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Na sala de espelhos - a imagem do duplo na ficção brasileira atual
Flávio Carneiro (UERJ)
Toda uma história da literatura poderia ser escrita a partir da trajetória da imagem do duplo no correr dos tempos. História que poderia nos ajudar a entender um pouco a ficção brasileira dos últimos vinte ou vinte e cinco anos, que abandonou concepção de sujeito como unidade e em seu lugar não colocou, como em outras épocas, uma nostalgia dessa mesma unidade mas um certo encantamento com a possibilidade de ser, sempre, mais que um.
Nossa hipotética, e brevíssima, história do duplo na ficção brasileira contemporânea poderia começar com dois livros do início dos anos 80: Em liberdade , de Silviano Santiago, e O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro , de Sérgio Sant'Anna. No romance de Silviano, a persona do autor, sobretudo enquanto escritor e intelectual, se duplica em Graciliano, que por sua vez se duplica em Cláudio Manoel da Costa. Já no livro de contos de Sérgio Sant'Anna, o autor se multiplica em espelhamentos que mostram seu rosto no próprio personagem escritor, Sérgio, às voltas com os duplos de João Gilberto, John Cage e outros.
Mais adiante, além dos dois autores - que continuarão, em futuros livros, essa caminhada pelas veredas tortuosas da duplicidade - surge Rubens Figueiredo, cuja performance como virtuose do gênero se percebe, por exemplo, em contos como "Nos olhos do intruso" e no romance Barco a Seco , em que a figura autoral está, a princípio, colocada fora do jogo, dando vez a histórias nas quais a temática do duplo se desenrola entre os próprios personagens .
Rubem Fonseca também deixou obras marcantes nessa linha, seja no conto "Romance Negro", seja em Diário de um fescenino . Em ambos, é o próprio Rubem que se duplica em leitor de suas próprias obras, num truque ficcional que lembra o ilusionismo de Mandrake (o mágico e o detetive).
Truque que move também o belíssimo livro de Sérgio Sant'Anna, O vôo da madrugada , no qual o autor, ao revisitar seu passado, biográfico e literário, retoma o mesmo desafio da página em branco que norteou O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro . Agora, porém, há fatos novos - inclusive, claro, a existência de O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro - e Sérgio Sant'Anna os acolhe sob o teto generoso de suas lembranças, moldadas sempre a meio caminho entre verdade e ficção.
Como se pretende, aqui, traçar apenas um recorte dessa história, deixamos de lado uma investigação mais aprofundada e nos centramos em leituras ligeiras de três obras de ficção que, nos últimos anos, mostraram faces diferentes do modo de trabalhar com a imagem do duplo.
Começamos com Nove noites , de Bernardo Carvalho, cuja história está centrada no etnólogo americano Buell Quain e de seu suicídio, em 1939. Quain tinha vinte e sete anos e havia passado alguns meses entre os índios krahô, no Xingu, quando cometeu o suicídio, a meio caminho entre a aldeia e a cidade mais próxima, para a qual se dirigia acompanhado de dois índios. Mais de sessenta anos depois, no mesmo ano em que aviões pilotados por terroristas botavam abaixo as torres gêmeas numa Nova York tomada pelo medo, o narrador de Nove noites toma conhecimento da história de Buell Quain, ao ler um artigo de jornal. Impressionado com o que lê, e movido por razões íntimas que só mais tarde serão reveladas ao leitor, o narrador decide investigar o caso e dali tirar material para escrever um romance.
É a partir daí que se desdobra Nove noites , montado na alternância de dois relatos: o da própria pesquisa, envolvendo busca a arquivos, entrevistas e uma breve temporada entre os krahô, e um testamento deixado por Manoel Perna, engenheiro e amigo de Quain.
A essa primeira duplicidade - a dos discursos que se entrecruzam formando o romance - vão se juntar várias outras, criando uma atmosfera de ambigüidade, tão recorrente nas obras do autor. A cada versão apontada para a causa do suicídio do etnólogo se sobrepõe outra, que anula a primeira ou, pelo menos, a relativiza, de tal modo que a verdade, se existe, está sempre escapando de quem a persegue.
Ao leitor, cabe desconfiar de tudo que lê. Afinal, como se deixar levar piamente pelo relato de Manoel Perna - que teria passado nove noites com Quain, antes do suicídio - se ele mesmo nos diz: "O que agora lhe conto é a combinação do que ele me contou e da minha imaginação ao longo de nove noites"? Ou, por outro lado, como diferenciar verdade e imaginação no discurso do narrador se, à medida que a pesquisa avança, ele mesmo já não sabe dizer se fala de Quain ou de si mesmo?
O narrador funciona no romance como uma espécie de detetive, obcecado pela decifração do enigma: por que Buell Quain teria se matado? Também o leitor é levado a assumir o papel de investigador - tendo que seguir suas próprias pistas e investigando o próprio discurso do investigador - caso queira chegar a alguma possível conclusão a respeito do caso.
Nesse romance policial às avessas, em que há detetives demais e verdades de menos, cai como uma luva a estratégia do autor de fazer dele mesmo um duplo. Ao colocar na orelha do livro uma foto sua aos seis anos de idade, de mãos dadas com um índio no Xingu, e ao montar a figura do narrador com alguns de seus dados biográficos, Bernardo Carvalho recria sua própria imagem, agora espelhada.
A esta foto somam-se outras três, reproduzidas no decorrer do romance, duas do próprio Quain e uma terceira mostrando antropólogos, entre eles Lévis-Strauss e a então diretora do Museu Nacional, Heloísa Alberto Torres. Como autor obcecado pelo perfeito funcionamento da máquina-livro, Bernardo Carvalho não desperdiça sequer as fotos, pelo contrário, insere-as no mesmo jogo de duplicidade que move a história. As fotos são documentos, registros reais, e no romance adquirem mais do que mero caráter ilustrativo: ajudam a compor o campo das interpretações possíveis projetado pela narrativa. As fotos são signos, participando, a seu modo, da trama e, nesse sentido, mesmo a orelha do livro passa a fazer parte da encenação romanesca.
Em todo esse universo de espelhos, borgeano, sem dúvida, mas com as marcas deste início de século em que foi criado, restará ao leitor o prazer justamente de interpretar, diante de um romance que se abre para isso. Meio policial, meio biografia, meio reportagem - aliás, o tom de reportagem que o romance assume funciona como reforço da duplicidade já apontada, tendo em vista que seu autor é, também, jornalista -, Nove noites é antes de mais nada uma boa ficção. E, como tal, só se completa quando o leitor, provocado, aceita o convite, ou desafio. É o que sugere o engenheiro Manoel Perna, nas últimas palavras do seu testamento: "Assim também, deixo-o imaginar o que nunca poderei lhe contar ou escrever."
O segundo romance escolhido para este passeio pelo campo da duplicidade na ficção brasileira atual é Budapeste , de Chico Buarque, no qual duas linhas de leitura se cruzam, como duas partes do mesmo desenho ou, para dizer de outra forma, como duas faces da mesma cidade. Como Buda, a oeste do Danúbio, é a outra metade de Peste, na margem leste, também aqui essas duas possibilidades de ler o romance se complementam, embora preserve cada qual sua identidade.
A primeira delas diz respeito ao tema do anonimato. O narrador e protagonista é José Costa, ou Zsoze Kósta, em húngaro, língua que ele adota como sua, movido em parte pelo acaso, em parte pela determinação de tornar-se outro, apagando o que fora antes. Toda a sua trajetória, pelo Rio de Janeiro ou por Budapeste, é marcada por sua profissão de ghost-writer e pela absoluta necessidade de ser anônimo.
O curioso no livro é que o anonimato é tratado não como uma maldição, ou pelo menos uma infelicidade, mas como meta a ser buscada a todo custo, mesmo que signifique o abandono da família e do próprio país. Chico Buarque criou um ótimo personagem a partir de uma inversão inicial, seguida por outras que dela surgem, dialogando com a primeira de tal forma que, ao final, o que sobra é só mesmo um relato multipartido, sugerindo ao leitor dois caminhos, que por sua vez se bifurcam, como o próprio Danúbio em seu formato de ípsilon.
Num mundo movido pela razão e sustentado por ações práticas, em que vale mais quem aparece mais - na tela da TV, na folha do jornal ou na capa de um livro - alguém que insiste em ser anônimo e vive de criar enredos que só ganham as páginas de sua imaginação vertiginosa não pode escapar à sina de ser um eterno inadaptado. A língua que Zsoze Kósta jamais conseguirá aprender, até porque não quer, é a da publicidade. Como os que o cercam - com exceção, talvez, de Kriska - só falam essa língua, José Costa será sempre um estrangeiro, esteja em que país estiver.
Zsoze Kósta ama a sombra, mas quer que nela vejam seu contorno bem definido. Ser amado, ele parece dizer, é ser lido e compreendido em cada palavra, em cada construção bem sucedida, em todas as nuances de uma escrita errante, que mesmo mudando de corpo a cada novo livro não deixa de ser a mesma, pelo menos para seu autor. Seu tormento, seu maior medo é que não gostem do que ele escreveu, mas também que não o reconheçam na sombra em que decidiu morar.
Uma segunda possibilidade de leitura pode ser centrada na idéia de ficção como artifício. A começar pela cor da capa do livro de Chico Buarque - mostarda, a mesma de uma biografia escrita por Kósta para um cliente alemão e intitulada O Ginógrafo - e pela contracapa, que sugere algum mistério, só formulado de forma precisa ao final do romance, embora permaneça não decifrado.
Aos poucos, o leitor vai percebendo que tem em mãos um artefato gerador de duplicidades. O narrador é anônimo, mas na verdade tem dois nomes. Mais que isso, tem duas pátrias, duas línguas, duas casas, duas mulheres, dois filhos (um no Rio, outro, um enteado, em Budapeste). Quando está na Hungria, sente saudades de Wanda. Quando está no Brasil, quer voltar para os braços brancos de Kriska. Só uma coisa continua a mesma, num e noutro país: o prazer, ou a pulsão (como uma necessidade íntima, arrebatadora), de escrever. Mas justamente aí reside a maior duplicidade: escrever sob o nome de outro, se fingir de outro, ter a sensação de ser não propriamente uma pessoa, mas o "mapa de uma pessoa", segundo ele mesmo afirma.
Beatriz Resende, ao comentar o livro, afirma que "Budapeste é a história de um homem que vive das palavras, movido pelas palavras, perseguido pelas palavras e que pelas palavras se desdobra nele mesmo e em seu duplo" *
A duplicidade encarnada pelo narrador se multiplica em várias outras, espalhadas pelo romance, e faz de Budapeste uma narrativa dupla também no sentido de ter ela mesma, para além da figura de José Costa, duas faces. De um lado, pode ser tomada como uma história linear, com começo, meio e fim, sem os volteios tanto de Estorvo quanto de Benjamin , que à primeira vista parecem de configuração mais complexa que Budapeste . De outro, trata-se de romance talhado nas firulas, nas fintas que dá no leitor e mais parecem um lance genial de Puskas, ou Puskás, o craque e dono do meio-de-campo da antológica seleção de futebol da Hungria na copa de 1954.
Craque que se transforma no dissimulado Puskás Sándor, escrivão do Clube das Belas-Letras de Budapeste, para cujos membros, ou pelo menos alguns, Kósta também irá prestar seus valorosos serviços. O próprio fato, aliás, de tomar emprestado os nomes dos jogadores da seleção húngara para nomear personagens (e também uma rua, uma avenida e um hotel da cidade) já aponta para a opção do autor de compor seu romance na clave da farsa, do artifício, dando o pontapé inicial da partida que tem de um lado o texto e de outro o leitor.
É o autor que monta o jogo no qual, aos quarenta e quatro minutos do segundo tempo, entra em campo um tal Sr..., personagem, ele sim, absolutamente anônimo - pois se nem nome tem, sendo designado apenas por um pro nome de tratamento -, responsável pela jogada que irá definir o placar. Jogo, também, que transforma Chico Buarque, não o cidadão mas o escritor, no próprio Zsoze Kósta, ou em uma de suas máscaras.
Terminemos nosso passeio com o novo romance de Silviano Santiago, O falso mentiroso . Uma das formas possíveis de ler o romance é justamente a partir do mote sugerido pelo próprio narrador: "Tudo pode ser re-escrito." E o que reescreve, aqui, o autor que já criou falsas mentiras pilhando, e enriquecendo, a memória de Graciliano Ramos e Antonin Artaud?
Para começo de conversa, o narrador de O falso mentiroso , além das diferentes personalidades que assume explicitamente, e das trezentas ou trezentas e cinqüenta que o leitor nele há de encontrar, é feito ainda da mistura, pelo menos, de dois outros notáveis memorialistas.
Um deles é João Miramar, numa das muitas homenagens que Silviano presta a Oswald de Andrade. É provável que venha das memórias (falsamente) sentimentais de Miramar a escrita telegráfica de O falso mentiroso , de frases curtas e quase sem artigos, numa linguagem de cortes própria do cinema.
Do inesquecível Brás Cubas, de Machado de Assis, parece que o autor andou saqueando vários tesouros, entre eles o modo informal e galhofeiro de se dirigir ao leitor, feito de gato e sapato nas mãos de um narrador que se diverte lançando pistas falsas. Daquelas memórias póstumas cintila aqui, também, o brilho de certas tiradas de efeito e do humor cáustico, de quem dispara para todos os lados, não poupando nem a si mesmo.
Comum a ambos, João Miramar e Brás Cubas, e marca registrada desse narrador, é o olhar debochado que lança sobre o mundo ao redor, corrompido pelo jogo social, pelos arranjos de todo tipo, desde o íntimo, familiar, ao mais amplo, na esfera política. Junto a esses dois memorialistas, percebe-se a sombra de um dos nossos primeiros malandros, o Leonardo de Memórias de um sargento de milícias , e, sobretudo, a de um de seus sucessores na vasta galeria da malandragem nacional: Macunaíma. A falta de caráter, no duplo sentido da palavra, do narrador de Silviano lembra o (anti) herói da famosa rapsódia de Mário de Andrade, de onde certamente o autor trouxe também outras coisinhas, salpicadas aqui e ali no romance, como pequenas pedras mágicas.
Além dessas, outras referências ajudam a compor as memórias que são, também, memórias do próprio Silviano, o qual comparece no próprio romance através das autoreferências literárias e do jogo que se instaura quando o autor confere a Samuel, o narrador, características de sua conhecida biografia. Jogo que se estabelece já na capa, com a reprodução de uma foto do Silviano bebê, indiciando o tom de pilhéria que vai marcar o romance prestes a ser lido. O componente biográfico entra como mais um ingrediente no caldo da ficção. Assim como o autor mistura personagens reais e ficctícios, também o sujeito Silviano Santiago se transforma em figura híbrida, metade verdade e metade fingimento.
Nesse "entrelugar", o leitor, se quiser tirar do livro algum prazer, deve assumir sua cadeira no clube da ficção, cujo estatuto, se é que existe, diz o seguinte: mentira é uma história mal contada. Bem contada, toda história, por mais absurda que seja, é apenas uma falsa mentira. Divertido, leve e ligeiro, como se escrito "ao correr da pena", o romance nos leva também por uma inusitada viagem pela história do Brasil, dos anos 30 até hoje. Viagem que segue sobre os trilhos de uma outra história: a da camisinha.
Falsário - ganha (muito bem) a vida falsificando quadros -, inteligente, irônico, culto, o narrador é também uma espécie de sonda por onde o autor lança no livro esboços de ensaios sobre literatura e artes plásticas, além de uma impagável teorização, que ocupa algumas páginas mais para o final, acerca da óbvia superioridade intelectual de quem copia sobre quem inventa. E se não deixa filhos, talvez porque não queira transmitir a nenhuma criatura o legado de sua miséria, Samuel, o narrador, deixa ao mundo suas telas, copiadas dos clássicos. Mais que isso, deixa suas falsas mentiras, constituindo como seu herdeiro universal o leitor, a quem caberá, então, fazer uso desse valioso baú de antigas jóias, todas de papel e tinta.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BUARQUE, Chico. Budapeste . São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
CARVALHO, Bernardo. Nove noites. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
FONSECA, Rubem. Romance Negro e outras histórias . São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
_____. Diário de um fescenino . São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
FIGUEIREDO, Rubens. "Nos olhos do intruso", in: Revista Ficções , ano I, nº 1. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998.
_____. Barco a seco. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. "Não existe duplo para a realidade", in: O Globo - Segundo Caderno, 14/09/2003.
RESENDE, Beatriz. "Movido pelas palavras", in: Jornal do Brasil - Caderno B. Rio de Janeiro: 14/09/2003.
SANT'ANNA, Sérgio. O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro . São Paulo: Ática, 1982.
_____. O vôo da madrugada . São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
SANTIAGO, Silviano. Em liberdade . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
_____. O falso mentiroso. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
WISNICK, José Miguel. "O autor do livro (não) sou eu", in: Encarte especial do catálogo da editora Companhia das Letras . São Paulo: 2003
* RESENDE, Beatriz. "Movido pelas palavras", in : Jornal do Brasil - Caderno B. Rio de Janeiro, 14/09/2003, pp. 1 e 5. Quando do lançamento do livro, outros críticos teceram comentários sobre a figura do duplo no romance. Entre eles, destaco a resenha de Luiz Alfredo Garcia-Roza ("Não existe duplo para a realidade", in: O Globo - Segundo Caderno, 14/09/2003, p.2) e a de José Miguel Wisnik ("O autor do livro (não) sou eu", publicado em encarte especial no catálogo da editora Companhia das Letras).