VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

Identidade e alteridade em Quase memória, quase romance, de Carlos Heitor Cony
Lenir Romão e Sheila Dias Maciel (UFSM)

1. Ponto de partida

O século XX foi o século das memórias, no entanto é no passado oitocentista que estão as raízes do gênero memórias no Brasil. É com Visconde de Taunay e Joaquim Nabuco que a linhagem das memórias como depoimento direto da vida ingressa no panorama literário brasileiro. Minha formação 1 e Memórias 2vão inaugurar especificamente o ramo das memórias genuínas, que é compreendido pela crítica como diverso da escrita literária de feição memorialista que existe em profusão na literatura brasileira. Na verdade a literatura brasileira é permeada de memórias.

Sob esta ótica genérica podemos conceber uma leitura bipartida da escrita das memórias na história da literatura brasileira, de um lado as memórias iniciadas por Taunay e Nabuco e ditas autênticas, por outro lado, separadas pela crítica, está a forma das memórias utilizada a serviço da narrativa de ficção.

É nesta lacuna, ou fissura, entre as formas apartadas da memória que iniciamos o debate sobre a obra Quase memória, quase romance 3 , de Carlos Heitor Cony, publicada em 1995. A impossibilidade de alinhá-la entre o grupo das memórias autênticas ou entre o romance de feição memorialista, impulsiona o debate crítico sobre a imprecisão teórica da classificação das memórias. Reconhecendo na obra um caráter criativo que endossa e ao mesmo tempo desmascara a ilusão autobiográfica, Quase memória promove uma renovação levada a feito

por um eu inquiridor, não imobilizante. 4

 

2. Identidade e alteridade na estética do "Quase"

Na obra em questão o escritor Carlos Heitor Cony combina lembranças pessoais e crônicas públicas da vida no Rio de Janeiro entre as décadas de 30 e 50. O embate entre a força criadora da ficção e as experiências individuais está contido na estética do "quase", algo que não chega a ser memória, nem chega a ser romance, além de não deixar, em parte, de sê-los. O "quase" é uma espécie de ferida que revela ora a dissonância, ora o tangenciamento entre a busca da identidade e a alteridade de toda obra literária

Após um período significante sem escrever romances, Carlos Heitor Cony publica uma obra em que o "quase" não afirma nem tampouco nega o conteúdo da escrita, mas traduz a dimensão tênue de seus limites: o real aparece entrelaçado à idéia do provável , ou seja, fato e ficção se confluem à medida que o narrado se inter-relaciona com dados extratextualmente comprovados. Além de trazer para o título todo um debate teórico-crítico sobre a relação entre literatura e realidade e sobre a imprecisão de narrar, essa quase-memória contém uma quase biografia do pai do narrador e revela o domínio de Cony-filho sobre a prática e o poder da escrita.

A obra se inicia com informações claras que situam o leitor na narrativa, o dia: 28 de novembro de 1995; a hora: aproximadamente uma da tarde; o local: Hotel Novo Mundo, no Flamengo. O porteiro entrega ao narrador um embrulho e, depois de pensar algumas hipóteses, observa o embrulho e percebe que a letra é a do seu pai. É a primeira lembrança sugerida pelo pacote: “ Era a letra de meu pai. A letra e o modo. Tudo no embrulho o revelava, inteiro, total" (...) “até mesmo o cheiro – pois o envelope tinha um cheiro – era o cheiro dele, de fumo e água de alfazema que gostava de usar” 5.

A estranheza vem do fato do pai já ter morrido há dez anos na época em que lhe foi entregue o pacote. O embrulho desencadeia, então, várias lembranças : “ A mesma letra que vinha nos envelopes quando ele me escrevia para a fazenda do seminário. 6 A partir da letra, do nó, do papel, a figura do pai é resgatada e vem à tona a lembrança de muitas histórias protagonizadas pelo pai. A obra é composta pela rememoração de micro-histórias, tendo como centro gerador da memória a figura de Cony-pai.

Uma lembrança leva à outra, há histórias dentro de histórias, numa linguagem que abrange traços ficcionais e factuais, pois alguns relatos equiparam-se com a vida tanto do escritor quanto do narrador-personagem. Da mesma forma em que uma lembrança levava `a outra, trazendo a imagem do pai, o mesmo acontecia com o cheiro : “ começo a sentir dentro do cheiro maior outros cheiros menores que identifico como dele (...) Um cheiro vivo, mas distante, da brilhantina" 7. É a persistência da presença do pai, o cheiro, o perfume que evoca uma idéia de duração e de lembrança. A comparação com Proust é inevitável e aparece na própria obra como mote para o mergulho em um tempo irrecuperável: “ O biscoito abriu as portas do tempo – do tempo perdido. Ora, o meu caso, ou melhor, o meu embrulho não me abre nada, muito menos o tempo. Se abria alguma coisa era o espaço" 8.

Esse espaço é o lugar do esquecimento, pois é por meio dele que a lembrança do filho se institui para a trazer à tona o pai, já que lembrar implica “esquecer, segregar, excluir” e só podemos lembrar de quem já esquecemos: “ até então, nunca pensara organizadamente na única pessoa, no único personagem, no único tempo de um homem que, não sendo eu, era o

tempo do qual eu mais participara" 9.

O embrulho, a respeito dessa relação entre lembrar e esquecer, só permite que esse pensamento do sujeito viesse à tona pela ausência da lembrança. De modo que, pensar no pai, recorrendo a Barthes,

seria esquecê-lo (...) e despertar freqüentemente desse esquecimento. Por associação, muitas coisas se trazem para o meu discurso. Pensar em você não que dizer nada mais que essa metonímia (...) Eu não te penso, simplesmente te faço voltar (na mesma proporção em que te esqueço) 10.

A narrativa não segue uma ordem cronológica, há sempre um ir e vir ao passado e essa volta se dá à medida em que as lembranças vão sendo despertadas pelo embrulho. Há vários deslocamentos, no mesmo instante em que o sujeito enunciador retrocede a algum fato, retoma o presente e volta a um passado do passado ou a um passado anterior ao passado.

Essa idéia de ida e volta é constante e faz parte do estatuto das memórias e da identidade de Quase memória com o gênero homônimo – o embrulho estabelece a linha de fronteira, a viagem memorialística, como se o pacote trouxesse desorganizadamente todas as lembranças do pai: “ Olhei o relógio para conferir, sim, seis horas, o tempo passara e eu não desgrudara o olhar e a memória daquele pacote” e ainda : “ a última imagem dentro de mim era o pai (...) muito difícil associar essa imagem distante e extravagante com aquela moça e aquela manhã. O que seria amanhã agora? Tudo fora um amanhã e tudo já era ontem” 11. Essa relação de embate entre o narrador e o pacote estrutura o enredo e as inúmeras histórias sobre o pai que não podem ser esquecidas sem a organização que advém da organização da escrita: “ naquele instante eu poderia pensar em tudo, menos em sair dali antes de esgotar o pacote” 12.

A constituição do narrador protagonista vai se definindo com a mesma força em que as lembranças vão se refazendo. E o próprio narrador identificado na figura de Cony-filho nos presenteia com notas conceituais sobre esse quase-quase que permeia a obra toda:

Tempo que ficou fragmentado em quadros, em cenas que costumam ir e vir de minha lembrança, lembrança que somada a outras nunca forma a memória do que eu fui ou do que outros foram para mim. Uma quase-memória ou um quase-romance, uma quase biografia. Um quase-quase que nunca se materializa em coisa real como esse embrulho. 13

 

É ainda por meio da concretude do embrulho que as lembranças esfumaçadas se materializam em memórias. Ao contrário do depoimento do narrador, esse quase materializa desde a constituição do pai até os aspectos histórico-culturais e sociais que envolvem os episódios de Quase memória .

Apesar da escrita das memórias, assim como qualquer escrita, não estabelecer a veracidade dos fatos narrados, já que é impossível trazer para a página a retomada da realidade, por conseqüência do esquecimento e dos pensamentos fragmentados, ainda assim o momento de suposta verdade e de suposto desvelamento do ato de lembrar traz à tona em Quase memória uma ambientação precisa e um retorno ao Rio de Janeiro da primeira metade do século XX.

O embrulho abre portas a uma espécie de “memória involuntária” que faz recriar, através de imagens e de acontecimentos, a figura do sujeito enunciado, Cony-pai, por meio do sujeito enunciador Cony-filho. Assim, tanto sob a ótica afetiva quanto histórica, desencadeada pelo embrulho, torna possível a volta a esse passado e permite a organicidade da memória e a (re)criação dela. Já que o poder de quem está lembrando é muito grande em função da liberdade de imaginar, acrescentar, suprimir aquilo que para ele seja matéria valiosa para a sua constituição.

No mesmo instante em que se instaura uma corrente de pensamentos (re) memoriados de Cony-pai por via de Cony-filho, se estabelecem juntamente com essas “verdades”, o diálogo entre a história e literatura e o embate entre a força criadora da ficção e as experiências individuais retomadas pelo fio da linguagem. Não se pode desprezar o valor da primeira nem tão pouco duvidar da legitimidade da segunda, pois para quem cria tudo é verdadeiro, por isso é que existem “verdades” plurais, e não uma única. A respeito dessa força criadora que permeia uma distinção entre o historiador e o poeta, Aristóteles escreveu em sua obra:

a diferença está em que uma narra acontecimentos e o outro, fatos quais podiam acontecer. Por isso a Poesia encerra mais filosofia e elevação do que a História, aquela enuncia verdades gerais, esta relata fatos particulares 14.

É dessa matéria que se constitui a obra de Cony – o quase é a linha sutil que permite associar fatos acontecidos (história) em relação a fatos particulares, sob uma leitura subjetiva, sugestiva e criadora (literatura). É em razão desta relação que devemos manter o olhar desconfiado na obra de Cony. Até onde se estende a estética do Quase? Quando o quase deixa de sê-lo para se concretizar e qual é o espaço em que ele se concretiza? Em busca de respostas nos remetemos ao texto de Freitas:

A arte é uma modalidade do imaginário, e o imaginário não reproduz a realidade exterior, mas a transforma, e, mais longe ainda, transfigura-a. Assim, quando um escritor se volta ao passado, e tenta ressuscitar representações e ideologias anteriores àquelas que predominam em sua época, mas sobrevivem, na memória e no inconsciente coletivo, aos momentos histórico-sociais em que foram criadas, ele vai visar a exprimir desse passado aquilo que ainda não foi dito, aquilo que dele está reprimido ou latente, para assim explorá-lo em todas as suas virtualidades e prolongá-las. 15

 

O embrulho permite esse resgate, essa volta a momentos histórico-sociais e individuais, e permite ainda mais, que a imagem do pai se prolongue e permaneça em todas as suas virtualidades.

 

3. Considerações Finais

Ao ligar o presente do ato de escrever ao seu próprio passado, recapitulando sua relação com o pai, o narrador promove uma reflexão sobre suas experiências pessoais, estabelecendo um questionamento legítimo sobre sua identidade. Em Quase memória, quase romance essa busca instaurada por meio da escrita não se realiza de forma organizada, nem focaliza apenas o eu que narra, mas também o outro e o contexto histórico-espacial que é produzido concomitantemente.

Refletir sobre a travessia deste narrador que evoca acontecimentos e espaços representativos para um momento posterior, do qual escreve, é considerar a forma das memórias como eixo gerador do diálogo entre Literatura e História.

Refletir sobre Quase memória, quase romance é também refletir sobre a insuficiente classificação da forma das memórias, separada entre as "verdades" do depoimento direto da vida e as "mentiras da ficção".

Se é recorrente a afirmação de que não existe uma tradição de memórias no Brasil é sobretudo porque a distinção irracional entre as formas de memórias não comporta uma leitura de suas várias nuances. A obra de Cony, sob este aspecto, serve como impulso para repensarmos que tanto as memórias autênticas quanto as memórias maculadas pelo "quase" são escritas pela mesma matéria verbal e impulsionadas pela mesma força criadora da ficção. Não há literatura que não contenha elementos da realidade, assim como os textos que tem uma relação direta com uma realidade extratextual comprovável não estão isentos de desvios de linguagem e do quase que estrutura a narrativa de Cony.

 

 

NABUCO, Joaquim. Minha formação . Editora Universidade de Brasília, Brasília, 192p. 1981.

TAUNAY, Alfredo de Escragnolle. Memórias . Instituto Progresso Editorial, São Paulo, 455p. 1948.

CONY, Carlos Heitor. Quase memória, quase romance . 21 ed. Companhia das Letras, São Paulo, 213p. 1995.

MIRANDA, Wander Melo. Corpos escritos . Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo & Editora UFMG, Belo Horizonte, 174p. 1992.

CONY. Op. cit . p.11.

CONY. Op. cit . p.12.

CONY. Op. cit . p.17.

CONY . Op. cit . p.94.

CONY. Op. cit . p.94.

BARTHES, Roland apud COSTA, Icléia & GONDAR, Jô. Memória e espaço .7Letras, Rio de Janeiro, 81p. 2000.

CONY. Op. cit . p.73.

CONY. Op. cit . p.74.

CONY. Op. cit. p. 95.

ARISTÓTELES; HORÁCIO; LONGINO. A poética clássica . 5ed. CULTRIX, São Paulo, 114p. 1992.

FREITAS, Maria Teresa de. Romance e História. Uniletras. Ponta Grossa. n.11, dez. 1989. p. 109-118.