ora a menos. E me pus a pensar que sobre a convexidade do planeta que me fez, não tinha um lugar, um canto, uma ilha, onde pudesse viver plenamente, livremente. Olhei o mar de novo. Boiavam sargaços, balouçando-se nas ondas, indo de um para outro lado, indiferentes, à mercê dos movimentos caprichosos do abismo. Felizes!. (BARRETO, 2001, p. 613).
Ao operar como "linhas de fuga ou de desterritoralização", o mar é no romance o elemento desencadeador que nos permite ver "a história da comunidade como um todo coerente e integral" 13. Este pressuposto que se revela na metáfora do mar se repete no decorrer do romance, podemos vê-lo, por exemplo, no capítulo XI, intitulado "Era feriado nacional". Nele, Machado nos revela uma série de reflexões que nascem numa euforia e se dissolvem em desencanto. Logo pela manhã nosso narrador sai de casa aborrecido para se "delir na multidão". Ao descer a rua nos conta o que vê - "regimentos, batalhões, luzidos estados-maiores, pesadas carretas, bandeiras do Brasil, sem emoção, sem entusiasmo". E ele, "placidamente a olhar tudo aquilo, como se fosse uma vista de cinematógrafo", narra o que sente:
Não me provocava nem patriotismo nem revolta. Era um espetáculo, nada mais; brilhante, por certo, mas pouco empolgante e ininteligente. Junto a mim, dois populares discutiam, ao passar as forças formidáveis da Pátria, os seus recursos de mar e terra. Tinham um almanaque na cabeça, sabiam o nome dos oficiais, a marca dos canhões, a tonelagem do couraçado. [...]
"Voltei a olhá-los. Continuavam a discutir acaloradamente; faziam comparações com a força de outros países vizinhos, e passava-lhes pelas faces uma irradiação de orgulho, quando o cotejo nos era favorável. Por que aqueles homens maltratados pela vida, pela engrenagem social, cheios de necessidades, excomungados falariam tão santamente entusiasmados pelas coisas de uma sociedade em que sofriam? Por que a queriam de pé, vitoriosa - eles que nada recebiam dela, eles que seriam espezinhados pela mais alta e pela mais baixa das autoridades, se alguma vez caíssem na asneira de ter negócios a liquidar com alguma delas? [...] Poderíamos viver sem ele, sem as leis e a sem as regras que nos esmagam? [...] E conforme tão bem dizia Gonzaga, que tinha eu, homem de imaginação e leitura; que tinha eu de levar desassossego às suas almas, às daquela pobre gente, de lhes comunicar meu desequilíbrio nervoso?. 14
O olhar para os homens comuns discutindo por causa da nação, provoca em Machado uma série de questões que para ele já tinham resposta. Em Vida e Morte... tem-se a clara noção de que as nações nascem de construções discursivas (o nacionalismo) 15, e por isso ao mesmo tempo que incluem, excluem, já que quando privilegiamos algo naturalmente marginalizamos outro, dessa maneira vemos que o conceito de nação é fundado sobre uma exclusão - e nesse sentido é "um efeito de poder" - e por isso uma potencial fonte de preconceito.
Apesar da nação ser "um efeito de poder" - do qual, para Foucault, não há como escapar - Machado apresenta seu projeto num pensamento utópico que desponta enquanto vários homens marchavam para celebrar e fortalecer a nação:
E eu ascendi a todas as injustiças da nossa vida; eu colhi num momento todos os males com que nos cobriam os conceitos e preconceitos, as organizações e disciplinas. Quis ali, em segundos, organizar a minha República, erguer a minha Utopia, e por instantes, vi resplandecer sobre a terra dias de Bem, de Satisfação e Contentamento. Vi todas as faces humanas sem angústias, felizes, num baile!. 16
Aqui "há um visível afastamento do nacionalismo separatista em direção a uma visão mais integrativa da comunidade humana", ou seja, temos em Vida e Morte...
Transgressão. Talvez um dia ela pareça tão decisiva para a nossa cultura, tão parte de seu solo quanto a experiência da contradição foi no passado para o pensamento dialético. A transgressão não busca opor uma coisa a outra...não transforma o outro lado do espelho...em uma extensão rutilante...sua função é medir a excessiva distância que ela inaugura no âmago do limite e traçar a linha lampejante que faz com que o limite se erga. 17
A transgressão é para Said uma resistência cultural. São três os temas que Said aponta em Cultura e Imperialismo que compõem a resistência . Um deles, refere-se a "insistência sobre o direito de ver a história da comunidade como um todo coerente e integral"; o segundo vê a resistência como "um modo alternativo de conceber a história humana" e finalmente o terceiro, demonstrado no parágrafo acima. Estes temas são apresentados separadamente para fins de análise, porém, segundo o autor e conforme podemos constatar, estão todos relacionados.
Machado sabe que não podemos nos condenar a repetir a experiência do colonizador, não é com nacionalismo que se responde à dominação, assim devemos buscar ultrapassar a consciência nacional para ir em direção à consciência política e social . Logicamente é somente através desta ultima que se dá a libertação, entretanto, Machado tem a exata noção de que esta só seria possível se houvesse um processo mundial e isto o leva ao desencanto:
Tudo isto era sem remédio. Morto um preconceito ou uma superstição, nasciam outros. Tudo na terra concorre para criá-los: a Arte , a Ciência e a Religião são as suas fontes, são as matrizes de onde saem, e só a morte dessas ilusões, só o esquecimento dos seus cânones, dos seus delírios e dos seus preceitos trariam à humanidade o reino feliz da perfeita ausência de todas as noções entibiadoras. 18
Apesar do desencanto, algo interessante aqui se explicita. Há a clara noção de que a arte, vista muitas vezes como um campo em que impera a neutralidade, pode ser considerada um elemento opositor já que é usado em nome de causas políticas e ideológicas. É isto que disse recentemente Edward W. Said em Cultura e Imperialismo . Para Said, as artes produzem significados e valores que entram ativamente na vida social, moldando seus rumos e não só refletem uma situação determinante, ou seja, trata-se de uma teoria da cultura como um processo produtivo, material e social e das práticas específicas (as artes) com usos sociais de meios materiais de produção.
Os elementos opositores, a arte, a ciência e a religião , que constituem o discurso da nação, fazem com que nem os filhos daqueles que sofreram por causa dela a vejam como um "receptáculo apertado e rancoroso":
Passaram aos meus olhos lisas faces negras reluzentes, louros cabelos que saíam dos capacetes de cortiça; homens de cor de cobre, olhar duro e forte, raças, variedades e cruzamentos humanos se moviam a uma única ordem, a uma única voz. Tinham, os seus pais, vindo de paragens longínquas e da mais desencontradas regiões do globo. Que motivos ocultos, sob a grosseria dos fatos históricos, explicavam essa estranha impulsão e aquela mesma obediência a um mesmo ideal e a uma mesma ordem?. 19
A partir desse momento da narrativa dá-se um desencanto generalizado. Machado chega a conclusão estóica de que "o sábio é não agir" . Tanto ele quanto seu amigo Gonzaga, exilados por excelência 20, têm consciência da dificuldade que há em se travar uma luta contra o poder colonial, até porque grande parte do pensamento dos que pretendem a resistência é constituído por pensadores que surgem no centro daquele mesmo poder que eles desejam combater.
Ou seja, o império não apenas formula seu discurso, mas também desautoriza qualquer outro. E a incapacidade de luta faz Gonzaga confessar:
[...] O que tenho de fato, é aborrecimento, é tédio; sofro em me sentir só; sofro em me ver que organizei um pensamento que não se afina com nenhum...Os meus colegas me aborrecem...[...] Pensei que os livros me bastassem, que eu me satisfizesse a mim próprio...Engano! As noções que acumulei, não as soube empregar nem para a minha glória, nem para a minha fortuna...Não saíram de mim mesmo...Sou estéril e morro estéril... . 21
Num momento anterior, Machado, depois de escutar Gonzaga sugerir um suicídio coletivo daqueles que sofrem, diz:
- Na Europa, os camponeses sofrem.
- Oh! Lá é outra coisa! Há uma literatura, um pensamento, que vincula grandes idéias, que espalham o são espírito pela individualidade humana - fonte de simpatia pelos fracos, preocupada e angustiada com os destinos humanos. Aqui, o há?
[...]
- Nada. [...] Quando tu verás, na tua terra um Dostoiévski, um George Eliot, um Tolstoi - gigantes destes, em que a força de visão, o ilimitado da criação, não cedem o passo à simpatia pelos humildes, pelos humilhados, pela dor daquelas gentes donde às vezes não vieram - quando?. 22
Segundo Said, " restaurar a nação em uma situação como esta é, na essência, sonhar um ideal romanticamente utópico, o qual é solapado pela realidade política". 23
E nessa perspectiva até a educação que poderia ter o poder de libertação, no romance também funciona como uma arma em defesa dos interesses da pátria, do aparelho de estado. Conforme vemos nas passagens finais do romance. Machado conversa com o afilhado de seu amigo, Aleixo Manuel, que depois do falecimento do pai, passa a ser criado por Gonzaga:
- Em que livro estás?
- Terceiro.
- Com nove anos, vai bem, fiz eu animando-o. Já das a História do Brasil?
- Sim, senhor.
- Quem descobriu o Brasil?
- Pedro Alvares Cabral.
- E a América?
- Cristovão Colombo.
- Qual foi a primeira descoberta, a da América ou a do Brasil?
- A da América
- Por quê?
- Porque o Brasil faz parte da América, e quem descobriu a América, também o Brasil, porque ele está na América?
- Então foi Cristovão Colombo que descobriu o Brasil? Que respondes?
O rapaz calou-se, franziu um instante as sobrancelhas e, depois, disse com toda a firmeza:
- Não. Colombo foi quem viu pela primeira vez um lugar na América, por isso se diz que descobriu "ela" toda; mas Cabral viu depois, pela primeira vez, lugares do Brasil, por isso diz-se que descobriu o Brasil.
[...] Não quis com um elogio caloroso aguçar-lhe a vaidade; desejava que a sua inteligência fosse crescendo sem consciência de si própria; e então quando fosse bem forte, ele tomasse conhecimento de sua capacidade, como uma revelação, como uma surpresa. Limitei-me a dizer-lhe que estava certo e passei a perguntar outras coisas. 24
Machado sabe que no pensamento da criança já habitava o espaço estriado, recoberto por fronteiras numa lógica sem sentido. Mas, o que parecia até então encaminhar para uma grande lamentação final, numa demonstração do poder imanente da nação e da dominação colonial, revela-se duma outra forma nas linhas finais do romance. Transcrevemos:
se o sofrimento do pequeno, exteriorizado, algum dia em grandes atos ou grandes obras, possa concorrer mais tarde para o contentamento de muitos de seu iguais que vierem depois!? Que importa!?
A felicidade final dos homens e seu mútuo entendimento tem exigido até aqui maiores sacrifícios... . 25
Na frase final dá-se a revelação de que a utopia não é abandonada. Na verdade ela dilui-se por toda a narrativa, se constitui nela. Contrariando a máxima "sábio é não agir", Augusto Machado, suposto autor, encerra a narração a que se propôs, encerra a sua obra. Em Vida e Morte... a esperança se manifesta, apesar dos sacrifícios que ela envolve. Segundo Figueiredo, "Lima Barreto preconiza no romance a defesa de um método (ou possibilidade) de leitura do real - o conhecimento pela literatura - que fugindo aos lugares-comuns e às certezas em geral, resgata os instantes perdidos de humanidade, no anseio de esboçar perfis humanos no percurso da história. Esses rostos humanos permanecem inacabados, imprecisos, não se erguem como estátuas ou miragens...estão em processo, em suspenso, como os desenhos de Gonzaga de Sá..." 26
Se o livro fosse escrito em terceira pessoa a desilusão final para nós leitores seria fato, porém se é Machado quem escreve o relato expondo sua convivência com o amigo - é através dele que temos acesso às visões e interrogações, tanto de Gonzaga quanto de Machado - se Machado não se resigna ao isolamento e ao silêncio, "se procura com os meios que possui alcançar outros homens, então é que (ao contrário do amigo) ele não quer aceitar o banimento e procura fazer com que os aceitemos - a eles, os segregados". 27
Porém, não acreditamos que há somente um pedido de aceitação, admitir isto seria reduzir muito toda a construção de idéias que permeiam a narrativa de Machado. O que vemos são dois homens que, apesar da inteligência, desempenham papéis subordinados 28 para o Estado e que no romance surgem como antagonistas desse sistema que os aprisiona, desorganizando-o 29, inculcando uma série de ideais de resistência cultural que instrumentalizam o leitor com a intenção de que ele atinja, assim como Machado e seu amigo Gonzaga, a sua consciência política e social . E dessa forma, o "sofrimento daquele pequeno" (Machado narrador) servirá sim "para o contentamento de muitos de seus iguais que vierem depois".
O interessante é que este caráter utópico delineia-se já ao início do romance, durante o primeiro passeio dos amigos, Gonzaga parece lançar um enigma, conforme narra Machado:
[...] Gonzaga me perguntou, apontando o convento de Santa Teresa:
- Sabes quem mora ali?
- Freiras.
- Mora também um conde, e creio que princesas.
- Mortas?
- Sim, mortos! Vês lá o sinal da morte?
- Não; está sorridente e alegre.
- E este casarão ali?
- Está aqui, está desabando.
- Morto, não é? Sabes por quê? Porque não guarda nenhum morto 30.
O romance de Lima Barreto, ou do suposto autor Machado, também guarda o morto Gonzaga de Sá e por isso não será ele um casarão brutal e sem vida, pelo contrário. Do romance decorre uma tentativa de reconstrução do passado fazendo com que este, antes dado como morto, deságüe num presente que une temporalidades (passado-presente-futuro) e mantém viva a utopia.
Pensamos no poema de Drummond: "Paisagens, país/feito de pensamento da paisagem./na criativa distância espacitempo./ à margem de gravuras. documentos./ quando as coisas existem com violência/ mais do que existimos: nos povoam/ e nos olham. nos fixam. Contemplados./ submissos. delas somos pasto./ somos a paisagem da paisagem." (ANDRADE, Carlos Drummond de. Paisagem: como se faz. As Impurezas do Branco", Poesia e Prosa. RJ: Nova Aguilar, p. 451,1983.)
FIGUEIREDO, Carmem Lúcia Negreiros de. Trincheiras de Sonho - Ficção e Cultura em Lima Barreto. Ed. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, p. 97-98, 1998.
Em Recordações de Escrivão Isaías Caminha isto também acontece. O protagonista Isaías ao se sentir "em país estrangeiro" [...] caminha tristemente em direção ao mar e narra: "Continuei a olhar o mar fixamente [...]. Aos poucos ele hipnotizou-me, atraiu-me, parecia que me convidava a ir viver nele, a dissolver-me nas suas águas infinitas, sem vontade nem pensamentos; a ir nas suas ondas experimentar todos os climas da terra, a gozar todas as paisagens, fora do domínio dos homens, completamente livre, completamente a coberto de suas regras e dos seus caprichos...Tive ímpetos de descer a escada, de entrar corajosamente pelas águas adentro, seguro de que ia passar a uma outra vida melhor, afagado e beijado constantemente por aquele monstro que era triste como eu" (BARRETO, Lima. "Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá". In: Prosa Seleta. Ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, p. 70-71, 2001).
DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Felix. Mil Platôs - Capitalismo e Esquizofrenia. Vol. 5. Ed. Editora 34, São Paulo, p. 185, 2002.
DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Felix. "Introdução: Rizoma". Mil Platôs. Vol. 1. SP: Editora 34, p. 32, 1988.
SAID, Cultura e Imperialismo. Ed. Cia das Letras, São Paulo, p. 98, 1995.
não só em Vida e Morte... , como também em Triste Fim de Policarpo Quaresma, lembremo-nos do parágrafo final.
LINS, Osman. Lima Barreto e os espaço romanesco. Ed. Ática, São Paulo, p. 143, 1976.
SAID, Cultura e Imperialismo. Ed. Cia das Letras, São Paulo, p. 93-94, 1995.
SAID, Cultura e Imperialismo. Ed. Cia das Letras, São Paulo, p. 273, 1995.
BARRETO, Lima. "Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá". In: Prosa Seleta. Ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, p. 618, 2001.
"O nacionalismo vem antes das nações. As nações não formam os Estados e os nacionalismos, mas sim o oposto"(HOBSBAWN, Eric J. Nações e nacionalismos desde 1780. 3ª edição, RJ: Paz e Terra, p. 19. 2002.)
FOUCAULT, Michael. "Prefácio à Transgressão" in Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema . Ed. Forense Universitária, Rio de Janeiro, p. 33, 2000.
BARRETO, Lima. "Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá". In: Prosa Seleta. Ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, p. 619, 2001.
Osman Lins escreve um capítulo em Lima Barreto e o Espaço Romanesco somente tratando do insulamento das personagens do escritor, dentre eles Augusto Machado e Gonzaga de Sá. Por exemplo, neste trecho em que eles mesmo defronte a multidão se vêem "ali, separados dela, silenciosos e inertes às forças que se moviam, nós estávamos como fora da humanidade, como entes de outra estrutura, sem nada de comum com eles. O grande relvado circular entre os dois meios fluidos, próprios à vida deles e à nossa. Víamo-los como o passageiro vê os peixes, da borda do navio, através das águas prateadas" ( BARRETO, Lima. "Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá". In: Prosa Seleta. Ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, p. 612, 2001). "O exilado atravessa fronteira, rompe barreiras do pensamento e da experiência". Isto significa que o exílio não é somente "afirmado a partir da existência da terra natal, do amor por ela e de uma ligação real com ela; a verdade universal do exílio não é que se tenha perdido esse lar, esse amor, mas que inerente a cada um, existe uma perda inesperada e indesejada . (SAID, Cultura e Imperialismo. Ed. Cia das Letras, São Paulo, p. 411, 1995. [grifo nosso])
BARRETO, Lima. "Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá". In: Prosa Seleta. Ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, p. 622, 2001.
SAID, Cultura e Imperialismo. Ed. Cia das Letras, São Paulo, p. 275, 1995.
BARRETO, Lima. "Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá". In: Prosa Seleta. Ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, p. 615, 2001.
FIGUEIREDO, Carmem Lúcia Negreiros de. " Trincheiras de Sonho - Ficção e Cultura em Lima Barreto". Ed. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, p. 156, 1998. [No romance Gonzaga de Sá em diversas vezes é pego rabiscando um papel que sempre procura esconder de seu amigo Machado quando este se aproxima, porém numa de suas investidas, Machado consegue ver rostos humanos incompletos desenhados na folha de papel.]
LINS, Osman. Lima Barreto e os espaço romanesco. Ed. Ática, São Paulo, p. 117, 1976.
Os amigos são amanuenses. Gonzaga, por exemplo, trabalha na Secretaria dos Cultos, na seção de "alfaias, paramentos e imagens", onde é responsável por decidir "sobre o número de setas que devia ter a imagem de São Sebastião" ou quantas salvas de tiros um bispo deve receber.
Para o leitor Gonzaga e Machado funcionariam como uma espécie de máquina de guerra . Deleuze em Mil Platôs, explica que a máquina de guerra é irredutível ao aparelho de Estado. "Do ponto de vista do Estado, a originalidade do homem de guerra, sua excentricidade, aparece necessariamente sob uma forma negativa: estupidez, deformidade, loucura, ilegitimidade, usurpação, pecado... [...] Porém, restituída a seu meio de exterioridade, a máquina de guerra se revela de uma outra espécie[...]. Dir-se-ia que ela se instala entre as duas cabeças do Estado [...]. Mas justamente, "entre" as duas, ela afirma no instante, mesmo efêmero, mesmo fulgurante, sua irredutibilidade". (DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Felix. Mil Platôs - Capitalismo e Esquizofrenia. Vol. 5. Ed. Editora 34, São Paulo, p. 12-16, 2002.)
BARRETO, Lima. "Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá". In: Prosa Seleta. Ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, p. 566, 2001.