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Surrealismo às pampas: a recepção do surrealismo na Argentina
Ruben Daniel Méndez Castiglioni (UFRGS)
Pretendemos realizar uma aproximação à recepção do surrealismo na América Latina, específicamente na Argentina, no momento de sua chegada -que se confunde com o trabalho do escritor Aldo Pellegrini - e depois, com o passar do tempo.
Aldo Pellegrini, fundador do primeiro grupo surrealista de língua espanhola, nasceu em Rosario, província de Santa Fe, no ano de 1903. Exerceu a medicina durante um longo período, mas acabou abandonando a profissão para dedicar-se integralmente às atividades artísticas e culturais. Em 1925, quando ainda era estudante, conheceu o grupo francês liderado por André Breton, se entusiasmou com suas idéias, com o pensamento anti-conformista dos surrealistas, e começou a preparar, de 1926 a 1928, juntamente com seus companheiros de faculdade, a revista Qué (primeira revista surrealista da América Latina, de interrogação e de ataque às convenções sociais). Depois, não parou mais, tendo se destacado como um prolífero escritor, como um "poeta notável", segundo Octavio Paz.
Os anos 20 e 30:
De acordo com a estudiosa Guiol-Benassay em La presse face au surréalisme 1 (1982:132), os surrealistas franceses atacavam os valores da burguesia qualificados como naturais: a "ordem moral" e a "honra nacional", e por este motivo tinham o desdém e/ou silêncio por parte dos órgãos mais importantes de comunicação. Como não encontramos notícias ou manifestações escritas sobre Aldo Pellegrini ou sobre o grupo surrealista por ele formado (1926) até o ano de 1953 - o que evidencia uma forma de recepção - podemos pensar que com os surrealistas argentinos ocorreu o mesmo que com os surrealistas franceses, ou seja, o silêncio total.
Os primeiros dados sobre a recepção do trabalho de Pellegrini são da própria revista Qué , nº 2, de 1930. Um dos colaboradores, Elías Piterbarg, com o pseudônimo Esteban Dalid, ao fazer referência ao modo como foi acolhida pelo público a primeira edição da publicação, expressa, na página 2: "Esperávamos pelo silêncio", porque, acredita, os leitores devem ter pensado encontrar-se diante de uma "paráfrase vazia". Pelo que se pode perceber na publicação, os surrealistas argentinos não estavam preocupados em cativar e recrutar adeptos do público em geral.
Evidentemente, havia uma grande distância ideológica e estética entre o público e a obra, ou seja, uma distância entre o que a revista propunha e a expectativa do público. Esta situação coincide com a que se vivia na Espanha, e lhe damos particular atenção, porque tudo o que ocorre neste país tem resposta quase simultânea em Buenos Aires, possivelmente devido àquela conhecida palavra de ordem argentina de sempre ter um olho posto na Europa.
Como se pode observar no trabalho do estudioso Jesús García Gallego 2 (s/f), que analisa os artigos sobre as revistas literárias surrealistas espanholas entre 1924 e 1931, o surrealismo foi considerado pela crítica como um "laboratório de experimentos artísticos" (p. 30), uma forma de neo-romantismo, ou uma literatura "feísta" (p. 47), feita por um grupo de "loucos", "isolados" e "ridículos" (p. 49).
O espanhol Guillermo de Torre, que viveu na Argentina e foi teórico do movimento ultraísta, se referiu ao surrealismo como "amaneirado e estéril" (Gallego s/f:27), e, em sua Historia de las literaturas europeas de vanguardia 3, o descreveu - de uma maneira apressada - como uma prática que "o que faz é voltar ao termo inventado por Apollinaire, para ficar nele, sem fazer avançar a arte em nenhum sentido" (em Gallego, s/f:23). No mesmo ano, outro espanhol, José Ortega y Gasset, em Sobre a desumanização da arte , se referia ao surrealismo, na Espanha, com repercussões na América, como uma "arte degenerada" ou "desumanizada" (Pellegrini, 1965:20). Este livro foi posteriormente contestado por Pellegrini 4 (1965:19-21), e por outros autores, como, por exemplo, Ernesto Sábato 5 (1986:35), que também considerava que não havia uma crise na arte, mas que existia uma arte da crise.
Foi neste contexto desfavorável que apareceu a revista Qué. Anos mais tarde, o poeta argentino Juan José Ceselli ofereceria dados sobre este período. Segundo Ceselli 6, a revista Qué passou despercebida porque os círculos literários de Buenos Aires estavam mais interessados na luta entre os ultraístas martinfierristas, absortos no estético-intelectual, e os do grupo de Boedo, preocupados com o político-econômico. De acordo com Ceselli:
Ambos os grupos, dispondo de muita energia, apropriavam-se praticamente da totalidade das publicações e notícias interessadas nessas atividades, monopolizando, desta forma, quase por completo a atenção do público apegado a estas questões. E foi possivelmente essa razão, [...] a que contribuiu para que nosso incipiente movimento surrealista não fosse levado em conta nem sequer por uma publicação daquele momento que se preocupasse com tais atividades (Ceselli, 1964:13).
Esta declaração de Ceselli confirma que o trabalho de Pellegrini e de seus companheiros foi recebido com indiferença por parte dos críticos e dos leitores em geral.
De fato, encontramos muito pouco material escrito nos anos seguintes sobre o surrealismo. Sabe-se, através da pesquisadora Poblete-Araya, que, no período compreendido entre o último número da revista Qué (1930) e o primeiro número de Ciclo (1948) - revista impulsionada por Aldo Pellegrini e seus companheiros e pelos concretistas - a revista Sur , a mais importante do momento, dedicou pouca atenção ao surrealismo, divulgando apenas artigos de informação.
A manifestação do Partido Comunista Argentino e a polêmica
Pelegrini x Troiani
De acordo com os dados de que dispomos, foi somente em 1952 que acabou o silêncio em relação aos surrealistas e suas atividades. Neste ano, saiu o que, até que surjam novas informações que mudem esta situação, podemos considerar a primeira manifestação pública sobre a recepção do surrealismo argentino. Foi uma nota muito agressiva do Partido Comunista Argentino, por ocasião da publicação da revista A partir de cero , acusando-os de querer "transformar a sociedade com uma bomba onírica" 7 (PUYADE, 1993:69). Ou seja, foi somente vinte e dois anos depois do último número de Qué (1930), depois da publicação das revistas (surrealistas ou influenciadas pelo surrealismo) Ciclo (1944-1949) e A partir de cero (os dois primeiros números já haviam saído), depois que Aldo Pellegrini publicou seus livros de poesia El muro secreto (1949) e La valija de fuego (1952), e pouco depois da publicação da revista surrealista Letra y línea .
No ano seguinte, um intelectual da época, chamado Osíris Troiani (do qual não existem maiores dados), se manifestou em relação aos surrealistas em uma carta aberta publicada no nº 5 (1954) da revista Capricornio , de Buenos Aires, cujo título era "Epístola aos surrealistas", que teve como pretexto a crítica que o surrealista Carlos Latorre fazia nas páginas de Letra y línea , nº 3 (dezembro de 1953), à revista Sur , pelo número especial que esta publicação havia dedicado à literatura italiana. Troiani, descendente de italianos, sentiu-se ofendido, mas, em vez de responder a Latorre, dirigiu-se a Aldo Pellegrini, atacando-o, e, em lugar de exaltar a literatura italiana, declarou guerra ao surrealismo.
É muito significativo o fato de Troiani ter atacado o surrealismo ofendendo a Pellegrini porque o escritor argentino sempre teve "uma linha de conduta uniforme e sem espaço para dúvidas, [...] atraiu e reuniu ao seu redor todos esses homens que dele se aproximavam em busca de uma unidade de espírito e de ação" (Ceselli, 1964:14).
Diz Troiani em seu artigo (reproduzido por Lafleur & Provenzano, 1993:94-100) 8, que a literatura dos surrealistas - a quem chama de "filhotes de tigre" criados por Pellegrini - é um "pasquinismo literário", e que estes escritores, diferentes dos martinfierristas, são pessoas "sem elegância". Preocupa-lhe o fato de que eles "faça[m] tábula rasa com a cultura precedente", e que queiram "partir do zero". Como nacionalista, Troiani deseja autores que sintam-se responsáveis por sua pátria e sua língua. De uma maneira indireta, associa os surrealistas com a pederastia e o comunismo. Diretamente, afirma que os surrealistas depreciam os clássicos e ignoram o moderno. Conclui com a idéia de que o surrealismo argentino, baseado no de Breton, segundo suas palavras um "falso filósofo", apareceu "fora de hora numa cidade com um horrível obelisco". Obeliscos a parte, não sabemos o que Troiani considera fora de hora, mas parece que ele desconhecia a filiação surrealista de Pellegrini desde o ano de 1926 - isto é, dois anos depois do primeiro Manifesto (1924) - o que, para nós, demonstra a velocidade com que este movimento surgiu em Buenos Aires, e como o fez muito a tempo.
Por fim, Troiani diz que o grupo de Pellegrini "presta tributo aos estrangeiros [...], é oficialista na Europa e, aqui, opositor [...], aceita [René] Char sem compreender que é um clássico, e exonera [Aimé] Césaire porque não consegue dissociar em si o poeta do político", e acrescenta que este grupo pensa que "tudo o que não é surrealista é detestável" (p. 98-99).
A réplica de Pellegrini a Troiani apareceu na mesma revista, Capricornio , nº 7, 1954, e seu título é: "Resposta a Osíris Troiani" (em Lafleur & Provenzano, 1993:100-107). O autor argentino reconhece o valor de Troiani, que é o de ser porta-voz das acusações que faziam a ele e ao grupo (Pellegrini não especifica de onde vinham estas críticas, e sua localização nos escapa).
Na resposta, Pellegrini observa que a carta está cheia de "inexatidões, afirmações gratuitas, incongruências". Inexatidões e afirmações gratuitas porque "endossa uma admiração por Cocteau e René Char que não existe e nos outorga um repúdio de Aimé Cesaire que é, ao contrário, demonstrada admiração total" (p. 100). Acrescenta que Troiani não se dá conta da flagrante contradição em que cai, posto que diz que na revista se rendem tributos aos escritores consagrados quando são estrangeiros, mas Latorre critica justamente os escritores estrangeiros, nesse caso, escritores italianos consagrados.
Com relação à comparação com os martinfierristas que, segundo Troiani, "tinham o dom do gracejo", Pellegrini diz que o conceito que ele tem de humor é o oposto de quem faz "travessuras" e não "leva a vida a sério".
Sobre a "mentalidade a partir de zero", Pellegrini esclarece que os surrealistas não buscam fazer tábula rasa de toda a cultura precedente, mas sim do que se chama "falsa cultura", e que seu estilo é o de nunca dar nada por admitido sem antes estudá-lo. Mas Pellegrini se concentra mais na defesa do surrealismo e de André Breton: "O segundo passo que todo mundo realiza depois da oração fúnebre ao surrealismo é o ataque a Breton e ninguém chega nem de longe ao que o senhor [Troiani] afirma, e não chegam tão longe simplesmente para não cair no ridículo" (p. 104). Pellegrini continua:
O senhor diz que Breton não é filósofo e tem razão porque não apenas Breton não pretende sê-lo, mas porque repudia diretamente todo pensamento especulativo. Não sendo filósofo, não pode ser liquidado como filósofo. Talvez o senhor queira referir-se ao seu trabalho doutrinário (palavra que não me desagrada por seu sabor subalterno), no qual Breton codificou, ou melhor, reuniu determinados princípios que os surrealistas consideram fundamento da sua ideologia (em Lafleur & Provenzano, 1993:104).
A seguir, Aldo Pellegrini manifesta que Breton é "um poeta, um dos mais importantes deste século, ainda que sua obra tenha conseqüências filosóficas" (em Lafleur & Provenzano, 1993:104).
Com relação ao surrealismo, Pellegrini diz que "não é a criação de um só homem, e em sua formação têm confluído todas as correntes que marcam a insurreição essencial do homem do século XX. Esta insurreição abarca todos os planos da atividade humana e não é puramente estética como pretendem alguns" (p. 105).
Pellegrini responde a Troiani que o pensamento surrealista é antidogmático e sua característica é a da fluidez dialética. O autor se declara surrealista pelo fato de ser heterodoxo, no sentido de que o surrealismo não lhe impõe "mais dogmas que o da liberdade total". A seguir, dá a conhecer o nome de seus companheiros que, em suas palavras, estão destruindo o provincial na literatura: "[...] Carlos Latorre, Francisco José Madariaga, Enrique Molina, Juan Antonio Velasco e Juan Esteban Fassio", sem mencionar "uma multidão de amigos que pensam como nós e nos apóiam" (Lafleur & Provenzano, 1993:106).
Como se pode ver, depois do silêncio inicial, alguns intelectuais da época se mostraram insatisfeitos com as atitudes e a forma de pensar dos surrealistas. Escritores como Jorge Luis Borges e Bioy Casares também se sentiram ofendidos e se manifestaram, como podemos ver a seguir.
O nº 3 da revista surrealista Letra y línea , além de ter sido criticado por Osíris Troiani, também o foi por Borges e Casares (os dois assinando com o pseudônimo H. Bustos Domenecq), que publicaram o nº 17 de Buenos Aires Literaria , na página 64, uma nota intitulada "De contribuição positiva". Nela, dizem que "Assinaturas espectables , valores sólidos, escritores de peso, prestigiam este informativo [ Letra y Línea ]" e enfatizam com sarcasmo que se destacam, no que chamam o "vistoso elenco", os escritores "Vasco, Venasco, etc.". Com deboche e ironia, perguntam:
[...] será que constitui um núcleo? À espera de que um cérebro mais preparado nos dê a chave de tão espinhoso intríngulis , não vacilamos em adiantar que constituem todo um ateneu, em que se luta pelos foros da cultura, e são nossos votos que por muito tempo siga luzindo no topo da página o letreiro que os encabeça: Letra y linea (em Poblete-Araya, 1983:205) 9.
Esta "contribuição" termina assim: "Empresa de profunda tradição em nosso meio, teve já seus antecedentes em diversas publicações" - provavelmente se referem às revistas Ciclo, A partir de cero, e, talvez, também à Qué. E, com ironia, acrescentam: "o que lhe dá, entretanto, seu cunho próprio, é o tom ponderado que, unido aos relevantes dotes de solvência e de ilustração, recolhe os sufrágios do assinante" (em Poblete-Araya, 1983:205).
A resposta na qual os surrealistas se defendem, atacando com humor e ridicularizando esses escritores, se encontra no nº 4, página 16 de Letra y línea (Julho de 1954). O título é "Borges e Bioy Casares, paladinos da literatura gelatinosa". O texto não está assinado, expressando, portanto, o ponto de vista dos editores da revista, ou seja, do grupo surrealista argentino, que define os dois escritores como "conhecidos fabricantes de confeitaria literária para uso das meninas da boa sociedade". Os surrealistas entendem que o que espanta Borges e Casares é a audácia da revista, que não publica "consagrados", e manifestam que estes podem ser encontrados em outras publicações, "ainda que não desempenhando o papel dramático, senão o cômico". Acrescentam que "atacar certos escritores para engrandecer outros" é "um propósito não só evidente, mas também razão fundamental do aparecimento de Letra y línea ".
Está claro que parte da intelectualidade argentina se sentia incômoda com a literatura de combate dos surrealistas, com a audácia das publicações que atentavam contra os chamados bons costumes. Sem dúvida, havia uma grande distância e muita intolerância entre os que propunham a mudança, isto é, os surrealistas, e os que se sentiam atacados em seu prestígio e posição, que os acusavam de ser apenas seguidores de todos os passos do surrealismo francês.
Em 1961, Pellegrini publicou a Antologia da poesia surrealista de língua francesa , e André Breton a considerou "a contribuição mais importante para o conhecimento da poesia surrealista em qualquer idioma" 10, (em Baciu, 1979:20) e esta é uma das primeiras provas do reconhecimento do trabalho do autor argentino.
A compreensão e valorização do trabalho de Pellegrini em seu país podem ser rastreadas a partir de 1964, quando Juan José Ceselli publicou a obra intitulada Poesia argentina de vanguarda: surrealismo e invencionismo , que foi feita na Argentina, sendo o primeiro livro sobre o surrealismo nesse país. Foi editado pelo Ministerio de Relaciones Exteriores y Culto e, portanto, com orçamento do Estado, o que mostra que o surrealismo e o trabalho do autor do qual nos ocupamos não estavam passando totalmente despercebidos, e que podiam inclusive merecer um livro publicado pelo Ministerio de Estado . O que não deixa de constituir, por parte da ideologia e da classe dominante (e, indiretamente, da instituição literária e artística), uma forma de reconhecimento da legitimidade do surrealismo, como moderna corrente artística. Devemos entender a dimensão deste fato, mesmo considerando a possibilidade de que o livro tenha tido uma difusão limitada ou reduzida, ou, inclusive, confidencial (o que, até agora, ignoramos).
Neste livro, Juan José Ceselli se refere a Pellegrini como inspirador de um grupo surrealista que resultou coeso e vigoroso, com uma personalidade definida. Acrescenta que se poderia resumir a crônica do surrealismo a um só indivíduo: Aldo Pellegrini (Ceselli, 1964:14) - opinião que, talvez, seja um pouco exagerada e que não deva ser tomada ao pé da letra. Como reconhecimento do esforço e da influência de Pellegrini na literatura argentina, publica, no volume, o editorial que aparece no nº 2 de Qué , e alguns poemas de dois livros seus: La valija de fuego e Construcción de destrucción .
Para Juan José Ceselli, o grande valor de poetas como Pellegrini ("que vive num país afastado geograficamente dos centros culturais do mundo"), consiste em ter tido sempre uma atitude de rebelião contra uma forma utilitária de viver, sentir e pensar. Esta rebelião "inegável e promissoriamente prolífera [...] prognostica um lugar respeitável entre os círculos artísticos mais avançados do mundo" (Ceselli, 1964:8).
Em 1967, houve outra prova significativa do reconhecimento que Aldo Pellegrini estava tendo em seu país. O Centro de Artes Visuais do importante Instituto Torcuato Di Tella, de Buenos Aires, outorgou-lhe a organização da exposição "Surrealismo na Argentina", cujo catálogo tem um prólogo seu.
Neste mesmo ano, a pesquisadora Graciela de Sola 11 publicou um estudo sobre literatura argentina, no qual reconhece a importância do surrealismo na transformação da literatura e da arte, suas contribuições na psicologia e filosofia, bem como sua influência nas relações humanas. Em seu livro, Projeções do surrealismo na literatura argentina , Sola tenta localizar os precursores da revolta hispano-americana, e os possíveis antecedentes de uma visão surrealista em nosso continente.
Para Graciela de Sola, a literatura argentina sempre foi sensível ao pensamento e arte universais, motivo pelo qual o surrealismo se fez presente nesse país. Isto foi assim, fundamentalmente, pelo trabalho de nomes como Aldo Pellegrini, de quem a autora publica poemas, ensaios e uma entrevista que fizera, sendo uma das poucas que ficaram registradas.
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Podemos concluir que, no momento das primeiras publicações surrealistas de Aldo Pellegrini, o juizo estético que o oficialismo literário-artístico fez de seu trabalho literário não foi positivo. Segundo Jauss, há obras que, no momento de sua publicação, não podem ser relacionadas a nenhum público específico, porque rompem totalmente com o horizonte conhecido das espectativas literárias. Apesar disso, pode ocorrer que, ao longo dos anos, comece a formar-se um grupo de leitores para tais obras (Jauss, 1994:32-33). Acreditamos que este é o caso do autor do qual nos ocupamos.
Com o passar do tempo, a recepção deste autor - pelo menos nos círculos mais especializados - foi mudando consideravelmente e, talvez, se possa dizer que foi se liberando de uma engrenagem opressora. Hoje em dia, encontramos seus livros nas livrarias de Buenos Aires, bem como teses sobre o autor e comentários nas páginas da Internet.
A recepção do trabalho de Pellegrini, ou do surrealismo na Argentina, passou por etapas claramente identificáveis. Do silêncio à posterior crítica e sátira. Depois, a uma certa atenção de alguns setores da crítica e da intelectualidade, e, mais tarde, às homenagens e estudos acadêmicos.
Traduzido por Renato Giovani de Souza Pereira (bolsista e aluno de graduação do curso de Letras-UFRGS).
GUIOL-BENASSAYA, Elyette. La presse face au surréalisme de 1925 à 1938 . París: Éditions du Centre National de la Recherche Scientifique, 1982.
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