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Identidade/alteridade em contos de João Guimarães Rosa
Adelaide Caramuru Cezar (Universidade Estadual de Londrina)
Em três contos de Tutaméia – Terceiras Estórias (1967), de João Guimarães Rosa (1908 – 1967), os ciganos fazem-se presentes. Trata-se de “Faraó e a água do rio”, “O outro ou o outro” e “Zingaresca”.
O assunto comum é o embate da gente da terra com os ciganos, ou seja, dos “mesmos” com os “outros”, os diferentes. Identidades distintas são colocadas frente a frente. O resultado do confronto de personagens distintos é, no que diz respeito à estória contada, num primeiro momento, o estranhamento, sendo seguido do reconhecimento de si no outro. Em nenhum dos contos tal processo conduz à real modificação de conduta dos personagens sertanejos. O enraizamento nos valores da terra não o permite, permanecendo, pois, o descoberto na esfera da utopia.
Os narradores, ainda que divergentes, assumem sempre o ponto de vista dos “mesmos”, os homens do sertão mineiro. Em “Faraó e a água do rio” e em “Zingaresca” são extradiegéticos. Em “O outro ou o outro”, homodiegético, estando a confrontar dois entes totalmente distintos: o cigano Prebixim, ente dionisíaco perfeitamente integrado à natureza; Diógenes, tio Dô, delegado a cuidar da garantia de sobrevivência de seres “outros”, “diversos”, capazes de não apenas estranharem os “mesmos” como também levarem-nos à conscientização de que a estranheza é proveniente da descoberta do “outro” em si.
O cenário dos três contos é o interior do Brasil. Em “Faraó e a água do rio”, o espaço é uma tradicional fazenda de cana-de-açúcar onde há um engenho: fazenda Crispins. Os ciganos, que aí se encontravam prestando serviços de metalurgia, no momento em que se vêem perseguidos pela gente da terra, pedem proteção ao proprietário, Senhozório. Em “O outro ou o outro”, sabe-se que o local aberto onde se situam as barracas dos ciganos está próximo do “Ão”, espaço da violência também presente em “Fatalidade” ( Primeiras Estórias , 1962). A busca aos ciganos já não se faz pela própria comunidade sertaneja, como ocorreu em “Faraó e a água do rio”, mas sim pela figura de um delegado. Tal fato mostra que, neste segundo conto, “O outro ou o outro”, o tempo representado é distinto daquele presente no primeiro cuja estrutura social mostrava-se totalmente rudimentar. Em “Zingaresca”, o cenário é o sítio Rancho-Novo, antes conhecido como Te-Quentes, ponto de encontro dos que vêem e dos que vão do sertão para a cidade e vice-versa. Nela as moças banham-se nuas diante do cego e a esposa do proprietário, personagem não nominada, permite-se uma noite de amor com um dos ciganos. Os costumes são outros, marcando outra época, mais próxima. Nos três contos tem-se, pois, o espaço sertanejo em tempos diferentes de sua história.
A duração de cada uma das estórias é sempre bem curta. “Zingaresca” registra o encontro de diferentes personagens de Tutaméia –Terceiras Estórias em apenas uma noite. Em “O outro ou o outro”, o diálogo de Diógenes com Prebixim efetiva-se em menos de uma hora. “Faraó e a água do rio”, de maior duração, coloca os proprietários rurais em contato com os ciganos por pouco mais de dois dias. O tempo de contato entre os “mesmos”, caracterizados pela cotidianidade da monovalência, e os “outros”, ainda que sempre breve, é capaz de inserir na vida dos “mesmos” significativas modificações interiores, fazendo-os tomarem consciência de que dentro deles há também o desejo de liberdade e felicidade presenciado na maneira de ser dos ciganos, sem, no entanto, tal conhecimento implicar em real modificação de conduta, permanecendo, pois, conforme já foi anteriormente afirmado, na esfera da utopia.
Em “Faraó e a água do rio”, depara-se o leitor com dois grupos antagônicos de personagens: (1) a família dos proprietários da fazenda Crispins; (2) os ciganos que a ela vêm para prestação temporária de serviços.
Os nomes dos personagens pertencentes ao primeiro grupo os nivelam como senhores: Senhozório, Siantônia, Siozorinho, Sinhiza e Sinhalice. Em oposição à simetria dos nomes dos personagens do primeiro grupo, os nomes dos pertencentes ao segundo grupo caracterizam-se pela diversidade: Güitchil, Rulu, Florflor, Constantina, Denétria, Aníssia.
O narrador cuida, no decorrer do conto, de registrar na estrutura textual as especificidades dos ciganos: furtam; usam roupas muito coloridas; são alegres; lêem a sorte das pessoas em suas mãos; são envolventes; cuidam dos cabelos.
Estes seres tão distintos chegam determinado dia à fazenda Crispins para conserto das tachas de açúcar. Envolvem, num processo gradativo, a cada um dos membros da família dos proprietários.
Quem os contrata é o pai, Senhozório. Seu comportamento é o de um proprietário a zelar pela economia. Há evolução em seu relacionamento com os ciganos. Inicialmente, trata-os com distanciamento, deles desconfiando. Acaba por admirar o trabalho que realizam. No momento em que partem, deixam o fazendeiro em estado de melancolia, como se tivessem trazido à sua consciência um outro lado da existência, o lado da alegria, do não enraizamento.
Siantônia, verdadeira proprietária da fazenda, uma vez que a herdou, vê, no início do conto, com maus olhos os ciganos. Como sofre de hidropisias, doença que se caracteriza pela concentração de serosidades no tecido muscular ou em determinada cavidade do corpo, apresenta dificuldade de mobilização. Sabendo-se que o nomadismo é característica dos ciganos, Siantônia opõe-se de maneira radical a eles. Está presa à cadeira ou à cama, da mesma maneira que está presa ao passado e à propriedade que herdou. Os ciganos são, pois, para ela, o oposto, o estranho, o outro. O medo que lhe afligem é resultante da estranheza que lhe causam, fazendo vir à tona desejos reprimidos. Perspicazes, os ciganos logo se empenham em seduzi-la, fazendo, para tanto, uso de sua religiosidade.
Da mesma maneira, os ciganos despertam em Sinhalice, Sinhiza, Sinhozorinho, os filhos, desejos reprimidos, acarretando, assim como ocorreu em relação a Sinhozório e Siantônia, modificações concernentes à visão de mundo, porém não há tentativa de empreender modificações em suas vidas. Ainda que encantados pelos ciganos e ciganas, nenhum deles pensa em segui-los ou adotar o modo de vida deles.
Em “Faraó e a água do rio” há, pois, dois grupos: de um lado a gente da terra com seus valores; de outro, os ciganos, totalmente diversos. O relacionamento entre eles é de oposição. Acontece que o ato de situarem-se frente a frente propicia modificação de visão de mundo de um dos grupos, no caso, dos “mesmos”, a gente da terra, a reconhecerem na especificidade do outro o registro de seus sonhos inconfessos de liberdade e felicidade que, no entanto, não se propõem a realizar.
Já no que diz respeito ao conto “O outro ou o outro”, é preciso, inicialmente, ressaltar que o emprego da conjunção “ou” dividindo o título em duas metades idênticas registra a estrutura dúplice do mesmo. De um lado situa-se Prebixim, o cigano, com sua simplicidade, sua liberdade, sua felicidade; de outro, situa-se Diógenes, o delegado, com sua racionalidade. Entre eles está o narrador, personagem presente na estória contada, sem, no entanto, possuir o estatuto de protagonista. Seu papel consiste em confrontar os dois distintos personagens, acarretando tal feito modificação de sua visão de mundo.
Mais uma vez os nomes dos personagens apresentam-se como significativo para a compreensão do caráter opositivo dos mesmos. Prebixim é o nome de um passarinho também denominado pintassilgo-da-mata. Trata-se de ave de belas cores. No conto rosiano, o cigano Prebixim destaca-se pelas roupas coloridas que usa, “calças azuis de gorgorão, imensa cabeleira, colete verde – o verde do pimentão, o verde do papagaio”. A escolha do nome de uma ave para a denominação do personagem evidencia sua maneira de ser afeita à liberdade, ao contínuo movimento, à simplicidade no viver.
Em contrapartida, o segundo personagem, cujo nome, Diógenes, é revelado apenas no derradeiro parágrafo do conto, situa-se, inicialmente, ao lado dos “mesmos”, uma vez que é por todo o conto conhecido apenas como Tio Dô, marcando tal designação sua proximidade com o narrador-personagem não nominado. Tio Dô, conforme já foi dito, é delegado, ou seja, cuida da ordem pública. Opõe-se, pois, ao cigano a caracterizar-se pela desobediência à mesma, uma vez que rouba. De saída, Tio Dô não se simpatiza com os ciganos, referindo-se a eles de maneira negativa: “povo à toa e matroca, sem acato a quaisquer meus, seus e nossos, impuros de mãos”. Num processo gradativo vai sendo seduzido. Ao final do conto apresenta-se totalmente fascinado pelos mesmos. É então que seu verdadeiro nome é apresentado: Diógenes.
É conhecida a lenda do filósofo cínico que andava à luz do dia com uma lanterna acesa à procura de um homem: Diógenes. Recorrendo ao Dicionário de Filosofia, de Nicola Abbagnano, para a compreensão da escola cínica, um dado interessante vem à tona: o nome atribuído a este grupo de filósofos, “cínicos”, deriva do ideal de vida do grupo conforme à simplicidade e, concomitantemente, ao descaramento da vida canina.
Delegado Diógenes é, pois, o cão. Cuida da ordem pública. Prebixim a desrespeita e, por isso, teme o delegado, o Tio Dô do narrador homodiegético. Acontece que, em contato com o cigano, Diógenes acaba por ver emergir este seu outro lado, inconsciente, de guardião da vida livre, simples, feliz. No conto, não prendendo Prebixim, revela-se cumpridor desta tarefa buscada pelos filósofos cínicos.
O narrador presente no conto está, durante toda efetivação da história contada, atento ao que se passa à sua volta. Mostra-se competente para ler os fatos vivenciados, sendo a comprovação de tal fato a maneira como os narra. Detecta de maneira precisa o momento em que Prebixim e Diógenes se reconhecem, afirmando: “Entressoriram-se ele e tio Dô, um a par do outro, ou o que um sábio entende do outro”.
Tal colocação conduz à percepção de que em “O outro ou o outro” dois sábios fazem-se presentes: (1) aquele que vive em contato com a natureza, não se importando com acumulação de bens, valorizando a liberdade e a felicidade; (2) aquele que se dedica à defesa da vida livre e feliz. Quem coloca lado a lado estes dois personagens, quem apresenta o confronto dos dois, registrando tal fato como “estampido de borboleta em hora de trovão”, ressaltando, desta forma, a fragilidade da ave diante do cão ruidoso, é o narrador que se pretendia distanciado do narrado, mas que não conseguiu deixar de ser participativo diante do que foi por ele visto e posteriormente por ele relatado.
Nos dois contos até aqui apresentados, os ciganos constituem uma das identidades dentre as duas pelos narradores focalizadas. São os “outros” situados frente aos “mesmos”, os sertanejos. O papel que desempenham, conforme já foi enfaticamente afirmado, reside no fazer aflorar desejos até então inconscientes na mente dos “mesmos”. Enquanto os ciganos são focalizados apenas em sua maneira de ser, os sertanejos são vistos em seu processo transformacional resultante do encontro com o “outro”. O confronto ocorre, porém nenhuma modificação substancial se efetiva na vida dos mesmos. É a competência que se altera, não a estrutura de vida.
Em “Zingaresca”, derradeiro conto presente em Tutaméia – Terceiras Estórias, última coletânea de contos organizada pelo autor, os ciganos continuam desempenhando o papel de estranhos. Acontece que aí a estrutura não é mais dúplice. Há a presença de diferentes identidades, sendo uma delas a dos ciganos. São eles, no entanto, que dão nome à festa de duração de uma noite que tem lugar no sítio Rancho-Novo. Zingaresca, a festa, institui-se como um hiato na vida dos diferentes grupos temporariamente ali reunidos. Trata-se da vivência do “outro”, da quebrar da uniformidade do dia a dia. A identidade nômade, alegre e festiva dos ciganos contamina temporariamente todas as outras identidades no sítio reunidas, sendo esta realidade instituída por uma única noite concluída no final do conto quando cada grupo deve, a seguir, retornar a sua rotina que, na verdade, deverá ocorrer depois do conto. Desta forma, “Zingaresca” atua como um gran finale da obra e um convite a retomá-la no caminho inverso, ou seja, partindo da excepcionalidade de uma noite para a cotidianeidade das diferentes identidades registradas nos demais contos de Tutaméia – Terceiras Estórias. O gran finale atua como um convite à releitura da obra.
Os grupos que em “Zingaresca” se fazem presentes são os seguintes: (1) os novos proprietários, Zepaz e sua mulher não nominada, vindos não se sabe de onde; (2) o preto Mozart, velho morador do lugar, a defender os ciganos diante do proprietário; (3) os vaqueiros que ali vêm descansar, tendo já se feito presentes em outros contos de Tutaméia – Terceiras Estórias, “Intruge-se” e “Vida ensinada”; (4) os ciganos coloridos e ruidosos; (5) o malandro Padre colocado a serviço dos ciganos e sendo por eles custeado; (6) um peão amansador surdo-mudo a somar-se com o grupo dos ciganos; (7) o cego e seu guia, o anão Didinhão, remetendo ao primeiro conto da coletânea, “Antiperipléia”. Identidades distintas são, pois, colocadas lado a lado.
Acontece que o espetáculo final é grotesco. Zepaz não tem paz, bate na mulher e depois apanha dela. O preto Mozart testemunha a favor dos ciganos afirmando que alugaram do antigo proprietário do sítio um oiti, marcando o lugar onde tinha sido enterrado um deles. Chega a ponto de dizer ter recebido a incumbência de verter vinho na sepultura para contentamento do cigano morto. O Padre bebe e vive das espórtulas dos ciganos. Benze o oiti alugado. Os vaqueiros mostram-se ajustados, ordeiros, e permanecem como que à parte, rejeitando radicalmente os ciganos, chegando até mesmo a apontar-lhes uma arma. Riem, sacodem seus chapéus. O cão de um deles urina no oiti antes benzido pelo Padre. O guia de cego, Dinhinhão, “emprestou” a cruz do cego ao Padre. O cego se desespera, pois no oco da cruz escondia suas economias. Um flautim é roubado dos ciganos por Dinhinhão. O peão surdo-mudo diante da barulhenta festa parece absorto. A confusão domina. Som de flautim mescla-se com os credos do cego, com os gritos de Zepaz e da mulher, com o berrante dos vaqueiros, com o canto do galo. Em meio a tantos ruídos, o grupo, ao final do conto, está por desfazer-se. Os ciganos, às escondidas, fugiram durante a noite sem pagar pelo pernoite. Vão para o norte. Com eles seguem o Padre, o peão surdo-mudo. Os vaqueiros vão para o sul. O cego e seu guia também devem partir, não se sabe para onde. Permanecem os proprietários e o preto Mozart que diz: “– Só assim o povo tem divertimento ”. Cheio de filosofias, Ladislau afirma: “- São coisas de outras coisas...” , somando-se com a fala de seu Tio Dô, Diógenes, presente em “O outro ou o outro” que lá afirmou: “O que este mundo é, é um rosário de bolas...”
“Zingaresca” atua como encruzilhada de caminhos onde se estabelece uma energia caótica. Trata-se de um fim a pressupor um recomeço. Identidades distintas são colocadas lado a lado, uma atuando sobre a outra, mas mantendo cada uma delas sua autonomia. Está-se diante de convivência ilusória de contrários estabelecida ainda que temporariamente. Terminada a leitura do conto, resta o desejo de recomeçar e sair à cata das diferentes identidades já antes conhecidas na primeira leitura da coletânea. Em “Zingaresca” está-se diante da estrutura pressuposta pelas duas epígrafes extraídas de Schopenhauer presentes em Tutaméia – Terceiras estórias, a saber:
“Daí, pois, como já se disse, exigir a primeira leitura paciência, fundada em certeza de que, na segunda, muita coisa ou tudo, se entenderá sob luz inteiramente outra.”
“Já a construção, orgânica e não emendada, do conjunto, terá feito necessário por vezes ler-se duas vezes a mesma passagem.”
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Tradução de Alfredo Bosi. São Paulo: Mestre Jou, 1970.
ROSA, João Guimarães. Tutaméia – Terceiras Estórias. 6ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.