![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
Ronald de Carvalho e o modernismo brasileiro e português
Adalberto de Oliveira Souza (UEM)
É verdade que o processo didático-pedagógico para o ensino da literatura sempre propõe divisões de períodos, épocas, tendências e escolas nem sempre coincidentes, isto é, variáveis segundo pontos de vista e idéias que se queiram ressaltar. Professores e especialistas em literatura brasileira provavelmente bem intencionados e captando bem a significação, o estardalhaço e a repercussão da Semana de 22, decidiram nomear como Modernismo o período literário ocorrido após essa ruidosa semana, e o período anterior, quando o espírito modernista da libertação do pensamento já estava instaurado, como Pré-Modernismo . As fronteiras realmente não são tão nítidas, mesmo, ou sobretudo, entre as palavras.
É oportuno distinguir bem os termos: modernidade , modernismo e vanguardismo . Convenhamos que esses termos propõem uma mudança e significam uma ruptura com algo estabelecido anteriormente e podem, ocasionalmente, provocar alguns equívocos, melhor dizendo, são susceptíveis de interpretações dúbias e podem nos afastar de conceituações mais precisas. Contudo, estamos fadados à imprecisão.
Essa avidez pelo efêmero é uma espécie de punição ao homem ocidental, pois o moderno hoje é antigo amanhã, é o reino do impossível. Mas essa concepção que invade as mentes teve seu início numa relação ocorrida da arte e da poesia com a natureza, a sociedade e a história. A negação da autoridade da tradição artística e literária com seu ideal de beleza transcendente, universalmente intelegível e atemporal; busca do transitório e imanente, cujos valores são a novidade e mutabilidade, a invenção e a subversão do sentido; negação da modernidade burguesa, com os seus valores de progresso, evolução e tecnificação da vida; busca do tempo original, como expressão de uma nostalgia da totalidade e da unidade, diante da desagregação do tempo presente, como nos faz ver Irlemar Chiampi ( 1991,p.14).
Esses temas ou essas necessidades estéticas são o espírito da modernidade ocidental e surgiram no Romantismo alemão. Baudelaire cunhou isso de modernité . Essa modernidade foi se desenvolvendo em outros países, com características diversas, mas as idéias se convergiram; porém foi só no final do século XIX e no século XX que essas idéias se consolidaram, atingiram plenitude, isto é, tornaram-se mais conscientes e exprimiram as necessidades da época. É aí que começam a tomar o nome de modernismo em diversas literaturas; e no início do século XX, dentro do modernismo proliferaram diversos movimentos chamados de vanguarda .
Na verdade, o Brasil com todas as suas mazelas estava em sintonia com o mundo. Após o simbolismo instaurou-se um m odernismo . Faltava apenas um elemento catalizador dessas necessidades, que rompesse com o fator fortemente inibidor do parnasianismo, que era o portador do gosto oficial, e esse elemento foi o movimento vanguardista de 22, o qual ficou sendo nomeado como Modernismo propriamente dito.
Essa onda vanguardista veio da Europa, onde propunha dissolver totalmente o passado, derrubar mais violentamente a tradição. A intenção era demolidora. Aqui importou-se esse desejo e realmente isso ocorreu, mas com a sua peculiaridade, como uma reafirmação dos valores mais nacionais. Para combater as condições culturais vigentes no país, procurou-se o mais nacional possível. Essa era a aventura do novo. Através de um modelo europeu fugiam da Europa.
Segundo Temístocles Linhares, foi nesse momento de vanguarda que nasceu a poesia moderna brasileira. Uma poesia realmente brasileira, onde as influências de fora não lhe prejudicaram a autenticidade (1976, p.216). Acrescenta que foi o Modernismo que possibilitou o desencadear de novas formas, novos usos, e alcançar uma nova conscientização poética brasileira: a revelação maior do instinto de nacionalidade , a manifestação mais evidente do sentimento íntimo da literatura brasileira, a doutrina formulada por Machado de Assis, e anteriormente por outros, que afirmam a americanidade do Brasil em oposição à Europa. Esse crítico afirma que o verdadeiro início do movimento data do aparecimento do Epigramas irônicos e sentimentais e de Paulicéia desvairada , de Mário de Andrade. Em seguida, reitera o depoimento de Peregrino Júnior, que relata sua participação no grupo reunido no Rio de Janeiro na casa de Ronald de Carvalho, na Rua Humaitá, quando ouviu Manuel Bandeira declamar o Berimbau , Mário de Andrade Noturno de Belo Horizonte e Danças e Ronald ler os seus Epigramas irônicos e sentimentais . De qualquer forma, a participação na Semana de 22 foi para Ronald um rompimento com a sua grei , com a sua formação, para a aceitação da atitude demolidora desse movimento.
Realmente, essa foi a atitude de vários poetas que saíram de uma formação parnasiana para embarcar em nova aventura: Mário de Andrade, depois de Uma gota de sangue em cada poema , publica Paulicéia desvairada ; Guilherme de Almeida, depois de Messidor , traz-nos Raça; Manuel Bandeira após Cinza das horas e Carnaval , aparece com Libertinagem; Ronald depois de Poemas e canções , desponta com Epigramas irônicos e sentimentais . Era a força do momento, l'air du temps . Evidentemente, tal rompimento deu-se em cada um desses poetas de forma particular, mas em todos significou uma tomada de posição revolucionária, isto é, definidora de outros horizontes. No caso de Ronald, ficou difícil acompanhar o movimento quando este se fragmentou em grupos primitivistas e nacionalistas: os grupos Verde-amarelo, da Anta, da Antropofagia, Pau-brasil...
Ronald nunca pôde afastar-se de sua grave compostura formal, sua serenidade, sua claridade , sua formação marcadamente européia. Manuel Bandeira diz que Ronald definia-se então nas linhas nítidas e tonalidades claras que dão à toda a sua obra a ordenação e o brilho de um jardim, ainda que tropical, bem civilizado. (Apud JUNIOR, 1960 . p.14). O poeta detecta assim o conflito de Ronald entre seu nacionalismo e seu cosmopolitismo.
Em 1925, ano em que reformula a sua Pequena história da literatura brasileira , Ronald também publica Toda a América , onde mostra seu amadurecimento como poeta, o seu encontro com o que ele tinha de mais original, seu cosmopolitismo. É preciso também notar aí a influência do poeta norte-americano Walt Whitman (1819-1892). Provavelmente, o diálogo com Whitman já vinha de longa data (provavelmente de seu contato com Fernando Pessoa).
Foi em 11 de junho de 1915 que Álvaro de Campos escreveu a Saudação a Walt Whitman , onde presta homenagem àquele que, através de Caieiro, reconhece como mestre, como observa Robert Brechon ( 1999, p.569). No entanto, há também a possibilidade de que ele tenha conhecido a obra de Whitman na busca das origens do passado brasileiro, na sua leitura do Romantismo.
Povina Cavalcanti acha que Toda a América foi, realmente, o momento em que Ronald de Carvalho encontrou a sua verdadeira poesia:
Em Epigramas irônicos e sentimentais , miniaturista dos haicais japoneses, cuja voga no Brasil se deveu àquela época à difundida versão francesa de Pierre Louis Couchoud, Ronald fez, apenas com este livro mais uma experiência poética. A influência dos haicais e a falada influência direta de Omar Khayyam não aumentaram de certo a sua glória. Em Toda a América , aí sim, como aliás nos Poemas e sonetos , a grande alma do poeta irradiou a sua luz possante. Dele próprio ouvi que o seu novo livro era uma reação contra os Epigramas o que significava, noutras palavras, o reencontro do poeta com seu verdadeiro itinerário. Não quero cair no lugar comum de aproximá-lo de Whitman. Ronald, como Tasso da Silveira nas Alegorias do homem novo teria escrito Toda a América ainda que Whitman nunca tivesse existido. (1957, p.34) .
Wilson Martins vê uma incompatibilidade radical entre Ronald e os modernistas:
Havia, entretanto, uma fenda invisível e irreparável que sempre impediu a perfeita identificação de Ronald de Carvalho com o seu momento histórico e, por conseqüência, com os modernistas: ele era um apolíneo no meio dos dionisíacos e, pior ainda, um espírito cosmopolita numa época de intenso nacionalismo. Esses quatro elementos associam-se, aliás, dois a dois, o cosmopolita sendo sempre um apolíneo (e vice-versa), e o nacionalista, um dionisíaco (e vice-versa). Ora, o nacionalismo havia assumido, a essa altura, a posição de verdade universal, que ninguém discute, e de valor emotivo, que ninguém podia discutir. Os mornos eram vomitados, como nas Escrituras: o casamento dos modernistas com Ronald de Carvalho será sempre uma aliança de conveniência ou de aparência, jamais uma ligação amorosa (1978. p.144).
Cremos que o crítico tenha suas razões, mas o que não se pode negar é que, apesar de o modernismo ter vocação nacionalista e ter proclamado veementemente originalidade e independência, os modernistas estavam ainda visceralmente ligados à literatura francesa, dando continuidade à presença contínua dessa cultura na afirmação de nossa literatura desde o Romantismo, quando os poetas se apegaram à França para se libertarem das imposições portuguesas. Há vários depoimentos que sugerem a incompatibilidade de Ronald com o movimento vanguardista.
O próprio ideário modernista tinha suas bases européias e não ocorreu repentinamente. Vejamos o que nos diz Alfredo Bosi:
Às vesperas do conflito alguns escritores brasileiros traziam da Europa notícias de uma literatura em crise. Oswald de Andrade conheceu em Paris o futurismo que Marinetti, em 1909, lançara pelas páginas do Figaro no famoso Manifesto-Fundação; e trouxera de lá a maravilha de ver um poeta de versos livres, Paul Fort, coroado príncipe dos poetas franceses; Manuel Bandeira travara contatos com Paul Eluard, na Suíça, e viera marcado por ser modernista; Ronald de Carvalho, embora pouco tivesse de revolucionário, ajudara em 1915 a fundação de uma revista da vanguarda futurista portuguesa, Orfeu , centro irradiador da poesia de Fernando Pessoa e de Sá Carneiro; Tristão de Ataíde e o próprio Graça Aranha conheceram igualmente as vanguardas européias centradas em Paris; e da Paris de Apollinaire, Max Jacob e Blaise Cendrars vinha a poesia moderníssima de Sérgio Milliet, escrita embora em Genebra (1995, p.376).
Em suma, o que queremos dizer é que naquele momento havia uma forte tensão entre cosmopolitismo e nacionalismo que dominava o pensamento. Essa era a atmosfera respirada. Todos os poetas e intelectuais estavam siderados por essa questão, tanto Ronald, como Blaise, como Mário e outros, é verdade que de formas bem diversas.
Em Portugal, a literatura ingressa no período modernista também de maneira particular. Antônio José Saraiva nos diz:
No período que vai de 1890 até cerca de 1930 assistimos a uma espécie de desintegração e tentativas de criação de uma nova prosa e de uma nova poesia a partir do estilo literário que atingiria a sua forma clássica na geração de 70. Só o grupo do Orpheu em 1915, saiu fora desta linha de desenvolvimento, mas ele representa uma pedrada no charco e só depois de 1930 começa a sair do seu esconderijo. (1999, p.133)
Nessa síntese, vê-se que o processo literário se dá lentamente e que mesmo algum acontecimento marcante só se afirma realmente depois de algum tempo. No caso especificamente português, pode-se considerar que o Modernismo português está indissociavelmente ligado à figura de Fernando Pessoa que, num artigo publicado na revista A Águia em 1912, observa a problemática desse movimento:
Descendemos de três movimentos mais antigos - o simbolismo francês, o panteísmo transcendental português e a miscelânea de coisas contraditórias e sem sentido de que o futurismo, o cubismo e outras correntes afins são expressão ocasional, embora, para ser exato, descendamos mais do espírito do que da letra desses movimentos. (Apud GUIMARÃES, 1992, p.39).
Ele reconhece que o modernismo português tem um enraizamento no passado e não é uma simples ruptura, mas sobretudo uma abrangência de toda a poesia existente na época. Dessa forma, justifica a sua obra e a situa no panorama do tempo.
Durante a guerra de 1914-1918, as discussões a respeito de uma nova estética tornaram-se mais acirradas. Fernando Pessoa, que tinha vivido na África do Sul, tendo iniciação e formação dentro da cultura inglesa, e também Mário de Sá-Carneiro e Santa-Rita Pintor, trouxeram de Paris para Portugal novidades literárias e plásticas. Sobretudo esse grupo e outros mais conseguiram captar e exprimir as novas necesssidades, afastando-se do idealismo republicano e de todas as formas que esse idealismo assumiu no seio da pequena burguesia. Essas novas idéias estão manifestas nas revistas A Águia , Orpheu , Centauro , Exílio , Ícaro , Portugal Futurista , Contemporânea , Athena .
Todavia, e sem dúvida, o marco considerado mais importante do movimento foi o lançamento, em 1915, da revista Orpheu , na qual foram publicados poemas de Fernando Pessoa e de seu heterônimo Álvaro de Campos. Interessante é perceber que um brasileiro foi um dos diretores do primeiro número dessa revista, e esse brasileiro foi Ronald de Carvalho, que também teve aí publicados cinco poemas: A alma que passa , Lâmpada noturna , Torre ignota , O elogio dos repuxos e Reflexos .
À participação de Ronald nessa revista requer alguma discussão: como foi que o poeta brasileiro contribuiu para o modernismo português?
Em carta para Armando Côrtes-Rodrigues, datada de 19 de fevereiro de 1915, Fernando Pessoa mostra entusiasmo com o lançamento da revista Orpheu e com a participação nela de Ronald:
Vai entrar imediatamente no prelo a nossa revista Orpheu , de que é director em Portugal um poeta, Luís de Montalvor, amigo íntimo de Sá-Carneiro e meu amigo também, e no Brasil um dos mais interessantes e nossos (grifo do autor) poetas brasileiros de hoje, Ronald de Carvalho.(1999, p.150)
Ronald de Carvalho foi o principal elo que uniu os movimentos modernistas brasileiro e português, isto é, ele participou na linha de frente dos dois marcos modernistas de vanguarda em 1915, em Portugal. e em 1922, no Brasil. Como sabemos, Ronald publicou sua primeira obra poética, Luz Gloriosa , em Paris, em 1913. Possivelmente tenha por lá encontrado poetas portugueses, porém mais certo é que, ao voltar para o Brasil, em fins desse mesmo ano, parou por algumas horas em Lisboa, quando conheceu Luís de Montalvor (Luís Silva Ramos), segundo nos informa Arnaldo Saraiva. (2004, p.101)
Em 1914, Ronald de Carvalho e Luís de Montalvor, que era, nessa época, secretário da Embaixada de Portugal no Rio de Janeiro, encontram-se novamente, estreitam suas relações e decidem então criar uma revista dentro do espírito demolidor que grassava em Portugal e escolhem um nome para ela: Orpheu . Eles conviveram no Brasil por um ano, e em seguida, mantiveram a amizade através de correspondência. Esses dois poetas seriam os diretores do primeiro número da revista, que se propunha a ser trimestral, mas saíram apenas dois números; o primeiro causou muita polêmica, e apenas não se abalaram com isso Fernando Pessoa e Sá-Carneiro, que se tornaram os diretores do segundo número da revista, lançado também em 1915; o terceiro número ficou no prelo e foi publicado, anos depois, quando a importância era definitivamente reconhecida.
Fernando Mendonça reconhece que a poesia de Ronald de Carvalho estava em sintonia com a poesia dos poetas da revista Orpheu . ( 1978 p. 139-144). Segundo ele, com exceção de Álvaro de Campos, todos os poetas que colaboraram no primeiro número da revista (Sá-Carneiro, Ronald de Carvalho, Alfredo Guisado e Armando Cortes-Rodrigues) rezavam pela mesma cartilha . Essa cartilha era a estética do paulismo, inventada por Fernando Pessoa, onde há indissimuláveis resíduos simbolistas , e foi Sá-Carneiro quem lhe deu ampla forma e destino . Essa estética propunha uma extravagância imagística e metafórica, abuso de pedrarias, objetos raros, pompas, sinestesias. Ronald não precisou se enquadrar nos moldes dessa estética, ele já trazia isso nos poemas de Luz gloriosa . Por isso, Fernando Mendonça adverte:
Ronald de Carvalho é na verdade um poeta brasileiro que invade o 1º Modernismo português. Esquecido pelos portugueses e também pelos brasileiros como poeta, a sua poesia necessita de ser arrancada ao esquecimento e estudada dentro de um momento que pode ser desimportante para a literatura brasileira, mas que, em termos europeus, merece reflexão mais atenta pelo que representou para a poesia, ou melhor, para a arte dos anos em que a Europa forjava os novos rumos da poesia, da música e da pintura. Ronald de Carvalho é já um poeta que se realiza no modernismo europeu antes da sua talvez episódica intervenção no modernismo brasileiro.
Desejamos, com esta afirmação, concitar os estudiosos a desenterrar um poeta brasileiro que esteve presente na formulação de uma nova arte poética (européia) então ainda casular, mas da qual saíriam um Mário de Sá-Carneiro, um Alfredo Guisado (este também esquecido pelos portugueses), um Almada Negreiros e, parcialmente, um Fernando Pessoa. Não queremos com isto dizer que a poesia de Ronald de Carvalho tivesse o nível da de Sá-Carneiro ou Fernando Pessoa, porque não se trata aqui de dizer o que é melhor e o que é pior. Pretende-se, sim, demonstrar que o pensar poético de Ronald de Carvalho foi o mesmo dos seus camaradas portugueses. E que, com esse modo de pensar a poesia, ele fez parte de um estado de espírito que renovou e elevou a um dos seus pontos mais altos a poesia portuguesa do século XX. (1978, p. 144)
Ronald colaborou também em outras revistas portuguesas, como A Águia e Alma Nova . A Águia foi uma revista muito importante para a manutenção dos laços culturais entre o Brasil e Portugal. Paralelamente houve outra revista, Atlântica ,que durou de 1915 a 1920. A Águia foi fundada em 1910, e durou até 1932, e foram publicados mais de 200 números. Essa revista chegou mesmo a ser impressa no Rio de Janeiro. Muitos brasileiros participaram dela assiduamente, como Vicente de Carvalho, Coelho Neto, Lima Barreto, Gonzaga Duque, Homero Prates, João Luso, Carlos Maul, Almáquio Dinis e Ronald de Carvalho.
Alguns colaboradores brasileiros chegaram a ser publicados em Portugal, tais como Almáquio Dinis e Carlos Maul, que também mantiveram correspondência com Sá-Carneiro e Luís de Montalvor, embora não tenham participado da revista Orpheu .
A Águia provocou a atração pela cultura brasileira de muitos portugueses que para cá vieram: Álvaro Pinto, Antônio Carneiro, Antônio Sérgio, Correia Dias, que se casou com Cecília Meireles, Jaime Cortesão, Veiga Simões. O grupo que coordenava essa revista preocupou-se muito em publicar livros brasileiros em Portugal e livros portugueses no Brasil. No entanto, A Águia nem sempre utilizou-se dos melhores critérios; freqüentemente, o conservadorismo predominou. A Águia ignorou o lançamento da revista Orpheu , embora tenha saudado com grandiloqüência a revista Atlântica , que tinha menos importância.
Havia outras revistas que publicavam artigos de autores brasileiros em Portugal e vice-versa e o registro das relações entre os dois países tais como o Novo almanaque de lembranças luso-brasileiro , Brasil Portugal (de 1899 a 1914), Ilustração brasileira (publicada em Paris em 1901), A Farsa (1909).
Mas foi Orpheu a revista mais significativa. Ela começou a ser publicada em março de 1915, anteriormente ao lançamento da revista Atlântica , que saiu em novembro do mesmo ano e tinha o mesmo propósito: estreitar os laços luso-brasileiros. Esta última seguia o mesmo sistema da primeira: tinha dois diretores, um brasileiro e outro português, respectivamente João do Rio e João de Barros. Mas não se pode comparar o nível das duas revistas: Orpheu foi uma revista de vanguarda e sua importância é até hoje decantada: infelizmente, só dois brasileiros apareceram em suas páginas: Ronald de Carvalho e Eduardo Guimarãens (1892-1928). Esse último, nascido no Rio Grande do Sul, publicou 3 poemas no segundo número da revista: Sobre o cysne de Stéphane Mallarmé , Folhas mortas e Sob os teus olhos sem lágrimas . Segundo Afrânio Coutinho:
Esse poeta colaborou muito na imprensa brasileira. Estudou a organização da Biblioteca Nacional. Traduziu Dante, Baudelaire, D'Annunzio, Verlaine, Tagore. Sua linha poética era de feição simbolista, tinha também um lastro católico. Rodrigo Otávio Filho escreveu sobre o poeta: Tudo nele era contemplação do mundo interior e do mundo exterior. Sentiu que em sua poesia os pontos se sobrepunham, substituindo-se, trocando-se de maneira que uma pintura rápida da realidade ambiente sucede freqüentemente um angustioso movimento de alma. Poeta da contemplação, ternura e delicadeza, da forma trabalhada, situa-se entre os penumbristas do início do século XX. (2001, p.809)
Havia muito tempo, desde 1908, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro já sonhavam ter uma revista para exporem suas idéias, isto é, uma revista que expusesse o paulismo ou o interseccionismo, correntes defendidas antes do sensacionismo, que seria a versão portuguesa do futurismo marinettiano.
É interessante que as idéias de Luís de Montalvor e Ronald de Carvalho, a princípio, tenham germinado tão bem no grupo de Orpheu . Mais ou menos na mesma época, em 1907, houve a fundação no Brasil das revistas Fon-Fon! e Careta , que em algumas páginas anteciparam teses dos vanguardistas brasileiros da década de 20, mas só em 1922, com a revista Klaxon , os modernistas brasileiros conseguiram ter a sua revista, transmitindo todo o alarido que seu nome sugere.
Referências bibliográficas
BOSI, Alfredo - A literatura brasileira. O pré-modernismo. São Paulo: Cultrix, v. 5,1966.
BOSI, Alfredo - História concisa da literatura brasileira . São Paulo: Cultrix, 1990.
BRECHON, Robert - Fernando Pessoa estranho estrangeiro . Trad. Maria Abreu e Pedro Tamen. Rio de Janeiro: Ed.Record, 1999.
CAVALCANTI, Povina - Viagem ao mundo da poesia . Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, 1957
CHIAMPI, Irlemar (org.) - Fundadores da modernidade . São Paulo: Ática, 1991.
COUTINHO, A.; SOUSA, J.G. - Enciclopédia de literatura brasileira . São Paulo: Global Editora, 2001.
GUIMARÃES, Fernando - Simbolismo, modernismo e vanguardas . Porto: Lello & Irmão, 1992.
JUNIOR, Peregrino - Ronald de Carvalho . Rio de Janeiro: Agir, 1960 (Nossos clássicos).
LINHARES, Temístocles - Diálogos sobre a poesia brasileira . São Paulo/Brasília: Melhoramentos/INL, 1976.
MARTINS, Wilson - História da inteligência brasileira . São Paulo: Cultrix, 1978, v.6.
MENDONÇA, Fernando - Ronald de Carvalho, um poeta brasileiro no modernismo português. Atas do XVIII Congresso Internacional de Literatura Ibero-Americana. Rio de Janeiro, p. 139-44, 1978.
PESSOA, Fernando - Correspondência 1905-1922 (org. Manuela Parreira da Silva). São Paulo: Cia das Letras, 1999.
SARAIVA, António José - Iniciação à literatura portuguesa . São Paulo: Cia das Letras, 1999.
SARAIVA, Arnaldo - O modernismo brasileiro e o modernismo português . Campinas: Editora da Unicamp, 2004