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Escritores Críticos em Mato Grosso: travessias da Pós-Modernidade
Susylene Dias de Araújo (UEMS/Unidade de Nova Andradina)

Uma das inúmeras possibilidades de recepção do tema Travessias , escolhido para a chamada do IX Congresso Internacional da ABRALIC, serviu como motivação para que o trabalho de pesquisa desenvolvido na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, apoiado pela Pró Reitoria de Pesquisa desta mesma Universidade se fizesse apresentado, na intenção de “mapear” os escritores críticos atuantes no Estado de Mato Grosso. Aqueles que em plena região Centro Oeste, fizeram dos anos 30 um marco do grande movimento iniciado, do ponto de vista teórico, em datas controversas, mas que consensualmente atingiu o século XX para se estender, talvez, até os dias de hoje: a pós modernidade.

Assim, iniciamos esta apresentação a partir de alguns conceitos que merecem ser elucidados. Na esteira de Antoine Compagnon (1999, p.21), a crítica literária pode ser compreendida como um discurso sobre as obras literárias que acentua a experiência da leitura, que descreve, interpreta, avalia o sentido e o efeito que as obras exercem sobre os (bons) leitores Nesta perspectiva, as possibilidades de reconhecer o discurso fundador e norteador da atividade crítica exercida durante o amadurecimento da produção literária em Mato Grosso, uma das regiões mais distanciadas dos grandes centros culturais do país, serve para arrematar os fios constituintes do tecido de uma atividade que, em travessia, anunciava, para o contexto da produção literária nacional o caráter cosmopolita do século XX: um genuíno sintoma da pós-modernidade.

E para dar continuidade a esta intenção de definições, chegamos à difícil tarefa de nomear o tempo concebido como pós-moderno. Conforme já mencionamos, uma conceituação exata seria impossível assim como apresenta-lo a partir de uma data específica de nascimento. Segundo Leyla Perrone-Moisés (1999, p181) a definição do pós-moderno oscila conforme a atitude do teórico diante do fenômeno , apesar de que em alguns traços comuns, conforme a própria autora ainda observa, este movimento, tendência, ou conjunto de atitudes apresenta um certo consenso: começou depois da Segunda Guerra Mundial, manifestou-se mais claramente na arquitetura, generalizou-se no discurso teórico a partir do “pós – estruturalismo francês e tornou-se o discurso dominante dos meios acadêmicos norte-americanos.

Ainda pelo viés das definições, ao analisar a decadência da historiografia literária em fins do séc. XIX, o teórico Hans Robert Jauss em suas "Colocações Gerais" a respeito da Estética da Recepção reúne e apresenta sob o título de A história da Literatura como provocação à Teoria Literária o processo literário e concede um prestígio especial ao papel do leitor. Segundo Jauss, os estudos da Recepção revelam a importância da dimensão histórica para a interpretação dos fatos relativos à literatura. Jauss menciona um conceito vinculado à palavra recepção para questionar as implicações do resultado despertado no receptor mediante a leitura do texto, ou seja, Jauss conclui que a vida histórica de uma obra literária não pode ser concebida sem a efetividade de seu destinatário.

Assim, os estudos de Jauss, que resultaram na formulação das idéias vinculadas à teoria da recepção, apontam um dos caminhos do suporte teórico necessários a este estudo a medida em que procura no crítico, receptor por excelência, critérios que possam justificar o exercício da crítica como parte indissociável do processo literário, um fenômeno pós-moderno.

Iniciada em 1967, durante aula inaugural da Universidade de Constança (Alemanha), a teoria da recepção reúne textos articulados em 7 teses que embasaram todos os postulados das idéias inerentes a essa teoria, publicados com o título provocativo de um estudo capaz de apresentar a superação do abismo entre literatura e história, como o próprio Jauss justifica:

O abismo entre literatura e história, entre o conhecimento estético e histórico, faz-se superável quando a história da literatura não se limita simplesmente a descrever o processo da História geral conforme esse processo se delineia em suas obras, mas quando ela revela aquela função verdadeiramente constitutiva da sociedade que coube à literatura, concorrendo com as outras artes e forças sociais, na emancipação do homem e de seus laços naturais, religiosos e sociais. 1

 

Portanto, a compreensão da literatura como atividade processual vem marcar a imposição estética que tem na figura do leitor o maior responsável pela formação e atualização do Cânone. Materializado na figura do escritor que se torna leitor, o escritor-crítico torna-se o responsável pelo ato reflexivo e judicativo no espaço de circulação das obras.

Considerando uma das tendências da pós-modernidade, concernente aos estudos literários, é notável que os estudos da recepção, cujo foco central é o processo da produção literária associado ao ato da leitura mediada pela figura do leitor. A atividade crítica, oscilante entre autor, obra e leitor tem apresentado ao longo do tempo diferentes teorias que, entrelaçando-se anteciparam ou negaram questões enfocadas no percurso marcado pelos diferentes pólos dessa preposição, culminando nas postulações da referida estética da recepção, popularizada como "a hora e a vez do leitor.”

Harold Blooom na edição de Como e Por que ler? visita o universo literário e se propõe, logo no prólogo, a apontar soluções a intrigante questão que dá título a seu livro:

Existe o Sublime alcançado através da leitura, ao que parece, a única transcendência secular que nos é possível, senão por aquela transcendência secular ainda mais precária que denominamos "amor", "paixão". Exorto o leitor a procurar algo que lhe diga respeito e possa servir de base à avaliação, à reflexão. Leia plenamente, não para acreditar, nem para concordar, tampouco para refutar, mas para buscar empatia com a natureza que escreve e lê.

 

Nesta perspectiva, a ênfase no leitor, responsável pela diluição do abismo existente entre História e Literatura, tem sido constante nas questões teóricas que envolvem a literatura especialmente aquelas que dizem respeito ao avento da recepção. No entanto, a fragilidade da Teoria da Recepção revela-se quando o perfil do leitor lembrado por Jauss não fica nitidamente esclarecido.

Ao considerar esta possível fragilidade, Leyla-Perrone Moisés recorre às contribuições do teórico René Wellek dadas em 1970 por ocasião do VI Congresso Internacional de Literatura Comparada na comunicação intitulada “The Fall of the Literary History” para resumir a Estética da Recepção como “ a história das interpretações críticas”, o que torna a perspectiva sincrônica da literatura um fato possível.

Assim, o leitor diferenciado, capaz de definir a permanência ou não de uma determinada obra, está além do leitor caracterizado pelo senso comum. Definido por Leyla Perrone-Moisés, esse leitor ganha autoridade para exercer o juízo crítico.

O que leva a literatura a prosseguir sua história não são as leituras anônimas e tácitas (que têm um efeito inverificável e uma influência duvidosa, em termos estéticos) mas as leituras ativas daqueles que as prolongarão, por escrito, em novas obras. 2

 

Contestando o perfil do leitor concebido por Jauss, a autora assinala a ausência de um modelo confiável para a reconstrução da atuação desse leitor no percurso da história e aponta a permanência das obras como responsabilidade do escritor que também se faz crítico . Assim, o processo ativo de circulação das obras passa a ser condicionado pelos olhares críticos a ela destinados e desta forma, propor a recuperação do escritor crítico é afirmar que "Toda história é uma leitura do passado", conforme Perrone-Moisés conclui:

Ler é dar sentido, sincronizar, vivificar, escolher e apontar valores. A leitura ativa é construtiva porque ela pretende orientar os rumos do futuro: é destrutiva, por que ultrapassa e invalida as regras de medida vigentes. Viva, e por isso arriscada(...). 3

 

Diante do exposto, este estudo pretende reunir os nomes daqueles escritores que, mesmo no interior do país, souberam dedicar-se a literatura mantendo-a viva dentro do sistema de fruição das obras, ou seja, o presente trabalho justifica-se como mais uma das tentativas de preencher as lacunas existentes na história literária oficial de Mato Grosso e ainda reunir dados importantes para o que se deseja conceber ideal memorialista da escrita da região.

Os objetivos concentrados na realização desta pesquisa procuram verificar a dinâmica de transformação dos fatos históricos e culturais nos critérios que ditaram a perspectiva dos escritos críticos produzidos no Estado de Mato Grosso durante o Século XX. Nesta intenção, um estudo de questões de teoria, crítica e historiografia da literatura será evidenciado com o objetivo específico de compreender as categorias e os problemas dos dispositivos, gêneros e discursos que envolveram o exercício crítico produzido como atividade efetiva dos meios culturais de uma das regiões do Centro-Oeste brasileiro.

Os autores selecionados para o corpus desta pesquisa foram escolhidos levando em consideração aqueles que concentraram sua atuação entre a autoria das obras e ainda pela realização do exercício da leitura destas mesmas obras, concretizando o que pode ser concebido como a atividade do crítico escritor que, inserido no cenário cultural do Estado de Mato Grosso passou a ditar critérios que marcavam suas opções, singulares ou coletivas. Desta forma, nomes como o do poeta corumbaense contemporâneo aos anos 30, Lobivar Matos, poderão ser lembrados. Lobivar, que chegou a emancipar a Synthese do movimento intellectual mattogrossense , ao escrever para o Annuario Brasileiro de Literatura no Rio de Janeiro em 1937, pode ser um dos fortes indícios de uma atividade que chegou a antecipar nomes que na época soavam apenas como promessa, como é o caso do grande poeta das terras e da gente pantaneira, Manoel de Barros, nesta ocorrência reconhecido como poeta originalíssimo , conforme a transcrição do original aqui apresentada:

Manoel Wenceslau de Barros, ou Nequinho na intimidade, também nos promette para 1937 um volume de poemas – “Muxirúm”. Poeta originalíssimo.

“ Aquele morro bem que entorta bunda da paisagem.”

Esse o estylo do poeta de “Muxirúm”. O soffrimento humano, os anseios e as revoltas surdas dos que sofrem inundam seus poemas.

Outros petas, romancistas e conteurs boróros surgirão depois. Aguradaremos a chegada dessa gente. A nova geração do Sul de Mato Grosso ainda não sahiu dos bancos escolares. E isso é um bom symptoma.

 

Para efeito de demonstração, passamos evidenciar alguns fragmentos deste discurso crítico, praticado com singeleza e elegância, para evidenciar uma “alta intelectualidade” que por ora vem sendo esquecida. Lembramos ainda, que estes recortes serão, oportunamente na seqüência da pesquisa, agrupados por critérios que norteavam a atividade destes homens das letras.

À guisa de uma breve conclusão lembramos que o levantamento das fontes da pesquisa, em andamento, será realizado mediante visita a Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, Academia Sul Mato-grossense de Letras, Acervo Histórico da Universidade Federal de Mato grosso, Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, Bibliotecas públicas das Universidades Federais de Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional da Universidade Federal de Mato Grosso, Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande-MS, além de busca referendada pelo acervo de periódicos e boletins pertencentes à bibliotecas públicas das cidades que durante o séc. XX formaram um dos pólos culturais da região Centro-Oeste, assim, municípios como Corumbá (MS), Cáceres (MT) também poderão constituir-se como fonte das informações que serão sistematizadas pelo texto da pesquisa.

 

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Cf. Jauss. A história da literatura como provocação à teoria literária . p. 57.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Altas Literaturas . São Paulo: Cia das Letras. 1998. p. 13.

Idem: p. 13.