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A dimensão do corpo diaspórico na perdição de Macabéa
Erivelton Rangel de Almeida (Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO)
1- PRÉ-DITOS AO DISCURSO CLARICEANO
"Quero romper com meu corpo, quero enfrentá-lo, acusá-lo, por abolir minha essência, mas ele sequer me escuta e vai pelo rumo oposto.." (Carlos Drummond de Andrade)
Ter Clarice Lispector como referência ao estudo do discurso literário é ter a imprevisibilidade como elemento sempre a rondar as discussões, porque Clarice mergulha nos seus escritos e personagens como um criador que faz das criaturas que constrói, caminho para o desvendar das paixões humanas e de todos os paradoxos que envolvem a existência.
A escritura bem elaborada indica as tensões que parecem muitas vezes palpáveis, tal a intensidade do discurso que fala dos dramas de personagens que fogem ao lugar comum. Portadora de um estilo ímpar, a narrativa clariceana sugere, aponta, insinua, indica, sinaliza, mas jamais conclui, porque é diálogo com o leitor, que ao entrar no texto não tem mais como sair, enredado pela magia dos múltiplos sentidos das palavras.
Quando lança mão da figura do narrador, Clarice tenta, sem sucesso, permanecer distante de seu discurso que desvela sentimentos bastante intimistas; escondendo-se, porém se mostra nas entrelinhas, não só através do narrador-personagem, mas de cada personagem que esculpe com paixão e enlevo. Os atores que circulam nos cenários clariceanos falam pelo corpo, porque a sensualidade dos gestos transmite a carga de angústias presente na própria existência. Por isso, eles são trágicos, densos, complexos, por reúnem em si as contradições que refletem os desejos inconscientes de quem vive intensamente o momento do homem que é a vida.
A escrita de Clarice Lispector é universal, atemporal e por tal razão contemporânea. Como mulher e escritora, ela viveu a angústia existencial com muita intensidade, convivendo com seus medos, suas dúvidas e sublimando esse viver através de fascinantes personagens que traduzem muitos desses sentimentos. Há sempre um permanente desejo de ir além, que é castrado pela própria condição humana.
Entre tantos livros e personagens, a escolha por "A Hora da Estrela" foi intencional, não só por ser a sua última obra, mas pela contemporaneidade da temática que fala da mulher nordestina, com a qual a autora parece identificar-se, não só por ter vivido algum tempo no Nordeste - Recife e Maceió -, mas também por ser Macabéa alguém que traz no corpo a marca de sua identidade.
O corpo - o que aparece, o que caracteriza e indica a roupagem física e identitária dos seres humanos - em Clarice fala também da alma. Corpo e alma se co-fundem na personagem dramática, mulher-nordestina, destituída de qualquer artifício esteticamente próximo do que se convencionou como "belo", mas presentificada pela sua condição de "ser no mundo", permanente mistério no mundo do progresso tecnológico.
Macabéa, a personagem de "A Hora da Estrela", seria assim a antítese da mulher sensual, bonita, atraente e sedutora, pois ela é a representante do gênero oprimido e anulado por condições materiais adversas. Ela traz no corpo sua própria leitura, expondo a todos, com seu jeito de ser, sua ingenuidade, o que comumente é dito entre os diálogos em surdina dos representantes que estão do outro lado da sociedade, ao lado dos que detém o poder, os atributos do belo, do sucesso, das referências da inserção social.
Clarice é, muitas vezes, fria nas duras palavras que descrevem suas personagens, dizendo com crueza de sentimentos que revelam o lado difícil da vida e das lutas pela sobrevivência. Quando mostra Macabéa, o faz sem pudor e subterfúgios, porque diz de emoções verdadeiramente sentidas, pois se entrega à escrita como quem vive seu drama pessoal. Escrever para a autora, que sempre lança mão da metalinguagem em seu discurso, é mergulhar de corpo e alma na tarefa criadora, de forma catártica, indo ao fundo dos sentimentos mais complexos da natureza humana.
Em "A Hora da Estrela", Clarice despe Macabéa da complexidade de uma Joana, de uma Lóri e de tantas outras personagens femininas de seus escritos. Macabéa é entre todas a que se auto-define, pois a imagem fala por ela, reveladora que é da sua condição oprimida de ser humano desprovido de tudo que poderia valorizar a imagem de quem sequer tinha consciência de sua existência.
Clarice encanta e desafia o leitor a mergulhar no universo dessas personagens intrigantes que tão bem soube criar e que nesses pré-ditos abrem espaços para um estudo analítico das categorias corpo/linguagem/contemporanei-dade em "A Hora da Estrela", na tentativa de desvelar os semas que fazem da escritura da autora, um exercício que une prazer e conhecimento.
2 DIZENDO...
2.1- O DISCURSO DE CLARICE LISPECTOR EM A HORA DA ESTRELA
2.1.1- A dimensão do corpo na construção da personagem Macabéa
As representações do corpo, desde a Antigüidade e quiçá da Pré-História, carregam uma concepção estética e uma linguagem, pois é no corpo que se encontra a concretização da condição humana como espécie; o gênero ao qual os sujeitos pertencem; os traços da origem genética; as marcas da história de vida. O corpo é a casa da subjetividade, é o que se revela da identidade de cada pessoa.
Em "A Hora da Estrela", Clarice apresenta Macabéa pelos índices corporais, desvelados na fala do narrador Rodrigo S.M., também personagem da história. " É que numa rua do Rio de Janeiro, peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina " (HE ( 1) , p.12). A palavra "perdição" traz todo o sentimento da expressão facial que caracteriza o momento da personagem, como uma espécie de corte cinematográfico, de uma câmara que capta um instante, um rosto, na multidão. Essa primeira referência já diz também dos caracteres que levam o narrador à constatação de que Macabéa tem no corpo as marcas de sua origem nordestina.
" Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz mal a ninguém ." (HE, p.13). Mais uma vez, o narrador avança ao apresentar a personagem, situando-a como "virgem", ou seja, como um ser que se desvela puro, sem as artimanhas sedutoras do protótipo das mulheres que a mídia comumente apresenta no discurso da contemporaneidade. Moacyr Scliar (1995, p.91), o romancista gaúcho, quando fala do corpo que os anúncios publicitários apresentam, fala também das contradições presentes no discurso esquizofrênico que é: " seja diferente, seja igual ". Por isso Macabéa era "diferente", porque corajosamente não era igual, seu corpo virgem, sem atributos, nordestino, apresenta os traços da resistência. Macabéa no instante primeiro que o narrador a vê é um sobrevivente.
" A sua cara é estreita e amarela como se ela tivesse morrido. E talvez tenha ." (HE, p.24)
" A moça tinha ombros curvos como os de uma cerzideira ." (HE, p.26)
" Ela era toda um pouco encardida, pois raramente se lavava ." (HE, p.27)
"Nascera estreitamente raquítica, herança do sertão." (HE, p.28)
Percebe-se que Clarice fala de Macabéa despindo-a de qualquer artifício, como se o corpo/imagem criado em palavras fosse forte o suficiente para se bastar no contexto da narrativa, ou seja, falando por si só. Nomear a personagem pelo corpo é simples e hilário, porque ela carrega a estabilidade do começo, a concretude da antiga terra, porque não se rendeu e nem poderia por sua condição original, render-se às mutações de um tempo diferente do seu, o tempo da cidade grande onde se via perdida.
Macabéa não chega a ter consciência do seu corpo, no sentido de incorporá-lo ao seu imaginário. Sabia-se diferente, almejava os padrões desejados. Queria ser gorda, ancas largas, como sua colega Glória, porque os homens olhavam para ela com desejo. É Glória quem lhe indaga: "- Ser feia dói? " e Macabéa responde: " Nunca pensei nisso, acho que dói um pouquinho. " Nessas palavras percebe-se que a personagem tem uma dimensão não muito real de sua imagem. Sabe que é feia, mas não sabe como minorar esse fato. A feminilidade do saber-se mulher e capaz de seduzir não chega à consciência de Macabéa, cujos desejos são tão simples e utópicos que sequer passavam pela consciência do corpo: " Mas, o que ela queria mesmo ser não era a altiva Greta Garbo (...) O que ela queria era ser como Marylin Monroe. " (HE, p.64)
Até mesmo no momento da morte, quem fala é o corpo de Macabéa: " Tanto estava viva que se mexeu devagar e acomodou o corpo em posição fetal. Grotesca como sempre fora... Aquela relutância em ceder, mas aquela vontade do grande abraço. " (HE, p.84)
O corpo raquítico, a feiúra, as manchas do rosto, a unhas encardidas... Macabéa que queria ser estrela e termina morta, após o choque com o Mercedes luxuoso no centro da cidade... Macabéa, cujo corpo largado e inerte na sarjeta, transcenderá, e no "esgar de desejo" - desejo não saciado - se fará estrela. Nessa catarse final, o texto de Clarice alcança a metáfora que faz do corpo e da alma, a união que faz renascer a estrela em outro plano. Qual? Clarice deixa a interrogação na voz do narrador morto com seu personagem - Corpos frios, sem vida, no instante final.
2.1.2- A corporificação das personagens que circulam Macabéa
Comentando que " pensar o corpo é pensar suas performances, seus limites, na visão do amplo universo semiótico no qual se produzem as subjetividade ", Nízia Villaça (1999, p.13) busca discutir o corpo como a materialização da identidade dos sujeitos, o que na dimensão ontológica significa dar ao ser a concretude, que o humaniza no sentido físico. Macabéa como personagem central do texto clariceano, que é referência a este estudo, tem à sua volta uma série de outros personagens, também identificados na corporeidade que os define enquanto criações literárias.
O primeiro desses personagens é o narrador, Rodrigo S.M., que se auto-define bem próximo da personagem Macabéa, co-fundindo-se com ela, como também a própria Clarice, que se considerava em parte nordestina, por ter vivido na região enquanto menina.
" É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste. " (HE, p.20)
" A história - determino como falso livre-arbítrio - vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes, é claro. Eu, Rodrigo S.M. " (HE, p.21)
Percebe-se pela forma como o narrador se apresenta, que o mesmo considera-se parte da história, uma espécie de alterego da personagem principal, estabelecendo associações e identificações que revelam a originalidade da escritora. Rodrigo ainda diz: " com essa história vou me sensibilizar, e bem sei que cada dia é um dia roubado da morte. Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo. " (HE, p.16)
Nesse sentido, o "corpo" aparece como o traço que une narrador e personagem, porque é ele o signo que dá significação ao discurso clariceano. " Vejo a nordestina se olhando ao espelho e - um rufar de tambor - no espelho aparece meu rosto, cansado e barbudo. Tanto nós nos entertrocamos. " (HE, p.22) É como se narrador e personagem trouxessem no corpo a marca de um destino, que se anuncia na imagem corpórea, que reconhecida até mesmo no meio da multidão, conta histórias anunciadas de pobreza, silêncios, discriminação, pureza original - " Este livro é uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta. " (HE, p.17)
Mais uma vez o corpo, materialidade existente, ganha sentido de anulação, anunciando figuras que como "fotografia muda", sem vida, porque sem artifícios mostra a existência dura, negada, de personagens que mesmo ficcionais se revelam na realidade crua de uma gente a qual não cabem grandes adjetivos ou metáforas.
Olímpico de Jesus, outro personagem que circunda Macabéa, é também um nordestino que entra na narrativa como o homem que vai despertar na personagem um desejo, até então inconsciente, que faz com que ela sinta-se viva.
" Havia no começo do namoro, pedido a Olímpico um retratinho tamanho 3x4 onde ela saiu rindo para mostrar o canino de ouro e ela ficava tão excitada que rezava três pai-nossos e duas ave-marias para se acalmar. " (HE, p.46)
Olímpico como bom nordestino, tinha as mãos calosas do metalúrgico, que trazia para a cidade grande o sonho de sucesso, no corpo que era forte na aparente fragilidade, feito para o trabalho pesado, pois para quem pouco estudo tinha, restava os ofícios menores, de colocar "barras de ferro" uma sobre as outras.
Mas é em Glória, colega do escritório, que Macabéa encontra seu contraponto, e Clarice ao apresentar a personagem o faz, no paradoxo da nordestina, raquítica, olhos embugalhados, cara de fome enquanto a portuguesa, roliça, de ancas largas, molejo ao andar, farta de carnes.
" Glória possuía no sangue um bom vinho português e também era amaneirada no bamboleio do caminhar por causa do sangue africano escondido ". (HE, p.64)
" Pelos quadris adivinhava-se que seria boa parideira. Enquanto Macabéa lhe pareceu ter em si mesma o seu próprio fim. " (HE, p.65)
" ... e tudo devia ser porque Glória era gorda. A gordura sempre fora o ideal secreto de Macabéa. " (HE, p. 67)
No campo dos significados, para a nordestina que não tinha sequer noção de sua existência, mas para quem a "fome" era natural, a "gordura" passa a ser signo de status, de riqueza, de vida boa na forma como Clarice passa no discurso, o olhar de Macabéa sobre a colega de trabalho, que lhe rouba o namorado.
2.2- OS NÃO-DITOS QUE ESTIGMATIZAM NO CORPO A FIGURAÇÃO DA MULHER NORDESTINA
2.2.1 Mulher nordestina: corpo e saga
Falando do corpo na experiência do sentido, Bezzera Júnior (2001, p.13) diz que:
" (...) o surgimento do sentido por meio da linguagem, inevitavelmente produziria um corte, um hiato entre o sujeito e sua experiência imediata inominável, que seria alterada pela descrição em significados partilháveis. A idéia subjacente é a de que sempre há uma perda na conjugação linguageira do mundo. A palavra é a morte da coisa. "
Em Clarice, a impressão que se tem é a de que a experiência e a linguagem interagem, construindo a dimensão do corpo, como algo que parece ao leitor, estar vivo, quase parte da história que o enfeitiça. A palavra clariceana é paixão, magia, porque traz em si a construção nascida da vivência que está muito além, sobretudo, nos silêncios que indicam e falam na mudez significada.
Macabéa, a mulher que traz no corpo a saga do feminino anulado pela adversidade da natureza, que pune os que resistentemente se deixam criar no sertão, é o exemplo de mulher nordestina anulada pela semiosfera onde estava inserida.
Para Dominique Maingueneau (1995, p.133) a representação do enunciador na obra literária, leva-o a desempenhar o papel de "fiador", ou seja, aquele que se encarrega da responsabilidade do enunciado. E completa:
" O 'fiador' possui um caráter e uma corporalidade. O 'caráter' corresponde a um feixe de traços psicológicos e que é claro, são apenas estereótipos específicos de um lugar, de uma época, que a literatura contribui para validar e nos quais se apoia. "
Em "A Hora da Estrela", essa incorporação ocorre, muitas vezes, na corporificação dos traços do Nordeste na figura de Macabéa, que na sua magreza, nos olhos, na boca, no nariz, nos dentes, enfim, nela toda, reflete a aridez do sertão nordestino, a falta de tudo, o esquecimento da existência desse lugar, dessa gente:
" Ela nascera com maus-antecedentes e agora parecia uma fila de não-sei-o-quê com ar de se desculpar por ocupar espaço. No espelho distraidamente examinou de perto as manchas no rosto. Em Alagoas chamava-se panos " (HE, p.22)
Ao situar o Nordeste como lugar em que a personagem vivia, Clarice a situa no cenário da enunciação do discurso, conforme comenta mais uma vez Maingueneau (1995, p.87) quando diz que " os tipos de cenografias colocados indicam obliquamente como as obras definem sua relação com a sociedade e como nessa sociedade é possível legitimar o exercício da palavra literária ."
O corpo em Macabéa chega primeiro, é como se a personagem não precisasse de voz, pois seu jeito de ser, na visão do outro que a vê, não necessitasse realmente de nada, já que a imagem vista fala por ela mesma.
" Mas uma coisa descobriu inquieta: já não sabia mais ter tido pai ou mãe, tinha esquecido o sabor. E, se pensava melhor, diz-se ia que havia brotado do sertão em cogumelo mofado. Ela falava, sim, mas era extremamente muda. " (HE, p.29)
Essa mudez, esse silêncio ressignificado no contexto da escritura clariceana é visto como a voz do oprimido; "mudez" que encerra a negação da voz daqueles que para os poderosos não existem, só incomodando quando exercem o direito ao grito.
O Nordeste sofrido, com sua gente "feia", "seca", "sem cor", como Macabéa é referendado em todo texto nos não-ditos e pelos índices que encaminham o discurso para uma leitura da personagem, vai muito além do dizível. Macabéa, "a que nem sabia que existia", na sua pureza agreste, sublime na sua inconsciência, hilária em suas tentativas lógicas de incorporar padrões estranhos à sua natureza, é na verdade o sertão nordestino do Brasil, em que pobreza, miséria, fome, misturam-se com o misticismo, criando ícones e jamais perdendo a visão fundante de um povo marginalizado, oprimido, discriminado, mesmo que ingênuo.
O corpo de Macabéa é assim, expressão de sua subjetividade, seus sonhos, suas ilusões de "moça virgem datilógrafa", como ela se apresentava. A virgindade, uma espécie de signo de sua moralidade sem precisão, visto que a não-consciência de existir, já a suprimia de qualquer violência sexual. Assim como a terra de onde veio, Macabéa carrega na expressão de "espanto" de quem não entende as "outras pessoas", - as que não são de sua classe social - toda a saga da mulher nordestina.
2.2.2. Um corpo antitético atravessando os paradigmas sócio-culturais
Assim o narrador apresenta a personagem:
" Nascera inteiramente raquítica, herança do sertão. Com dois anos de idade lhes foram mortos os pais. " (HE, p.28)
" Do contato com a tia, ficara-lhe a cabeça baixa. " (HE, p.29)
" Sono superficial porque estava há quase um ano resfriada. Tinha acesso de tosse seca de madrugada. " (HE, p.30)
É com esse corpo que Macabéa chega à cidade grande, para ocupar um emprego arranjado pela sua tia, reproduzindo assim a história de tantos e tantos semelhantes nordestinos, que vão a busca de melhores dias nas grandes capitais. No corpo, Macabéa traz sua história, que como outros seus conterrâneos, nada tem de comum com os habitantes da cidade, seres alienígenas para a moça nordestina, que queria ser como eles na sua inconsciência, mas que jamais o seria na essência.
" (...) pintava de vermelho grosseiramente escarlate as unhas das mãos, mas como as roía até o sabugo, o vermelho berrante era logo desgastado e via-se o sujo preto por baixo. " (HE, p.34)
Assim, na vaidade percebida no ato de pintar as unhas, há na crueza do narrador a presença do que ele vê além da tentativa de esconder inconscientemente o que é sujo e o que é antitético, ou seja, as unhas pretas e mal cuidadas do trabalho, ou mesmo quem sabe, da falta de determinadas substâncias no organismo, acarretada pela desnutrição.
" É que lhe faltava gordura e seu organismo estava seco, que nem saco meio vazio de torrada esfarelada. " (HE, p.38). O paradoxo da magreza da fome com um saco meio vazio de algo comível que é torrada esfarelada, dá a idéia/cenário de algo muito forte sob o ponto de vista semiótico, que é o fato de só se dar alguma coisa "esfarelada" a bichos.
A visão do alimento, que não combina com a imagem passada da protagonista, está no corpo inexpressivo, sem vida e que é associado à essência de sabor de cheiro bom e prazer: "Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer. Me desculpe se lhe ofendi, mas sou sincero." (HE, p.37). Macabéa foge a todos os padrões sócio-culturais com os quais convive no cenário da cidade, mas os ultrapassa pela força inconsciente dos resistentes, de um corpo que mesmo frágil sobreviveu à fome, à dor, à exclusão, mas não ao seu destino.
2.2.3 O corpo (obs)ceno: a (id)entidade de Macabéa
O feminino em Macabéa não está na intenção de seduzir, mas ao contrário, na inconsciência que a condição de gênero lhe impõe:
"Ela sabia o que era desejo - embora não soubesse que sabia. Era assim: ficava faminta mas não de comida, era um gosto meio doloroso que subia do baixo-ventre e arrepiava o bico dos seios e os braços vazios sem abraço." (HE, p.45)
A solidão em Macabéa é singular e é nesse espaço que o desejo se manifesta, incompreensível, que envergonha e dá prazer, porque traz à tona a (obs)cenidade do que não seduz. "E você tem cor suja. Nem tem rosto nem corpo para ser artista de cinema." (HE, p.53). "Seu sexo era a única marca veemente de sua existência." (HE, p.70). No discurso clariceano, a "condição feminina" é algo que traduz uma certa (pre)destinação, como se o gênero já dissesse das dores, do sexo como uma sina de elementos naturais construtores de uma subjetividade, no caso, não assumida de forma consciente, mas sempre latente como força, libido a pulsar. Macabéa, independentemente de uma intensidade dramática, é alienada da realidade do seu "eu". Sua (id)entidade é misto de "vividos" e "espantos" sublimadores do real.
Até no instante da morte, Macabéa é puro desejo, desejo não saciado em um corpo que parece ter atraído compaixão. Quantas vezes chamada de "feia", "grotesca", "raquítica", ela transcende o corpo pela expressão de vida na morte.
" Acho que ela não vai morrer porque tem tanta vontade de viver. E havia certa sensualidade no modo como se encolhera. Ou é porque a pré-morte se parece com a ânsia sexual? É que o corpo dela lembrava um esgar de desejo. " (HE, p.84)
No abraço final, metáfora clariceana da morte, é como se fosse um esfuziante desmaio de amor, de um corpo que em vida viveu a dura e sofrida experiência de ter nascido no Nordeste e como se não bastasse, de ser mulher. A morte é assim, a libertação desse corpo que a marcou e fez dela alguém que não viveu para saciar os desejos da mulher que a habitava.
Obscena morte, que num instante fatal a poupou do público, dos olhares de pena, da dor nascida da compaixão. Corpo inerte, que ainda guarda o desejo contido em solitários momentos de vertigem de um prazer desconhecido.
" Um dia teve um êxtase. Foi diante de uma árvore tão grande que no tronco ela nunca poderia abraçá-la... " (HE, p.63). Macabéa, corpo de mulher negada por sua condição social e presente no desejo de mulher, identificada com todas as demais mulheres do mundo. Macabéa, personagem que traz no corpo a fraqueza de uma vida de privações e no coração, os sentimentos de menina que queria ser estrela de cinema.
2.3- A "ESTRELA" NA HORA DA LIBERTAÇÃO - O DISCURSO DE TANATOS EM MACABÉA
Macabéa em sua corporeidade já é "morte em vida", pois destituída dos atrativos que culturalmente e socialmente traduzem a mulher contemporânea, é índice de vida curta, de efemeridade, estando sua humanidade na própria condição de gênero e de origem.
Toda a narrativa é um discurso de "tanatus", a morte anunciada no corpo, na linguagem, na temporalidade que na construção da personagem é algo ansioso, desejo permanente de viver, de ser... " O seu viver é ralo " (HE, p.23), como se "ralo" fosse significado para frágil, perto de se esvair materialmente. " Antes de nascer ela era morta? " (HE, p.29), indagação que revela a ingenuidade da moça nordestina. " Apesar da morte da tia, tinha certeza de que com ela ia ser diferente, pois nunca ia morrer ." (HE, p.29). Essa visão colocava Macabéa no plano do imaginado, dos sonhos que tecia, sempre como menina que um dia deixara o Nordeste, que queria ser estrela de cinema.
" Ela era calada por não ter o que dizer, mas gostava de ruídos. Eram vida. Enquanto o silêncio da noite a assustava: parecia que estava prestes a dizer uma palavra fatal. " (HE, p.33). Assim, observa-se que a morte parecia rondar a personagem, com seus sinais de provocar medo em alguém que já nasceu solitário, sem ninguém para acolhê-la com amor verdadeiro.
" Embora só tivesse nela a pequena flama indispensável: um sopro de vida. " (HE, p.36). A palavra "sopro" tem a força semântica da dicotomia vida/morte, porque diz da fragilidade de alguém que parece sobreviver a cada dia de forma persistente, como quem dribla a morte, enganando-a. Ela parecia acreditar que era fina matéria orgânica, mas mesmo assim a vida era pelo que ela lutava, era o que estava no seu desejo de enfrentar as dificuldades.
" Você está com começo de tuberculose pulmonar. " (HE, p.68). A morte rondando e Macabéa inconsciente, na sua visão de verdade, sozinha. Macabéa atropelada, " não passava de um vago sentimento nos paralelepípedos sujos. " (HE, p.83). Nesse contexto, a morte aparece com uma cara de sarjeta, preparando o cenário no qual os excluídos, na maior das histórias morrem. " E então - então o súbito grito estertorado de uma gaivota, de repente a águia voraz erguendo para os altos ares e a ovelha tenra, o macio gato estraçalhando um rato sujo e qualquer, a vida come a vida ". (HE, p.85)
A estrela encontra seu momento, sua glória, sua transcendência nas rodas de um grande e luxuoso Mercedes. É tanatus, enfim, incorporando Macabéa.
3- PÓS-DITO: ORDENANDO AS TESSELAS NO MOSAICO CLARICEANO
Território construído por liberdades e interdições e revelador de sociedades, raças, etnias e subjetividades, o corpo é a primeira forma de visibilidade humana, sendo também presença constante na obra de Clarice Lispector, escritora que faz de sua narrativa um conjunto de ditos e não-ditos, característicos de uma literatura singular.
Em sua última obra, "A Hora da Estrela", ela faz da materialidade polissêmica de Macabéa, personagem central da obra, uma crônica da mulher nordestina, que carrega nas marcas do corpo, os indícios de seu tempo e de sua história. O corpo de Macabéa é um texto sem subterfúgios, se bem que depositário de intencionalidades silenciadas de palavras, mas rico de sentidos no discurso da mudez.
Macabéa fala "na sua falta de jeito para viver", no seu desejo espelhado em corpo e não traduzível no inconsciente. Macabéa, sofrida e forte na sua condição feminina. Macabéa sublime e transparente no delato da sua origem nordestina. Macabéa, estrela da morte, triste e trágica promessa em vida.
Clarice com seu discurso forte, labirinto de significações, espanta no instante em que convida o leitor a decifrar os enigmas da escrita, mas como o cego que tateia no mundo, sentindo no tato o que lhe falta, também nós, admiradores de sua escritura, nos silenciamos diante da beleza e magia da sua Macabéa, a estrela que ao transcender, brilha na esperança de uma gente, que como bem diz o narrador, um dia terá que gritar.
BIBLIOGRAFIA
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Notas: