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Kunstperiode (período da arte) - 1795 a 1800: reflexão estética seminal da modernidade na Alemanha
Izabela Maria Furtado Kestler (UFRJ)

Introdução

 

Procederei aqui a uma curta apresentação do panorama histórico dos dois grupos -o clássico em torno de Goethe e Schiller e o primeiro grupo romântico em Jena - que constituem o assim chamado Período da Arte. Proponho aqui a denominação projeto clássico em substituição à denominação ainda vigente de "classicismo alemão", a qual tem sido questionada radicalmente nas últimas décadas. No contexto dos estudos germanísticos, tem-se cristalizado nas últimas décadas a idéia de que a denominação Classicismo alemão seria um contra-senso, pois para Goethe e Schiller 'clássico' é exatamente o contrário de 'alemão' e 'nacional'. Além disso, muitos autores têm apontado para o fato, de que o conceito de uma época literária "Classicismo alemão" foi cunhado pela historiografia literária alemã entre 1835 e 1883 como apogeu espiritual que prefiguraria simbolicamente a unificação alemã. Ou seja, o conceito de "Classicismo alemão" estaria inserido nas lutas nacionalistas. A fundamentação de uma época literária heróica-nacional em torno de Schiller e Goethe no século XIX colocou no limbo vários autores que aparentemente não caberiam na formação deste cânone clássico. A criação deste cânone implicou na homogeneização e sintetização de idéias diversas e programas estéticos até contraditórios com vistas a um conceito de totalização em torno de Goethe e Schiller. Tal processo levou também aos poucos ao alijamento e afastamento de autores e obras "não-clássicas" do cânone do classicismo ao longo do século XIX, como por exemplo nos casos de Wieland, Klopstock e Lessing de um lado, e Kleist, Hölderlin e Jean-Paul de outro. A separação de um classicismo alemão nacional da Aufklärung (Iluminismo) européia foi o passo inicial para a institucionalização de um modelo de periodização literária, que colocou o Classicismo como o apogeu literário com funções messiânicas de antecipação do objetivo político da unificação nacional.

Neste contexto é fundamental assinalar que após a derrota dos exércitos prussiano, austríaco e inglês na primeira guerra de coalizão contra o governo constitucional francês em 1792, foi assinado em Basel em 1795 o tratado de paz em separado entre a Prússia e a França, que garantiu dez anos de paz nos territórios alemães, inclusive no Grão-Ducado de Weimar, pelo menos até 1806. Ou seja, esta pausa entre as guerras de coalizão contra a França foi fundamental para o surgimento e florescimento tanto do assim chamado Classicismo de Weimar quanto do primeiro núcleo romântico em Jena, cidade distante 10 km. de Weimar.

Mencionarei aqui apenas as convergências mais relevantes entre Goethe e Schiller.

Ambos rejeitam e abominam a Revolução Francesa: Schiller a partir dos acontecimentos que levam à prisão e à execução do rei Luís XVI em 21.12.1793, e Goethe praticamente desde o início da Revolução em 1789. A par desta convergência política na rejeição à Revolução Francesa, ambos compartilhavam da convicção da exemplariedade, da perfeição existente na Antigüidade grega clássica. A produção poética e artística da Grécia é considerada o ideal de excelência, assim como as cidades-Estados gregas constituiriam o ideal de sociabilidade perfeita, o lugar e a época onde não teria havido alienação, onde o ser humano pôde ascender à totalidade. Denota-se aqui a fundamental importância das obras de Winckelmann - Gedanken über die Nachahmung griechischer Werke in der Malerei und Bildhauerkunst de 1755 e Geschichte der Kunst des Altertums de 1764 . Era convicção generalizada, também entre os primeiros românticos, que a Antigüidade clássica teria sido caracterizada pela unidade e totalidade, pela síntese entre beleza exterior e interior e pela harmonia entre corpo e espírito. Não cabe aqui apontar a cristalização destas idéias em Goethe e Schiller até 1794, ano em que se inicia a colaboração literária entre eles. Importante no entanto é assinalar que este ideal de perfeição, consubstanciado na Grécia antiga, estava em franca e aberta contradição com a realidade política, social, cultural e econômica da época histórica de Goethe e Schiller. Mais ainda: é este ideal de perfeição e de harmonia, inexistente no mundo real destes autores, que as respectivas e conjuntas produções literárias destes autores pretenderam prefigurar. O projeto clássico se funda então na tentativa de antecipação e prefiguração na literatura da harmonia supostamente existente na literatura grega antiga. E neste sentido o projeto clássico tinha que insistir necessariamente no alijamento de qualquer idéia de imitação da realidade e consequentemente na autonomia estética. Fundamental também é lembrar que com este projeto clássico, Schiller e Goethe se distanciaram enormemente de seus contemporâneos e sobretudo do público.

O núcleo romântico de Jena, por outro lado, só surgiu quando Schiller em 1796 convidou August Wilhelm Schlegel para colaborar em sua revista Horen . Aceito o convite, foram para Jena August Wilhem e seu irmão Friedrich, os quais em vez de colaborarem com Schiller entraram no círculo do filósofo Johann Gottlieb Fichte, ao qual se juntaram também Novalis (Friedrich Hardenberg), e os filósofos Friedrich Schleiermacher e Friedrich Schelling. Entre 1801 e 1802 ocorre a dispersão dos componentes deste grupo inicial. Não cabe aqui traçar todos os pormenores que levaram a esta dispersão. No caso de Friedrich Schlegel, verifica-se que já a partir de 1800 este tende a adotar a idéia de uma renovação religiosa, centrada no catolicismo. Ou seja, ocorre aqui o que vários autores chamam de virada para o espírito do misticismo. São desta época os textos que documentam o distanciamento do paradigma clássico, da forma fechada, objetiva. A virada religiosa, as conversões para o catolicismo, o culto da Idade Média assim como a fundamentação patriótica no contexto das lutas contra as invasões e ocupações do exército napoleônico nos territórios alemães marcam e aprofundam o distanciamento entre Goethe e Schiller de um lado e esses primeiros românticos de outro.

 

O conceito de Kunstperiode

 

Utilizo aqui o conceito Kunstperiode (período da arte) para denominar a produção estético-literária do primeiro grupo romântico (Romantismo de Jena) e dos assim chamados clássicos Goethe e Schiller. Este conceito foi cunhado por Friedrich Schlegel numa carta de 27 de fevereiro de 1794 a seu irmão August Wilhelm:

"O problema de nossa poesia me parece ser a fusão do essencialmente moderno com o essencialmente antigo; e se eu acrescentar que Goethe, o primeiro de nosso totalmente novo período da arte, já deu os primeiro passos no sentido de atingir esse objetivo, você irá compreender bem meu ponto de vista." 1

Várias décadas mais tarde, Heine se apropriará deste conceito para realizar o desmonte das tendências retrógradas, conservadoras, monarquistas e catolicizantes do romantismo tardio, que ele também associa ao classicismo de Goethe, na obra Die romantische Schule (A escola romântica), escrita em Paris em 1833. A Escola Romântica deve ser vista também como uma refutação ao livro de Madame de Staël, De l'Allemagne , publicado em 1808, no qual esta, sob influência de seu mentor August Wilhelm Schlegel, traça um painel da literatura da Alemanha sob o signo do idealismo, enfocando sobretudo o romantismo e caracterizando os alemães como um povo de poetas e pensadores. Para Heine, o período da arte goetheano, iniciado no berço de Goethe, ou seja, por volta de 1750, teria chegado ao fim com sua morte em 1832. A obra de Heine é também ao mesmo tempo um tratado programático em prol de um novo período literário, no qual o próprio Heine se encaixa, período este voltado para a instrumentalização da literatura a serviço da revolução social. O que Heine condena no período da arte é exatamente a construção de um mundo independente, sem nenhum vínculo com a realidade material, assim como a revalorização do misticismo e da religiosidade da Idade Média e as tendências reacionárias presentes no romantismo, surgidas no decorrer das guerras contra o domínio napoleônico. Não cabe aqui traçar um quadro completo desta obra. Heine, por outro lado, apesar de condenar as idéias aristocráticas de Goethe, sua vinculação com o Antigo Regime, também refuta aqueles românticos ligados ao catolicismo que o consideravam um autor pagão.

Aqui me aproprio do conceito de Kunstperiode (período da arte), caracterizando-o mais no sentido que lhe deu Friedrich Schlegel, para expor as convergências estéticas entre os clássicos e os primeiros românticos.

 

Convergências

Tornou-se praticamente consenso nos últimos anos no bojo dos estudos germanísticos na Alemanha a aceitação de uma convergência intrínseca entre as reflexões estéticas dos autores do Classicismo de Weimar (Goethe e Schiller) e aquelas dos autores da primeira fase do Romantismo, os irmãos Schlegel e respectivas esposas, Novalis e os filósofos Fichte, Schelling e Schleiermacher, denominada de romantismo de Jena em alusão à cidade na qual estes se reuniam. Apresentarei aqui sucintamente algumas das convergências estéticas destes anos iniciais. A primeira surge por volta de 1795, em dois escritos fundamentais: Über das Studium der griechischen Poesie (Sobre o estudo da poesia grega) de Friedrich Schlegel, escrito em 1795 e publicado em 1797, e Über naive und sentimentalische Dichtung (Poesia ingênua e sentimental) de Schiller, publicado entre o final de 1795 e o início de 1796 na revista Horen . Ambos partem em seus textos de pressupostos análogos e desenvolvem reflexões autônomas do ponto de vista estético. Trata-se aqui de posicionamentos no contexto da Querelle des anciens et des modernes . Schlegel realiza em seu texto uma crítica à poesia contemporânea do ponto de vista de um moderno. Além disso, ele considerava a Antigüidade como o modelo eterno do belo e propunha uma relação dialética com esta que propiciaria o surgimento da modernidade genuína. Ou seja, em vez de se distanciar, de se desvencilhar do modelo da Antigüidade, a modernidade deveria travar uma disputa com a Antigüidade para alcançar o nível de excelência desta. Há também no texto supracitado de Schlegel uma concepção marcadamente histórica, pois segundo ele a história da literatura moderna se desenrolaria em três ciclos, sendo que esta estaria no momento ou na transição da segunda fase para a terceira ou no início desta fase. O primeiro ciclo seria o dos modernos mais antigos, introduzido por Dante. Shakespeare representaria o apogeu e o fim do segundo ciclo, ao qual teriam se seguido dois séculos de decadência e ruína. O reinício desta história cíclica e de recuperação situa Schlegel a partir de meados do século XVIII. Goethe seria então dentro da visão schlegeliana a aurora na história da modernidade. O renascimento da poesia nesta terceira fase se apoiaria conforme Schlegel na reconstituição do espírito objetivo da Antigüidade na época moderna. O próprio texto, escrito com o intuito de municiar e fundamentar este renascimento da poesia, pleiteia o estudo aprofundado da Antigüidade clássica como forma de se apressar a revolução estética. Em seu Estudo da poesia grega encontra-se um firme repúdio ao cenário estético de sua época e às escolas estéticas então dominantes: o classicismo no espírito aristotélico; a "anarquia estética" dos cultores do gênio que vindos da Renascença têm seu apogeu no Sturm und Drang ; e a idéia cultivada por círculos iluministas de que a arte não tem uma existência autônoma. É também contra estas escolas de sua época que Schlegel constrói o arcabouço teórico da revolução estética. Dentro deste contexto encontra-se sua tese da infinita perfectibilidade da arte, exposta no Estudo da seguinte forma: "A arte é infinitamente perfectível e um máximo absoluto não é possível em seu desenvolvimento eterno, é possível no entanto em certas condições um máximo relativo , um quase máximo fixo insuperável." 2 Esta idéia de eterno progresso, uma das mais fundamentais para o entendimento do romantismo, encontra-se mais tarde num dos mais conhecidos fragmentos da revista Athenäum. Aqui Schlegel assinala as características da poesia universal progressiva e enfatiza a autonomia da arte:

"A poesia romântica é uma poesia universal progressiva. Sua destinação não é apenas reunificar todos os gêneros separados da poesia e pôr a poesia em contato com a filosofia e a retórica. (...) O gênero poético romântico ainda está em devir; sua verdadeira essência é mesmo a de que só pode vir a ser, jamais ser de maneira perfeita e acabada. (...) Só ele é infinito, assim como só ele é livre, e reconhece, como sua primeira lei, que o arbítrio do poeta não suporta nenhuma lei sobre si." 3

Em Poesia ingênua e sentimental , Schiller demarca o espaço da modernidade literária em contraposição ao ideal da antigüidade através dos pólos ingênuo/sentimental;natureza/cultura; antigo/moderno. A poesia ingênua, presente na unicidade do poeta grego com a natureza, dá lugar nos modernos à reflexão, ao sentimento da natureza. A partir da constatação de que entre os gregos a natureza não degenerou tanto ao ponto de que abandonassem a natureza, Schiller escreve que eles eram unos consigo mesmos e felizes no sentimento de sua humanidade.

Apesar de apontar a superioridade da poesia ingênua sobre a sentimental, assim como a superioridade dos gregos sobre os modernos, Schiller dá aos sentimentais uma vantagem sobre os ingênuos, pois aqueles são capazes de dar ao impulso um objeto maior do que aquele que foi produzido pelos ingênuos. Este objeto maior é o que Schiller chama de completude no Ideal, porque os ingênuos "são o que nós fomos; são o que devemos vir a ser de novo. Fomos natureza como eles, e nossa cultura deve nos reconduzir à natureza pela caminho da razão e da liberdade." 4 A maior parte dos autores aponta para a importância fundamental desta obra de Schiller para o surgimento das teorias românticas.

Torna-se claro portanto que as idéias expostas acima estão dentro do contexto da busca de autonomia estética e também de demarcação e delimitação do território próprio da poesia em relação à época histórica. Não só Schiller, mas também Goethe e os primeiros românticos estão em campos diametralmente opostos à literatura de gosto trivial. Essa busca de autonomia se funde no caso de Schiller e Goethe à idéia de uma Bildung estética que emanciparia verdadeiramente o homem, criando o que Schiller chama de Estado estético, em que reinaria o ideal da Igualdade. Tal proposta é exposta por Schiller em sua obra Über die ästhetische Erziehung des Menschen. Ein eine Reihe von Briefen (A educação estética do homem numa série de cartas) de 1795.

Não é por outra razão, que alguns autores denominam estas idéias de revolução estética que pretendia se contrapor à revolução política de 1789 na França. A mesma preocupação move os primeiros românticos, que partindo da premissa de uma idealidade, de uma unidade já alcançada na Antigüidade, buscam atingir este ideal no futuro.

A idéia de fusão de gêneros literários, de fusão do antigo e do moderno, como já mencionado acima na carta de Friedrich Schlegel a seu irmão, é a matriz central de reflexão desta primeira fase do romantismo. A harmonia entre o clássico e o romântico aparece tanto como idéia regulativa para a apreciação crítico-estética como também como o objetivo a ser alcançado no processo de formação histórico-universal. Tal harmonia não ocorreu. Além disso: a maioria dos ensaístas e pesquisadores da historiografia literária alemã do século XIX até pelo menos os anos 70 do século XX separa completamente o classicismo de Weimar do romantismo. Só nas últimas décadas, como já foi mencionado acima, é que têm surgido obras que questionam e até põem abaixo este paradigma da história literária.

Concluindo, é lícito, portanto, denominar esta convergência clássico-romântica de Kunstperiode (período da arte), a qual é caracterizada por José Guilherme Merquior, seguindo as idéias apresentadas por Hermann August Korff nos anos 50 em seu momumental Geist der Goethezeit. Versuch einer ideellen Entwicklung der klassisch-romantischer Literaturgeschichte , como paidéia estética, pois "tanto o humanismo 'pedagógico' de Goethe, Schiller e Humboldt quanto a religiosidade poética de Novalis ou Coleridge atribuem às letras a dignidade de uma nova paidéia". 5

A autonomia estética como direito inalienável da arte e o paradigma da Antigüidade clássica como modelo de idealidade para os clássicos ou como futuro a ser alcançado através da infinita perfectibilidade da arte para os românticos são os fundamentos desta Kunstperiode (período da arte).

 

 

Citada segundo: Pikulik, Lothar: Frühromantik. Epoche-Werke-Wirkung. C.H. Beck, Munique, 1992. 327 p.; p. 149.

Schlegel,Friedrich: Über das Studium der griechischen Poesie - 1795-1797 [Kritische Schriften und Fragmente - Studienausgabe Vol. 1], Org. por Ernst Behler & Hans Eichner. Ferdinand Schöningh, Paderborn, 1988. 62-136, p. 102.

Schlegel, Friedrich: O dialeto dos fragmentos. Trad., apres. e notas de Márcio Suzuki. Iluminuras, São Paulo, 1997. 253 p.; p. 64-65.

Schiller, Friedrich: Poesia ingênua e sentimental. Trad., apres. e notas de Márcio Suzuki. Iluminuras, São Paulo, 1991. 150 p.; p. 44.

Merquior, José Guilherme: O fantasma romântico e outros ensaios. Vozes, Petrópolis, 1980.167 p., p.51.