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A órfã do rei: a relação de paternidade com o mar
Claudine Varella (UFRGS)

Em 1991, José Mena Abrantes escreveu A órfã do rei . A peça enfoca, através da trajetória da órfã, a confusão que está na base da nova cultura angolana que se estabelece com a colonização e que serve como um dos alicerces sobre os quais se edifica a nação. O mar se mostra como o caminho pelo qual chega a transformação.

Nas primeiras palavras da órfã o público já pode perceber que todo o seu discurso será permeado pelo mar: "E é precisamente do mar que eu quero falar-lhe, meu Rei, meu Senhor, meu Pai." 1. Este ocupa o posto de referência central na vida da órfã, assim como na vida portuguesa e colonial na era do domínio imperial português. Maria Angélica B. G. Madeira coloca que:

Não é um exagero repetir que todos os representantes da sociedade em terra estavam presentes em viagem marítima. (...) Apesar da maioria da população ser constituída por homens, sabe-se que mulheres e crianças sempre viajavam e, dada a situação, formavam um pequeno grupo a parte. Há referências a escravas e criadas, assim como a fidalgas acompanhando seu pai ou marido. Há também as órfãs do rei, jovens trazidas de orfanatos de Lisboa e enviadas para as colônias, como estratégia para incrementar o povoamento nas colônias. Levavam consigo um dote que em geral era um posto no serviço público para o homem que a desposasse, conforme nos ensina o historiador inglês Charles Boxer. 2

 

Observa-se, através da citação, que o navio/um navio, que seria o meio através do qual a jovem encontraria seu destino em África, era um microcosmo representativo do universo colonial 3. Fica claro, inclusive, a proximidade existente entre as posições ocupadas pelos negros e pelas mulheres nesta estrutura, um lugar a parte, não sendo incluídos nem contabilizados como parte integrante da comunidade do navio e da sociedade colonial e imperial 4.

A extrema importância desse mar também pode ser percebida pela quantidade de obras produzidas que a ele se remetem ou que o tenham como ponto de referência, como se dá no monólogo ora estudado. Consolidando sua importância tanto no imaginário português quanto no africano, em geral, podemos retomar a análise proposta por Carmem Tindó Secco que assim lê a simbologia do mar:

Em virtude de sua extensão aparentemente sem limites, as águas oceânicas representam o indiferenciado original do qual tudo se formou. Cosmicamente conotado, o mar é fonte de energia criadora e, por sua ambivalência, é visto, desde remotas eras, como local enigmático, território de mistérios e brumas - símbolo do inconsciente coletivo, onde residem, segundo o filósofo Gaston Bachelard, " sob as imagens superficiais das águas, imagens profundas, cada vez mais tenazes. " 5

 

Para os portugueses, em suas grandes viagens marítimas, apesar de o mar representar um espaço relacionado a grandes descobertas, aventuras heróicas e um futuro grandioso, era, ainda, o espaço de monstros marinhos, tempestades gigantescas e do desconhecido, relacionando-se também a catástrofes. Cria-se assim, por exemplo, um tipo específico de "literatura", os relatos de naufrágio , ao mesmo tempo em que aparece uma quantidade espantosa de ex-votos relacionados a tragédias marítimas 6, e se escrevem inúmeros poemas, dentre os quais o clássico Os Lusíadas , de Luis Vaz de Camões (1580).

Em África, como explica Secco, encontra-se no mar tanto a idéia de vida quanto a de morte em uma: "(...) simbologia (...), em que morte e vida interagem, remetendo, simultaneamente, tanto à idéia de gestação, como à de destruição" 7 . A presença dos portugueses passa a reforçar cada vez mais a idéia de morte e destruição, sobretudo por causa do tráfico de escravos, tão bem representado na primeira peça trabalhada de Abrantes:

Espelho refletor de paradigmas europeus, o mar, no período da conquista e durante o tráfico negreiro, converteu-se, para os africanos, em aterrorizadora imagem, povoada por tenebrosos monstros, figurações metafóricas da opressão. Dobrado o Cabo da Boa Esperança e vencido o Adamastor, o oceano, que para ancestrais tribos da África era o habitat das divindades das marinhas águas, surge metonimizado apenas por Kalunga-Pequeno, entidade anunciadora de mortes, pestes e sofrimentos. A colonização roubou o litoral dos negros, a este arrastados apenas para as viagens negreiras. Símbolo da tortura e da diáspora, o mar, para os africanos, com o início do tráfico, passa a assinalar a cisão com a cosmicidade da existência primeva. Descentralizados, dilacerados, os negros temem o oceano, o qual identificam a uma trilha de exílio e morte. Confinados às matas ou embarcados à força nos negreiros, associam o oceano à dor e à escravidão. 8

 

A longa citação se justifica pelo fato de que nela se dá a síntese de um processo que aqui interessa recuperar. Reitera-se que o encontro dessas duas versões trágicas do mar acontece na peça de Abrantes, onde uma jovem portuguesa vai ter sua vida invadida pelo mar, que a colocará entre esses dois referenciais, o africano e o português. Os destinos são traçados pelo mar: o português, o africano e o da órfã.

Para começar, é pelo mar que a jovem conhece sua primeira orfandade, quando este tira-lhe, de uma só vez, o pai e a mãe, deixando-lhe apenas uma grande ausência:

Eu nunca tinha visto um barco tão grande, com umas velas brancas enormes, e uma data de cordas por todo o lado. Eu sabia que o meu Pai estava lá em cima, entre todos os outros, mas não sabia qual deles era no meio daquela confusão. A minha Mãe bem apontava, mas eu não via nada. Sentia só que era o meu corpo que rangia com o movimento das águas e que o vento enfunava os meus pulmões a querer estalar de tanto choro terem dentro. Ficamos, a minha Mãe e eu, de mãos dadas, a ver o barco a afastar-se. Passaram horas e nós não saímos da mesma posição, a olhar. Já nem sei para onde olhávamos, porque já lá não estava nada, só o mar, mas nós não conseguíamos deixar de olhar para a ausência que o barco deixou. Foi nessa mesma noite que a minha Mãe morreu, calada, os olhos abertos, a olhar para a ausência que o meu Pai deixou. 9

 

O mar, desde então, passa ser uma forte presença na vida da jovem e ocupará espaço ainda maior em sua vida quando, ao chegar a época de completar quinze anos, sabe que ele poderá ser o veículo de novos sofrimentos pelo fato de que seu destino se atrela a ele, caminho de ida para as terras de África. Desde o primeiro momento ela pressente o destino trágico que lhe é reservado e contra o qual quer, mas não pode, lutar. Apesar de seu medo e de sua tentativa de escapar ao futuro que a ordem do mar lhe estabelece a jovem sabe que não há saída. Vale a pena lembrar, neste ponto, os versos emblemáticos de Fernando Pessoa que parecem servir como epígrafe dessa ordem inexorável do mar que se abateu sobre a trilogia familiar da órfã:

Ó MAR SALGADO, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão resaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar! 10

 

A órfã não vê esse mar como seu e o texto deixa claro para o público que o sofrimento dele advindo e da empresa colonial fez vítimas de todos os lados. Encontram-se, mais uma vez equiparados, os setores da vida social mais baixos, do império, como os negros, escravos e as "órfãs" do rei. .

Como não se sabe se a jovem chegou a Angola ou não, ou seja, não se sabe se ela cumpriu o destino que lhe fora traçado pela Coroa, já que o autor deixa claro no texto introdutório que a "heroína deste monólogo talvez nunca cá tenha posto os pés..." 11, resta ainda uma esperança, ou expectativa de alteração desse futuro trágico, em tantos momentos revelado através dos sonhos da moça.

Esses sonhos, ou alucinações que a jovem sofre e que nunca se pode ter certeza se aconteceram realmente, diz: "Não foi a primeira vez que sonhei com o mar. Nem sei aliás se foi um sonho. Eu não estava a dormir. Acho que não estava a dormir..." 12. Podem, talvez, ser encarados como reflexo de um "inconsciente coletivo colonial". Para a personagem, os sonhos estão sempre transitando entre o consciente e o inconsciente, de qualquer maneira, estando sempre relacionados com o mar. Volta-se ao texto de Secco:

As viagens marítimas sempre incitaram, através dos séculos, os homens à errância pela superfície dos mares. Já as massas oceânicas profundas estiveram associadas a monstros, símbolos do inconsciente coletivo, elementos mobilizadores da imaginação. Por tal razão, Jung associou a psique humana a um vasto oceano (o inconsciente), do qual emerge uma pequena ilha (o consciente).

 

Dessa forma, chega-se à conclusão de que os maiores medos relacionados ao período colonial e ao mar, encontram-se nesses sonhos representados na peça de Abrantes que serve como uma forma de preservar a memória da dor, da opressão e da violência, monstros do inconsciente coletivo que o jugo colonial faz nascer. No caso da órfã, o mar poder servir para, além do medo, abrir uma outra possibilidade de sonho, o reencontro com o pai:

Quando dias mais tarde me comunicaram que me iriam enviar para as terras distantes de África, uma súbita inquietação se acendeu no meu peito. Será que eu iria ter notícias do meu pai, aquele marinheiro silencioso e rude que um dia partira à aventura, sem nunca mais dar sinais de vida? Onde encontra-lo? Como reconhece-lo? Só sei que ia transpor o mar que nos separava, que ia finalmente enfrentar os monstros e os perigos que povoam a imaginação dos que ficavam. 13

 

Sendo a órfã, até então, um dos que haviam ficado, apenas sua imaginação poderia ver os perigos do mar e até onde ele levava. E os maiores desses perigos eram os efeitos da colonização e os meios através dos quais ela se efetivava.

No primeiro sonho que a órfã descreve na carta já se faz presente o que poderia ser um relato de naufrágio, tragédia freqüente já referida anteriormente e que adensa o clima de ameaça que se abate sobre a personagem:

As ondas cada vez eram mais altas e, ao cair em violentas batidas, cavavam sulcos profundos na praia que parecia nunca mais ter fim... Foi então que vi grupos dispersos de pessoas a serem tragadas no meio de uma fragorosa confusão de espuma e ferros retorcidos... Oh meu Deus, aquele rosto de sangue correndo em veios assimétricos... 14

 

A seguir, a jovem se vê em alto mar, em uma nau, com um homem que era seu marido mas que ela, até então, não conhecia. Dessa forma evidencia-se o fantasma da violência sexual, parte do destino que se aproximava, que a Igreja e a Coroa de alguma forma patrocinavam, enviando essa e outras jovens para "alimentar tubarões e funcionários do Reino em África" (Vol. II, p. 97). Não se pode esquecer que esses funcionários eram, em grande parte, prisioneiros degredados, não importando a qualidade nem a quantidade de crimes de cada um. Daí percebe-se que até eles eram tratados com mais respeito pela Coroa do que as jovens educadas pela Misericórdia: "Só então percebi que estava nua, dentro de uma nau no alto mar, e que esse homem era o meu marido, a quem eu prometera diante de Deus entregar-me de alma e corpo..." 15.

Após sua primeira menstruação, que aconteceu quando a personagem estava na missa com as outras jovens, a quem chama de "companheiras", vai ter início uma nova etapa na peça e na vida da órfã. Íris Amâncio coloca que: "é marcado com sangue o processo de fragmentação das sólidas referências identitárias da órfã" 16, o que explica o porquê da situação escolhida para que seu primeiro sangue menstrual fosse liberado. Iniciado esse processo de fragmentação, a jovem vai poder, pela primeira vez, perceber com nitidez o que constituiria uma outra referência, a terra que estava além-mar, tão vermelha quanto seu sangue e tão ameaçadora a trajetória que dela faria um sujeito partido:

Através do nevoeiro que se começou a formar diante dos meus olhos vi pela primeira vez a terra parda, os ocres baços manchados aqui e além pelo verde de palmeiras abertas ao vento, os matizes de luz, as nuvens baixas e densas. Pelas narinas entrava-me o sopro doce e metálico que o chão e as gentes exalavam. Numa súbita e vertiginosa pulsação, todas as coisas eram elas mesmas, nítidas e presentes, e ao mesmo tempo uma promessa, repetida ao infinito, de outras imagens e sentires, como se um jogo de espelhos se abrisse à imensidão dos tempos passados e talvez, quem sabe?, aos tempos que estavam por vir, aos terríveis tempos que ainda estavam por vir."(Vol. II, p. 94)

 

Essa fragmentação das referências anteriores culmina quando, em outro sonho, a jovem sofre um aborto. O ser que sai de dentro dela não é o esperado pela Coroa e pela Igreja, ou seja, ela não teria cumprido seu papel mas, ao mesmo tempo, esse é o momento em que, efetivamente, ela se liberta do mar que a acompanha para, sem antigos medos, abrir-se a um novo mar ou chegar do outro lado desse mar:

a esperança e a fé têm uma gestação igual à das pessoas, que elas se adensam e se tornam mais nítidas com o passar do tempo, à medida que o momento da consumação dos prazos se aproxima, que há um dia, uma hora e um minuto exacto para as coisa acontecerem. 17

 

Todo o tempo que a jovem passou, desde o seu afastamento dos pais, com um mar dentro dela que, como ela diz "cresceu com as minhas lágrimas" 18. Um mar que se mostrava pavoroso, causador do início de seus sofrimentos e que se apresentava, mais uma vez, para roubar-lhe qualquer hipótese de um futuro desejado. Este mar, que ela gestara durante tanto tempo e o medo que inspirava foram expelidos de dentro dela com o aborto que sofreu no sonho:

A mim aconteceu-me numa noite em que se rompeu, no meio de fortes dores, a bolsa de mar que transportava dentro de mim. Numa lúcida alucinação vi surgir das minhas entranhas um ser disforme e já sem vida, de pele castanhamente ressequida, com a cabeça inchada e uns membros superiores que quase lhe chegavam aos pés. Esse aborto ficou a boiar à superfície das águas que eu própria entornara e eu desejei que os ferozes tubarões de que todos dizem ter medo irrompessem de repente de suas grutas marítimas e o despedaçassem com os seus dentes afiados. 19

 

Este aborto é completamente rejeitado. Desfazendo-se dele, a jovem desfaz-se do peso que carregara até então. Mais uma vez, Caetano: "Essa criança, metáfora do sujeito que resulta da interação com 'os monstros e perigos que povoavam a imaginação dos que ficavam' (1996: 17) e que a todo instante se rejeita, é também repugnado pela mãe/órfã" 20. Agora, livre desse mar que a invadira e acompanhara e do produto, de certa forma também dele e da empresa colonial, a personagem pode viver novas experiências. Ela percebe-se livre na medida em que suas próprias reações após esse sonho não a surpreendem. Mesmo não tendo conseguido "retribuir" o que a Coroa e a Igreja, ou seja, a empresa colonial, havia feito por ela até então. A ironia é a marca desse seu "pesar":

Atormentava-me o peito não ter sido sequer capaz de dar à luz um servidor fiel do Vosso Reino, desmerecendo assim a confiança com que Vós, meu Rei nos haveis recolhido e cuidado, (...), para mais tarde ajudarmos a ampliar com as nossas proles a presença da raça branca nessas regiões (...). Um vento frio começou então a soprar do lado do mar e, ao abrir os olhos, descobri sem surpresa que a janela do meu quarto se escancarara e que a chuva invernal irrompia violenta lá de fora, encharcando o meu corpo destapado e exposto. Não sentia frio, pelo contrário. 21

 

Livre do que representava o mar até então, e livre também da "missão" que lhe fora dada, ela pode, finalmente, abrir-se para o contato com o outro. Esse outro que estava do outro lado daquele mar que ela precisara transpor, ainda que em sonho, para enxergá-lo. Em novo e último sonho que a jovem descreve na carta, ela já é capaz de deixar acontecer o contato com o outro, que "Era enorme, negro, com um ríctos de raiva no rosto" 22 (). Esse contato, que inicialmente é dado através do olhar (agora já possível) e que vai tomando uma conotação sexual cada vez maior:

não havia ali mais ninguém a não ser nós dois, amarrados pelo olhar e por uma força mágica que fazia vibrar meu ventre (...).

Eu dançava sem poder parar, um fogo nunca antes sentido ardia-me bem no fundo do meu útero e eu escutava ritmos frenéticos e obsessivos que me levavam à certeza blasfema de que o inferno é de longe mais gratificante do que o céu. Sem agüentar mais explodi de prazer (...). 23

 

Observa-se através do trecho citado que nesta experiência com o outro, negro, a jovem pôde sentir prazer, diferente do que acontecera com a experiência anterior, também em sonho, com aquele que seria seu marido, branco e impregnado dos referenciais do colonizador. Desta forma, a jovem aproxima-se dos valores do outro e, dessa interação, poderá surgir não mais um aborto como outrora, mas o ocupante do lugar do híbrido social, racial e cultural.

Com tudo isso, pode-se concluir que o discurso presente em A órfã do rei aproxima-se do discurso de Os Lusíadas , de Camões, na passagem referente ao Velho do Restelo, onde o autor, ao invés de enaltecer as viagens marítimas portuguesas, no caso a de Vasco da Gama, critica os danos provocados pelas mesmas, em nome da glória do império português.

Tanto a órfã quanto o Velho do Restelo são portugueses a criticar a empresa colonial. Ambos antevêem um futuro sombrio para a pátria portuguesa, sendo que a órfã,de certa forma, vê esse futuro como significando o dela própria. Voltando a Secco: "Memória e identidade, afinadas, fazem do mar um caminho de regresso às origens. As reminiscências, reativadas pelos sentidos, veiculam o passado olvidado. Uma polifonia de sensações auditivas, gustativas, táteis, olfativas, visuais emanam do universo marinho." 24. Essas identidades, portuguesa e africana, relativizadas por meio do mar, encontram-se em todo o universo da peça, por serem inerentes ao universo da personagem.

Foi pelo mar que a órfã perdeu seus referenciais familiares e é também por meio dele que novos horizontes se abrirão para ela que, dessa maneira, ocuparia o lugar de metáfora do destino colonial. Em uma nova fase, já não se pode ver o mar apenas através de seu lado português. Mais uma vez com Secco: "Entre os bambaras e os dogons, tribos ancestrais africanas, a água, como se lê no Dicionário de Símbolos de Jean Chevalier, representa: o sêmen divino, a luz, a criação, a palavra, o verbo gerador " 25. O mar, então, após arrancar-lhe as referências que conhecia, passa a ser a verdadeira referência na vida da jovem, e é por meio dele que ela, mais uma vez, pode voltar seu olhar para outra direção, outra vida, outra cultura, gerada pelo mar, e que gera uma nova realidade para a jovem e para o futuro colonial. Este renascer do mar, ou pelo mar, é marcado nesta obra de Abrantes tanto pelo aborto da jovem quanto por seu "nascimento" para a possibilidade de interação com o outro, o negro, o africano que, no entanto, não a impede de continuar a sofrer a ação predatória da violência de seu destino.

O mar é então o pai de todos os processos e de todas as referências, o que fica em evidência nas últimas palavras da jovem pelas quais o seu desamparo se sintetiza, permitindo que a cena se desfaça, mas não a memória do que o mar foi capaz de construir:

Só hoje sinto verdadeiramente, irremediavelmente, que estou nas Vossas mãos e que sou uma infeliz e desgraçada órfã do mar... e quiçá de mim mesma. 26

 

 

ABRANTES: Vol.II, p. 89 (A partir de agora todas as citações da peça terão apenas a referência do nº de página)

MADEIRA: s/d., p. 2

"Havia nobres como capitães, padres e missionários, oficiais, artíficies e burocratas das escalas mais baixas, marinheiros, grumetes, subordinados ao mestre ou ao contra-mestre, e os soldados subordinados ao mestre canhoeiro ou ao condestável. Os soldados e seus chefes, embora atuassem como "exército" na defesa do navio em caso de necessidade, viajavam a caminho das feitorias das colônias onde iam servir (...) Os mais baixos no escalão da tripulação de uma nau eram os grumetes e os criados. Não menciono os escravos porque estes eram contados como mercadoria e não eram sequer considerados como parte da sociedade do navio. Assim também as mulheres e as crianças só mereceram alguns parcos comentários por parte dos narradores." MADEIRA: s.d., p. 2.

Ainda em Madeira: "Como instituição, a singularidade do navio mercante reside no fato no de ser um 'híbrido social' flutuante. Com uma sociedade constituída para a circunstância daquela viagem. Ponto de cruzamento de interesses, espaço de tensão, pela concentração de poder, pela ansiedade com a expectativa do enriquecimento. Tensão talvez criada pela situação de provisoriedade e instabilidade assim como a presença de estruturas altamente hierarquizadas em um espaço afeto às misturas." (s/d., p. 3)

SECCO: 1999; Vol. I, p. 9

A respeito dos ex-votos, em 1999 foi organizada uma exposição pelo Instituo Camões, em Brasília: "Os ex-votos da exposição estão, quase todos, relacionados às tragédias marítimas ocorridas na travessia do oceano Atlântico. Trazem três elementos comuns: o mar, a embarcação e a imagem da santa (ou santo ou Cristo), no alto da pintura sempre iluminada. Ao pé da imagem, inscrições com o motivo do ex-voto." (MUNIZ: 24/03/99, p. 2. in.: Correio Brasiliense ) Na abertura da exposição houve apresentação de A órfã do rei , com Paula Passos.

1999; Vol.I, p. 12

SECCO: 1999; Vol.I, p. 12

Vol.II, p. 93

PESSOA: 1994, p. 84

Vol. II, p. 86

Vol.II, p. 91

Vol. II, pp. 95-96

Vol. II, p. 90

Vol. II, p. 92

CAETANO: 2001, p. 118

Vol. II, p. 96

Vol. II, p. 90

Vol. II, p. 96

CAETANO: 2001, p. 118

Vol. II, pp. 96-97

Vol. II, p. 98

Vol. II, p. 98

SECCO: 1999; Vol. I, p. 10

Idem

Vol. II, p. 99