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A travessia do protagonista em Hotel Atlântico, de João Gilberto Noll
Antonio Rodrigues Belon (UFMS)
João Gilberto Noll, nascido em 1946, em Porto Alegre, começou a publicar nos anos 1980. Hotel Atlântico é de 1989. Resumidamente, o romance fala de uma travessia entre dois hotéis.
Na categoria viagem localiza-se um dos nomes para travessia . Na experiência tendente a se avizinhar das migrações, do exílio, da diáspora, do nomadismo e da liminaridade , ocorre o encontro, sempre inusitado, estranho, entre as personagens e com a morte.
O protagonista, além de estar no centro das ações, vive a condição de titular do discurso, de quem conta o que se passa, de narrador. Em primeira pessoa, uma personagem sem nexo e sem rumo expõe a sua trajetória de um hotel a outro: um espaço entre dois pontos numa perspectiva de interação temporal. Um regresso, caminhos, a aventura do narrador e personagem acontece primeiramente no campo da linguagem.
Todo o texto narrativo, independentemente do(s) sistema(s) semiótico(s) que possibilitam a sua estruturação, se especifica por nele existir uma instância enunciadora que relata eventos reais ou fictícios que se sucedem no tempo ?ao representar eventos, que constituem a passagem de um estado a outro estado, o texto narrativo representa também necessariamente estados ?, originados ou sofridos por agentes antropomórficos ou não, individuais ou colectivos, e situados no espaço do mundo empírico ou de um mundo possível. 1
Mais do que a passagem de um estado a outro, os eventos delineiam um percurso, um movimento, uma trajetória: travessia sempre. Os acontecimentos pintam o quadro existencial da personagem, designam o ser e o estar no mundo do protagonista.
A instância enunciadora que encontra a sua personificação no narrador apresenta-se radicalmente individuada. Na sua função de contar a história relata eventos ficcionais em que agentes, personagens, entre eles um protagonista, vivem num tempo e num espaço de possibilidades. Inclusive, a possibilidade de relatar, especialmente, a sua trajetória existencial.
Da sua individuação como narrador o protagonista retira os meios de tornar-se presente. Mais que expor-se, constituir-se num modo de ser, num percurso existencial no âmbito da linguagem ficcional em suas estratégias. A atmosfera do romance é muito peculiar na tessitura do percurso do protagonista sem abandonar nunca a área fronteiriça entre a normalidade e a anormalidade, estatísticamente consideradas.
De repente me acendeu a esperança de que aquilo tudo não passava de um pesadelo. De repente me veio a velha sensação de que alguém estava representando, no caso aquela garota. Então, para dissipar qualquer dúvida, me preparei de toda a energia possível, e impulsionei de uma só vez o que deveria ser a minha perna direita. 2
Uma garota devoradora de revistas, vivente do mundo das imagens da mídia, do cinema, da televisão, e das publicações que ampliam as ressonâncias do imaginário, sobrepõe à perda pessoal irreversível, à mutilação do protagonista, à amputação de sua perna direita, os seus arroubos de fã .
Nas travessias imaginárias, nos trânsitos da representação entre a realidade e a ficção, ou entre a ficção e a realidade, ocorrem as refundações identitárias do sujeito, do corpo, da cultura. Brotam as temporalidades e espaços da memória renovados. Surgem textualidades, alteridades e utopias em ebulição. A intersecção de gêneros em sua amplitude.
A constante referência ao protagonista e ao seu percurso obriga a uma exposição dos conceitos subentendidos. Do latim tardio, o substantivo masculino percurso significa primordialmente o ato ou o efeito de percorrer um espaço. Quando a direção do movimento é oblíqua, de esguelha, enviesada, ou de través, a denominação travessia torna-se pertinente.
Por travessia indica-se ainda um trajeto como o percurso de um peregrino ou o percurso de um ônibus. O movimento, a deslocação, o percurso de um objeto ou de um ser. Ocorre a repetição das significações em itinerário, em roteiro, no percurso de uma viagem, na acepção de atravessar um espaço. Guarda a concepção de uma certa dinamicidade, de uma sucessão de eventos no tempo e no espaço, inseparavelmente, em relações implícitas.
As personagens de João Gilberto Noll encontram no movimento o seu modo de ser e estar no mundo, a sua existência, travessia puramente. Um só narrador concentra o foco. O processo da história apresenta dificuldades de entendimento. A releitura sempre iguala-se a uma permanentemente renovada aventura de descobertas. O movimento imemorialmente mantém estreitas relações com as aventuras. “?Eta, é um aventureiro como eu ?ele falou, pela primeira vez num tom de alguma simpatia.” 3
Ao atravessar corresponde o evidenciar as forças locais e o seu embate com antagonismos regionais, nacionais e globais. Os processos de mobilidade, contaminação, transformação e diferença, espaciais, na dinâmica geográfica, temporais, na histórica, possibilitam análises sincrônicas de momentos e obras distantes entre si tendo presentes os percursos da teoria, da crítica e da história literárias.
A personagem como protagonista ou herói, no relato de sua outra face, na sua presença de narrador, vem ao primeiro plano como medida das demais instâncias em que se situam os agentes constituintes de uma totalidade narrativa.
Na compreensão da multiplicidade de funções ¾ narrador, personagem ¾ numa só identidade, num universo multifacetado, muitos fatores tornam-se relevantes.
Isto quer dizer que as condições sociais e históricas decididamente contribuem na compreensão do conceito de herói na narrativa.
Em dados contextos sócio-culturais, o escritor cria os seus heróis na aceitação perfeita daqueles códigos: o herói espelha os ideais de uma comunidade ou de uma classe social, encarnando os padrões morais e ideológicos que essa comunidade ou essa classe valorizam. 4
A definição dos valores, dos comportamentos, das visões de mundo em suas inalienáveis peculiaridades, encontra uma configuração apropriada social e historicamente.
Na narrativa de João Gilberto Noll vale sempre lidar com as fronteiras da demência, da loucura. Trata-se de um outro modo da travessia. Uma ficção assim não se cala ao tocar os aspectos vis e repelentes da realidade humana. Disseca a existência ao preço de expor o seu interior amargo e repugnante. Não há recuos. Atravessar é preciso.
Na frente do espelho olhei as minhas olheiras fundas, a pele toda escamada, os lábios ressequidos, enfiei a língua pela cárie inflamada de um dente, pensei que não adiantava nada eu permanecer aqui, contabilizando sinais de que o meu corpo estava se deteriorando. Tinha chegado a hora de eu partir . 5
A ficcionalidade anda de braços dados com uma ação ética rigorosa. Dela não abre mão. O dizer não se preocupa em agradar; expõe as vísceras de seu objeto com os seus cheiros fortes de entranhas, da vida. Um gesto, mínimo ou grande, dimensiona-se na ética da autenticidade. A sujeira nunca vai para debaixo do sofá. Inexiste o esconderijo. Não há volta na travessia em andamento.
Se é assim, assim seja escrito, em inamovível fidelidade ao ser. Na narrativa de João Gilberto Noll diluem-se os freios ontológicos. O que é, é na escrita.
No entanto, uma confusão com uma tendência naturalista é descabida. Numa reinvenção com toda a força do que se elabora rente ao húmus de que o homem se faz, explode um grito de expansão no horizonte da literatura brasileira desta virada de século.
No romance, numa utopia transgressora, ocorre a evocação de temporalidades e de espaços da memória para discutir textualidades e denunciar as diversas formas de opressão, destacando, sem exclusividade, o par erotismo e poder, com a literatura a criar possibilidades de travessias, de encontro entre o ego e a alteridade. Sem dívidas com um modo de pensar monolítico por essencialista, mas compromisso com uma renovada e inquieta posição epistemológica.
O narrador conta a história em primeira pessoa. “Subi as escadas de um pequeno hotel na Nossa Senhora de Copacabana, quase esquina com a Miguel Lemos”. 6 O primeiro hotel aparece já na linha inicial do romance. Explicita o bairro. Permite supor a cidade.
Da travessia física às travessias imaginárias, os trânsitos da representação refundam identidades, temporalidades, espaços da memória, textualidades, alteridades e utopias.
Um segundo hotel ocupa uma posição intermediária na viagem do protagonista. Ele vai do Rio de Janeiro a Porto Alegre, fazendo uma escala em Florianópolis. Prisioneiro de sua transitoriedade, os hotéis balizam a travessia do protagonista.
Trata de percurso, da travessia do espaço entre dois hotéis principais e em pontos extremos . No primeiro hotel ocorre um encontro, sempre inusitado, estranho, entre as personagens e com a morte. Vai acontecer de novo na viagem. Um outro tipo de viagem, a morte é recorrente, ainda mais misteriosa, de rumos desconhecidos.
Saí da casa da morta e fui até a esquina da ruazinha com a rua principal. Espiei: na frente do bar do Paulão não havia ninguém, pelo jeito tudo em paz. Eu deveria ter todo o cuidado, em três, quatro dias era a terceira morte que me aparecia. 7
Um espaço entre dois pontos numa perspectiva de interação temporal, uma personagem sem nexo e sem rumo, a sua trajetória, a travessia, de um hotel a outro.. “?Porto Alegre ?disse eu ?, há muitos anos que não volto.” 8 Um regresso a Porto Alegre. Uma viagem exterior, certamente em estreito vínculo com uma outra interior, nas vivências do protagonista nas dimensões da multiplicidade de travessias.
A contundência dos dias atuais é posta na narrativa com toda a sua força. A divisão inicial do livro antecipa os seus temas, os objetos de conversação. Configura um episódio fundamental. Começa pela entrada do protagonista no primeiro hotel e passa pela cena sexual em que os corpos se encontram sem nada que permitisse uma elevação, sentimentos e pensamentos, indicadores de um tipo de consciência em funcionamento. Ao contrário o que se vê é um mergulho no desejo e na ação em pura corporalidade e sensualidade. “Nenhum toque acima da cintura, nada que não fosse ancas anônimas se procurando, patéticas.” 9 Uma mulher de costas para um homem, um homem que não olha nos olhos de uma mulher. Corpos que se tocam em desencontro guiado pelo desejo. Atravessa a intercorporalidade do encontro a ausência de travessias interpessoais, a eventualidade da aproximação corporal não leva a um estreitamento relacional.
O percurso, a travessia do herói, externamente, ocorre entre dois hotéis. Um no ponto de partida: “Subi as escadas de um pequeno hotel na Nossa Senhora de Copacabana, quase esquina da Miguel Lemos. Enquanto subia ouvi vozes nervosas, o choro de alguém. 10 O outro, no ponto de chegada: “Encontramos um hotel. O hotel se chamava Atlântico. As letras descascavam na parede branca. Bem na frente do hotel havia um poste com luz. Em volta da luz se percebia uma névoa muito fina.” 11
Da partida à chegada, ao sentimento de quem está em casa, ocorre a definição do percurso ou travessia no seu aspecto material, exterior. Sebastião, um enfermeiro, agora acompanhante do protagonista, ao compartilhar uma etapa marcante da travessia do protagonista, adquire a condição de personagem secundária mais relevante no final do romance.
Sebastião levava pouca bagagem. Apenas uma valise, que ele colocava agora em cima da cama que seria a dele. A dona do hotel disse que nós dois éramos os únicos hóspedes, se quiséssemos chamá-la para pedir alguma coisa era só assoviar, não incomodava ninguém. Antes de fechar a porta do quarto ?que dava diretamente para a rua ?, ela contou que estávamos a duas quadras do mar. 12
No destaque dado à questão da travessia, do percurso, da movimentação ininterrupta da personagem central, não entra, evidentemente, e ainda que seja um paradoxo, uma progressão contínua de uma única ação, de um pensamento ou de uma situação uniforme. Um caleidoscópio reúne uma pluralidade de impressões. Incorpora elementos do ambiente, em sua exterioridade, do hotel no Rio de Janeiro, e das divagações do protagonista, em sua elasticidade interior.
E não seria a mesma coisa do que viajar? Com a vantagem de eu não despender qualquer esforço, como o de entrar e sair de espeluncas como aquela em que eu estava. Se eu ficasse louco eu permaneceria dopado dia e noite, dormindo à hora que a minha cabeça caísse de torpor. 13
A interpenetração entre o herói e a realidade, simultaneamente fronteira e travessia, não admite separações na organização narrativa. Do caos de sentimentos e de percepções, emerge a imagem das relações humanas em permanente permuta de posições e troca de sinais. A existência parece maquinal e vazia. O protagonista vive um projeto inútil. Atravessa um caminho que não vai a nenhum lugar.
A concomitância dos eventos, das mudanças de estado, desfaz a estrutura linear da narrativa. Os espaços do mundo representado pelo romance multiplicam-se. A realidade em apreensão não corresponde às aparências nem tampouco às percepções objetivas. Vale a representação do fluxo existencial, travessia escorreita.
A clave de leitura de sua obra está naquilo que se denominaria os instantes ficcionais de João Gilberto Noll. Os relatos funcionam como uma magia que constrói um fio, por onde é possível atravessar, entre as coisas, os objetos, na diversificação deles como dejetos e fragmentos.
As ações jamais entram nos relatos de um modo direto. A experiências vividas sofrem um processo de decantação literária. Na narrativa, de modo intrínseco, há uma negação de veleidades autobiográficas. O narrador é um ator porque o protagonista é um ator. A produção de novos sentidos acontece na fricção com o real.
Na eleição do protagonista como material de investigação, na perspectiva de seus movimentos, as figuras do narrador e do protagonista emergem unificadas no percurso organizador do romance. Passam pelo mesmo processo de constituição o narrador e o protagonista. Na oposição entre a realidade e a irrealidade as fantasias da garota colocam-se frente à amputação da perna do herói. De um lado o desejo de uma, na face oposta, a realidade, as convenções, os papéis a desempenhar do outro, o ator. A concepção do movimento como o modo de ser, a associação da idéia de percurso, de travessia, à de aventura, fala do caráter do protagonista. Um herói como medida de todas as coisas na inteireza de sua humanidade. Outras personagens, invariavelmente circunstanciais, configuradas, episodicamente, em razão de suas relações eventuais com o protagonista, multiplicam-se no romance. Na concepção da personagem principal como herói ou anti-herói, pesam os valores e os códigos adotados social e historicamente. Os contextos, um exemplo é o período contemporâneo de séculos que se sucedem, validam ou invalidam as apreciações. A abjeção muda-se em espelho em que um ator se mira. Na escrita o ser faz-se presente, atravessa as letras, numa reinvenção, ontológica, não naturalista. Uma trajetória entre hotéis, como se hotéis já não fossem um lugar transitório. O narrador é um pintor de retratos. Pelos seus olhos atravessam personagens, atores, hierarquizados nos padrões de uma visão. Passa o mundo em sua diversidade. Na recorrência da morte, na concepção de sua viagem como retorno, nos encontros como desencontros, sexuais, amorosos de uma certa forma, o protagonista se constrói. O percurso externo, travessia visível, óbvia, vai do Rio de Janeiro a Porto Alegre, passando pelas regiões intermediárias, inclusive um hotel em Florianópolis. Numa perspectiva interior, outra espécie de travessia, as relações de continuidade e descontinuidade no percurso pesam em certos aspectos da narrativa. A viagem, travessia reiterada passo a passo, da loucura ocorre sem perder uma consciência dos percursos da normalidade . A interpenetaração e concomitância de planos encontram a materialização literária na magia do relato.
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