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Las (des) aventuras de La marafona de guaratuba
Rosana Cristina Zanelatto Santos (UFMS – Campus de Campo Grande)
Penso que têm nostalgia de mar estas garças pantaneiras. São viúvas de Xaraiés? Alguma coisa em azul e profundidade lhes foi arrancada. Há uma sombra de dor em seus vôos. Assim, quando vão de regresso aos seus ninhos, enchem de entardecer os campos e os homens.
Sobre a dor dessa ave há uma outra versão, que eu sei. É a de não ser ela uma ave canora. Pois que só grasna – como quem rasga uma palavra.
(Manoel de Barros) 1
Tomemos, para iniciar este ensaio, um trecho do prefácio de Néstor Perlongher, intitulado Sopa Paraguaia, ao livro que ora passamos a analisar / ler, Mar Paraguayo , de Wilson Bueno, publicado em 1992. Leiamos:
Mescla aberrante, Mar Paraguayo tem algo de sopa paraguaia. Tal prato não bóia, como poderia-se supor, na água do caldo: é uma espécie sui generis de omelete ou empanada. As ondas desse Mar são titubeantes: não se sabe para onde vão, carecem de porto ou roteiro, tudo bóia, como numa suspensão barroca, entre a prosa e a poesia, entre o devir animal e o devir mulher.
[...] toda a extensão do frondoso Mar Paraguayo [pode ser] associável a um poema épico-escolar [...] 2
Utilizando uma forma assemelhada ao modo épico de contar, a narradora-protagonista de Mar Paraguayo , a marafona paraguaia radicada / exilada na cidade de Guaratuba (PR), inicia sua narrativa com o capítulo que tem por nome “notícia” ( cf. BUENO, 1992, p. 13-14), uma espécie de prólogo-aviso em que informa ao leitor a importância da palavra, ou melhor, do registro lingüístico por ela usado no narrar de sua saga, muito mais relevante do que saber se ela realmente cometeu um assassínio, o do velho, seu companheiro em Guaratuba:
Un aviso: el guarani es tan essencial en nesto relato quanto el vuelo del párraro, lo cisco en la ventana, los arrullos del portugués ô los derramados nerudas en cascata num solo só suicidio de palabras anchas. Una el error dela outra. Queriendo-me talvez acabe aspirando, en neste zoo de signos, a la urdidura esencial del afecto que se vá en la cola del escorpión. Isto: yo desearia alcançar todo que vibre e tine abaixo, mucho abaixo de la línea del silêncio. No hay idiomas aí. Solo la vertingen de la linguagem.
[…] No, cream-me, hablo honesto y fundo: yo no matê a el vejo. 3
O capítulo seguinte se inicia com a expressão Ñe'? , de origem guarani, que de acordo com o “elucidário” que acompanha a narrativa 4, significa “palavra; vocábulo; língua; idioma; voz; comunicação; comunicar-se; falar; conversar” 5. A marafona começa a narrar / a falar sobre si, ou melhor, sobre quem ela acha que é e de onde vem, boneca sem rosto – meretriz –, cruz de madeira recoberta de pano 6 e de sofrimento, nascida “[...] al fondo del fondo del fondo de mi país – esta hacienda guarani, guarânia e soledad”, acercando-se do mar pela primeira vez com a impressão de que “[...] havia era solo el mirar en el ver – carregado de olas y de azules. Además, trazia dentro en mim toda una outra canción – trancada en el ascensor, desespero, suicidados desesperos y la agrura” 7. Nem a visão do mar consegue libertá-la de seus desesperados destemperos.
As ondas... o azul... o mar. “Mar sm. ‘porção relativamente extensa de um oceano' ‘grande massa de água situada no interior de um continente' ‘fig. grande quantidade, abismo, imensidão'XIII” 8. A canção trancada dentro do peito da marafona. “Marafona sf. ‘meretriz' XVII. De origem incerta; talvez do ar. mara haina ‘mulher enganadora'“ 9Onde fica o mar da marafona paraguaia? Talvez fosse melhor chamá-la marafona do Mar de Xaraiés: garça sem graça porque não pode (se é que um dia pôde) mais cantar, viu desaparecer o seu mar e, por isso, rasga as palavras enganadoramente, contando sua história para aqueles que a queiram ouvir, enchendo de melancolia as tardes ensolaradas de Guaratuba.
Em tempo: “[...] Etim. top. Guaratuba (do tupi gwa'ra ‘garça' + ‘tïva ‘muito, abundancial' [...] 10. O sufixo “-tuba”, do guarani tïwa , significa muito, em abundância 11. Podemos, pois, “traduzir” a expressão Guaratuba por “lugar cheio, abundante de garças”, aves que não cantam, porém, grasnam, encantando por sua beleza aparente, por seu branco ausente de outros encantos.
Dissemos que a marafona seria originária do Mar de Xaraiés ou Xarayes 12. Esse Mar, região fabulosa de onde verteriam as águas do Rio Paraguai, estaria situado na região hoje conhecida como Pantanal, que sabemos, além do Brasil, ocupa parte dos territórios do Paraguai e da Bolívia. Ao longo de um período significativo da história da vinda dos colonizadores europeus para esse lugar, o mito do Mar de Xarayes ou La Laguna de los Xarayes , sobreviveu, segundo a historiadora Maria de Fátima Costa, até meados do século XVIII.
Durante [todo] esse tempo, Xarayes foi uma imagem constante nos relatos e mapas europeus. Esta lagoa, ou lago, transformou-se na representação mais significativa da bacia do Alto Rio Paraguai naqueles séculos, e a figuração mais recorrente das projeções encantadas criadas a partir dos primeiros narradores: um lugar fabulosamente imaginado, criado e representado. 13
Maria de Fátima Costa cita, dentre outros, os escritos de Alvar Nuñes Cabeza de Vaca sobre La Laguna de los Xarayes . Esses escritos estão reunidos sob o título de Comentários , no qual podemos acompanhar a passagem do explorador espanhol pela região onde situam-se o Pantanal paraguaio e o Pantanal sul-mato-grossense, na busca por um lugar lendário, repleto de riquezas naturais, especialmente metais preciosos. O tal lugar seria nas cercanias do Mar de Xarayes. Numa dada altura dos relatos de Cabeza de Vaca, as descrições, se falam muito pouco sobre a descoberta dos tão cobiçados metais preciosos, contam da abundância de pescado e da opulência do Rio Paraguai 14, repleto de água e de natureza:
Continuando a navegar numa sexta-feira pela manhã, chegaram a uma corrente do rio muito forte, com uma parte passando por entre pedras onde cruzava uma quantidade enorme de peixes chamados dourados. Passaram por ali com os navios a vela e a remo e aproveitaram para pegar muitos peixes. Teve gente que chegou a pegar até quarenta dourados, tamanha a quantidade que existia. Tinha peixe que chegava a pesar até uma arroba. [...] No dia 25 de outubro o governador chegou com seus bergantins a uma parte em que o rio se dividia em três braços. Um dos braços era uma grande lagoa, mas que os índios chamam de rio Negro. Esse rio corre para o norte, terra adentro. Os outros dois braços são de água de boa cor e pouco mais abaixo vão se encontrar. O governador foi seguindo sua navegação até que chegou à boca de um rio situado à mão esquerda, na parte do poente, onde praticamente se perde o curso do rio Paraguai por causa dos muitos braços e lagoas que ali o dividem. São tantas as bocas e entradas que até os índios nativos dali, que andam sempre por elas com suas canoas, muitas vezes se perdem. 15
Quer nos parecer que o locus mítico conhecido como Mar de Xarayes, açambarcando um espaço-tempo sempre perdido, posto que sempre (re) memorado ou buscado e nunca (re) encontrado, é a fronteira que a marafona atravessou para ingressar no mundo da vida (ou na vida do mundo), deixando para trás sua tava , sua tavaiguá 16, e ingressando no anãretã , nas añaretãmenguá , expressões de origem guarani que reconhecem o inferno e as coisas infernais 17 e que estão presentes em várias passagens da narrativa:
El infierno, añareta, existe y se ponde contra el mar, el cielo, las mañanas tiquitas de sol y gorriones, mangueras flutadas, dulces mangueras, puesto que el infierno existe, añareta, añaretãmenguá, e se basta a si próprio – con el arrostar de sus corrientes de hierro y hambre. 18
A fronteira “atravessada” da aldeia natal, situada no Mar de Xaraiés, para o inferno, localizado em Guaratuba, contudo, não faz a marafona abandonar a certeza de que ela é uma perambulante, uma viandante, (trans) pondo, construindo fronteiras, seguindo rumo a uma perambeira, ignorando as inúmeras divisões que separam e classificam os homens.
Es la dança en el abismo dos vocacionados a lo equilibrismo – me decia, hace mucho, en rude castellano, mi abuela argentina, cobrando-me el gusto amargo de una derrota, de otra cabezada ô de nuevo e nuevamente, de las cosas inexplicables del corazón. 19
Segundo Susan BUCK-MORSS, em ensaio que trata da percepção de Walter Benjamin no que se refere a uma política da perambulação,
Benjamin via as prostitutas como imagens distorcidas do desejo material e físico em busca da felicidade sensual [...]
Se a prostituição era sintoma da ‘desintegração do amor', também furtou à sexualidade suas ilusões. 20
A marafona, garça sem graça, com um “[...] cuerpo que engordô por non salir de esta sala oscura onde traço el destino [...]” 21, sonha a beleza fisica perdida, e não o amor, que ela imagina possa ser resgatada no jovem que passa – outro perambulante – pelo calçadão à beira do mar de Guaratuba:
Que terror puede ser la beleza!
[…] Solo sei que, más un pouco, era un perfecto animal, de pelo liso y negro, e oh, Dios, se me dou por inteira conta y nada abala mi certeza, tenia dos ojos verdes, mboihovi 22, mas tan duramente verdes que al menor instante, uno solo faiscado instante, me pareceram el proprio abismo en el mar, paraipietè 23, vertices, verdes, verdes asi hovi de una selvageria desnecessária. 24
Voltar a ser garça com graça, ainda que grasnenta, voltar ao seu não-lugar, o Mar de Xaraiés, por via da juventude de outro ser aparentemente perambulante, o jovem de olhos verdes em quem a marafona enxerga a si própria, mboihovi , cobra verde pronta a dar o bote. Se estamos diante de uma narrativa que se assemelha à forma épica de narrar, estamos também diante de uma heroína épica. Mas que heroína é esta? Se o herói épico clássico, em sua saga, buscava chegar a um lugar concreto, em busca de coisas concretas, ou retornar ao seu lugar (isto pelo menos em aparência) e às suas coisas, vencendo fronteiras externas e internas, a marafona paraguaia, nossa heroína, nos conta suas tentativas falhadas de retorno a um locus que ela sabe existir somente nas memoráveis palavras de sua vida pregressa, porém, não regressa:
Advinadora de las esferas, yo, la marafona de Guaratuba, solo yo sei o quanto me duele una saudade: llegô a mi que, en disimulado alheamento, descansava en lo parapecho de la janela, mirando a el movimiento del entardecer, gente, pardais y tico-ticos, llegô a mi igual que alguién que llega par uno sequestro definitivo, sin vuelta ni possibilidade de fuga. 25
O que mais lhe parece doer é a consciência paradoxal das dissimulações tanto dos sentimentos quanto das palavras e da necessidade de recorrer a estas mesmas dissimulações para poder continuar a sonhar, ou melhor, para continuar a viver:
Que es el amor? Una solitária rosa en el desierto? Ô el simples sentimiento odioso de que es imposible, de que es imposible uno vivir sin que caiga y se levante, sin que levante-se y se caiga de nuevo, recorriente, sombria compulsión de los devotados a lo áspero ofício de uno querer sin conta y sin frenos, de los signalados por esto que veo en las cartas y que es feito una sombra o el espectro de la nuven y que acá en el mar de Guaratuba se pone, en una palabra, íntima del trueno, la palavra ilusão, artificio que cultivamos también para que uno no deje asi subitamente de sonhar. 26
Na busca pela vida, ainda que no seu añaretã , a marafona, inquieta diante dos movimentos constantes de cair e de levantar, constrói seu discurso, que ela própria legitima. Autolegitimado, seu discurso passa a ter status de verdade, uma verdade que ela previamente projetou como o seu caminho, como uma orientação de retorno a um lugar, ainda que seja o não-lugar do Mar de Xaraiés. Como “advinadora” que é – ela assim se autoproclama – tenta fugir ao ciclo do cotidiano, marcado pelos nascimentos (o levantar) e pelas mortes (o cair). Partindo da análise de Jean-Pierre Vernant sobre o pitagorismo, Luiz Alfredo GARCIA-ROZA observa que,
Centralizada na história individual das almas, a doutrina [pitagórica] tem por objetivo provocar uma lembrança não apenas dos fatos passados mas de todas as existências anteriores de uma alma e dos erros que ela cometeu.
Através dessa expiação pela memória, a alma recobraria sua pureza original e se libertaria do devir, ganhando a eternidade, e então a sucessão indefinida dos ciclos seria substituída por um tempo inteiramente acabado e realizado. Não se trata apenas de substituir os vários ciclos de geração e morte por um único ciclo – ‘unir o fim ao começo' – mas sair do tempo para sempre. 27
Saída do tempo presente, a marafona deseja estabelecer o seu próprio espaço-tempo. No entanto, sua atitude materialista diante da vida e da própria palavra, sempre a lembra da dificuldade do ser em cruzar determinadas fronteiras. Assim, a marafona paraguaia continuará a perambular pelo seu céu-inferno à beira mar – de Guaratuba e de Xaraiés.
No capítulo final de Mar Paraguayo , intitulado “Añaretã” , a narradora afirma:
El infierno existe e pode que sea el viejo y pode que sea el niño y principalmente pode que sea esta súbita Sônia Braga de mis dias marafos y entonces, mirando a el rasgado mar de olas y espumas de esto balneário del Paraná, casi me pongo a llorar […]
Llorarê más que una madre también por el niño, ahora que todo se enluta de esta sangreneria, vos entiende, solo vos me comprende, doctor Paiva. Mi mar? Mi mar soy yo. Iyá 28. 29
BARROS, Manoel de. Livro de Pré-Coisas: roteiro para uma excursão poética no Pantanal. Philobiblion: Rio de Janeiro; Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul: [Cuiabá], 94 p., 1989.
BUENO, Wilson. Mar Paraguayo . Iluminuras: São Paulo; Secretaria de Estado da Cultura do Paraná: Curitiba, 78 p., 1992. p. 9. Todas as referências ao texto literário Mar Paraguayo foram extraídas dessa edição.
BUENO, Wilson, op. cit., p. 13-14.
Cf. BUENO, Wilson, op. cit., p. 74-78.
BUENO, Wilson, op. cit., p. 77.
Cf. a expressão “marafona” no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa . Objetiva: Rio de Janeiro, 2922 p., 2001. p. 1847.
BUENO, Wilson, op. cit., p. 16.
CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa . 2. ed. revista e acrescida de um Suplemento. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 961 p., 2000. p. 499.
CUNHA, Antônio Geraldo da, op. cit., p. 500.
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa , op. cit., p. 1492.
Cf. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa , op. cit., p. 2780.
Ao longo deste ensaio, utilizaremos ambas as formas – xaraiés e xarayes –, tomando a primeira quando nossa referência bibliográfica for o texto literário de Wilson Bueno e a segunda, os textos historiográficos de Maria de Fátima Costa (1999) e de Alvar Nuñes Cabeza de Vaca (1999).
COSTA, Maria de Fátima. A história de um país inexistente: Pantanal entre os séculos XVI e XVIII. Estação Liberdade; Kosmos: São Paulo, 277 p., 1999. p. 131.
Maria de Fátima Costa reconhece o lugar citado por Cabeza de Vaca como sendo o entorno da cidade de Corumbá (MS), situada na fronteira Brasil – Bolívia ( cf. CUNHA, Maria de Fátima, op. cit., p. 102).
CABEZA DE VACA, Alvar Nunes. Naufrágios & Comentários . Tradução Jurandir Soares dos Santos. L&PM: Porto Alegre, 319 p., 1999. p. 240.
Tavaiguá: aldeia natal” (BUENO, Wilson, op. cit., p. 78).
Cf. BUENO, Wilson, op. cit., p. 74.
BUENO, Wilson, op. cit., p. 9.
BUENO, Wilson, op. cit., p. 21.
BUCK-MORSS, Susan. O flâneur , o homem-sanduíche e a prostituta: a política do perambular. Tradução Hélio Alan Saltorelli. Espaços & Debates – Revista de Estudos Regionais e Urbanos , São Paulo, ano X, n. 29, 1990, p. 9-31. p. 27.
BUENO, Wilson, op. cit., p. 16.
“ Mboihovi: cobra verde; reverdecer; azular (esverdeadamente)” ( cf. BUENO, Wilson, op. cit., p. 75).
“ Paraipietè: abismo de mar” ( cf. BUENO, Wilson, op. cit., p. 77).
BUENO, Wilson, op. cit., p. 26-27.
BUENO, Wilson, op. cit., p. 55.
BUENO, Wilson, op. cit., p. 53.
GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Palavra e verdade: na filosofia antiga e na psicanálise. 4. ed. Jorge Zahar: Rio de Janeiro, 104 p., 2001. p. 29-30.
“ iyá: divindade aquática dos guaranis; duende da água” ( cf. BUENO, Wilson, op. cit., p. 76).