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A recepção crítica do surrealismo no Brasil
Érika Azevedo (PIBIC-UFPA) e Gunter Pressler (UFPA)
As notícias sobre o surrealismo chegaram no Brasil na década de 1920 por meio de viagens e de leituras, recursos muito antigos otimizados pelo progresso técnico do fim do século XIX e início do século XX (PONGE, 2001, p.47) 1. As revistas que circulavam da capital Paris para o restante do mundo, Mercure de France e Nouvelle Revue française , reforçavam o caráter não local da arte do período.
Na década de 1990, iniciou-se a pesquisa sistemática da Recepção brasileira do movimento que se originou em Paris em 1919. A recepção do surrealismo é diversamente avaliada, como também fora o acolhimento do Suprarrealismo, como era então denominado na Antropofagia modernista (1928).
No levantamento crono-topográfico da recepção, que é parte deste estudo, tem-se como fontes documentais do início da repercussão do surrealismo no Brasil, as pesquisas de Robert PONGE (2001), incluindo uma coletânea por ele organizada e publicada em 1994, da qual fazem parte os artigos de Valentim FACIOLI (1994), Flávio KOTHE (1994) e Sérgio LIMA (1994).
KOTHE (1994) 2, no artigo "Surrealidade sem surrealismo", recusa a existência do surrealismo no Brasil. Para esse autor, o Modernismo brasileiro fora avesso à Modernidade, pois enquanto, em 1922, os surrealistas já haviam começado a distinguir suas linhas com relação ao Dadaísmo, o herói Macunaíma , de Mário de Andrade, criticava a imigração italiana e a industrialização; Amar, verbo intransitivo menosprezava a imigração alemã e o teatro de Oswald de Andrade, com alguns traços de surrealismo, tinha sido um "realismo socialista".
FACIOLI (1994) 3, no artigo "O Brasil e o surrealismo (Aspectos do campo da produção artística erudita no período de 1920 a 1950)", considera muito pequena a influência do movimento surrealista entre os adeptos da Antropofagia , influência que foi recuando, em autores como Murilo Mendes e Rosário Fusco, para formas de uso privado , no contínuo conservador-nacionalista que moldava a produção artística erudita brasileira principalmente após 1937, com o abandono da orientação mais cosmopolita. O autor cita algumas revistas e obras publicadas na década de 1920, que simpatizaram com ou aproximaram-se do Surrealismo, tais como o número 2 da revista Estética (Rio de Janeiro, 1925-1926), editada por Sérgio Buarque de Holanda e Prudente de Moraes, neto, A Revista (Belo Horizonte, 1925-1926), organizada por Drummond, assim como o Manifesto antropófago (1928) e O escaravelho de ouro (1946), de Oswald de Andrade.
LIMA (1994) 4, em "Alguns dados sobre a construção interessada de uma ausência: a do surrealismo no Brasil ou...'A cada um o seu desejo'", refuta a afirmação da não existência de surrealismo no Brasil, afirmando ter sido esta uma estratégia de manutenção do discurso nacionalista e reformista no domínio literário, sob a forma do " salvaguardar as artes locais" (p.186). As implicações deste discurso impediram o reconhecimento da atuação individual ou em parceria, de diversos escritores ligados ao Modernismo, embora segundo este autor, o debate e as inquietações até a década de 1930, não foram aprofundados em termos de reflexão crítica sobre o surrealismo.
Estas idéias têm sua continuidade em texto posterior do autor (2002) 5, "Notas acerca do movimento surrealista no Brasil (da década de 20 aos dias de hoje)", onde é proposta uma leitura da recepção brasileira do surrealismo organizada, em termos de historização, em três períodos distintos.
No primeiro período, o início do interesse visível pelo surrealismo, nas décadas de 1920 a 1930, apresentou-se, até os anos 1950, como uma ressonância difusa, fato para o qual a imprensa e o ecletismo modernista contribuíram. Entre os escritores mencionados estão Rego Monteiro, Raul Bopp, M. Pedrosa, Ismael Nery, Anibal Machado, Murilo Mendes, Ascânio Lopes, Cícero Dias, Fernando Mendes de Almeida, Jamil A. Haddad, Adalgisa Nery, Jorge de Lima, Flávio de Carvalho, Rosário Fusco, Livio Xavier. Entre as revistas, Klaxon , Estética e Revista de Antropofagia (títulos em cursivo) ; além da presença de Benjamin Péret em São Paulo/Rio (1929-1931).
PONGE (2001) 6, no texto "Sobre a chegada e expansão do surrealismo na América Latina", propõe uma periodização iniciada em 1925, data, aliás, coincidente para o começo da presença do surrealismo na Argentina e no Peru. A publicação dos números 2 e 3 de Estética , dá provas de quão rápidas as informações chegavam e, igualmente, de que os debates não tardaram. No número 3 dessa revista, Sérgio Buarque de Holanda lançava, veladamente, idéias surrealistas, "reivindicando 'uma declaração dos direitos do sonho'" (p.54), sem mencionar o termo supra-realista . Em 1925 e 1927, respectivamente, Prudente publicou textos de escrita automática no jornal A Noite e na revista Verde . Anteriormente a essa data, a publicação do ensaio de Aragon, Uma vaga de sonhos , na revista Commerce , teria impulsionado os dois editores a iniciar a escrita de cartas surrealistas, não publicadas em Estéticas .
Nota-se uma pequena redação sobre a importância, em 1927, da viagem de Ismael Nery à Europa, onde entrou em contato com Breton e Chagal e, em 1928, da exposição de Cícero Dias, caracterizada por Graça Aranha de "pintura surrealista".
Em 1928, segundo momento extremamente significativo da percepção brasileira do surrealismo, Oswald de Andrade integra, de alguma forma, o surrealismo na Antropofagia, "Depois do surrealismo, só a antropofagia" ( Revista de Antropofagia , 2ª dentição, ano 1, n.1, apud PONGE, 2001, p. 56). Mas nem todo o grupo acolheu o movimento ou mesmo Benjamin Péret na sua primeira viagem ao Brasil em 1929, sendo-lhes reticente, Mário de Andrade, e absolutamente contrários, Graça Aranha, Ronald de Carvalho e Tristão de Athayde.
A fertilidade da Antropofagia foi identificada por PONGE no caráter desta em afirmar sua "preeminência", concomitantemente a não exclusão da possibilidade de "transformação, preservação e superação", a partir da discussão em curso na Europa sobre os rumos da arte e a partir do surrealismo, por exemplo. Ela poderia ter alcançado uma síntese "antropofagicamente surrealista" (p.57), constituir-se em novo movimento ou não. Entretanto, sabe-se que em 1929 a Antropofagia se dissolveu e 1931 foi o ano de expulsão de Péret do Brasil e de perseguição a Flávio de Carvalho. Dentre os fatores que explicam tal finalização, o autor sublinha o engajamento político-revolucionário do surrealismo e o fato dele se voltar contra toda instituição, inclusive a literária, e a heterogeneidade da Antropofagia .
Nessa discussão crítica recente, uma das leituras recorrentes é o ensaio de Walter Benjamin 7, publicado em 1929 e intitulado "O Surrealismo. O último [ou "o mais recente", conforme a tradução] instantâneo da inteligência européia". O ensaio foi um dos primeiros textos de Benjamin traduzidos no Brasil, para o qual existem três traduções. Cronologicamente, a de Erwin Th. Rosenthal (1975/1983), a de Sérgio Paulo Rouanet (1985/1987), a de Cristina Alberts et alii (1986); tendo sido a de Rouanet a mais utilizada entre as fontes citadas.
As idéias centrais do ensaio de Benjamin são traduzíveis em palavras-chaves tais que "experiências surrealistas", "iluminação profana" (Rosenthal e Alberts), "revelação profana" (Rouanet), "conquistar as forças do êxtase para a revolução" (Rosenthal e Alberts) ou a variante, "mobilizar para a revolução as energias da embriagues" (Rouanet). Essas formulações benjaminianas indicam que seu ensaio se desloca do âmbito puro da crítica literária e que, ao apoiarem - dentre outros textos - a argumentação dos estudos recentes sobre a recepção brasileira do surrealismo, atualizaram questões importantes postas pelo movimento, que, conforme as fontes acimas mencionadas, não despertaram uma discussão mais explícita no período de 1920 a 1950.
KOTHE (1994), por exemplo, faz apenas uma rápida referência ao ensaio, lido no original. Porém, em livro anterior , Para ler Benjamin (1976) 8, o autor ao tratar da relação intrincada entre o vanguardismo artístico e o político, reconhece ao surrealismo o mérito de questionar a própria arte, ainda que o mesmo tenha falhado na tentativa de ligar a arte à vida. Daí, possivelmente, sua afirmação no texto de 1994 de que os Modernistas não chegaram a questionar a própria arte.
A análise de FACIOLI (1994) sob uma adoção privativa de traços do surrealismo, em forma de estilemas estéticos, decorre da identificação de que o surrealismo apenas esteve disposto no Modernismo brasileiro, como uma "vanguarda artística", o que configurou àquele uma redução demasiada. O "conceito radical de liberdade" de que dispunha o surrealismo e que fundamentava toda sua reflexão sobre o poder da imagem , retomava a tentativa de "'resolver' a cisão entre arte e vida" (FACIOLI, 1994, p.161). Porém, este aspecto do surrealismo não foi uma reivindicação do Modernismo.
O caráter revolucionário do surrealismo é evocado ainda em outros textos que, se por um lado, não tratam diretamente da recepção brasileira do movimento, constituem-se, por outro, em estudos do ensaio traduzidos para o português. Importante acrescentar a constatação da ausência de estudos críticos no Brasil, no qual o ensaio de Benjamin sobre o surrealismo seja o objeto da análise.
No artigo de PRESSLER (1998) 9 intitulado "A idéia da vanguarda no ensaio O surrealismo. O último instantâneo da inteligência européia e sua repercussão na crítica alemã " , é colocado em evidência o reconhecimento da "autenticidade da vanguarda na ligação dos pontos do primeiro romantismo" (p.127) e o desafio lançado para a Pós-modernidade - se retomamos o subtítulo do ensaio de Benjamin - "de um pensamento não limitado no racional" (p.137).
Em "Walter Benjamin e o Surrealismo: história de um encantamento revolucionário", Michael LÖWY (2002) 10 esboça uma definição do surrealismo, a partir dos termos-chave s do ensaio,
um movimento que tenta fazer explodir de dentro o domínio da literatura, graças a um conjunto de experiências mágicas [com as palavras] de alcance revolucionário [...] profundamente libertário e, ao mesmo tempo, em busca de uma convergência possível com o comunismo (p.42).
O estudo da recepção do surrealismo no Brasil, iniciada na década de 1920, se inscreve em uma reflexão geral na área da literatura, e particular, nos domínios da teoria, crítica e historiografia literárias. Neste espaço da recepção, as refutações à presença do movimento no Brasil, ainda que não haja um consenso e uma representação clara sobre a forma de manifestação desta, já não podem ser sustentadas. As possíveis (prováveis?) potencialidades do dialogo entre a linguagem modernista e a surrealista são dados iniciais que indicam a proficuidade do tema, em termos de pesquisa e de revisitação de escritores brasileiros, a partir do levantamento de dados já existente. Para isso conduzem os textos lidos e as indagações neles presentes, justificando-se assim a importância desses estudos recepcionais.
Para além disso, a recepção do surrealismo, não só no Brasil mas também na América Latina de língua espanhola, cumpre aquilo que surrealistas parisienses anunciaram em um dos números do B ulletin de Liaison Surréaliste , periódico publicado a partir de 1970,
Ninguém tem o direito de definir uma 'linha' surrealista e menos ainda de impor um traçado dela. Mas cabe a cada um de nós descrever a própria trajetória e fixar os pontos nos quais ela recorta a dos outros. (LOWY, 2002, p.100).
PONGE, Robert. Sobre a chegada e expansão do surrealismo na América Latina. In: Surrealismo , catálogo da exposição homónima realizada em 2001 no Centro Cultural do Banco do Brasil - CCBB. Rio de Janeiro: CCBB, 2001. P. 43-87.
KOTHE, Flávio. Surrealidade sem surrealismo. In: PONGE, Robert (Org.). Organon , revista do Instituto de Letras da UFRGS, v. 8, n. 22. Porto Alegre: Instituto de Letras da UFRGS, 1994. p.145-156.
FACIOLI, Valentim. O Brasil e o surrealismo (Aspectos do campo da produção artística erudita no período de 1920 a 1950). In: PONGE (1994), op.cit., p.157-182.
LIMA, Sérgio. Alguns dados sobre a construção interessada de uma ausência: a do surrealismo no Brasil ou... "A cada um o seu desejo". In: PONGE (1994), op.cit., p.183-206.
LIMA, Sérgio. Notas acerca do movimento surrealista no Brasil (da década de 20 aos dias de hoje). Triplov . São Paulo, [s.d.], 13p. Disponível em: < www.triplov.com >. Acesso em 01 ago. 2003.
PONGE, Robert. Sobre a chegada e expansão do surrealismo na América Latina. 2001.
BENJAMIN, W. O surrealismo. O mais recente instantâneo da inteligência européia. Trad. Erwin Rosenthal. In: Textos Escolhidos . Abril cultural, São Paulo, 1983, p.75-85 (Os pensadores). ___. O Surrealismo. O último instantâneo da inteligência européia. 3.ed. Trad. Sérgio P. Rouanet. In: Obras Escolhidas . Brasiliense, São Paulo, 1987, p.21-35. ___. O Surrealismo. O último... Trad. Cristina C. Alberts et alii. In: Documentos de cultura. Documentos de Barbárie. Cultrix, São Paulo, 1986, p.106-115.
KOTHE, F. Para ler Benjamin . Francisco Alves, Rio de janeiro, 1976, p.54-92.
PRESSLER, Günter. "A idéia da vanguarda no ensaio O surrealismo. O último instantâneo da inteligência européia e sua repercussão na crítica alemã. In: Pandemonium Germanicum , São Paulo,n.2, 1998, p.119-140.
In: LOWY, Michael. A estrela da manhã: Surrealismo e marxismo . Trad. Eliana Aguiar. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2002, p.39-54.