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João Cabral de Melo Neto: um pernambucano em Sevilha
Cláudia Coelho (UNEMAT)
Desde o século XIX, com o advento da independência, a literatura brasileira lançou-se a desenvolver um projeto identitário para auxiliar na formação de uma consciência nacional. No Romantismo, esse ideal foi fonte para diversos autores. Todavia, os românticos construíram nossos índios e nossos heróis regionais e urbanos de forma totalmente idealizada, propiciando, dessa forma, a criação de uma identidade artificial, pouco fiel à realidade da nação. Desde então essa tem sido uma constante busca em nossa literatura. O Realismo muito fez nesse sentido; Machado de Assis, em seu célebre Instinto de Nacionalidade , assim caracterizou o momento:
Quem examina a atual literatura brasileira, reconhece-lhe logo, como primeiro traço, certo instinto de nacionalidade. Poesia, romance, todas as formas literárias do pensamento buscam vestir-se com as cores do país, e não há negar que semelhante preocupação é sintoma de vitalidade e abono do futuro. (...)Esta outra independência não tem sete de setembro nem campo de Ipiranga; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura, não será obra de uma geração nem duas, muitos trabalharão para ela até perfaze-la de todo. 1
E, pausadamente, o Brasil assiste à construção de sua identidade, para o que a radicalidade dos primeiros modernistas contribuiu bastante. A partir de então, a influência estrangeira não mais era aceita da forma submissa com que os românticos a receberam. Haroldo de Campos acredita que
...com a Antropofagia de Oswald de Andrade, nos anos 20, (...) tivemos um sentido agudo dessa necessidade de pensar o nacional em relacionamento dialógico e dialético com o universal. A antropofagia oswaldiana (...) é o pensamento da devoração crítica do legado cultural universal, elaborado (...) segundo o ponto de vista desabusado do “mau selvagem|”, devorador de brancos, antropófago. 2
Oswald, com a figura do canibal, remete ao costume antropófago de só devorar aquele inimigo conquistado que fosse bravo e forte. Dele pretendia tirar as proteínas e o tutano, acreditando que isso renovaria e aumentaria suas forças naturais. Da mesma forma deveria ser o processo de criação artística: comer a influência estrangeira, sugando-lhe a “proteína” e transformando-a em elemento de composição do nacional.
A geração de 30, com o romance regionalista, uniu elementos naturalistas com o nacionalismo modernista, deixando para trás muito de seu ímpeto criativo. Segundo Velloso 3, nesse período, abre-se a temporada de caça ao real, sempre atrelado ao social, ao político, perdendo a literatura, portanto, muito de sua natureza ficcional. Dos romances regionalistas de 30, Vidas secas , com a comunicação minguada e seca dos personagens redundantes e a objetividade clara com que o narrador suplanta a ausência de linguagem, foi o que mais influenciou João Cabral.
Os poetas modernistas e contemporâneos também contribuíram para a formação da identidade nacional. Mário de Andrade, Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade poetaram sobre as delícias e os problemas da nação. Todos esses exerceram influências em Cabral, sobretudo Drummond. Silviano Santiago, ao comparar suas poéticas, paralelas à de Paul Valery, assim classificou tal influência:
...João Cabral de Melo Neto põe, num prato da balança poética, a ironia gelada de Valéry e, no outro prato, a participação política sentimental de Drummond. O fiel oscila em busca do equilíbrio, tirando peso daqui, pondo peso acolá. Talvez tenha ficado, num dos pratos da balança cabralina, a ironia sem o gelo de um e, no outro, a participação política sem o sentimentalismo do outro. 4
O poeta João Cabral de Melo Neto “come” Valery e Drummond, num processo antropofágico de aprendizagem e transformação, indo além dos ensinamentos de seus mestres. A longevidade criadora de João Cabral, em cinqüenta anos de produção poética de qualidade, impulsionou a configuração da identidade brasileira: O cão sem plumas , O rio e Morte e vida severina tratam diretamente de paisagens e homens pernambucanos, por meio do (dis)curso do rio Capibaribe. E mesmo em outras obras de cunho metalingüístico, as imagens do sertão estão presentes.
Não somente escritores exerceram influências em sua poesia: nos anos 30, em Recife, João Cabral freqüentou um grupo de arquitetos que lhe apresentaram as teorias de Le Corbusier. A rigorosa concepção arquitetônica do arquiteto Oscar Niemayer e do engenheiro Joaquim Cardozo influenciaram a radicalidade de construção da poética cabralina.
Nos anos 40, o poeta publicou seus primeiros livros em Recife, nos quais ainda não aparece o Nordeste como referência espacial. Em 1947, por intermédio de um concurso público para a carreira diplomática, João Cabral mudou-se para a Espanha, onde se tornou amigo de importantes artistas, como os pintores Juan Miró e Antoni Tapis, e o poeta Joan Brossa. Em Barcelona, adquiriu uma tipografia, onde imprimiu obras de seus amigos e seus próprios poemas, de maneira artesanal. A essas publicações chamava de “O livro inconsútil”.
O distanciamento do Brasil propiciou a Cabral revisitar as paisagens pernambucanas com maior racionalidade e grau de afastamento, não deixando que as emoções pessoais interferissem subjetivamente nos poemas que então escreveu sobre sua terra natal. Em 1950, publica O cão sem plumas . Haroldo de Campos considera que, com esse livro, o poeta alarga seu auditório ao investir na “temática do nordeste – do subdesenvolvimento agudo e do pauperismo dessa região (...)” 5. Sobre a gênese desta obra, Cabral elucida:
Eu era cônsul-geral do Brasil em Barcelona quando li numa revista que a média de vida na Índia era de 29 anos. Isso significava um ano a mais que os 28 anos de perspectiva de vida do recifense. Fiquei absolutamente estupefato com esse dado estatístico. Comecei a lembrar do Recife de minha infância. (...) O bonde passava por dentro da favela e eu assistia à miséria. (...) fui recriando a atmosfera miserável para escrever O Cão Sem Plumas (...). Foi isso que me chocou e que me levou a escrever esse poema, o primeiro sobre o Recife. 6
O nordeste descortina-se, paradoxalmente, como fonte inesgotável que iria suprir sua busca pela concisão, pela secura e pela severidade poética. É do estrangeiro que João Cabral consegue ver o Brasil com mais precisão. O afastamento espacial provocou-lhe a vontade de revisitar as paragens de sua infância, que nunca lhe saíram da memória:
Quando morei em Pernambuco eu não escrevi sobre Pernambuco. Afinal, estava lá dentro, compreende? Já quando morei fora, senti falta. Foi só aí que escrevi sobre a minha terra. Estava com saudades de certas coisas. Por isso, procurava registrar. Essa é uma cicatriz que não some. Até hoje penso na minha infância. 7
O poeta projeta sua terra natal, onde tomou gosto pela literatura por meio da leitura dos folhetos de cordel, que encomendava às escondidas para os empregados que iam fazer compras na vila. Filho de senhores de engenho, passou a infância numa fazenda no interior de Pernambuco, quando lia para os agregados os “romances de barbante”:
No dia-a-dia do engenho
toda a semana, durante,
cochichavam-me em segredo:
saiu um novo romance.
E da feira do domingo
me traziam conspirantes
para que eu lesse e explicasse
um romance de barbante.
Sentados na roda morta
de um carro de boi, sem jante,
ouviam o folheto guenzo,
a seu leitor semelhante. 8
Em Recife, conheceu o drama dos retirantes fugitivos da seca e dos habitantes de mocambos construídos dentro da lama, nos manguezais. Essas experiências, mais tarde, tornaram-se elementos constitutivos de sua poesia metalingüística e participante. Em O Cão sem plumas é retratada a paisagem árida e o sofrido homem ribeirinho, para quem o Capibaribe é um rio-cão, desprovido de qualquer adereço. Sua poesia chocou a crítica e os escritores, alguns diziam que se tratava de “um poeta sem alma”, que fazia poesia fria, racional e sem coração. Com relação a esses comentários, João Cabral asseverou que para ele o poema não precisa ser poetizado; a poesia é, ponto final. Não é necessário perfumar uma flor.
Em 1950, o diplomata foi transferido para Londres, onde permaneceu até 1952, por ter sido afastado da diplomacia sob acusação de comunismo. O poeta, que não se envolvia em questões políticas e não gostava de dar entrevistas, acabou sendo acusado de fazer poemas engajados ao retratar o sofrimento do povo nordestino. Em conseqüência, teve que retornar ao Brasil e permanecer três anos à disposição do Itamaraty, sem remuneração, enquanto respondia a inquérito:
Não pensei em fazer literatura engajada ou não engajada. Eu fazia o poema pensando em fazer bem o poema. O que se pode chamar de literatura engajada, na minha poesia, são os temas da seca, da miséria do Nordeste. São os temas dos romancistas do Nordeste, temas que estão presentes em toda a literatura nordestina. 9
Segundo o poeta, este foi um acontecimento sem grandes conseqüências e, absolvido, em 1956 já estava de volta a sua carreira diplomática. Nesse ínterim, participou do grupo O gráfico amador , em Pernambuco, e publicou O rio ou relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife , em 1954.
O poema O rio , publicado em São Paulo, como O cão sem plumas , também trata da temática do Rio Capibaribe, só que desta feita o poeta dá voz ao próprio rio Capibaribe, num processo de antropomorfização. Secchin assim definiu o poema: “(...) o Capibaribe é o sujeito do próprio discurso: discursa enquanto corre, e discorre sobre seu curso, longo, de sessenta estrofes e novecentos e sessenta versos”. 10
Desaparece nesta obra o caráter simbólico de que se revestia O cão sem plumas . Em O rio , temos um eu impassível que registra o movimento que o olhar vai captando, não só da paisagem física mas também do elemento humano da região. Trata-se de uma descrição objetiva, quase que literal, que se filia à “segunda água”, ou à categoria do “dizer”, segundo palavras do próprio poeta.
Para Haroldo de Campos, Cabral cria um poema que fica ao lado da prosa, por dar importância primordial à informação semântica, dando categoria estética ao que antes era registrado como categoria documentária, construindo um poema narrativo concentrado e reduzido, diferentemente da prosa regionalista anterior, dando “no fluir do texto, a presença viva, o lento desenrolar do caudal que lhe serve de tema, com seu cortejo contrastante de grandezas e misérias”. 11
A intenção de Cabral de atingir maior número de leitores ao desenvolver a categoria do “dizer”, foi exposta em discurso proferido no Congresso Internacional de Escritores, realizado em 1954, em São Paulo, cujo título foi Da função moderna da poesia , no qual o poeta aborda a “incomunicabilidade reinante na poesia contemporânea e a dificuldade dos poetas modernos em atingir um público mais amplo para seus textos”, demonstrando preocupação com a indiferença dos poetas modernos em relação à comunicabilidade de sua poesia. Falou ainda que o progresso obtido na área limitava-se apenas à parte de registro da expressão poética, mas não atingia a “contraparte orgânica – a comunicação.
(...) tudo o que os poetas contemporâneos obtiveram, foi o chamado "poema" moderno, esse híbrido de monólogo interior e de discurso de praça, de diário íntimo e de declaração de princípios, de balbucio e de hermenêutica filosófica, monotonamente linear e sem estrutura discursiva ou desenvolvimento melódico (...). Mas esse tipo de poema não foi obtido através de nenhuma consideração acerca de sua possível função social de comunicação. O poeta contemporâneo chegou a ele passivamente, por inércia, simplesmente por não ter cogitado do assunto. Esse tipo de poema é a própria ausência de construção e organização, é o simples acúmulo de material poético, rico, é verdade, em seu tratamento do verso, da imagem e da palavra, mas atirado desordenadamente numa caixa de depósito. 12
Dessa forma, o escritor defende o fazer que não se atém apenas ao acúmulo de material poético, mas que busca novas formas de comunicar-se com o leitor. Nesta ocasião, Cabral deixou claro que não pretendia escrever apenas para a pequena minoria de letrados, pois desejava atingir também o público médio, e a maneira de se conseguir esse objetivo era investir na exploração dos temas regionais, abordados com uma linguagem .
No mesmo ano de 1954, atendendo a um pedido de Maria Clara Machado, que lhe encomendou um auto de natal para encenar, Cabral escreveu Morte e vida severina: auto de natal pernambucano. O poema narra a retirada de Severino, que foge da seca do sertão pernambucano em direção ao litoral de Recife, em busca de melhores condições de vida. Em sua caminhada teve como guia o Rio Capibaribe. Seguindo o seu curso, o retirante passou por vários lugarejos onde só encontrou devastação e morte. No final, chega ao litoral e percebe que também lá a miséria impera e, já pensando em “pular da ponte e da vida”, presencia a renovação da esperança por intermédio do nascimento de um menino franzino: É o espetáculo da vida que se mostra apesar de tanta “morte Severina”.
Para a composição do auto, Cabral recorreu a um livro sobre o folclore pernambucano, de autoria de Pereira da Costa, e também à antiga poesia ibérica, com a qual teve contato durante o exercício da função diplomática na Espanha:
Esse texto não poderia ser mais denso. Era obra para teatro, encomendada por Maria Clara Machado. Foi a coisa mais relaxada que escrevi. Pesquisei num livro sobre o folclore pernambucano, publicado no início do século, de autoria de Pereira da Costa.(...). Eu só alterei as belezas e os presentes, e pus as duas ciganas pessimistas.(...) O encontro com os cantores de incelências é típico do Nordeste. 13
Frederico Barbosa comenta que, além das influências do folclore nordestino e literaturas ibéricas, também é clara a influência do romance regionalista de 30, que se voltou para a abordagem crítica da realidade sertaneja:
O que João Cabral de Melo Neto conseguiu com Morte e Vida Severina foi exatamente colocar uma inteligência mais requintada a serviço do regionalismo, revelando para o mundo aspectos despercebidos da realidade nordestina e brasileira. 14
O autor fez várias pesquisas sobre a cultura popular de seus conterrâneos, assim como buscou embasamento no padrão dramático medieval de auto. Desde a estrutura formal percebe-se a influência do popular na obra: os versos são, em sua maioria, redondilhos. A medida velha utilizada por Gil Vicente remete à cultura popular medieval e também à tradição oral nordestina.
Mas não é só na estrutura que tais influências são notadas; em todo o texto há uma riqueza simbólica presente: as figuras de linguagem dão dramaticidade ao poema. São freqüentes as metáforas, que são utilizadas para a construção de Severino, alegoria dos marginalizados. Sua viagem, que por sua vez é também uma metáfora dos retirantes e sua luta pela sobrevivência, é carregada de imagens metafóricas. O rio Capibaribe, motivo poético já utilizado pelo autor, metaforiza um fio de vida que vai minguando e assusta o retirante, provocando nele o medo de perder o seu guia, o medo de romper-se o frágil fio que o liga à vida. Outro aspecto a ser observado é que tanto na cultura medieval quanto na nordestina há uma forte influência do mundo religioso, presente em todo seu percurso, tanto de morte como de vida: O rio-estrela-guia; os vilarejos como contas do rosário; os cânticos fúnebres, o presépio; o nascimento do menino (filho de José, que era carpinteiro). Mas a religiosidade aparece apenas como retrato fiel da realidade cultural do povo nordestino, não provocando alienação do texto, que é altamente racional:
Para João Cabral, a poesia é imagem à cata da realidade, é palco à espera do drama humano. O poema não se passa no interior do indivíduo, mas numa arena pública onde o homem enfrenta com engenho e destemor o seu maior desafio: a morte. (...) Cultua-se a busca de Vida em tempos de miséria humana e morte. 15
Quando o poeta entregou o texto para Maria Clara Machado, esta o devolveu sob a alegação de ser muito extenso. O autor incluiu, em 1956, Morte e vida severina no volume Duas águas . Por ter sido o poema fruto de uma encomenda para teatro, Cabral o compôs de forma mais simples e acessível, o que acabou por vir ao encontro de seu propósito exposto no Congresso Internacional de Escritores, e a poesia moderna finalmente atingiria o grande público, que veria nele sua própria identidade. O sucesso não se deu apenas no Brasil, mas, com a turnê internacional da peça, montada em 1966 pelo grupo de teatro de Paulo Autran, Cabral recebeu vários prêmios. Surpreendente, porém, para o poeta, foi o fato de seu auto ter agradado também à crítica: “Foi um sucesso mundial. Isso me orgulha, mas também me surpreende porque Morte e Vida Severina passou a ser coisa de eruditos.” 16
Um trecho do poema, musicado por Chico Buarque, foi assimilado como uma espécie de hino do movimento pró reforma agrária. Essa conotação ideológica irritou bastante o poeta, principalmente na época das apresentações teatrais. João Cabral não admitia que a literatura precisasse ser engajada para ter valor, por isso perseguiu a sua vida toda a poesia pura. Daí seu descontentamento com a forma que foi recebida pelo público a sua obra:
O que me chateou muito também a respeito do sucesso mundial de Morte e Vida Severina foi que a burrice nacional brasileira começou a fazer inferências políticas sobre o poema. Muita gente queria que depois de cada espetáculo eu subisse ao palco e gritasse "Viva a Reforma Agrária". Recusei-me a fazer isto. Não faço teorias para consertar o Brasil, mas não me abstenho de retratar em poesia o que vejo e sinto. Eu mostrei a miséria que havia no Nordeste. Cabia aos políticos cumprirem seu papel. Essas exigências de engajamento político me irritaram muito. 17
O autor lutava contra a miséria e exploração do povo brasileiro com as suas armas: O verso e a palavra, as quais sabia manusear muito bem. Através da sua poesia retratou e denunciou o que viu e sentiu. Ele cumpriu seu papel de poeta brasileiro. Sua nação não poderia exigir mais do que isso dele. Manifestações de engajamento político-social não estavam incluídas na programação de um homem consciente de suas capacidades e de suas limitações. E, definitivamente, o envolvimento em manifestações públicas não combinava com o caráter severo e reservado de João Cabral de Melo Neto.
Tendo desenvolvido grande admiração pela Espanha, onde por diversas vezes serviu o Itamaraty, sua poesia passa a mesclar a gentileza sevilhana 18 à severidade pernambucana, mas nunca deixando de praticar o verso como resultado de trabalho árduo e consciente, pois tinha convicção de que a atividade poética não pode vingar com facilidade.
O poeta, “arquiteto das palavras”, marcou a identidade da nação pela temática regionalista que imprimiu às suas obras. Todavia, pela forma arrojada e inovadora com que construiu seus poemas, a obra cabralina seria parte importantíssima de nossa identidade mesmo que não tivesse colocado a “cor local” como espaço referencial, pois o valor literário do conjunto de sua obra dá-se pelo trato arquitetônico que dá à língua portuguesa. Nesse sentido, compactuamos com a opinião de Octavio Paz, que assim define a relação do poeta com sua nação: “Não creio que os escritores tenham deveres específicos para com seu país. Tem para com a língua, e para com a sua consciência.” 19
A obra de João Cabral de Melo Neto honrou sua língua e seu país, não só pela temática nacionalista, como especialmente pela preocupação estética do emprego de linguagem concisa e incisiva, que muitas vezes volta-se sobre si mesma, questionando seus próprios meios. Ariano Suassuna, escritor e dramaturgo brasileiro, amigo pessoal de João Cabral, assim define a sua obra:
A obra de poetas como João Cabral de Melo Neto exerce um papel na formação e na manutenção da identidade nacional. A obra de João Cabral está indissoluvelmente ligada a esta identidade profunda e verdadeira do nosso país e do nosso povo. 20
MACHADO DE ASSIS. Notícia da atual literatura brasileira. Instinto de Nacionalidade. In: Obra completa . Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997. v.3, p.801.
CAMPOS, Harolde de. Da razão antropofágica: diálogo e diferença na cultura brasileira . In: Metalinguagem & outras metas : ensaios de teoria e crítica literária. 4 ed. São Paulo: Perspectiva, 1992. p. 234.
VELLOSO, Mônica Pimenta. A literatura como espelho da nação . In: Estudos históricos : Identidade Nacional. Rio de Janeiro: Vértice, 1988. v.1, n.2, p.239-363.
SANTIAGO, Silviano. Comparações . Disponível em http://www.tanto.com.br/silvianodois.htm Acesso em 03.ago.2003.
CAMPOS, Haroldo de. O geômetra engajado . In: Metalinguagem & outras metas . Ensaios de teoria e crítica literária. 4 ed. São Paulo: Perspectiva, 1992. p. 83.
Trecho retirado do Especial Duas águas: João Cabral de Melo Neto , realizado pela TV Cultura em 1997, já citado na nota 6 .
MARTINS, Wilson. Cabral por ele mesmo . O Globo. Rio de Janeiro, 23 jan. 1999. (Prosa e Verso).
MELO NETO, João Cabral de. Museu de tudo e depois . Rio e Janeiro: Nova Fronteira, 1988. p. 254.
SECCHIN, Antonio Carlos. João Cabral: A poesia do meno s . São Paulo: Duas Cidades; Brasília: INL, Fundação Nacional Pró-Memória, 1985. p. 86.
CAMPOS, Haroldo de. O geômetra engajado . In: Metalinguagem & outras metas . Ensaios de teoria e crítica literária. 4 ed. São Paulo: Perspectiva, 1992. p. 84.
BARBOSA, Frederico. Severina . São Paulo: Anglo, 1996. Disponível em: http://www.secrel.com.br/jpoesia/fred01.html . Acesso em 24.jan.2004.
SANTIAGO. S. Comparações. Disponível em: http:www.tanto.com.br/silvianodois.htm . Acesso: 24.jul.2003.
O poeta comparava Sevilha uma mulher graciosa, conhecendo aspectos íntimos da cidade. Admirava sobretudo os espetáculos de touradas e o flamenco, com seu cante, sua guitarra e seu bailado.
PAZ, Octavio, apud SOUZA, Octávio. Identidade e formação da diferença. In: Fantasia de Brasil . As identificações em busca da identidade nacional. São Paulo: Escuta, 1994. Cap. I, p.17-34. (Sexto lobo)