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Bouvard e Pécuchet & Policarpo Quaresma, o triste fim de uma viagem rumo ao desencanto
Maria Cristina Batalha (UFF)

A proposta deste trabalho é a de tecer uma aproximação entre Gustave Flaubert, autor francês do século XIX, e Lima Barreto, escritor carioca do início do século XX. O ponto de contato que nos pareceu mais contundente e ilustrativo para evidenciar as semelhanças entre as duas trajetórias recaiu sobre as obras Bouvard e Pécuchet e Triste fim de Policarpo Quaresma, respectivamente . Isto porque, primeiro, no plano da ficção, os protagonistas dos dois romances encarnam a decepção experimentada ao fim de um percurso e a desoladora constatação da falência de valores nos quais acreditavam. Como D. Quixote, Policarpo, um herói de muito caráter, esbarra em uma realidade que contraria tudo que havia aprendido nos livros. Da mesma maneira, Bouvard e Pécuchet, heróis também quixotescos da grande aventura do saber, experimentam a provação amarga de que o progresso tal como era concebido não levaria necessariamente ao paraíso sonhado . Assim, as duas obras evidenciam a fragilidade do intelectual diante dos poderosos e o contraste entre o idealista e os doutores prepotentes: o primeiro usa seus minguados tostões de simples funcionário público com a compra de livros, consumindo seu tempo e sua saúde nas inúmeras leituras que faz; os segundos, pedantes e inconsistentes, fazem da literatura e das ciências um cartão postal para exibir suas vaidades, mas cada uma das tentativas que empreendem resulta em fracasso: por estupidez ou por fatalidade.

Em segundo lugar, no plano da biografia pessoal, a solidão e o pessimismo permeiam a vida de Flaubert e de Lima Barreto, e ambos buscam realização e refúgio na literatura. Os valores que propugnavam o progresso e a modernidade, e que até então apontavam para um amanhã mais justo e para a felicidade possível do homem social, não trouxeram as respostas esperadas, empurrando os dois autores para o pessimismo e para uma ficção acentuadamente irônica. Assim, a segunda razão para a nossa escolha se justifica por permitir que essas duas obras sejam ser lidas como metáfora da trajetória de fracasso vivida por seus autores, naquilo que elas contém de elementos marcadamente autobiográficos.

Em terceiro lugar, quando a biografia cruza a história, também aí, a realidade aponta para o desencanto e a frustração, já que, no plano ficcional, os dois romances se configuram como uma reduplicação do universo cultural e político de seu tempo. A história recente da França só contribuía para confirmar o pessimismo de Flaubert: a guerra franco-prussiana de 1870, seguida dos horrores do episódio da Comuna de Paris, não permitia que se fizessem prognósticos alentadores sobre o futuro da espécie humana. Pécuchet constata com perplexidade: "o homem moderno vai se transformar em máquina" e "qualquer paz será impossível entre os homens." 1 No Brasil, a passagem do Império para a República, sublinhada por uma forte influência européia nos gostos e costumes, imprime uma nova face à cidade que excluía de seu centro elegante as camadas pobres da sociedade. E neste sentido, O triste fim renova o romance brasileiro, na medida em que inclui em nossa literatura o subúrbio, os pobres, os loucos, os oprimidos, as mulheres e os homens desprovidos e dessasistidos; enfim, os excluídos de um modo geral. Esses, à margem da modernidade, dela não se beneficiavam. A República concedida de cima para baixo traz como corolário o massacre dos marinheiros derrotados na Revolta da Armada. E o narrador do romance, emprestando sua voz ao desabafo de Policarpo, reconhece:

Não se pudera conter. Aquela leva de desgraçados a sair assim, a desoras, escolhidos a esmo, para uma carnificina distante, falara fundo a todos os seus sentimentos.(...) A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele mesmo no silêncio de seu gabinete. 2

 

Estruturado segundo uma gradação bem ao gosto do positivismo do qual nosso meio cultural estava empregnado, e que encontrava eco na estética naturalista da literatura brasileira, o percurso de Policarpo assenta-se em três projetos: lingüístico, agrícola e político. Essas três etapas são representações de projetos falidos e configuram-se como uma circularidade esterelizante, na qual, após esgotados os esforços em cada uma dessas etapas, volta-se ao ponto de partida:

O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo seu fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a viu matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções." 3

 

A fé em instituições que pareciam erguer-se sobre sólidos pilares, uma vez que podiam ser traduzidas por equações matemáticas que associavam ciência a progresso, revelou-se tão insustentável quanto incapaz de dar conta do mundo em transformação. E Razão, Ciência, Progresso, República e Justiça mostraram, na prática, não passar de moinhos de vento.

Da mesma forma, quando os dois copistas, Bouvard e Pécuchet, vão morar no campo, eles aí experimentam uma série de fiascos humiliantes e custosos na agricultura e na arboricultura. À medida que aumenta sua curiosidade de saber, enveredam por diversos caminhos da ciência, indo da anatomia à arqueologia e os resultados obtidos tampouco são diferentes. Todo o inventário do conhecimento humano desfila pela vontade de saber desses dois personagens, que sofrem de um bovarismo agudo: história, literatura, estética e religião, nada escapa à voracidade desse desejo. Desorientados e perdidos em meio a nomenclaturas e categorias que se contradizem entre si, os dois decidem voltar a sua atividade anterior de "copistas", ou seja, voltam simplesmente a copiar, seguindo assim a estratégia narrativa da circularidade, como havíamos apontado para o caso do romance de Lima Barreto. Ora, copiar, é a metáfora do que faz Flaubert ao empreender a escrita deste livro. Esgotado o vasto manancial de documentos e informações que consegue reunir, nada mais lhe resta senão deixar que tomem vida própria e se constituam em apêndice independente de idéias e discursos produzidos. A linguagem do romance é alimentada por lugares comuns e por citações de outros livros e tratados científicos. Neste sentido, o Dictionnaire des idées reçues está intimamente ligado à concepção de Bouvard et Pécuchet , corolário de um projeto mais amplo de desmistificação e sátira demolidora, cuja intenção revela Flaubert:

Seria a glorificação histórica de tudo aquilo que as pessoas aprovam... uma apologia da canalhice humana sob todos os seus ângulos, irônica e gritante do começo ao fim, cheia de citações, de provas ( que provariam o contrário). 4

 

Seguindo esse fio de raciocínio, a mesma euforia que move Bouvard e Pécuchet também leva Policarpo Quaresma ao mundo das ciências, com suas etiquetas, catálogos e equações lógicas, aproximando-o do comportamento dos dois copistas:

O major logo organizou um museu dos produtos naturais do 'Sossego'. As espécies florestais e campesinas foram etiquetadas com os seus nomes vulgares, e quando era possível com os científicos. Os arbustos, em herbário, e as madeiras, em pequenos tocos, seccionados longitudinal e transversalmente. Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as ciências naturais e o furor autodidata dera a Quaresma sólidas noções de Botânica, Zoologia, Mineralogia e Geologia. 5

 

Como pode-se observar, fica evidenciado, nos dois romances, a inconsistência de nomenclaturas, conceitos e idéias abstratas, que se revelam esvaziados de sentido, quando confrontados com a realidade. Assim, a empresa de Policarpo se mostra inútil, e Bouvard e Pécuchet tampouco terão melhor sorte. Há, então, uma dupla comicidade que se configura: ao absurdo dos exploradores responde o absurdo da ciência. Em sua estrutura de conjunto, os romances se apresentam assim como um estéreo retorno ao ponto de partida após uma odisséia irrisória da eterna insatisfação, aproximando os dois protagonistas de Flaubert e Policarpo em uma mesma engrenagem de loucura e obsessão.

Para Flaubert, o drama da existência humana que vem à tona nesta obra, é o fato de que a razão está condenada a não poder saber tudo, nem tampouco ignorar tudo. E o que coloca os personagens em uma verdadeira busca inatingível de absoluto é o fato de terem desenvolvido a "faculdade de perceber a burrice e de não mais poder tolerá-la". Contraditoriamente, são levados a recordar o tempo em que eram felizes porque eram "ignorantes". Os dois heróis flaubertianos se revoltam contra a indiferença das pessoas em relação à arte e ao utilitarismo reinante no campo da estética. Constatam amargamente que "as pessoas não gostam da literatura" 6, e que a sociedade será sempre hostil às criações do espírito. O autor de Bouvard et Pécuchet nos descreve, desse modo, seu próprio esforço para escrever, e, ironicamente, o livro permanecerá inacabado, metaforizando, ao mesmo tempo, o inventário enciclopédico do fracasso e o fracasso da própria cultura enciclopédica que não lhe foi suficiente para dar conta de seu projeto literário. Com efeito, o gosto pela documentação assume proporções espantosas ao final da vida de Flaubert, e acaba se transformando também em uma espécie de loucura da qual ele tem plena consciência, pois escreve: "É preciso ser doente para empreender tal tarefa"; e mais adiante, "já está em tempo que meu livro chegue ao fim, pois senão serei eu que morrerei", "estou extenuado, é preciso que isso acabe ou serei eu que acabarei". 7

Sintomaticamente, Flaubert foi um dos primeiros escritores a utilizar o caso do livreiro catalão, publicado em outubro de 1836, na Gazette des Tribunaux , jornal de cunho jurídico. A incongruência desse relato - ao qual muitos logo atribuiram uma autoria literária e não a simples resenha de um processo criminal - inspirou vários autores, e Flaubert, aos quinze anos de idade, escreve no jornal literário de Rouen - Le Colibri - um texto intitulado Bibliomanie , no qual ele já antecipa algumas das idéias que estarão presentes, posteriormente, em outras obras de sua autoria, notadamente em Bouvard et Pécuchet . 8 Nessa narrativa curta, o protagonista "carrancudo e triste, não tinha senão uma idéia, um amor, uma paixão: os livros" 9. Imaginando o livro como um absoluto, síntese de todo o conhecimento humano, "sonhava com tudo o que devia conter de divino, de sublime e de belo uma biblioteca real, e sonhava construir para si uma tão grande quanto a de um rei" 10. Obcecado por um manuscrito que acreditava ser único, mas que pertencia a um outro livreiro, é acusado de incendiar a casa de seu inimigo e roubar o documento tão precioso: "o pobre Giacomo, que só pensava em seus livros, encontrava-se então metido nos mistérios do crime e do cadafalso." 11 Personagem ambíguo, tanto aparecendo como um intelectual despojado, quanto um louco preso às suas obsessões, ele faz com que o leitor hesite entre a adesão e a não identificação com sua figura. Aliás, quando o narrador o descreve, parece referir-se à própria situação do escritor em sua época, assim como à própria visão que Flaubert tinha de si mesmo e de sua condição. Diz o narrador:

Não tinha, entretanto, esse ar arrogante e nulo habitual em pessoas que trazem lacaios agaloados, belas roupas e cabeça oca; não, esse homem era um sábio, (...) duas ou três mulheres lhe dizem: Possuís o gênio, e, em verdade, consideram-vos um néscio. 12

 

Quanto a Lima Barreto, sabemos que sua obra explora o universo sombrio percorrido pelo escritor, denunciando o preconceito, a corrupção e a exclusão da loucura. Como observa Beatriz Resende:

Deslocado da cidade que diariamente percorre carregando sua alma de artista, conhecendo-a como poucos, revela o estranhamento dos que sentem que a imagem idealizada se apaga diante de outra que lhe vai sendo imposta à revelia." 13

 

Lima, que nunca saiu do espaço do pobre, vai tentar quebrar a retórica oficial dominada pelo discurso naturalista através de uma literatura de contra-mão. É evidente a contraposição em Triste fim do discurso oficial ao da crítica a esse mesmo discurso, o que leva à ambigüidade ao plano da narrativa. Basta citarmos o exemplo da intertextualidade com os discursos ufanistas de relatos de viajantes, inclusive a Carta de Pero Vaz de Caminha, retomados do ponto de vista crítico: "[O Brasil] tinha todos os climas, todos os frutos, todos os minerais e animais úteis, as melhores terras decultura, a gente mais valente, mais hospitaleira, mais inteligente e mais doce do mundo - o que precisava mais?" 14

A literatura brasileira, de modo geral, está dirigida para uma classe social, e é também a essa classe que pertence a grande maioria dos escritores, sobretudo em sua época. As outras classes são representadas a partir do olhar da elite, que transforma aquilo que não é reconhecido como igual em exótico e descentrado. Ocorre então o que Silviano Santiago vai chamar de "contar corrigido", ou seja, deixa-se falar o outro, mas o narrador ou outro personagem "corrigem" sua fala deslocada 15. Em sua recusa ao academicismo, Lima Barreto vai trazer uma linguagem despojada, coloquial, enfocando a cultura popular urbana como tema literário e transformando personagens "deslocados" - verdadeiros anti-heróis - e comprimidos pelo meio social para o centro de sua ficção. Com efeito, Triste fim tematiza e denuncia a exclusão do intelectual fora das academias, do louco isolado no manicômio e do suburbano com sua cultura popular.

Ora, como aponta Silviano Santiago 16, Lima Barreto assumiu uma posição isolada, pois sua obra impõe um padrão estético que foge aos critérios de legitimação consagrados pela cultura erudita. Escreve para o leitor pouco afeito à leitura e que, sozinho, não conseguiria chegar à compreensão da obra. O uso da redundância, recurso amplamente utilizado pelo folhetim, aponta para o desejo de dirigir sua literatura para o leitor comum, pertencente à sua classe. O vocabulário das "feiras e mafuás", assim como a recusa do trágico que, em Triste fim é desconstruído pela paródia, evidenciam a opção estética de Lima Barreto. Aliás, o romance foi inicialmente publicado em folhetins do Jornal do Commercio , e só cinco anos depois foi publicado em livro.

Na verdade, Lima alimenta a esperança de resgatar o fracasso de sua história pessoal pela literatura, mas esse empreendimento não logrou êxito, e sua ficção se torna cada vez mais amarga e cortante, impregnada de uma ironia sarcástica. As cinco versões de Clara dos Anjos impressionam pela disparidade entre elas, quanto ao que diz respeito à personalidade da protagonista: na primeira versão, Clara se casa e tem filhos; na versão publicada após a morte do autor, Clara se transforma em uma moça traída e humilhada, esquecida da sorte. Policarpo, em desconcertada carta escrita à irmã, também experimenta a dúvida sobre seu futuro, após uma trajetória semelhante de fracassos: "como acabarei? Como acabarei?", pergunta-se ele, deixando confundir-se com as incertezas do próprio autor.

A atualidade desses personagens - que, como apontamos, apresentam múltiplos pontos de coincidência com a trajetória de seus próprios criadores - trazem à tona questões como a perda de nossos símbolos culturais e nacionais, de valores como República, Pátria, assim como funções e limites da literatura em sua inserção tanto no campo da própria arte, quanto no campo social e político de modo geral. O sentimento de exclusão que experimentam levam ao pessimismo e ao desencanto; a euforia transforma-se pouco a pouco em indisfarçável melancolia. À intenção declarada de Flaubert de desmistificar a incongruência de um irrefletido armazenamento de dados e conceitos contraditórios, responde o discurso do narrador de Triste fim , que reconhece, ao final do romance, que a visão globalizante de "pátria", edênica e harmoniosa, não corresponde à realidade por ele vivenciada. Da mesma forma, constata ele que há um descompasso entre o instituído e o consagrado, de um lado, e a cultura periférica do subúrbio, de outro, cuja ótica passa por valores outros: "os versos"que Ricardo Coração dos Outros compõe para seu violão seguem "outra métrica e outro sistema" 17. Assim: " a pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele em seu gabinete. Nem a física, nem a intelectual, nem a política que julgava existir havia." 18 Constatação patética de Policarpo, que lamenta a inutilidade dos esforços empreendidos para tornar concreta a idéia de pátria que havia aprendido nos livros.

Paralelamente, as ambigüidades presentes em Bouvard et Pécuchet adquirem sua significação profunda quando as remetemos à tensão intelectual vivida por Flaubert. De um lado a voz corrosiva e iconoclasta do pessimismo; de outro, a literatura como resposta e como única possibilidade de sobrevivência. Mas, ainda aí, a busca da perfeição almejada se traduz por um fracasso, e sua frustração reside no reconhecimento da inconsistência do desejo de impessoalidade, de produção de uma literatura que se sustentasse por ela mesma, apenas pela "força de seu estilo". A rigidez e a disciplina com que tomou às mãos seu projeto literário não impediu que seus fantasmas mais íntimos e suas recorrentes obsessões invadissem e contaminassem seus romances, que ele teimava em manter imunes.

Quanto a Lima Barreto, o fracasso da trajetória de seu herói expressa metaforicamente a própria falência de sua empresa: a literatura não o livrou da loucura nem da miséria, nem tampouco contribuiu para a construção de uma sociedade mais justa. A Academia Brasileira de Letras fechou suas portas para o escritor duas vezes, e, na terceira, ele próprio decidiu retirar sua candidatura, pouco antes de morrer, precocemente, e em total abandono, em 1922.

No final da vida, Flaubert cultiva sua indignação: "paganismo, cristianismo, esperteza, estas são as três grandes evoluções da humanidade" 19, dirá ele. Fazendo eco às constatações demolidoras de Flaubert, Lima Barreto anota em seu diário, durante o período de internação no sanatório da Praia Vermelha, a cena que descreve a crise de um colega interno:

Num dado momento, trepado e de pé na cumieira, falando, cabelos revoltos, os braços levantados para o céu fumacento, esse pobre homem surgiu-me como a imagem da revolta... Contra quem? Contra os homens? Contra Deus? Não; contra todos, ou melhor, contra o Irremediável. 20

 

E seu último romance, Clara dos Anjos , de janeiro de 1922, se fecha com a declaração desencantada da personagem: "Nós não somos nada nesta vida." 21Por outro lado, Bouvard e Pécuchet reconhecem amargamente que "o pensamento que governa os mundos não clareia nosso espírito. O supremo poder nos abandona à impotência." 22

Por diferentes razões, entendemos que os dois romances que enfocamos aqui prenunciam amargamente o universo caricatural das peças de Samuel Beckett e o riso absurdo do teatro de Ionesco. Eles nos colocam, a nós leitores, diante do dilema de como encarar seus protagonistas: mártires ou caricaturas? Visionários ou heróis? Talvez tudo isso ao mesmo tempo... Os "dois idiotas", como Flaubert se referia a seus personagens em sua correspondência, acabam por adquirir uma dignidade em sua expressão de desolada bufoneria. Na mesma medida, o narrador de Triste fim, irônico e ambíguo, comporta-se como um caricaturista debochado e irreverente, mas, ao memo tempo, reconhece que os propósitos de Policarpo são reais, legítimos e têm a sua lógica. É assim que Olga também percebe que seu irmão age sempre de modo diferente dos outros, mas hesita na tentativa de compreender suas atitudes:

[Olga] sentia confusamente nele alguma coisa de superior, uma ânsia de ideal, uma tenacidade em seguir um sonho, uma idéia, um vôo enfim para as altas regiões do espírito que ela não estava habituada a ver em ninguém do mundo que freqüentava." 23

 

Desse modo, identificando-se frequentemente com o narrador, Quaresma sensibiliza os leitores pelo amálgama de sentimentos contraditórios que suscita, apontando para uma reflexão crítica sobre a realidade igualmente perturbadora. O jogo de identificação e distanciamento que se estabelece entre o narrador e os personagens torna pertinentes e atuais questões que permanecem como lugares comuns entre nós, e às quais, uma visão mais crítica e consciente da nossa história permitiria responder. Por isso é que Olga, ao ver a pobreza extrema dos camponeses, pergunta-se inconformada: "Por que, ao redor dessas casas, não havia cultura, uma horta, um pomar?" 24 Por esse motivo, podemos afirmar que há vários Policarpos: o democrata vítima do arbítrio, o nacionalista ridicularizado, o utopista internado como louco. Afinal, qual o entento de Policarpo senão transformar a idéia abstrata e idealizada de "pátria" em uma realidade concreta? Não se trata, em última instância, daquilo que todos nós queremos?

Da mesma forma, ao tentar dar conta das questões sob as quais Bouvard e Pécuchet sentiam-se submersos, eles se questionam: "como distinguir os nimbos dos ciros, os estratos dos cúmulos?", pois as "formas mudavam antes mesmo que eles pudessem nomeá-las", levando-os à conclusão que "há uma maneira ondulante e fugaz para todas as coisas". 25

O pessimismo de Flaubert é incurável, pois além de investir contra a sociedade e suas instituições, é contra a própria natureza humana que ele se volta, num pólo oposto à concepção rousseauniana. Ao experimentar métodos pedagógicos para educar os filhos de um criminoso, Bouvard e Pécuchet constatam que as crianças sofrem de um mal congênito, que nehuma educação poderá eliminar. Um rápido percurso sobre algumas de suas obras nos permitiriam pontuar a visão desencantada que move seus mais célebres personagens. O tédio de Emma Bovary escapa tanto dos remédios terrestres quanto dos remédios celestiais. Para diagnosticar seus males, cada um apresenta uma alternativa: Homais atribui o mal à constituição nervosa da mulher, Rodolphe fareja a mal casada, com uma vida sexual entediante, Charles, o marido, imagina os maus fluidos do local e decide mudar-se para uma outra cidade, a sogra recrimina-lhe a ociosidade e os males provocados pelas leituras de romances nocivos, e ela mesma fala constantemente de seus "nervos". Enfim, para um mal que não se consegue nomear, acorrem a ciência, a religião, a moral e a psicologia; entretanto, todos se mostram igualmente ineficazes. Por isso, como observa Yvan Leclerc 26, Emma escolhe a cura definitiva do vazio pelo vazio, assim como Frédéric, personagem da Education sentimentale , um romance sem ação, entrega-se ao tédio e à inatividade, tornando-se um simples espectador dos acontecimentos que se desenrolam à sua volta. Aquilo que acontece com Santo Antônio, na matéria e na prece, também atinge Bouvard e Pécuchet em suas cópias. A própria estrutura dos romances de Flaubert, após Madame Bovary e Salammbô - com seus destinos trágicos, construídos com base em uma progressão clássica, com o aumento da tensão, um pique dramático e um desfecho em catástrofe -, sofre uma inflexão narrativa, e sua ficção passa a privilegiar a série redundante, o decorrer de cenas sem peripécias nem resolução, onde o autor opta pela estrutura da circularidade. E, como assinala ainda Leclerc: "a essa concepção desencantada da vida, mesclada de schopenhauerismo , era preciso encontrar um estilo, uma sintaxe, uma nova combinatória narrativa para fazer com que o romance entrasse na zona da depressão." 27

Ao fazermos mais essa "Travessia" pela literatura, entrando em espaços geográfica e socialmente desiguais, acreditamos que pudemos interagir de modo crítico sobre tradições, construções imaginárias e heranças culturais, bem como refletir sobre os deslocamentos e as reconfigurações que ela promove, colocando em movimento passado e presente, ruptura e tradição, euforia e desencanto. Assim, entendemos que as duas obras aqui comparadas permitiram evidenciar as contradições e a utopia da experiência desiludida da aventura da modernidade, com suas configurações ideológicas e imaginárias.

 

BIBLIOGRAFIA

 

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MOUCHARD, Claude. "La consistance des savoirs dans Bouvard et Pécuchet ", in R. DEBRAY-GENETTE et alii. Le travail de F laubert . Paris: Seuil, 1983.

RESENDE, Beatriz. Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos. Rio de Janeiro: UFRJ/UNICAMP, 1993.

SANTIAGO, Silviano. "Uma ferroada no peito do pé", Vale quanto pesa . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 163-181.

 

Notas:

FLAUBERT, Gustave. Bouvard et Pécuchet . Paris : Belles Lettres, 1945, vol 2 , p. 378.

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma . São Paulo: Ática, 1994, p. 154.

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma . São Paulo: Ática, 1994, p. 175.

FLAUBERT, G. Correspondance , III. Paris: Conard, 1926-1933, p. 26, 336.

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Ática, 1994, p. 76-77.

FLAUBERT, G. Bouvard et Pécuchet . Paris : Belles Lettres, 1945, vol 2, p. 298.

FLAUBERT, G. Lettres inédites à Tourgueneff . Paris: éd. Du Rocher, 1948, p. 83,167,220.

FLAUBERT, G. Bibliomania . Trad. De Carlito Azevedo. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2001, p. 11-3.

Idem, ibidem, p. 18.

Idem, ibidem, p. 20.

Idem, ibidem, p. 39.

Idem, ibidem, p. 22.

RESENDE, Beatriz. Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos . Rio de Janeiro: UFRJ/UNICAMP, 1993, p. 146.

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma . São Paulo: Ática, 1994, p. 31.

SANTIAGO, Silviano. Vale quanto pesa . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 13.

SANTIAGO, Silviano. Vale quanto pesa . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

Idem. P. 40.

Idem. P. 158.

FLAUBERT, G. Lettres inédites à Tourgueneff . Edit. Du Rocher, 1948, p. 81.

BARRETO, Lima. Cemitério dos vivos . Apud RESENDE, Beatriz, Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos . Rio de Janeiro: UFRJ/UNICAMP, 1993, p. 189.

BARRETO, Lima. Clara dos Anjos . BARBOSA, Francisco de Assis. Obras de Lima Barreto . São Paulo: Brasiliense, 1956.

FLAUBERT, G. Bouvard et Pécuchet . Paris: Belles Lettres, 1945, vol 2, p. 342.

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma . São Paulo: Ática, 1994, p. 56.

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma . São Paulo: Ática, 1994, p. 45.

FLAUBERT, Gustave. Bouvard et Pécuchet . Paris : Belles Lettres, 1945, vol 2, p.438.

LECLERC, Y. La dépression en héritage. Magazine Littéraire , nº 411, julho/ago, 2002, p. 44.

Idem, ibidem.