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Falso ou verdadeiro: a busca pela realidade no texto ficcional.
Aline Crisitine Xavier da Silva (UERJ)

A narrativa ficcional contemporânea apresenta uma prática multidirecional que estabelece estratégias várias de produção. Na década de 80, apresentava em seu panorama, ficcional ou não, um florescimento de histórias de ex-militantes da esquerda brasileira e o aparecimento do narrador testemunha, que conta suas experiências em tom confessional, dando depoimento pessoal sobre os acontecimentos secretos dos tempos de exílio, em livros autobiográficos que marcaram uma produção pós-ditadura militar no Brasil. Entra em cena um artifício narrativo caracterizado pela informação, em que o narrador fala de si e, livre da camuflagem alegórica que o protegia da censura, relata de maneira informativa o que experimentou ou vivenciou. Inicia-se um jogo em que o leitor se dispunha a participar como investigador de verdades, conferindo a autenticidade dos fatos narrados. O referencial, o verdadeiro, o real era o depoimento do narrador que, intencionalmente mesclando de ficção o relato real, envolvia o leitor na tentativa de mapear a realidade dentro do texto.

Nomes de políticos, artistas, cidades, países, grupos e movimentos revolucionários, tudo se organiza formando uma rede de informações comprobatória que leva a crer que o relato da história é a própria história, desconsiderando muitas vezes a brecha aberta pelo tempo entre a ação vivida (ou testemunhada) e a rememoração feita pelo narrador ao contar a história. É esta distância que permite a ficcionalização do texto, por mais verdadeiro que ele se propunha a ser, já que é impossível resgatar aquilo que foi vivido ou testemunhado sem lhe enxertar as lacunas da memória com pequenas camadas de ficção.

Entre aquilo que se apresenta como verdadeiro e o que realmente é está a (des)crença do leitor, que, agarrando-se `as referências do texto, pode tomá-lo como verdade ou aceitar a ficção dentro dele.

 

O leitor e a suspeita

Aberto o caminho para a inquirição de vestígios de realidade dentro da trama ficcional, inicia-se o jogo em que a realidade é esboçada numa narrativa de simulação referencial. Talvez o jogo intente configurar um simulacro da realidade, convertendo matéria não ficcional em ficção e induzindo o leitor a estabelecer relação entre o que não é e o que pode ser verdade dentro na narrativa.

A espetaculosidade contemporânea, que transforma realidade em representação, dilui os limites entre o sujeito e o mundo, transformando o "eu" (diluído) numa multiplicidade subjetiva que não dá conta de desunir objeto e representação. É este sujeito que, suspeitando de tudo o que vê, promove insaciável busca pela verdade. Da mesma forma em que não há como definir nitidamente a representação do referente real, a narrativa em questão não permite uma definição segura quanto `a identidade do sujeito que narra, menos ainda sobre seus personagens, que se deslocam num plano híbrido de multi-referências. Este plano é permeado de confluência de vozes e interações entre narrador-autor-personagem, revelando a indefinição da voz que fala.

Esta espetacularização tensiona realidade e ficção, enquanto sugere a busca pelo verdadeiro através de um leitor suspeitador, que não hesita em especular sobre uma conexão do texto com o mundo exterior, e a representação deste mundo através da imagem que a narrativa apresenta. Em seu texto O Demônio da Teoria 1, Antonie Compagnon nos diz que:

 

A referência não tem realidade: o que se chama de real não é senão um código. A finalidade da mímemis não é mais a de produzir uma ilusão do mundo real, mas uma ilusão do discurso verdadeiro sobre o mundo real. O realismo é, pois, a ilusão produzida pela intertextualidade (COMPAGNON, p.110).

 

No entanto, a narrativa não pode, de fato, representar a realidade, partindo da concepção aristotélica que desmonta a associação comumente aceita de mímesis como simples cópia da realidade. Podemos pensar a representação como um ato de transformação da realidade dada, no sentido de o ato mimético se caracterizar pelo próprio processo de construção. O trabalho do poeta de produzir ou tecer os fatos no ato de composição da trama, resulta numa realidade reconfigurada cujo produto é original e não uma "cópia", sendo limitativo apenas por lidar com as referências da realidade. Sendo assim, por mais próxima que esteja a narrativa da realidade, será sempre a trama uma refiguração das aparências tidas como reais:

 

Assim, a mímesis, imitação ou representação de ações (mímèsis praxeos), mas também agenciamento dos fatos, é exatamente o contrário de "decalque do real preexistente": ela é "imitação criadora". Não "duplicação da presença", "mas incisão que abre o espaço da ficção; ela instaura a literariedade da obra literária: "o artesão das palavras não produz coisas, apenas quase coisas, inventa o como-se. ( Ibidem , p.130)

 

O fato de não haver uma narrativa que seja de fato a representação da realidade não significa que ela deixe de apresentar referentes reais, que são encontrados num mecanismo que pode ser entendido através da metáfora da rasura, no sentido de que há uma sobreposição de referências, como se o narrador riscasse deliberadamente o texto com várias escrituras, de forma a tornar ilegíveis referentes reais e fictícios. Invalidando palavras que se tornam não mais referências claras mas incógnitas que não levam à verdade, mas que também não a desmentem, a rasura revela indícios de um subscrito, é este que induz o leitor à desconfiança.

Considerando-se então a suspeita do leitor diante do texto e a insistente associação entre mundo textual e mundo exterior, instaura-se o jogo de recolher e reconhecer as referências citadas pelo autor, de modo a delir os limites entre ficção e realidade. Neste jogo, autor e narrador podem, respectivamente, representar o binômio realidade e ficção, sendo, às vezes, percebidos não separadamente mas alternadamente dentro da trama, que pode facilitar ou induzir o mapeamento de referentes e representações que evidenciem confluência entre pessoa e personagem.

A indução pode ser explícita quando a relação entre realidade/ficção, autor/narrador é estabelecida pela apresentação de referências biográficas do autor, servindo como pista sobre a verdade do fato dentro da narrativa, levando muitas vezes o leitor a buscar, nestas informações encontradas no texto ou no pára-texto (como fotos, fragmentos de diários, depoimentos de amigos e outros dados da vida do autor que podem ser relacionados ao texto ficcional), detalhes que possam esclarecer passagens da narrativa e marcar a suposta interação entre autor e narrador, enxergando no texto a aparição ora de um narrador criado pelo autor, ora por um narrador que é o próprio autor.

A simulação ou a própria realidade não são, ou não devem ser, facilmente identificadas na narrativa, seja pela dificuldade de se identificar as marcas limítrofes entre ambas ou ainda pela impossibilidade de definição ou reconhecimento seguro do que seja a própria realidade, como explica Phillippe Sollers:

 

Pretenso realismo (...), esse preconceito que consiste em acreditar que uma escritura deve exprimir alguma coisa que não é dada na escritura, alguma coisa sobre a qual a unanimidade pode se fazer imediatamente. Mas é preciso ver que essa concordância só pode se dar sobre convenções prévias, sendo a própria noção de realidade uma convenção e um conformismo, uma espécie de contrato tácito entre o indivíduo e seu grupo social ( Ibidem , p.97).

 

A performance

O processo de representação do referente passa por conceitos já estabelecidos como mímesis, performance e encenação. A performance é o conceito que melhor esclarece o artifício narrativo contemporâneo que estamos tratando neste trabalho, em que se discute a constatação da verdade ou da ausência desta no texto ficcional e a encenação deliberada do narrador que discute com o leitor sobre a verdade (do)no texto. Neste território percorrido por sujeitos que desconfiam de sua própria existência e necessitam confirmar a autenticidade daquilo que foi narrado, num jogo paradoxal entre necessidade e descrença de ficção, a performance aparece então como o meio de que o narrador se utiliza para manipular no texto referências que poderiam situar o leitor, transformando a narrativa numa complicada desconstrução de sentidos que não leva à verdade alguma.

Em alguns casos, o narrador verbaliza a advertência de que a verdade não poderá ser encontrada porque a mesma não existe na narrativa. Outras vezes a narrativa se apresenta como não ficcional mas não dá conta de sustentar a não-ficcionalidade do texto, sendo denunciada pelo próprio narrador. Mas o que dizer da narrativa que é apresentada como ficcional mas narra o que há de mais próximo da realidade?

 

A narrativa e o jogo de referências

Sempre houve, na história da literatura, narrativas que buscavam se aproximar da projeção da realidade, simulando diários, cartas, na tentativa de não assumir-se inteiramente ficção, ao mesmo tempo em que não assumiam de forma deliberada a autenticidade do narrado.

Se o narrador clássico descrito por Walter Benjamin 2 se propunha a falar do banal, através da descrição da vida vulgar da classe operária, o "alcoolismo", "vendedores desempregados", numa aproximação evidente com a realidade, procurava também resolver uma questão ao fim da narrativa. Preocupava-se em mostrar a "moral da história", que também pode ser entendida como a verdade sendo oferecida pela narrativa que visa ao didatismo, já que o texto apresenta a solução como sendo aquilo que o narrador busca desde as primeiras linhas, a informação que moraliza, que instrui o leitor.

Na perspectiva da literatura contemporânea, a aproximação com a realidade daquele que lê não sugere nenhuma estratégia instrutiva mas desenvolve um processo lúdico e encenador de diluição das fronteiras entre a realidade e a ficção, problematizando se o que a narrativa busca é o convencimento do leitor de que aquilo que se apresenta é a realidade ou justamente forçá-lo a enxergar a ficcionalidade, a ilusão e a encenação que o texto apresenta, enquanto simula a realidade.

 

A vida imita a arte?

O leitor que desconfia da ficcionalidade da história narrada, ao mesmo tempo que persegue a possibilidade da encenação do real dentro do texto, é levado, paradoxalmente, à reflexão de que não é a descrição da cena nas linhas da trama, tão próxima da realidade, que o seduz, mas a ilusão de verdade que a narrativa projeta. A projeção é ilusória porque toda encenação deixa de ser realidade e passa a ser performance, pois só pode representar aquilo que não está presente. A realidade não está nas páginas do livro e o leitor recebe a sua simulação como uma imagem virtual que satisfaz a necessidade tanto de ficção (quando o leitor suspende a descrença), quanto de realidade, que reside no mesmo leitor, como explica Iser 3:

 

O jogo do texto resulta de uma transformação de seus mundos de referência; no entanto, deste jogo emerge que não pode ser deles deduzido. Em conseqüência, nenhum desses mundos pode ser objeto de apresentação, pois o texto de modo algum está reduzido a ser a representação de algo previamente dado (ISER, p. 341).

 

 

As Pistas do Texto

Como exemplo de narrativa que detalha conflitos cotidianos, exteriorizando mundos diversos na tentativa máxima de se retratar com fidelidade cenas da vida real, o livro de Ferréz, Capão Pecado 4, apresenta uma narrativa que tematiza o universo da favela, produzida por um autor oriundo deste mundo. Inicialmente, o texto que é ficcional já evidencia um jogo de referências ao apresentar o autor que, morador do espaço que serve de cenário à narrativa, não é - assumidamente - o narrador, mas que poderia ser. Ainda na apresentação do livro, aparece como participação o nome de Mano Brown, rapper e amigo do autor, mais uma referência que vem de fora da narrativa, já que a trama não mencionará o nome de Brown em momento algum e a participação será um adendo à obra, num breve texto de agradecimento ao espaço cedido pelo autor, que antecede o primeiro capítulo.

A ponte entre narrador e autor, que também relaciona ficção e realidade, levanta algumas questões importantes como a intenção do autor em simular a realidade dentro do espaço ficcional e a pertinência em se perscrutar indícios de verdade dentro da narrativa. Ferréz acrescenta ao texto informações biográficas que parecem se fundir ao longo da obra com a trajetória dos personagens, e usa o artifício da referencialidade para confirmar esta fusão, se utilizando, por exemplo, de fotos de moradores da favela que serve de palco para a narrativa, fazendo com que os rostos mostrados na foto se confundam com as descrições feitas pelo narrador sobre as personagens e o cenário que compõem a narrativa.

Apesar da advertência de que a obra é um romance ficcional, o leitor encontra no texto uma relação com a realidade que se configura pela imbricação das vozes do narrador e do autor, que se misturam através dos cortes dentro da narrativa feitos pelas interferências vindas de fora do texto. Cada vez que há um depoimento de alguém que não pertence à trama ficcional há, consequentemente, uma intrínseca relação entre esta voz e a do narrador, já que os depoimentos não ocorrem de forma despropositada mas vinculados ao material ficcionalizado.

Levado pela enxurrada de referências externas e a possibilidade de confronto entre realidade e ficção que se faz através delas, o leitor está sempre desconfiando de que pode estar sendo induzido a suspeitar daquilo que lê (ou vê), porque não busca somente a verdade mas a comprovação da não-verdade dentro do texto. Enquanto preenche as lacunas do texto com as referências que lhe são apresentadas, associa mundos real e literário na tentativa de personificação do autor no narrador, jogando com as cartas que o próprio texto oferece, compactuando assim com o narrador.

Porém, a associação será sempre uma possibilidade e não a garantia de que a obra pretende imitar a realidade através de sua representação, como nos diz Iser, ao citar Adorno em sua Teoria Estética :

 

Eliminar a imitação como categoria estética seria tão errado quanto aceitá-la sem reservas. A arte objetualiza o impulso mimético, ao mesmo tempo que o preserva e o nega. A imitação de objetos é o círculo vicioso da dialética da objetualidade. A realidade objetualizada é o correlato da mímesis objetivada. (...).Consequentemente a mímesis cede à objetivação, esperando em vão preencher o hiato entre a consciência objetivada e o objeto. A obra de arte mimética, em seu desejo de parecer-se com o outro objeto, torna-se dele diverso.( Ibidem , p.351)

 

Daí o jogo do texto e a performance do narrador como esquemas que iludem o leitor de que o mundo real está sendo representado na obra, ao mesmo tempo que podem levá-lo à reflexão sobre a necessidade de se buscar a realidade dentro da mesma. Quando o leitor de Capão Pecado se depara, em cada fato narrado, em cada ação vivida pelos personagens, com a impressão de que tudo que é contado na história de fato existe fora dela, que há um lugar que se chama Capão , há pessoas que moram lá e que conhecem o autor, o chamam pelo nome e agradecem pela oportunidade de participar da obra, se depara também com o jogo duplo da narrativa, em que o não-ficcional é mostrado e escondido o tempo todo, numa provocação à incerteza sobre os referentes reais e ao condicionamento daquele que lê em cobrar a realidade na obra. O leitor passa a aventurar-se na confusa teia de referências que, de tão imbricada de referentes reais e textuais, não convence ao final da trama, da sua veridicidade ou ficcionalidade, realizando aquilo a que se propunha desde o início: não provar ao leitor se o texto é ficção ou realidade.

A narrativa não se revela mas deixa que o próprio leitor tire, um a um, os véus que a cobrem, para que ao final ele possa aceitá-la como uma obra criada a partir de uma realidade, mas não como a cópia do real.

 

 

COMPAGNON, Antonie. O Demônio da Teoria: literatura e senso comum . Trad. Cleonice Paes Barreto Mourão. Belo Horizonte:Ed. UFMG, 1999.

BENJAMIN , O Narrador/Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Obras Escolhidas: magia e Técnica, Arte e Política . 6ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1993.

ISER, A. Wofgan. O Fictício e o Imaginário: perspectivas de uma antropologia literária . Trad. Johannes Kretschemer. Rio de Janeiro:EdUERJ, 1999.

FERRÉZ, Capão Pecado . 2. Ed. São Paulo: Labortexto Editorial, 2000.