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Charles Baudelaire e Clarice Lispector e seus tropeços nas cidades
Lúcia Peixoto Cherem (UFPR)

O conto Perdoando Deus e um dos poemas em prosa de Charles Baudelaire, O Bolo (Lê gâteau) , possuem a mesma estrutura narrativa, embora, a partir de um determinado momento, evoluam em direções diferentes. Os dois serão aqui cotejados porque possuem uma mesma visão romântica do mundo que vai, aos poucos, sendo revista.

Os dois narradores partem de uma sensação de plenitude e enfrentam uma queda brusca, voltando ao mundo real. O que os diferencia, no entanto, é o rumo que cada um deles toma depois da sensação vivida.

O conto de Clarice faz parte da coletânea Felicidade clandestina , 1porém ele havia sido publicado anteriormente como crônica no Jornal do Brasil , mais precisamente em 19 de setembro de 1970 e saiu em A descoberta do mundo , onde foram reunidas quase todas as crônicas escritas pela autora naquele jornal. Por isso, prefiro ver nesse conto-crônica um arrebatamento da própria autora, algo que ela nos dá sem os artifícios do que se costuma chamar literatura.

Perdoando Deus começa pela descrição de uma sensação que é de plenitude, de grandeza de alma, mas a narradora também nos dá a percepção do mundo que a cerca: "...na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo um coisa muito rara: livre". 2

Há uma percepção nítida ao olhar o mundo: e difícios, nesga de mar, pessoas e muita satisfação nesse olhar. Até que um novo sentimento a invade:

Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo... 3

E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.

E foi quando pisei num enorme rato morto. 4

 

É relevante discutir aqui a questão da experiência que um escritor pode nos dar através do seu texto. No caso específico desse escrito, a autora compartilha com seu leitor o vivido. Parece-me ser exatamente esse o papel da literatura, já que nos permite enxergar e reviver, por vezes, com o autor, aquilo que ele conheceu. O mais espantoso é que o texto de Clarice Lispector foi publicado antes em um jornal para depois ser compilado em livro. É bem verdade que foi publicado pela primeira vez no espaço destinado à crônica, um texto mais pessoal, mas, em geral, não é nos

jornais que se tem contato com a experiência viva de um autor. É que Clarice não se moldou ao gênero da crônica que se fazia na época, ao contrário, seguiu escrevendo, muitas vezes, textos "íntimos" naquele espaço. O que vem sendo cada vez mais raro, pois há carência desse tipo de texto na imprensa. 5

Num estudo sobre Baudelaire, W. Benjamin, citando Paul Valéry, afirma que todo escritor, ao relatar uma emoção vivida, necessita trabalhar com a sua memória. É tentando lembrar-se do que aconteceu que poderá ou não tocar o leitor, no sentido de esse leitor reviver com o autor a mesma sensação:

Consideradas em si mesmas as impressões ou sensações do homem entram na categoria de surpresas: testemunham uma insuficiência do homem... a lembrança é um fenômeno elementar e tende a dar-nos o tempo de organizar a recepção do estímulo, tempo que, num primeiro momento, nos faltou. 6

Segundo Valéry, Baudelaire é um exemplo de um poeta que tinha como missão aparar os choques de onde quer que proviessem. Foi um autor que se chocou com as pessoas, com as cidades, com as construções. E desses tropeços, nasceram muitos poemas, revelando-nos surpresas, como o poema em prosa, O bolo . Primeiro, há a sensação de plenitude, em seguida, o choque e por fim, a reformulação de um pensamento: "Je voyageais. Le paysage au milieu duquel j'étais placé était d'une grandeur et d'une noblesse irrésistibles. Il en passa sans doute en ce moment quelque chose dans mon âme" . 7

Segue-se a descrição da sensação de plenitude que o poeta experimenta naquela viagem, o que resume assim: "Bref, je me sentais, grâce à l'enthousiasmante beauté dont j'étais environné, en parfaite paix avec moi-même et l'univers." 8

Porém, esse estado será interrompido pela presença de dois meninos. Um deles aproxima-se do poeta e pede-lhe um pedaço de bolo (não consegue distinguir pão de bolo, tal é a miséria em que vive). Quando chega o outro, arma-se uma luta terrível pelo pão-bolo, transformado em migalhas. A sensação inicial de plenitude é perturbada por um choque social: o poeta acorda para o mundo concreto dessas crianças e reformula o que havia pensado durante seu "estado de graça": "J'en étais venu à ne plus trouver si ridicules les journaux qui présentent que l'homme est né bon." 9

Agora, desiludido, chocado pelo que viu e vivenciou, termina seu poema da seguinte forma: "Ce spectacle m'avait embrumé le paysage, et la joie calme où s'ébaudissait mon âme avant d'avoir vu ces petits hommes avait totalement disparu." 10

E Baudelaire acaba reformulando seu pensamento sobre a natureza humana, ironizando as crenças e os ideais de justiça, valores discutíveis na sociedade em que vive: "Il y a donc un pays superbe où le pain s'appelle du gâteau, friandise si rare qu'elle suffit pour engendrer une guerre parfaitement fratricide!." 11

A estrutura narrativa do texto de Baudelaire está também presente no texto de Clarice: após a sensação inicial de plenitude, ela nos dá esse rato morto na calçada. Vivemos o choque com ela e, assim, acordamos para a experiência que ela teve e que lhe foi significativa. O choque provoca em Clarice uma terrível reação: sente-se modificada fisicamente, eriçada pelo terror de viver. 12

Nos primeiros momentos, é impossível raciocinar. Somente depois de se acalmar, seu espírito volta a trabalhar e a escrita vai ganhando importância - a reflexão se faz agora de forma mais elaborada e vai se sofisticando em relação ao fato vivido - o susto provocado pelo rato. O primeiro sentimento é de revolta e vingança: "E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato."

Deus a havia abandonado, não a habitava mais. E nesse desamparo, como vingar-se dele? Contando a todos o que lhe aconteceu. O conto poderia terminar aí, se Clarice se contentasse com essa vingança. É justamente por não se dar por satisfeita que se trata de uma escritora tão particular.

1. A Negação do Deus Formal

A autora começa a tentar entender o porquê da sua reação de pavor ao se deparar com o rato. Para isso faz um esforço intelectual de interpretação do fato. Repete várias vezes uma mesma estrutura lingüística, o que vai esclarecendo para si mesma o seu lado obscuro:

...mas quem sabe foi porque ...

Porque eu me imaginava mais forte

Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado

Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.

É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda... 13(Os grifos são nossos)

 

A busca se faz pela própria reflexão e também pelo trabalho com a escrita. E nessa busca, Clarice passa a nos revelar sua relação com Deus. É evidente que recusa o Deus formal da religião judaica, porque quis criar seu próprio caminho, sem apegar-se às tradições recebidas pela família. Isso fica claro quando afirma que o susto com o rato a afasta de Deus, porque não quer o Deus formal. Não deseja o amor solene e, por isso, não consegue receber a oferenda, entregar-se ao mistério, pertencer a esse Deus. Está fadada a interpretar, a tentar entender, a buscar pelo intelecto e pela intuição a compreensão do mistério, mas não há contentamento pleno, entrega, aceitação da fraqueza humana. Nesse sentido, têm-se de forma velada traços do judaísmo, uma recusa na humanização de Deus. Resta-lhe sua busca obsessiva, brutal e quase enlouquecedora: "É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o quê não sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta." 14

Mas não se rende, rejeita o formalismo porque ele impede a experiência mística direta, intuitiva do eu com Deus. Não tolera a mediação de religião alguma, porque se sente tocada diretamente por Ele (esse que inventa por não saber quem é). Refere-se ao Magnificat - a glorificação que Maria faz ao senhor ao descobrir que dará à luz ao Filho de Deus, após a visita do anjo Gabriel. 15No entanto, sabe que não vai se entregar ao formalismo e sem essa entrega, sem a aceitação do mistério da vida, não pode ir adiante. Há um limite para o seu entendimento, não consegue superar a si mesma, esbarrando na sua própria fragilidade. Mesmo sabendo que é frágil, nunca tem medo e segue a sua busca, sem abandonar o seu orgulho. Orgulho de que vai tratar em seguida: "...pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo". 16(Os grifos são nossos)

Esse orgulho de ter nascido estaria ligado ao fato de ter conseguido superar todas as dificuldades para poder vir ao mundo, durante a viagem da família Lispector rumo à América? Ou esse orgulho viria da sua origem judaica, orgulho por fazer parte de um povo eleito? Pouco provável. Clarice nunca se satisfez com esse tipo de orgulho: o orgulho, a que se refere, a meu ver, está relacionado à sua coragem de expressar-se através de uma linguagem que soasse sua, para, por meio dela, captar seus instantes de vida - vibrantes, brutais - que tanto a inquietavam.

Já no fim da crônica, Clarice está consciente: se ainda se assombra com um rato morto, é porque ainda não aceita seu lado obscuro. Como foi querer ser a mãe do que existe, se não é capaz de suportar a sua própria natureza? Ao final do texto, lança mão de uma outra estrutura muito presente em seus escritos: " Eu, que, sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma..." 17(Os grifos são nossos)

Essa projeção do eu é quase uma confissão irônica da própria fragilidade. A plenitude do início lhe é roubada pela simples presença do rato; a queda brusca permite-lhe uma série de considerações sobre si mesma. Tem consciência, finalmente, de que não pode ser a mãe de Deus. O que sentiu foi um falso êxtase de uma desprevenida. Da mesma forma, Baudelaire despencou de um estado de graça, acordando para o mundo que o cercava. Nos dois textos, os narradores encontram-se suspensos por instantes do mundo concreto, vivendo uma experiência interior. Passam de um estado pleno para cair ou, entre crianças famintas, ou, ao lado de um rato morto. Os dois são chamados a sair de si mesmos: o rato obriga Clarice a se mover, o pão esmigalhado na briga desorganiza o espírito de Baudelaire. E é desse movimento que vive sua poesia. Baudelaire nos mostra a conexão entre fato interior e fato exterior. Clarice Lispector percorre quase o mesmo caminho, mas sua busca não cessa com a primeira razão encontrada: escava até onde pode para tentar o entendimento do mundo ou de Deus, mesmo que para isso tenha que destruir a linguagem que se conhece, enfrentando aquilo que pode nos parecer o vazio , mas é desse vazio que ela extrai a sua própria linguagem, seu grito mudo .

Não teria o texto de Clarice, analisado acima, algumas características de um misticismo primeiro, livre de leis? Ainda segundo Roger Bastide, "o misticismo judaico conserva qualquer coisa, pelo seu caráter orgiástico, violento ou contagioso, do misticismo primitivo". 18Nos processos primitivos, o místico fragmenta-se, reparte-se em vários eus heterogêneos e no fim, tende para a loucura. 19Por outro lado, os textos da autora deixam transparecer também características que podem ser relacionadas ao judaísmo: a busca incessante do entendimento pela palavra, a tentativa de interpretação dos fatos (sem esquecer que sentir para ela também é um fato), não são próprias de um formalismo judaico, que sobrevive das discussões dos textos e que se prende à letra? Clarice não repete as mesmas estruturas lingüísticas em Perdoando Deus até esgotar todas as possibilidades para atingir o vazio, despojando-se do que há nela de bem e de mal? Não faz parte da busca ansiosa dos israelitas a construção de ídolos, derrubados em seguida, para que se construam outros? Não há, entre eles, a recusa de se estabilizar na adoração de julgamentos feitos ? 20Essa invenção que Clarice faz de um Deus no conto estudado acima não seria ressonância de sua origem judaica? Talvez. Mas esse seria assunto para um outro estudo.

 

 

LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina : contos. 3.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

LISPECTOR, C., Felicidade ..., op. cit., p.40.

LISPECTOR, C., Felicidade ..., op. cit., p.40.

LISPECTOR, C., Felicidade ..., op. cit., p.41.

Esse fenômeno se estendeu às revistas consideradas de cultura e também às de literatura: elas trazem artigos de crítica literária, mas raramente oferecem aos leitores poemas ou trechos longos de romances, o que lhes permitiria viver seus próprios "choques" e sensações sem a mediação dos críticos. O leitor que quer se informar sobre literatura, acaba, de certa forma, incorporando à sua visão, sempre a visão do crítico. O que pode ajudá-lo, se não for uma visão viciada; mas em muitos casos, quando o estilo lingüístico da publicação se impõe mais que a visão original de um crítico, o que pode acontecer é uma paralisia na imaginação do leitor.

BENJAMIN, W. Traduzido da versão italiana: Di alcuni motivi in Baudelaire . Em Angelus Novus, Saggi e Frammenti. Torino: Giulio Einadi Editore, 1962.

BAUDELAIRE, Charles. Ouvres complètes . Paris : Gallimard, 1975. p.297.

BAUDELAIRE, op. cit., p.297-298.

O poeta faz referência às idéias de Jean-Jacques Rousseau.

Ibid, p.299.

Ibid, p.299.

LISPECTOR, Clarice. Perdoando Deus. In:_____. Felicidade clandestina . 3.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p.41.

LISPECTOR, C., Perdoando..., op. cit., p.43.

LISPECTOR, C., Perdoando..., op. cit., p.43.

Evangelho de São Lucas, 1: 46-55.

LISPECTOR, C., Perdoando..., op. cit., p.43.

LISPECTOR, C., Perdoando..., op. cit., p.44.

BASTIDE, Os problemas ..., op. cit., p.13.

A personagem Laura do conto A imitação da rosa de Clarice Lispector teria traços desse misticismo.

BASTIDE, Roger. O judaísmo de Proust. O Estado de S. Paulo , 30 out. 1943.