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Romantismo e Modernidade
Karin Volobuef (UNESP/Araraquara)
O termo "modernidade" não designa um conceito unívoco, conforme se pode constatar não só a partir de seu sentido mais corriqueiro ou usual, mas também em um estudo mais aprofundado. No vocabulário cotidiano, a palavra, cuja origem remonta ao adjetivo modernus do latim transmite a idéia de atualidade, contemporaneidade. Já em outro contexto funciona como sinônimo de "modernismo", referindo-se neste caso ao movimento artístico e literário ocorrido entre o final do século XIX e início do XX e cujo ápice, aqui no Brasil, foi o Movimento Modernista de 1922.
É também corrente o uso do conceito para designar um vasto fenômeno estético-cultural que se inicia nos fins do século XVIII e alcança os anos 60 do século passado, abrangendo, assim, um período que vai do Romantismo ao Simbolismo, das vanguardas dos anos 10 e 20 à pós-vanguarda dos anos 30 a 60. No caso específico da literatura alemã generalizou-se o termo Moderne para designar o período que se inicia com o Naturalismo e se estende pelo séc. XX adentro até desembocar na pós-modernidade.
Isso porque "pós-modernidade" já é o termo corrente para caracterizar nossa fase contemporânea, ou seja, um período iniciado na década de 60 ou 70 e que já não crê em utopias em relação ao futuro e acostumou-se a duvidar dos supostos benefícios do progresso. Portanto, o conceito de modernidade já serve de matriz referencial para o movimento cultural que o sucede. Segundo o filósofo alemão Jürgen Habermas 1, a pós-modernidade assinala uma postura crítica contra as máximas de eficiência e produtividade, necessárias ao desenvolvimento capitalista, ao mesmo tempo em que são exaltadas a realização pessoal e a satisfação imediata dos desejos.
Todas essas definições de modernidade, incluindo-se também o conceito de pós-modernidade, pressupõem, antes de mais nada, uma noção histórica, uma reflexão sobre o tempo. O fato de o termo modernidade funcionar como sinônimo de "hodierno" torna-o insuficiente para circunscrever um período cultural - como é o caso da era moderna - pois, ao invés de definir este período, denominando suas peculiaridades, ele caracteriza-se apenas como a "época presente", o que é uma condição necessariamente passageira.
Com efeito, Hans Robert Jauss, ao rastrear este conceito ao longo da História, mostra-nos que já houve várias modernidades, no sentido de que cada época sempre se considerou moderna. Portanto, esse conceito, como noção de atualidade, não é exclusivo do séc. XX.
Cada período na História foi marcado pela introdução de novos valores estéticos, ou seja, por um novo conceito do Belo. Cada uma destas inovações angariou para si o status de moderno, enquanto o ideal de beleza anterior deixava de ser considerado como tal, passando a ser tomado como antigo ou ultrapassado. As modernidades se sucederam e, pelas linhas gerais de suas estéticas, foram sendo denominadas com nomes diversos: Barroco, Classicismo, etc. Cada novo ideal do Belo substituiu um ideal anterior, de modo que todas as épocas tiveram as suas obras modernas, as quais deixaram de ser consideradas como tais quando surgiram novas obras guiadas pelo anseio de renovação e mudança.
A sucessão das "modernidades" decorre, portanto, das mudanças experimentadas frente às tradições artísticas e literárias dominantes. Ao termo "moderno" vincula-se a idéia de contemporaneidade, de um momento que é distinto do anterior, mas que, paradoxalmente, só se define em relação a este. É preciso notar, porém, que essa relação não deve ser necessariamente tomada como uma oposição do moderno ao antigo. Mesmo na famosa "Querelle des Anciens et des Modernes" (1687), segundo a análise de Matei Calinescu,
a maioria dos 'modernos' [...] continuava a considerar a beleza como um modelo eterno, transcendental, e se eles se julgavam a si próprios como superiores aos antigos, apenas o faziam na medida em que acreditavam que tinham alcançado um melhor e mais racional entendimento das suas leis. Mas desde os finais do século XVIII e início do XIX ou, mais especificamente, desde que a Modernidade estética sob a forma de 'Romantismo' definiu primeiramente a sua legitimidade histórica como uma reacção contra as suposições básicas do classicismo, o conceito de beleza universalmente inteligível e atemporal tem passado por um processo de erosão constante. 2
Data do século XVIII o início dessa reavaliação da noção de Belo - que passa de unívoco para plural. A diversidade de ideais estéticos nasceu do reconhecimento das diferenças culturais de cada povo e da valorização da criação individual. Assim, este conceito opunha-se ao ponto de vista anteriormente defendido, segundo o qual o ideal clássico seria válido para todos os indivíduos de todos os lugares e todas as épocas. Para Jauss,
A história do termo 'perfeição' poderia tornar claro esse processo de formação de um novo significado histórico: 'perfeição' vai deixando ao longo do séc. XVIII de estar atrelado à idéia de um Belo normativo com validade universal e eterna; depois associa-se ao Belo relativo e, em 1774, é utilizado por Herder já enfaticamente para designar aquilo que é único no tempo e no espaço [...]. 3
Em Baudelaire encontramos uma definição de Belo que caracteriza a obra de arte a partir de dois aspectos: o eterno e o transitório. O Belo, em Baudelaire, reúne as duas facetas, cujo emparelhamento permite que a arte se desvencilhe de um possível caráter estático, e do processo imitativo, sem esgotar-se no meramente banal: de um lado, "um elemento eterno, invariável"; de outro, "um elemento relativo, circunstancial" 4.
Com o advento do Romantismo, a modernidade deixou de ocupar-se basicamente do passado para encontrar em si mesma, no momento fugaz do presente, o seu ponto referencial 5. O passado perdeu o seu caráter de modelo inquestionável, pois a época do Romantismo presenciou mudanças radicais na ordem estabelecida, vigente por séculos, e que parecia até então inabalável. A Revolução Francesa, o grande marco histórico do fim do século XVIII, não só trouxe ideais inéditos quanto à organização social e à própria concepção de ser humano, mas também derrubou o valor absoluto antes desfrutado pela tradição.
A revolução nos campos social e político, representada pela ascensão da burguesia, deu impulso ao movimento romântico que, colocando-se em defesa da criatividade individual e espontânea, afrontou abertamente os ditames e modelos preestabelecidos. Com isto surgiu também um novo conceito de modernidade, passando o moderno a ser sinônimo de novo , inédito , inovador . Assim, moderno começou a ser definido não mais em relação ao que o antecedeu, mas sim em relação ao seu próprio tempo, e a valorização da originalidade e da criatividade do indivíduo tornaram-se traços marcantes da modernidade. A concepção que encara a atividade artística como imitação é substituída na modernidade por outra que só aceita a criação. Enquanto o homem antigo procurava ser igual ao seu modelo, o homem moderno busca ser diferente .
Baudelaire foi sensível a este fato e sua definição de modernidade está firmemente ancorada nos elementos históricos: "A modernidade é o transitório, o fugitivo, o contingente, a metade da arte, cuja outra parte é o eterno e imutável" 6.
A obra de arte bela - na qual se aliam o eterno e o transitório - caracteriza-se por ser vibrante e original. Esta arte não surge, segundo Baudelaire, do esforço em copiar ou imitar ideais passados, tampouco é gerada pela mera repetição, isenta de criatividade. É fundamental ao artista a percepção de seu próprio momento histórico, e a sua obra só será moderna quando aliar ao eterno o transitório, o momentâneo, procurando dar ao passageiro a qualidade de eterno, imprimindo na obra a vitalidade do efêmero.
Mas o novo, da mesma forma que constitui a modernidade, também abala os alicerces de sua estrutura. A rapidez com que o novo se transforma no antigo configura a modernidade como aporia e gera uma percepção problemática do tempo, visto que o novo e o antigo, o hoje e o ontem quase se mesclam, havendo uma divisão cada vez mais tênue entre ambos.
A modernidade é uma tradição polêmica e que desaloja a tradição imperante, qualquer que seja esta; porém desaloja-a para, um instante após, ceder lugar a outra tradição, que, por sua vez, é outra manifestação momentânea da atualidade. 7
Tendo consciência de sua tradição, o homem moderno pode reavaliá-la, questioná-la, refletir sobre ela. É esta consciência que determina, segundo Octavio Paz, o traço mais importante da modernidade - a perspectiva crítica . Essa perspectiva crítica enseja uma constante reavaliação de todos os valores culturais, voltando, inclusive, a reflexão sobre si própria. O autor moderno não critica apenas o preexistente, o antigo, mas também a sua própria crítica, a sua própria reflexão.
A tradição moderna advém da consciência de pertencer a uma tradição e de um subseqüente questionamento e possível negação desta tradição 8. Mas o antigo pode ser moderno, desde que negue a tradição e consiga veicular algo novo. neste sentido, a modernidade engloba também uma tendência "arcaizante" 9. Tome-se como exemplo o trabalho de Herder que, coletando antigas canções populares e mostrando-as de maneira nova e diferente da tradição popular, dotou-as de um significado inédito até então. Estando consciente da tradição, o homem moderno dela se apodera e assim vê-se na posição de poder revitalizá-la.
A influência do Romantismo nos movimentos que se seguiram é inquestionável, demarcando, assim, o início de um período que assinala as mesmas insígnias de modernidade.
Notadamente, os ideais românticos ecoaram nas diversas vanguardas do séc. XX. Embora estas tenham se empenhado em negar o Romantismo, sua essência era basicamente romântica, visto que elas também foram regidas pela atitude de ruptura para com o passado e tudo que se configura como antigo. No entanto, Paz 10 observa que esta negação de tudo o que é tradicional - uma atitude instaurada pelo Romantismo - foi exaurida pelo movimento de vanguarda. Com o esgotamento do potencial crítico - o qual deveria ser gerado pela capacidade de reflexão e pelo ímpeto criativo e original, mas que ganhou um caráter normativo - delineia-se uma época na qual a modernidade contraria seu próprio princípio de mudança, abrindo caminho para a pós-modernidade.
[...] a arte moderna começa a perder seus poderes de negação. Há anos suas negações são repetições rituais: a rebeldia convertida em procedimento, a crítica em retórica, a transgressão em cerimônia. A negação deixou de ser criadora. Não quero dizer que vivemos o fim da arte: vivemos o fim da idéia de arte moderna . 11
O grande distanciamento entre arte e vida, o tratamento do objeto artístico como mercadoria, o enorme peso exercido pela cultura de massa, a alienação e massificação promovida pelos meios de comunicação constituem os traços gerais do quadro cultural de nossos dias. Neste sentido, há um enorme filão da literatura - sem falar do cinema - empenhado em satisfazer a procura de entretenimento.
O séc. XX viveu o esmorecimento da confiança no futuro e no avanço do progresso, predominantes até então. O estado de desilusão do qual emergiu a pós-modernidade provém da falta de alternativas para enfrentar o futuro, uma vez que a Revolução Russa e as várias tentativas socialistas falharam como opção de mudança, o avanço desenfreado e irracional da indústria desembocou no ataque maciço à natureza e ao próprio homem, a ciência revelou-se um método apenas paliativo para enfrentar alguns problemas, mas incapaz, na verdade, de trazer soluções concretas.
Do ponto de vista do pessimismo frente à ciência e ao progresso, a denúncia que se estampa em filmes como Blade Runner (Ridley Scott - 1982) e O exterminador do futuro (James Cameron - 1984) na segunda metade do século XX, já se encontrava estampada em páginas românticas como O homem da areia (E. T. A. Hoffmann - 1816) e Frankenstein ou O Prometeu moderno (Mary Shelley - 1818). O que se vê é que a similaridade entre os referenciais dos dois períodos explicam porque a literatura romântica tem características que a localizam no horizonte de expectativas do leitor atual.
HABERMAS, Jürgen. Modernity versus Postmodernity. New German Critique , v. 22, 1981, p. 6.
CALINESCU, Matei . As cinco faces da modernidade - Modernismo, Vanguarda, Decadência, Kitsch, Pós-Modernismo. Lisboa: Vega, 1999. p. 17.
JAUSS, Hans Robert. Literarische Tradition und gegenwärtiges Bewusstsein der Modernität. In: ______. Literaturgeschichte als Provokation . 5. Aufl. Frankfurt a.M.: Suhrkamp, 1974, p. 36: nota de rodapé nº 71.
BAUDELAIRE, Charles. Le peintre de la vie moderne. In: ______. Ouvres complètes. Paris: Editions du Seuil, 1968. p. 550.
BAUDELAIRE, Charles. Le peintre de la vie moderne. In: ______. Ouvres complètes. Paris: Editions du Seuil, 1968. p. 550.
BAUDELAIRE, Charles. Le peintre de la vie moderne. In: ______. Ouvres complètes. Paris: Editions du Seuil, 1968. p. 553.
PAZ, Octavio. Os filhos do barro : Do romantismo à vanguarda. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 18.
PAZ, Octavio. Os filhos do barro : Do romantismo à vanguarda. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 25.
PAZ, Octavio. Os filhos do barro : Do romantismo à vanguarda. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 20.
PAZ, Octavio. Os filhos do barro : Do romantismo à vanguarda. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 133-134.
PAZ, Octavio. Os filhos do barro : Do romantismo à vanguarda. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 189-190.