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Rousseau e a Forma Moderna da Autobiografia
José Oscar de Almeida Marques (Universidade Estadual de Campinas)
Esta comunicação se insere em um projeto mais amplo que visa explorar as relações entre o escritor e músico genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e o escritor e músico alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1776-1822).
Rousseau exerceu sabidamente uma profunda influência na constituição do ideário estético do Romantismo 1, e, nesse sentido, não haveria por que considerar Hoffmann um receptor mais privilegiado que qualquer outro autor romântico. O que me motiva a investigar mais particularmente esses dois autores é minha progressiva percepção, ou constatação, de que há entre eles ligações mais profundas do que essa influência geral, desde o nível mais visível dos paralelos biográficos 2 até níveis mais complexos que pretendo esboçar neste trabalho.
Já tratei anteriormente da influência de Rousseau em relação a um conto pouco conhecido de Hoffmann, "A criança estrangeira" ("Das fremde Kind") 3, em um trabalho apresentado em 2002, em um colóquio aqui mesmo em Porto Alegre 4. Meu objetivo final, contudo, é levar essa análise à obra prima de Hoffmann, seu romance inacabado Vida e opiniões do gato Murr ( Lebensansichten des Katers Murr. 5) De fato, para um leitor de Rousseau, é fascinante a quantidade de passagens e temas nesse romance que podem ser associados de maneira mais ou menos explícita às Confissões 6, mas a dificuldade que se apresenta ao investigador é como dar conta metodicamente dessas relações sem cair na mera listagem comparativa ingênua e superficial.
A solução, ou uma possível solução que venho explorando, é adotar, como um passo inicial, um enfoque que permita reduzir as duas obras a uma perspectiva comum, considerando-as ambas como exemplares de um gênero literário relativamente circunscrito, que é a autobiografia romântica 7. Referindo ambas a esse gênero, seus paralelos e suas diferenças podem ser mais precisamente identificados e localizados, ao serem compreendidas como desdobramentos de tendências internas ao próprio gênero, e uma linha de desenvolvimento se descortina - do mesmo modo como a referência de dois organismos a uma linhagem comum permite dirigir a comparação para traços à primeira vista desconexos mas que a análise revela serem aparentados.
Evidentemente há muito de arriscado nessa tentativa de redução das duas obras, as Confissões e o Gato Murr a um gênero comum. As primeiras são supostamente um relato verídico, e visam transmitir um conhecimento filosófico sobre a natureza humana em geral; o segundo conta-se inequivocamente entre as produções puramente literárias e ficcionais. Mas essa distância pode não ser tão crítica: só muito recentemente as Confissões foram reconhecidas como obra de valor filosófico 8, e, esse reconhecimento necessitou o empréstimo e a aplicação de um instrumental conceitual proveniente dos estudos literários 9. Em contrapartida, influência literária dessa obra de Rousseau foi enorme e imediata, tendo criado, sozinha, o próprio gênero da autobiografia (sendo que nem esta palavra existia antes). Do mesmo modo, como veremos à frente, os elementos autobiográficos no romance de Hoffmann são importantes, o que, em seu conjunto, aproxima as duas obras.
Mas o que seria, propriamente, o gênero autobiográfico? Recordemos a influente tentativa de demarcação proposta por Philippe Lejeune: "Narrativa ( récit ) retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência enfatizando sua vida individual, em particular, a história de sua personalidade." 10
Essa definição põe em jogo elementos de 4 categorias:
1) Quanto à forma da linguagem: (a) uma narrativa; e (b) em prosa.
2) Quanto a seu assunto: uma vida individual, a história de uma personalidade.
3) Quanto à situação do autor: identidade do autor (cujo nome remete a uma pessoa real) e do narrador.
4) Quanto à posição do narrador: (a) identidade do narrador e do personagem principal; (b) perspectiva retrospectiva da narrativa.
Note-se que não se menciona aqui a "verdade", aferível, em todo caso, apenas se resolvermos previamente a questão da referencialidade do relato autobiográfico, com seus imensos problemas associados. 11
Contra essas tentativas de definição, Paul De Man levantou objeções (curiosamente reminiscentes das críticas de Aristóteles no livro IX da Poética ), ao recusar a monumentalidade ou dignidade de um gênero literário a uma forma que parece pouco respeitável e auto-indulgente, e cuja tentativa de definição "naufraga em questões que são ao mesmo tempo despropositadas e irrespondíveis" 12. Entre as questões irrespondíveis está a exatamente a delimitação da fronteira entre autobiografia e ficção, entre o trabalho dos autobiógrafos e dos romancistas.
Borrar essas fronteiras pode nos ajudar a tornar mais plausível a consideração do caráter "autobiográfico" do romance de Hoffmann. Estou consciente de que estou abusando um tanto da flexibilidade dos conceitos, mas a proposta não me parece, afinal, tão despropositada.
Lembremos as linhas gerais do Gato Murr : há nele duas narrativas entremeadas: a primeira, declaradamente autobiográfica, na qual Murr, o gato letrado, relatou suas experiências de vida, entremeando acidentalmente seu escrito com folhas arrancadas de uma outra obra, identificada como uma biografia do Kapellmeister Johannes Kreisler. Enviado para a publicação, a autobiografia do gato é impressa juntamente com a biografia de Kreisler, por um engano do editor, produzindo como resultado um livro em que blocos de um e outro texto se sucedem inesperadamente produzindo os mais notáveis efeitos. Kreisler, como se sabe, é ele próprio um alter ego de Hoffmann, que usou o personagem em muitos outros contos, e são as passagens "Kreislerianas" que dão o tom propriamente autobiográfico ao romance de Hoffmann
Mas se o gênero autobiográfico é de circunscrição difícil ou impossível, de que nos adianta insistir nessa nomenclatura? Aqui o auxílio me veio do livro de Steltzig, The Romantic Subject in Autobiography: Rousseau and Goethe , que, reconhecendo as dificuldades gerais da delimitação, propõe que ao menos um subsetor do gênero pode ser caracterizado de maneira frutífera, que ele denomina a "autobiografia romântica", caracterizada como:
a type of confessional narrative of the self in the later eighteenth and the early nineteenth centuries that, as a retrospective account and interpretation of how the writer's identity and personality were formed, artfully merges reality and imagination, the historiographic and the poetic poles of narrative-or what Goethe calls the 'poetry' and the 'truth' of a life 13.
Para Steltzig, assim, a quintessência da autobiografia romântica são as distintas formas imaginativas que autores como Rousseau, Goethe e Wordsworth (que ele arrola entre os fundadores do gênero) deram à narrativa de suas vidas.
Não posso me estender mais, dado os limites desta comunicação, sobre os diversos aspectos identificados por Steltzig em seu estudo, aspectos que fornecem excelentes pistas para minha própria investigação, e concluo apenas com duas observações sobre sua importância para a tarefa que eu pretendo realizar.
Em primeiro lugar, o livro de Steltzig proporciona uma mediação indispensável, à qual eu não havia dado a necessária atenção, que é a introdução de Goethe como um elo entre Rousseau e Hoffmann. Mas é preciso qualificar essa mediação. Certamente Hoffmann leu Goethe até mais do que Rousseau, e seus ecos são extremamente perceptíveis no Gato Murr , em que as várias etapas da formação do gato e suas vicissitudes e relacionamentos atuam como impagável paródia do romance de formação representado pelo Wilhelm Meister 14 e suas elevadas pretensões. Não é porém o romance de Goethe que vai me interessar principalmente, mas antes sua própria autobiografia, Poesia e verdade ( Dichtung und Wahrheit ) .
Em segundo lugar, deixando de lado os ecos explícitos de Goethe em Hoffmann, o que interessa para esta pesquisa é a evolução de atitude que a consideração da autobiografia de Goethe permite intermediar e esclarecer. Contrastando Rousseau e Goethe, Steltzig sumariza:
whereas Rousseau's psychologizing, subjective, egotistical, and at times rhetorically defensive confessional autobiography polarizes or juxtaposes the self against the world, Goethe's historicizing, objectivizing, world-embracing, and largely non-confessional and nondefensive life narrative unfolds his development as a progressive imbrication in the world in all its historical richness and circumstantiality 15
Assim, para Steltzig, em Rousseau a atitude é defensiva, principalmente apologética, e o autor vê com desconfiança a época e os homens com quem convive, como se seu núcleo interno rejeitasse e hostilizasse a época e a história que a conduz. Em Goethe, ao contrário, atitude é não-defensiva, afirmativa, capaz de abraçar a história e o mundo, não como um agente interno que se impusesse a ele, mas como algo com quem o agente se identifica e é capaz de conceber como resultado de sua própria atuação.
Em ambos, porém, opera um eu centrado, capaz de dar unidade a uma seqüência de experiências, de estabelecer uma ordem, e que se impõe a tarefa de colocar sua vida em uma narrativa compreensível, julgando-se capaz de estabelecer uma ordem a suas memórias e sentimentos. A escrita autobiográfica é, em ambos, a recuperação de uma unidade prévia e subjacente à sua vida e individualidade.
Mas é claro que dar forma a uma vida por meio da narrativa autobiográfica exige inevitavelmente a intervenção da imaginação, modificando e suplementando a experiência vivida para impor um sentido que a série bruta de eventos e experiências não consegue por si só transmitir. E a atitude de ambos com relação a essa inevitabilidade é também bastante reveladora: para Rousseau, a intervenção imaginativa tem algo de censurável, de que ele tem de se desculpar interminavelmente. Daí sua artificiosa distinção entre mentira e ficção, elaborada nos Devaneios do caminhante solitário . Goethe, por sua vez, está muito mais à vontade com a intervenção imaginativa, e considera, ao contrário, a autobiografia como principalmente um instrumento para liberar sua escrita criativa, como se a ênfase fosse em Poesia e (só então) verdade ( Dichtung und (nur dann) Wahrheit .)
Sem estender-me mais nessas comparações, aponto por fim para a lição que daí extraio - encaixar o Gato Murr de Hoffmann no prolongamento dessa continuidade para interpretar, principalmente, sua atitude frente à autobiografia. A ficção aqui se liberta inteiramente, e põe em questão a própria unidade do self que se encastelava nas atitudes dos dois autores anteriores. O caráter fragmentado do texto de Hoffmann é a contraparte formal da fragmentação do eu do autor, ao qual respondem as formas discursivas descentradas, e interrompidas da narrativa textual. A inquietação que impregna a relação do autor com seu personagem torna-se ainda mais pungente pelo próprio olhar distanciado e irônico que ele lança sobre a loucura de seu alter ego . Rousseau e Goethe viam-se ainda, cada qual a seu modo, como sábios e mestres da humanidade; Hoffmann, porém, não julga ter mais nada a ensinar ao mundo, embora tampouco a aprender. Se os dois primeiros inauguraram a forma moderna do gênero autobiográfico, é plausível dizer que, no Gato Murr , pela vasta assimilação de elementos das produções intermediárias, pela mescla sutil e paradoxal de paródia e autenticidade, e pela original forma artística de collage e as conseqüentes rupturas de linearidade e consistência, Hoffmann começa a abrir o caminho para a linguagem da subjetividade cindida que dominará o século XX, penetrando até o pós modernismo.
P. ex.: o culto de uma Natureza pura e originária, a rejeição do artificialismo e das convenções, a primazia da experiência subjetiva, o valor da expressão autêntica e espontânea, a busca das raízes da vida pessoal e social, e o desconforto diante do progresso técnico alienante e desumanizador.
P. ex.: suas infâncias em famílias desfeitas, seus amores juvenis por mulheres mais velhas, suas duradouras relações conjugais com mulheres de pouco espírito, suas frustradas paixões tardias por mulheres mais jovens e socialmente inacessíveis, e, finalmente, a intensa dedicação de ambos a carreiras musicais nas quais depositavam grandes esperanças e que por fim abandonaram em favor de carreiras literárias extraordinariamente bem-sucedidas.
HOFFMANN, E. T. A. Das fremde Kind. In: Die Serapions Brüder . Munique: Winkler, 1976. p. 472-511.
"Das fremde Kind". Rousseau no álbum de família de E. T. A. Hoffmann. Runa: Revista Portuguesa de Estudos Germanísticos . Porto [no prelo].
HOFFMANN, E. T. A. Lebens-Ansichten des Katers Murr. Munique: Winkler Verlag, 1977.
Hoffmann afirma em seu diário, em 1804, estar lendo as Confissões de Rousseau "vielleicht zum dreißigsten Mal" ("talvez pela trigésima vez").
Segundo a definição de STELZIG, Eugene L. The Romantic Subject in Autobiography: Rousseau and Goethe . Charlottesville : Virginia University Press, 2000
Cf. KELLY, Christopher. Rousseau's Exemplary Life. The "Confessions" as Political Philosophy . Ithaca NY : Cornell University Press, 1987.
Cf. DERRIDA, Jacques. De la grammatologie. Paris: Les Editions de Minuit, 1967 e De MAN, Paul. "The Rhetoric of Blindness: Jacques Derrida's Reading of Rousseau". In: Blindness and Insight: Essays in the Rhetoric of Contemporary Criticism . 2a. ed. revista, Minneapolis : University of Minnesota Press , 1983. Discuto mais detalhadamente estes tópicos em minhas comunicações "Autobiografia e Referencialidade: O caso das Confissões de J. J. Rousseau" (APLC, Coimbra 2004) e "Rousseau e a possibilidade de uma autobiografia filosófica" (ANPOF, Salvador, 2004).
LEJEUNE, Philippe. Le Pacte autobiographique . Paris: Ed. du Seuil, 1975, p. 14.
MAY, Georges. L'Autobiographie. Paris: PUF, 1979; e também DERRIDA, op. cit.
De MAN, Paul. "Autobiography as De-Facement". In: The Rhetoric of Romanticism . Nova York : Columbia University Press, 1989. p. 68.
Conforme o capítulo do Kater Murr intitulado "Auch ich war in Arkadien".