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Representação e problematização de questões de identidade cultural na ficção de Sandra Cisneros e Julia Alvarez: o “entre-lugar”
Adriana Macedo Nadal Maciel (UFSM)
Vera Lúcia Lenz Vianna (UFSM)
Introdução
As crises econômicas e/ou políticas que têm afetado a maioria dos países da América Latina são responsáveis pela migração de muitas pessoas para os Estados Unidos, país que representa melhores oportunidades financeiras e liberdade de expressão. Os imigrantes provenientes do México levaram aos Estados Unidos sua cultura e deram origem a uma nova geração, conhecida pelo termo “ chicano ” (pessoa nascida nos Estados Unidos, mas de pais imigrantes mexicanos). Os “ chicanos ” e os demais filhos de imigrantes hispano-americanos são bilíngües e apesar de viverem duas realidades distintas (a hispânica e a norte-americana), muitas vezes sentem-se sem pátria, tendo a sensação de não pertencerem a nenhum desses contextos sociais. Essa análise compara uma obra escrita por uma chicana e outra escrita por uma dominicana-americana, refletindo sobre questões relativas à inserção social e aos conflitos daí decorrentes que se encontram problematizados nesses romances.
Ao comentar o momento de trânsito pelo qual a humanidade está passando nessa virada do século, Homi Bhabha 1 argumenta que esse é o momento em que espaço e tempo se cruzam para produzir figuras complexas de diferença e identidade, passado e presente, interior e exterior, inclusão e exclusão. O afastamento das singularidades de “classe” ou “gênero” como categorias conceituais e organizacionais básicas, resultou em uma consciência do posicionamento do sujeito classificado através de raça, gênero, geração, local institucional, localidade geopolítica, orientação sexual, entre outros. O que, para ele, é teoricamente inovador e politicamente crucial é a necessidade de passar além das narrativas de subjetividades originárias e iniciais e de focalizar aqueles momentos ou processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais. Esses “entre-lugares” fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular ou coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria idéia de sociedade.
A temática presente nas obras que são objeto dessa análise exterioriza o que seja viver em “entre-lugares” através das experiências das protagonistas, que têm em comum o fato de serem imigrantes hispano-americanas, mulheres, pobres, “de cor” e, principalmente, pelo fato de buscarem a solução para seus conflitos identitários, pois, na visão das mesmas, elas residem em um lugar que não lhes pertence. CUCHE 2, ao descrever a concepção subjetivista da identidade, enfatiza a questão da herança cultural, ligada à socialização do indivíduo no interior de seu grupo. Do mesmo modo, o autor aponta o aspecto relacional e situacional da identidade. Relacional porque a identidade existe sempre em relação a uma outra; e situacional porque uma mudança de situação de relações interétnicas pode modificar profundamente a imagem de um grupo. Essas noções se encontram dramatizadas de certa forma ao longo da trama romanesca dos textos, convidando à reflexão e, quem sabe, a um posicionamento por parte do leitor.
As obras The House on Mango Street 3, de Sandra Cisneros e How the García Girls Lost their Accents 4, de Julia Alvarez têm uma temática semelhante no sentido em que ambas representam as dores e os conflitos de imigrantes femininas que, longe de seu habitat, buscam aceitação e um espaço na sociedade norte-americana, tendo que enfrentar as barreiras do racismo, do machismo e do preconceito social. Pertencente a uma família de sete filhos, filha de pai mexicano e de mãe mexicano-americana, Sandra Cisneros mostra em suas obras a riqueza de personagens existentes nessa mistura de culturas - a mexicana e a americana. Palavras em espanhol, feriados mexicanos, comida tipicamente mexicana e práticas religiosas estão presentes na vida de personagens que, com o mesmo respeito dedicado às coisas de sua terra, cantam o hino nacional americano e recitam a promessa de lealdade aos Estados Unidos da América.
Da mesma forma, Julia Alvarez, que chegou aos Estados Unidos ainda menina em 1960, escreve com a intenção de mostrar a riqueza de sua etnia. Certa vez, comentou: “Sou dominicana, hífen, americana. E como escritora acredito que as coisas mais emocionantes acontecem no campo das possibilidades desse hífen – o lugar onde dois mundos colidem ou se unem.” Tanto Cisneros quanto Alvarez desafiam os paradigmas de uma hegemonia branca e de uma sociedade dominada pelo homem, mostrando que as mulheres latinas têm voz. Obras como The House on Mango Street, Old Maids e Las Girlfriends , de Sandra Cisneros e How the Garcia Girls Lost their Accents, Something to Declare e Orchids , de Julia Alvarez mostram as dificuldades para mulheres ditas “de cor” crescerem na sociedade americana, oferecendo reflexões sobre ser uma mulher latina e aceitar suas raízes hispânicas dentro da sua existência americana.
A narrativa de The House on Mango Street, de Sandra Cisneros, inicia com um capítulo que introduz o tema chave do romance: a experiência da jovem narradora mexicana-americana, chamada Esperanza, de mudar-se constantemente de um bairro pobre de Chicago a outro. Esse deslocamento contínuo acentua a sensação de desalojamento da personagem central do romance e sua necessidade de auto-afirmação face a um contexto social marcado por relações conflitivas de dominação e subordinação. Neste primeiro capítulo e no decorrer de todo o romance percebe-se a importância do conceito de “casa” para a narradora, que deseja morar em um lugar onde os canos d'água funcionem, onde haja uma escada de verdade “como nas casas da TV” e onde haja um pátio com árvores. A reação de espanto de uma freira de sua escola ao avistar o lugar feio e decadente onde a pequena aluna morava, contribui para que Esperanza se sinta insignificante. Na narrativa, a vontade de possuir uma casa de verdade também confunde-se com o desejo de conquistar seu próprio espaço na sociedade:
Where do you live? She asked.
There, I said pointing up to the third floor
You live there?
There. I had to look to where she pointed – the third floor, the paint peeling, wooden bars Papa had nailed on the windows so we wouldn't fall out. You live there? The way she said it made me feel like nothing. There. I lived there. I nodded.
I knew then I had to have a house. A real house. One I could point to. But this isn't it. The house on Mango Street isn't it. For the time being, Mama says. Temporary, says Papa. But I know how those things go (p.5).
Em How the García Girls Lost their Accents, Julia Alvarez, traz a história de uma família originária da República Dominicana, que emigra para os Estados Unidos nos anos 60, fugindo da ditadura de Trujillo. As quatro irmãs García – Carla, Sandra, Yolanda e Sofia – chegam a Nova Iorque e encontram uma vida completamente diferente daquela existência que deixaram na ilha. A forma com que o fluxo narrativo dessa obra se movimenta – do presente para o passado – representa o movimento do próprio imigrante, que está sempre olhando para trás, lançando um olhar nostálgico para as coisas e pessoas de sua terra. O romance de Alvarez inicia no ano de 1989, em uma visita de Yolanda, já aos trinta e nove anos, à sua terra natal. A partir daí, a narrativa volta no tempo, descrevendo a trajetória dessa família, que luta para inserir-se nesse novo contexto, mas que ao mesmo tempo, vive presa ao seu antigo mundo.
A preocupação com a moradia da família e a constatação da precária condição financeira dos imigrantes, impossibilitados de morarem dignamente, também é um dos temas abordados aqui.
We didn't feel we had the best the United States had to offer. We had only second-hand stuff, rental houses in one red-neck Catholic neighborhood after another, clothes at Round Robin, a black and white TV afflicted with wavy lines. Cooped up in those little suburban houses, the rules were as strict as for Island girls, but there was no island to make up the difference (p.107).
A família constitui outro elemento em comum na construção dessas duas narrativas, sendo retratada como uma instituição alicerçada em sentimentos nobres. Para as protagonistas de ambos os textos, os laços familiares representam segurança e proteção, além de serem, evidentemente, o elo mais forte de ligação com seus países de origem. No texto de Cisneros, a singeleza e a maneira poética com que Esperanza, protagonista-narradora de The House on Mango Street , descreve o cabelo de sua mãe revela a sua satisfação em estar perto de sua genitora, que tem o cabelo “sweet to put your nose into when she is holding you” (p.6). A sensação de conforto, aconchego e proteção é representada pela imagem da mãe, que também é vista pela narradora como o ideal feminino de beleza e bondade. Esse texto também mostra a figura do pai como provedor - como na tradicional família mexicana - e a consciência da dependência econômica e emocional dos outros membros da família em relação à figura paterna. De maneira semelhante, na obra de Alvarez, o laço afetivo entre os membros da família é o que os mantêm fortes. O respeito e a dedicação ao pai permanecem mesmo depois das filhas terem se tornado adultas e terem suas próprias famílias: “they were passionate women, but their devotions were like roots; they were sunk into the past towards the old man.” (p.24).
Apesar da forte ligação e do respeito demonstrado no convívio familiar, nessas duas obras observa-se, em alguns momentos, o conflito gerado em razão do distanciamento da cultura de origem. Por um lado, a geração mais velha não quer que os mais jovens percam a sua identidade hispânica. Por outro lado, a geração mais nova precisa desfazer-se de alguns conceitos e, de alguma forma, negar sua herança cultural para poder inserir-se nesse novo contexto. No romance de Alvarez, há o desejo constante das protagonistas serem aceitas pelo grupo, principalmente na fase da adolescência, na qual descobrem o gosto por picardias comuns ao jovem americano.
We began to develop a taste for the American teenage good life, and soon, Island was old hat, man. [...] By the end of a couple of years away from home, we had more than adjusted (p. 108 e 109).
BARKER & GALASINSKI 5 chamam a atenção para o fato de que a subjetividade e a identidade marcam a composição das pessoas em relação à linguagem e à cultura, observando que a identidade como conceito é pertinente às descrições de pessoas com as quais nos identificamos emocionalmente. A identidade é tida como uma essência do eu que é expressa em representações reconhecíveis por nós mesmos e por outros. Em outras palavras, a identidade é uma essência significada através de signos
relacionados às preferências, crenças, atitudes e estilos de vida. Em How the García Girls Lost their Accents , verifica-se a preocupação dos pais em relação ao comportamento das filhas e o desejo de que as mesmas sejam bem sucedidas nos Estados Unidos, conquistando posições dignas nos estudos e no mercado de trabalho: “Ay, Yoyo, you're going to be the one to bring our name to the headlights in this country!” (p.143). Entretanto, os membros mais velhos da família não querem admitir a possibilidade de uma ruptura com suas raízes dominicanas. A mãe, esmera-se para conseguir uma escola melhor para as filhas, “where we would meet and mix with the right kind of Americans” (p.108). Porém, ao tomarem consciência de que estavam “perdendo as meninas para a América” a decisão tomada foi a de mandar as quatro moças passarem as férias de verão na ilha, para que não perdessem o contato com “ la familia ” (p.109). Observa-se, assim, que mesmo almejando que as filhas “façam a América”, a geração mais velha lança mão de mecanismos de resistência para evitar que haja uma identificação, por parte da geração mais jovem, com esse novo contexto cultural. Esse conflito entre as duas gerações ilustra a força mobilizadora excepcional de tudo o que tange a identidade. Os indivíduos investem todo o seu ser social na preservação das idéias que eles têm sobre si, ou seja, das idéias que os identificam como “eu-nós” em oposição aos “outros-eles”. De um lado encontra-se a geração mais velha oferecendo resistência às mudanças e lutando para a perpetuação de práticas sociais recorrentes. Do outro lado, a geração mais nova, representada por Esperanza e as meninas Garcia, mais aberta e receptiva às transformações e que sente, aparentemente, com maior intensidade, a necessidade de ocupar um lugar efetivo na história da nova sociedade.
O movimento de travessia de uma cultura para outra cultura que as personagens de Sandra Cisneros e Julia Alvarez enfrentam, contribui para desencadear uma crise de identidade nas meninas. Ao mesmo tempo, esse complexo deslocamento chama a atenção para uma mudança estrutural a respeito da localização da identidade no mundo real. Se anteriormente os indivíduos sentiam-se encaixados em um contexto cultural e social, hoje, as identidades culturais de classe, etnia, nacionalidade, sexualidade e raça, entre outras, possuem fronteiras mais diluídas, que provocam essa sensação de fragmentação dramatizada nos romances.
O tom tristonho conferido ao comentário de Esperanza em relação ao seu nome expressa a dificuldade de identificação da personagem com uma palavra que não mostra o seu verdadeiro “eu”. Ao compará-lo a imagens tristes – “It is the Mexican records my father plays on Sunday mornings when he is shaving, songs like sobbing” (p.10) – e a símbolos ordinários – “It is like the number nine. A muddy color” (p.10) – a narradora demonstra tristeza por ter recebido um nome de cunho tão melancólico, e ressentimento por achar-se alguém comum, diferente de muitas pessoas de nomes ditos “normais” que ela conhece. Ela sabe também que “Esperanza” está relacionado à tradição familiar, pois o herdou de sua bisavó e queixa-se ao relatar a variedade de pronúncias diferentes que o nome recebe na escola, as “if the syllables were made out of tin and hurt the roof of your mouth” (p.11). Sua vontade de mudá-lo é um desejo de libertar-se desse estigma que o próprio nome carrega: o da esperança de uma vida melhor, que ainda não foi conquistada nem por sua família, nem por grande parte dos imigrantes de sua raça.
Tanto para Esperanza como para as meninas García, a questão de pertencimento é ilustrada através de momentos em que elas tomam consciência de que o grupo dominante ainda as vê como “o outro”. Na obra de Alvarez, a jovem Yolanda indigna-se ao tomar conhecimento de que para os pais do namorado, ela não passava de uma ‘lição de geografia', alguém que possibilitaria ao filho expandir seu conhecimento sobre outro país:
He had told them he was seeing “a Spanish girl,” and he reported they said that should be interesting to find out about people from other cultures. It bothered me that they should treat me like a geography lesson for their son” (p.98).
Em The House on Mango Street é Esperanza que refere-se aos alunos que almoçam na cantina da escola como “ special kids ”, mostrando assim que ela mesma ainda se vê como “o outro”. O sentimento de inferioridade em relação aos demais alunos, a consciência sobre a própria pobreza material e as sucessivas situações humilhantes, levam a personagem a buscar mudanças. Ao querer almoçar na escola e não em casa, Esperanza expressa o desejo de fugir, nem que seja por um breve período
do dia, da dura realidade vivida por ela e por sua família. A afirmação de HALL 6 de que “o sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um 'eu' coerente”, ajuda a entender o que se passa com a personagem quando está junto aos membros de sua sociedade de origem e quando está com os integrantes da sociedade norte-americana.
Cisneros também mostra em sua obra a problemática da discriminação enfrentada pelos imigrantes latinos, que, além de serem associados à pobreza, também são associados à violência. Na sua percepção quase infantil, uma vez que a narrativa enfoca a trajetória da personagem, principalmente durante a infância e a adolescência, Esperanza descreve o medo que as pessoas de seu bairro causam naqueles que ali entram por acaso ou porque estão perdidos. A jovem protagonista, porém, já percebe que há um estranhamento em relação ao segmento dominante, ou seja, o dos brancos anglo-saxões e em relação aos chicanos , que representam um outro estar no mundo: “They think we're dangerous. They think we will attack them with shiny knives” (p.28). Da mesma forma, Alvarez mostra em seu texto a hostilidade sofrida por Carla García quando criança na escola, sendo humilhada e maltratada por colegas “louros”, que lhe gritavam: “ Go back to where you came from, you dirty spic!” (p.153). Verifica-se que os sistemas de idéia e de comportamento tanto do grupo dominante como do grupo dito dominado variam sensivelmente e que as representações de um grupo em relação ao outro são antagônicas.
Embora o universo ficcional de Sandra Cisneros e Julia Alvarez estejam voltados a determinadas regiões dos Estados Unidos – Chicago e Nova Iorque, respectivamente – os conflitos e os problemas enfrentados pelas personagens aplicam-se à toda comunidade hispânica naquele país. As duas obras destacam o difícil deslocamento de uma cultura para outra e descrevem tal deslocamento como um processo lento e contínuo, ilustrado por preconceitos, humilhações e o sonho de um futuro melhor. Da mesma forma, o conflito enfrentado pelas personagens, o processo de assimilação de novas formas de valor e sentido que algumas delas gradativamente passam a incorporar, endossa a noção de que a identidade não é algo fixo, permanente, mas algo provisório que está sujeito à redefinições contínuas à medida em que movimentos de transformação social se espraiam por quase todo o planeta, colocando contextos do globo em interconexão uns com os outros.
BHABHA, H.K. O Local da Cultura. Trad. Myriam Ávila et al. Ed. UFMG. Belo Horizonte: 395 p. 1998.
CUCHE, D. A Noção de Cultura nas Ciências Sociais. Trad. Viviane Ribeiro. EDUSC. Bauru. 256 p. 1999.
CISNEROS, S. The House on Mango Street. Vintage Books. New York. 110 p. 1991.
ALVAREZ, J. How the Garcia Girls Lost their Accents. Plume. New York. 290 p. 1992.
BARKER, C; GALASINSKI, D. Cultural Studies and Discourse Analysis. Sage Publications. 192 p. 2001.
HALL, S. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Trad. Tomaz T. da Silva e Guacira L. Louro. 4. ed. DP & A. Rio de Janeiro. 102 p. 2000.