![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
Nossa Senhora das Flores - a santa que abusou do solidéu: Jean Genet e Hilda Hilst
Deneval Siqueira de Azevedo Filho (UNICAMP/
UFES/CNPq
)
Até que um dia, o mais frágil deles,
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua, o sonho,
e conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.
(Maiakovsky)
O conceito de inumano/inumanidade de Jean-François Lyotard 1 pode ser entendido como um movimento de restauração, de restaurar para resistir, resistência como tarefa da escrita, do pensamento, da literatura e das artes em geral, pois delas é essencialmente a tarefa de aventurar-se a inumar o desamparo e o abandono às letras e dar corpo à alma em vaziez, buscando nomes, tateando cantos, acariciando dobras. Em Hilda Hilst e em Jean Genet, as criaturas encontram-se subordinadas ao interesse da sobrevivência pela complexidade do movimento que as aprisionam às narrativas, pois são entidades flutuantes e, muitas vezes, desgovernadas. Em Hilst, tomemos Hillé, protagonista de A Obscena Senhora D , e, em Genet, Nossa Senhora das Flores, cuja diáspora corpórica é um sonho que carrega seu próprio despertar. Hillé, também chamada de A Senhora D, é um " eu Nada, eu Nome de Ninguém, eu à procura de luz numa cegueira silenciosa, sessenta anos à procura de sentido das coisas." 2 Ou seja, em ambas as personagens há algo que avança para trás, na direção da coisa desconhecida no interior. Para Lyotard, este tipo de inumano "... a angústia, o estado de um espírito assombrado por um hóspede familiar e desconhecido que o agita, fá-lo delirar mas também pensar..." 3. Nas personagens postas no jogo desta angústia, há uma derrelição que as desampara, num espaço do absurdo ou do delírio, do abandono ou do desamparo de onde somente a memória pode dar corpo à voz, para se conseguir dar também visibilidade ao que está atrás das máscaras, em Hilst, e ao que está sepultado no calabouço do onanismo, em Genet. Em Hillé, as máscaras de ferrugem e esterco, a boca cheia de dentes, ou máscaras de focinhez e espinhos - algozes de uma "desastrada lembrança de mim mesma, alguém-mulher querendo compreender a penumbra, a crueldade" 4ilustram a complexidade desses parceiros interiores, alimentos da alma, seres inumanos que sempre estão em trânsito nas falas e nos pensamentos da personagem, pois ela caminha sempre entre dois pontos: a indeterminação desses seres pelas máscaras e a razão instituída pela inumanidade dos terrores interiores. Não é fácil entender a complexidade dos parceiros interiores dessas personagens. Ao contrário, em busca de sair do estado de inumanidade, Hillé, por exemplo, deixa transparecer "o infortúnio e a indeterminação" de tal forma ameaçadores que seu espírito não pode deixar de temer, de relutar essa força inumana de desregulação :
E nos escuros, eu búfalo não temo, sou senhor de mim, não sei o que é escuro mas estou amoldado, a água nos costados, deslizo para dentro de mim, encantamento de um focinho de águas, nem te pressinto, vibro as patas, sou senhor do meu corpo, um grande corpo duro, eu búfalo sei da morte? Eu búfalo rastejo o infinito? 5
O inumano presente nas personagens de Jean Genet e Hilda Hilst é sempre delineado por uma sintomalogia bem rigorosa que torna impossível uma dissociação de perturbações até confundidas com doenças. A respeito de Genet, Sartre 6 diz-nos que os dez anos de literatura do autor francês são equivalentes a uma "cura psicanalítica". Por seu turno, Hilda Hilst esbanja, na sua obra, um interesse pelos limites do pensamento, digamos, assim, por aquelas zonas intermediárias, entre a luz e a sombra, em que a própria linguagem falece, às vezes, algo como o pensamento da filosofia de Wittgenstein, esgarçado por um temor interno expresso na narrativa híbrida e complexa que se espelha nas personagens esquizofrênico-paranóicas, neste texto, desconstruído ( o temor) em Hillé, la cochone hystérique , a porca histérica, assim nomeada pelo jornal francês Liberátion em resenha publicada sobre a novela.
Considero Nossa Senhora das Flores, personagem de Genet, e Hillé, protagonista de Hilst, clínicas ou não, acima de tudo, criações de dois grandes antropólogos, como aqueles que empenham na sua obra toda uma concepção de ser humano, da cultura e da natureza, grandes artistas, à semelhança daqueles que sabem extrair novas formas e criar novas maneiras de sentir e de pensar expressando-se por singular linguagem.
Para Sartre 7, o estilo de Nossa Senhora das Flores torna-o um "poema onírico", " um poema de futilidades", tenramente conduzido por uma atmosfera de complacência onanística, invadido pelo verme das palavras fantasmagóricas, do pesadelo, o que imprime à obra um tom melodioso-autista. Autista de auto - de si, senhor de si, delírio de si, para si, criação por si, diante de si, orgasmo para si. Este é Jean Genet em Nossa Senhora das Flores .
Em A Obscena Senhora D , ratifico comentário de Nelly Novaes Coelho 8: a visâo do ser humano que predomina na obra é visceralmente pessimista no sentido de que as criaturas são indiferentes ao Outro, são trágicas ou tolas, ou aparentemente inconscientes daquilo que realmente acontece com elas. Portanto, inumanas. Sabe-se que essa visão trágica e negativa, inconsciente ou sepultada se restringe ao homem pós-moderno, o que naufraga no caos que ele próprio criou, onde "animalidade", "humanidade" e "inumanidade" são uma conjunção da violência e da (não)sexualidade. Parece-me que é nesta conjunção que encontro um ponto (in)comum sobre o qual me arrisco a pontuar alguns aspectos das duas obras em questão.
Assim, feitas as primeiras ponderações, pergunto: Como se dá essa conjunção da violência e da (não)sexualidade em ficções de linguagem tão densa e adversa, tão instigante e ao mesmo tempo tão hermética? Num segundo momento, pode-se refletir sobre como essa violência contida nas personagens conduz ambas as narrativas ao rudimentar nas descrições obscenas, em Genet, proferidas pelo libertino cruel e, na de Hilst, pela voz também obscena de uma mulher despótica?
A Obscena Senhora D , de Hilda Hilst e Nossa Senhora das Flores , de Jean Genet, são verdadeiros testamentos de solidão: tanto Hillé quanto Nossa senhora, em seus infortúnios, não se perdoam, transformando seus delírios numa massa escura e densa de linguagem em busca da libertação por meio da expulsão do inumano existente nelas. Hillé, trancada em sua casa habita debaixo da escada, um microcosmo, um sepulcro; Nossa Senhora e todas as suas comparsas habitam o imaginário de um prisioneiro que se debate em fantasias travestidas de realidade. Apesar de serem as duas personagens visionárias, os autores jogam com o ponto de vista utilitário para medir a distância exata de que necessitam as histórias para aterrorizar os leitores mais pudicos: o narrador solitário de Nossa Senhora das Flores , o onanista inumano deitado na sua cama num estado de meia-loucura desterritorializa-se sempre, para, nervoso, ativo, auto-assertivo pequeno homem , vagar pela prisão onde se condensa nas suas aventuras maravilhosas e localiza-se em dois milagres: Genet/ seus (des)amores e a troca da situação inumanizada pelo delirante e viril homoerotismo, diga-se, sua crise original. Vários delírios se roçam numa literatura cujo estilo mostra-se pomposo, seco, de insolente esplendor e inumanamente irônica, pois sem luz. Como resultado, o elemento poético em Genet é menor. Assiste-se, em Nossa Senhora das Flores , ao desenvolvimento mais fascinante da faculdade demonstrativa e ao mesmo tempo onírica, surreal e barroca do autor. A demonstração como função superior da linguagem surge nas cenas alucinantes descritas de algumas personagens, enquanto outras descansam na seleção viril do narrador. O inumano conduz essa seleção:
Mais do que qualquer outro, sonho com Pilorge. Seu rosto recortado da Revista Detetive escurece a parede com sua gélida radiância, que é feita da sua morte mexicana, da sua vontade de morrer, da sua juventude morta e da sua morte. Ele enlameia a parede de um brilho que não pode se exprimir a não ser pela confrontação de dois termos que se anulam: luz e treva. 9
Nossa senhora, enquanto personagem inumana, tenta os espaços eternos por todos os meios. Atormentada, porém, desenvolve suas inesgotáveis confidências, seus inesgotáveis gozos, na sua morada fétida, pois é lá que suas criaturas a tomam de todo:
Nossa Senhora das Flores gostaria de vomitar sua carcaça. A noite, que chegou, não traz o terror. O quarto cheira a puta. Fede e cheira bem.
- Para fugir ao horror, já nos disseram, enterre-se nele até os olhos.
Por si própria, a mão do assassino procura o seu pau ereto. Ele o acaricia sobre o lençol, a princípio docemente, com aquela ligeireza de pássaro adejante, em seguida o aperta, o comprime: por fim descarrega-o na boca desdentada do macróbio estrangulado. Adormece. 10
O narrador só aparentemente existe. É Nossa senhora quem toma a atitude ficcional do delírio e do gozo fétido e bandido. A ela cabem a atitude obscena de persuadir, a vontade pornográfica e a intenção de levar qualquer leitor ao seu sepulcro, ao seu poço, criando uma espécie de filosofia de alcova, numa aventura até mesmo pedagógica de mostrar o próprio raciocínio delirante, ora violento, muito violento ao lado das suas criaturas tão barrocamente elaboradas e atormentadas: " É surpreendente ver Divina crescer em idade e em sensibilidade, quando o consenso comum reza que quanto mais velho se fica, mais endurece a pele (...) Mas perdia o controle sobre si mesma, tornava-se rubra e quase não voltava mais a si, sem um escândalo. Ela se agarrava à dignidade." 11
A linguagem ainda estabelece um pacto entre o delírio e o obsceno, algumas vezes entre o obsceno e o erótico, sexualizando a significância dos corpos das criaturas que já desempenham literalmente o papel de figuras enunciadas para saciar os desejos de Nossa Senhora. Nestes momentos, a narrativa genetiana remete-nos à cadeia mais profunda dos teoremas sádicos: é preciso entender-se que provar é também uma função da imaginação. A imaginação representa os objetos para nós de tal forma que inclina nosso julgamento na direção que desejamos. Os escritos ou desenhos de um louco não expressam simplesmente seus terrores; são feitos para mantê-los e confiná-los em si mesmos. No caso de Genet, o poeta, os princípios de seus desejos são básicos, as regras da sua sensibilidade que regem um enfoque muito particular do mundo, diz Sartre. 12 Portanto, os padrões vêm depois. Eles organizam as imagens de tal forma, retomo Sartre, que elas voltam para Genet, pelo real, seu próprio plano de ser. Sua imaginação, não se pode esquecer possui um tom totalmente homossexual e criminoso. É assim que Nossa Senhora excita-se sexualmente ao bater, matar, fazer rapazes. Porém, algo de puramente inumano sobressai-se. A linguagem estabelece uma aliança muito corajosa entre o narrador onanista e suas criaturas sob o signo do abuso do prazer de Nossa Senhora, coroada pelo solidéu da possessão, da inumanidade, solidéu-solidão. Todo santo é, afinal, profundamente só.
Hilda Hilst, em sua narrativa também delirante, além de paranóica, assina sua escritura impondo à protagonista o papel de aceitar esse mesmo solidéu: algo inumano dentro de si a atormenta, uma derradeira dúvida, uma espécie de medo: o de aceitar um papel que lhe faz um excesso de criatura ou uma criatura em excesso ou o excesso da criatura que é:
Também não compreendo o corpo, essa armadilha, nem a sangrenta lógica dos dias, nem os rostos que me olham nesta vila onde moro, o que é casa, conceito, o que são pernas, o que é ir e vir, para onde Ehud, o que são essas senhoras velhas, os ganidos da infância, os homens curvos, o que pensam de si mesmos os tolos, as crianças, o que é pensar, o que é nítido, sonoro, o que é som, trinado, urro, grito, o que é asa hein? Lixo as unhas no escuro, escuto, estou encostada à parede no vão da escada, escuto-me a mim mesma, há uns vivos lá dentro além da palavra, expressam-se mas não compreendo, pulsam, respiram, há um código no centro, um grande umbigo, dilata-se, tenta falar comigo, espio-me curvada, winds flowers astonished birds, my name is Hillé, mein name madame D, Ehud is my husband, mio marito, mi hombre, o que é um homem? 13
Do corpo derrisório à obra de arte, da obra de arte às Idéias, vai toda uma extensão que se deve realizar sob um espírito de imaginação dialética. Hillé é toda feita de uma técnica de retorno, é palimpséstica, de deslocação, de remissão, de disfarce e de desdobramento. A dialética em A Obscena Senhora D não significa apenas uma circulação do discurso, mas transposições e deslocações do estilo hilstiano, que têm como resultado a representação da mesma cena em diversos níveis, de acordo com retornos e desdobramentos na distribuição dos papéis na narrativa e da digressão da linguagem.
É bem verdade que o obsceno pretende antes de mais nada pôr a linguagem no seu máximo limite, provocando um estranhamento entre "o limitado humano e o amorfo, invisível, inapreensível." 14
Assim, Hillé é uma criatura que se faz por meio de seus monólogos/diálogos, principalmente ao descrever sua obscena solidão, sua loucura. Para tal, invoca uma (des)razão analítica universal onde a especificidade do desejo se ultrapassa. A personagem, ainda na visão de Ribeiro, está "num estado em que a matéria, os hábitos, sempre repetidos, a fatura material, nada mais significam, em contato com uma renhida Luta-Busca com o Maior." 15
Aí gritam Beckett, Ionesco e Kafka! Os leitores estão sempre sendo induzidos ao avesso, a um cínico e peremptório locus em cujo corpo a liberdade impõe-se como envelopada, justamente para se deixar violar o túmulo - a casa - sobretudo uma casa cujo teto é o vão da escada, espaço-chave da inumanidade de Hillé a porca senhora. Sua alcova distingue dois comportamentos, duas espécies de loucura/solidão: uma, estúpida e disseminada no mundo, outra, depurada, refletida, tornada inteligente, sígnica à força desse ser mutável, por vezes (des)sexualizado, mas deveras obsceno:
olhe senhora D, não pode dar jeito, né, o senhor Ehud ficaria triste lhe vendo assim, tá morto né, a morte vem para todos, a senhora também podia colaborar com a vizinhança né, essas caras que a senhora anda pondo quando resolve abrir a janela assustam minhas crianças, ai ai senhora D não faz assim agora, isso é coisa de mulher desavergonhada, ai que é isso madona, tá mostrando as vergonhas pra mim, ai ó Antônia, ó Tunico, só quis dar o pão pra ela e olha como ficou, tá pelada, ai gente, embitutou, credo Nossa senhora, é caso de polícia essa mulher quem te mandou, Luzia, entrar na casa da mulher, hein, quem te mandou? Se ela ficou pelada tá na casa dela, volta pra casa mulher que pão que nada, não tá vendo que o demo tomou conta da mulher? Porca, exibida cadela, ainda bem que é só no pardieiro dela que mostra as vergonhas 16
E as palavras desta literatura, por sua vez, formam, na linguagem, o duplo da personagem ( o que ocorre também em outras obras da Hilst, como Cartas de um sedutor e Estar Sendo. Ter Sido ) atuando diretamente sobre os sentidos. O mundo de Hillé como bem nos mostra o fragmento acima é exatamente um duplo perverso (como o são os outros duplos em Hilst), em quem todo o movimento da protagonista, em seu castelo alcovado, emparedado, pretende reconstituir um mundo de misérias e fantasmas sepultados e reproduzir toda sua solidão nesse duplo perverso. Isso, como mostrei anteriormente, dá-se também em Genet. Cada personagem em seu âmago é uma entidade potencializadora de uma crueldade imediata. Movimentam-se sob o signo de Caim, no espelho de Caim, Nossa Senhora, a que abusou do solidéu/solidão e Hillé, a santa sem a saia, que traz na narrativa hilstiana de primeira pessoa o maravilhamento do encontro com o flagelo do abandono, a que é conduzida como se fosse levada a um trono de falsa volúpia.
Ionesco, o ensaísta, soube muito bem desenvolver a inumanidade do ser contemporâneo ao atentar para sua profunda (a)historicidade. De fato, o ser humano parece viver na periferia de si mesmo, um ser isento de suas irreparáveis cicatrizes. Hilda Hilst e Jean Genet dizem-nos que alguém, ainda, indignado e furioso quer voz. Indingentes, suas personagens são revertidas , pois se movimentam sempre no desconforto: caçam um saber, talvez o inimigo dentro de si. Dão, dessa forma, fala ao corpo, construindo cada qual seu santuário.
LYOTARD, Jean-François. O inumano. Considerações sobre o tempo. Lisboa: Estampa, 1989.
HILST, Hilda. Rútilo Nada. A Obscena Senhora D. Qadós. Campinas : Pontes, 1993.
SARTRE, Jean-Paul. Saint Genet actor & master . Trad. Bernard Frechman. New York : Pantheon, 1963, p. 544.
Cf. Da Poesia. In: Cadernos de Literatura Brasileira. Hilda Hilst . N. 8, out. 1999. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Sales, p. 66.
GENET, Jean. Nossa Senhora das Flores . Trad. Newton Goldman.Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 137.
SARTRE, apud GENET, op. cit., p. 31.
Cf. RIBEIRO, Leo Gilson. Da Ficção. In: Cadernos de Literatura Brasileira . Hilda Hilst. n. 8, out. 1999. Instituto Moreira Sales, p. 88.