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Alteridade e travessia nos territórios movediços de Clarice Lispector e Affonso Romano De Sant´Anna
Paulo Roberto Antunes (FASAR/UNINCOR)

NO TERRITÓRIO DO OUTRO

 

A obra “Novo Aurélio – O Dicionário da Língua Portuguesa 1 – Século XXI” (1999) define a palavra alteridade : “[Do lat. Alter, “outro”, + - (i)dade.] S. f. Filos. Qualidade do que é outro (q. v.).” Isso implica raciocinar a colocação de alguém no lugar de outro, algo no espaço de outra coisa. Trata-se, pois, do estabelecimento de relações com o outro em uma interação tamanha capaz de propor a troca, o partilhar de sentimentos, sensações... como se fossem próprios e não tão-somente do outro. A palavra também evoca “a capacidade de conviver com o diferente, de se proporcionar um olhar interior a partir das diferenças...” (ABRALIC, 2004) 2.

Apesar de a sociedade atual estar vivenciando as maravilhas tecnológicas e científicas do Século XXI, o homem contemporâneo ainda encontra dificuldades de se relacionar consigo mesmo e com os semelhantes. Os conflitos bélicos, as quebras de soberanias nacionais, o aumento da freqüência de pessoas nos divãs dos psicanalistas são resultados dessa desconcertante incapacidade humana.

O ser pós-moderno quebra paradigmas, disserta e expõe sobre igualdades, mas depara-se com sua inabilidade no momento da promoção da solidariedade, do auto bem-estar e do bem-estar alheio.

“Somos um planeta cego à deriva do Cosmo. A nave de nosso coração não aterrissa onde pulsa o frêmito da ternura. Somos um sistema feito para isolar. Isolar tudo quanto for órbita de sonho. Isolar tudo quanto for galáxia de esperança.” 3

 

É nesse momento que surge a literatura como processo de auto-reflexão, asas para um vôo dolorosamente necessário e paradoxalmente aliviador. O leitor de Clarice Lispector e Affonso Romano de Sant'Anna experimenta a prática da alteridade, da aflição e do alívio por meio do jogo literário que ambos promovem, especialmente nos textos “A Procura de uma Dignidade” (1974) e “Um homem, uma mulher” (2004), corpus deste trabalho.

O primeiro texto, de Clarice, possui elementos característicos de sua escritura: o envolvimento e o mistério; o estranhamento. “... é um conto sofrido, contido, misterioso, que enfoca a trajetória da Sra. Jorge B. Xavier, perdida nos subterrâneos do estádio do Maracanã.” 4. Ninguém consegue ficar indiferente à aflição da personagem que se encontra perdida no Estádio de Futebol e que, enquanto tenta encontrar a saída, é imersa no questionamento de sua própria existência, repleta de fantasmas até então desconhecidos.

Em sua literatura epifânica, Lispector implode o comodismo intelectual da personagem, colocando-a como um ser vivo pensante e, conseqüentemente, angustiado. À medida em que a mulher se questiona e questiona o mundo ao redor, a fictícia vida criada dentro do texto transcende os limites das linhas e propõe ao leitor um mergulho em si mesmo, em questionamentos acerca de sua posição de agente/paciente de sua própria história e da do alheio. E o leitor se descobre perplexo como a senhora Jorge B. Xavier: “... como se tivesse entrado de esguelha por um buraco feito só para ela. O fato é que quando viu já estava dentro.” . Resta-lhe, então, percorrer com a mulher os espaços de um lugar físico que, na realidade, converte-se nos meandros da mente humana, inacabável e inquieta – a alteridade provocando dúvidas.

A personagem vai-se despindo frente ao leitor que, juntamente com ela, se despe. É ela a visão clara do outro a quem não é dado o direito de ser em plenitude. Seu próprio nome exemplifica isso:

“... o fato de a personagem ser denominada pelo nome do marido não é mero acaso. Trata-se, como se verá no decorrer da narrativa, de um subterfúgio para apontar o seu estado de insegurança e, sobretudo, estado secundário no casamento.” 5

 

Clarice estende a conscientização sobre os preconceitos. Não se limita a informar sobre a condição secundária da mulher na sociedade; envereda-se, também, pelo terreno da discriminação etária. O leitor, novamente, no lugar do “alter” , inquieta-se, pois se percebe numa sociedade onde a velhice incomoda: “... ela que se forçava a não perder nada de cultural porque assim se mantinha jovem por dentro, já que até por fora ninguém adivinhava que tinha quase setenta anos, todos lhe davam uns 57.” .

 

“Evidencia-se, aqui, o problema da velhice. Um tema, aliás, bastante explorado por Clarice Lispector: a indesejabilidade da velhice.” 6

 

A Sra. Xavier percorre incessantemente o cenário textual à procura da porta de saída. Mas a dificuldade de encontrá-la insiste a cada linha, jogando o leitor no mesmo labirinto estonteante da mulher. A tão sonhada saída é, simultaneamente, a frágil condição humana da mulher e do leitor num bizarro processo de auto-revelação.

Quando consegue sair do Maracanã, a personagem esbarra em novos obstáculos para chegar a casa. Vivencia uma nova via crucis impertinente que se estende ao leitor; ambos, novamente, cogitam inquietos sobre a saída . “Lembrou-se de que era mês de agosto e diziam que agosto dava azar. Mas setembro viria um dia como porta de saída.”

A proposta literária clariceana resume-se, basicamente, na temática do desencontro, da solidão. O leitor sente que a distância dos seres deles mesmos e de seus semelhantes é uma constante na vida; problema que se encontra em todos os níveis, até mesmo no lingüístico-fonético como se demonstra no texto: “Era o absurdo do desencontro total: pois, que havia em comum entre as palavras Ipanema e Jardim Botânico? Mas de novo pensou vagamente que “era assim mesmo a sua vida.”

Em Clarice Lispector explicita-se, ainda, o desejo de alteridade na personagem como forma de se safar de si mesma, desejo rapidamente repelido pela própria mulher: “Ela pensou que bem faria qualquer tipo de permuta com outro ser. Foi então que lhe ocorreu que não havia com quem se permutar: que quer que ela fosse, ela era ela e não podia se transformar numa outra única. Cada um era único. A Sra. Jorge B. Xavier também era.” . 7 Nesse trecho, a existência da alteridade é exterior à protagonista, mas claramente perceptível ao leitor que – no lugar da mulher – descobre-se como ser vivenciador da existência vazia, única e impermutável da septuagenária.

No final do texto, a protagonista, hiper consciente da falta de saída , encontra a solução no afastamento, na morte: “Foi então que a Sra. Jorge B. Xavier bruscamente dobrou-se sobre a pia como se fosse vomitar as vísceras e interrompeu sua vida com uma mudez estraçalhante (...).”

 

EM SOLIDÃO COM O OUTRO

 

No texto “Um homem, uma mulher”, de Affonso Romano de Sant'Anna (2004), a temática da solidão e da falta de sentido da vida é retomada. Diferentemente de Clarice, o escritor mineiro assim o faz utilizando não única personagem, mas duas. A narrativa, em síntese, conta a história de um homem e de uma mulher que se encontram num ponto de ônibus de uma grande cidade (Belo Horizonte) e não se falam, perdidos que estão na imensidão dos pensamentos, das divagações existenciais. São dois solitários desconhecidos que nem se olham porque nem percebem no outro a saída . É a exposição explícita do auto-individualismo compulsório a que os indivíduos se impõem: “Cada um é cada qual, cada um é cada onde, cada um é cada como, cada um é cada quando, cada um é cada. E se ignoram.” 8

Em Afonso Romano, a prática da alteridade, por ser um exercício constante do autor durante a tecitura textual, é mais acessível e rapidamente assimilada pelo leitor. A todo momento o narrador propõe um velado convite para que os personagens se fundam, buscando um ao outro: “Estão num mesmo ponto de ônibus, mas são também dois pontos que pressupõem que algo vai acontecer. E dois pontos estão sempre no meio de uma sentença em construção. Mas estes são dois pontos ainda sem discurso. Não há sujeitos, predicados e complementos entre eles. Não se falam. Não se olham. Não se vivem. Parecem-se mais a um ponto final. Mas poderiam ser um ponto de partida.”

Com discrição, o autor propõe, também, ao leitor, para que não fique indiferente à solidão das personagens e se invista na pele do masculino e do feminino a fim de sentir a tristeza das duas existências fictícias: “Deve ser por isto que Deus, às vezes, manda um cometa, um profeta, um arco-íris, uma tragédia qualquer no estremecimento das ferragens e ossos. É para que os homens convirjam num mesmo ponto, num mesmo instante, e rompam a segregada solidão procriando a jubilosa parceria.”

Assim, como a Sra. Jorge B. Xavier, o homem e a mulher do segundo texto em análise estão à procura de justificativa para suas vidas; o diferencial é que a mulher perdida no Maracanã desencadeia ações reiteradamente ansiosas para vislumbrar a saída; neste último, ao contrário, o casal tenta a solução por meio da inércia, do distanciamento reflexivo, do alheamento em relação à sociedade e aos seres que a compõem. Em Clarice a protagonista reage; em Affonso os personagens são antagonicamente pacientemente agentes.

O autor, em postura similar à da autora, sugere, propõe que o leitor tenha compaixão das personagens e da solidão que as separa: “Já estou no meio do meu olhar textual e até agora nenhum olhou para o outro.” ; e sentencia o quanto é doloroso o não reconhecimento do outro: “Que terrível, que incomensurável, que intransponível a solidão no corpo de dois desconhecidos. Que triste, que aviltamento, que desperdício entre dois desconhecidos se anulando num duro silêncio, no mesmo ponto, na mesma rua, na mesma vaga companhia.”

Finalizando, diferentemente de Clarice, Affonso Romano propõe como saída a possibilidade do encontro, de um se colocar no lugar do outro – alívio para narrador, personagens e leitor: “Vontade e ímpeto não me faltam de chamar agentes de turismo e conectá-los pelo mar dos beijos, pelos fios da paixão, pelo vôo das mãos desembarcando no aeroporto dos afetos. (...) Dois corpos são duas possibilidades de um agora. E, se souberem, podem, entre si, num ponto cinza do dia, desencadear a aurora.”

 


INDIVIDUALISMO COLETIVO

 

O estudo comparado dos textos citados evidencia que ambos contém temática idêntica, porém recriada de forma não similar. Neles se fala do individualismo do homem na comunidade pós moderna, da solidão causada pela falta de identidade consigo mesmo e com o outro, problemáticas inerentes à desfragmentação dos valores ético-sociais, das desigualdades sociais acentuadas... Atualmente, o homem é um personagem descartável no cenário da vida, tentando se apegar a folhas aleatórias de um texto que foi rasgado e espalhado pelo palco. Assim, sem rumo e direção, sob a luz embaçada de refletores obsoletos e em meio a um cenário roto, tenta reconstruir sua história e a de seus pares sem saber ao certo dos atos que pratica. Trata-se de um ser em desacordo consigo mesmo na perseguição frenética de identidade cultural, de resposta... o reconhecimento de si no outro, no alter , na sociedade.

E, momentaneamente, essa conquista – lenitivo literário - pode ser conseguida através da literatura, da leitura de textos que permitam a vivência dos personagens e, em conseqüência, dêem vazão a questionamentos e idéias que desembarquem na travessia da sensação de uma existência mais segura, solidária e coletiva, com menos dor e menor grau de medo de viver, mesmo tendo a certeza de não ainda saber de onde se veio, quem se é, por que se está aqui e para onde se vai. Enfim, resignando-se com a máxima do autor de Dom Quixote de La Mancha, expressa em alusão ao patético personagem de mesmo nome da obra por ele gerada:

 

“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.” 9

 

 

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda e outros. Novo Aurélio – O Dicionário da Língua Portuguesa – Século XXI . Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira S. A., 1999.

Anais – IX Congresso Internacional Abralic 2004. ABRALIC – Associação Brasileira de Literatura Comparada. Http://www.abralic.org.br/congresso/anais.asp , 2004.

WALTY, Ivete Lara Camargos. O que é ficção. São Paulo: Editora Brasiliense S. A., 1984.

CAMPEDELLI, Samira Youssef; JÚNIOR, Bejamin Abdala. Clarice Lispector – Literatura Comentada . São Paulo: Editora Abril Cultural, 1981.

CAMPEDELLI, Samira Youssef; JÚNIOR, Bejamin Abdala. Clarice Lispector – Literatura Comentada . São Paulo: Editora Abril Cultural, 1981.

CAMPEDELLI, Samira Youssef; JÚNIOR, Bejamin Abdala. Clarice Lispector – Literatura Comentada . São Paulo: Editora Abril Cultural, 1981.

LISPECTOR, Clarice. Onde Estivestes de Noite? Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S. A., 1994.

SANT´ANNA, Affonso Romano. Um homem, uma mulher. Belo Horizonte: jornal Estado de Minas, Caderno Cultura, página 8, 11-01-2004.

SAAVEDRA, Miguel de Cervantes de. Dom Quixote de La Mancha . São Paulo: Editora Abril Cultural, 1981.