VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

Criação e expressão em textos memorialistas de Graciliano Ramos
Adenize Aparecida Franco (UFSC)

Sobre a memória, Jaques Le Goff 1 comenta que esta caracteriza-se pela sua função social. Através da comunicação entre os seres é que as informações vão sendo processadas. E na ausência do acontecimento em si, e de sua projeção temporal no momento preciso, existe a possibilidade de se recuperar o fato através de sua narração. Logo, um processo circular e comunicativo assume o centro dessa função social. .

As imagens 2 podem ser consideradas símbolos fundamentais desse processo. Através delas conseguimos representar e recuperar o passado. Seja esse processo no plano real, do nosso cotidiano. Seja no plano da abstração. No entanto, nesse segundo plano, acabamos por evocar um outro conceito de difícil definição: imaginação. Pois, a imagem recuperada pela imaginação pode não revelar o que se acredita como real, mas configurar em si mesma uma nova realidade.

Por isso, a imagem, quando do passado, estabelece a percepção de distância entre o ontem/outrora e o já/agora. Nesse sentido, Jeanne Marie Gagnebin 3 comenta que, memória implica a idéia de rastro, presença de uma ausência, vestígios de algo que pertenceu a um determinado tempo e espaço e que vão sendo localizados e recuperados para fundamentar a idéia total. A reconstrução da distância temporal é inerente ao processo da memória.

Partindo desses pressupostos, pretendemos discutir e examinar as interpenetrações do plano da memória existentes nas obras Infância (1945) e Angústia (1936), do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953).

Marcado por uma linguagem poética e subjetiva, Infância 4 recupera os tempos em que o autor morava em Buíque e Viçosa, interior de Alagoas. A série de quadros revela um mundo que começa a ter contornos definidos para o menino/homem-narrador. Angústia 5, revela-se um romance marginal em que o narrador-escritor Luís da Silva demonstra algumas características semelhantes às do menino Graciliano descrito nas páginas de Infância .

Com efeito, Angústia e Infância são obras que evocam um passado análogo ao realizar um processo de problematização da memória. Recuperam-se as lembranças e realiza-se um trabalho a partir e sobre elas num presente fissurado e suturado entre o passado e o futuro.

Álvaro Lins, um dos primeiros críticos de Graciliano, comentou que, em termos formais Angústia era “um livro de memórias, um diário, um inventário, um testamento.” 6 Dessa assertiva, percebemos no plano ficcional de Angústia, “as recordações da infância” invadindo a narrativa e reconstruindo o passado conturbado de Luís da Silva. Em função disso, a narrativa caracteriza-se pela transitoriedade temporal, não se referindo somente a uma experiência pretérita, mas também, a um passado recente, uma realidade imediata e a um futuro imaginado.

Logo, nessa confusão mental, as lembranças insistem em aparecer modificadas pelo processo de criação daquele que narra a história. Os passados constróem-se mutuamente, intercalando-se na narrativa de forma a caracterizar a identidade desse personagem conturbado e fragmentado. Ficcionalmente são trabalhados elementos conhecidos do autor real, como o interior de Alagoas, terra natal de Graciliano e também da personagem Luís da Silva. Assim como personagens que freqüentam tanto Infância quanto Angústia. De acordo com Otávio de Faria, há a reiteração dos aspectos memorialísticos sobre essas duas obras de Graciliano. Personagens que se apresentam nas memórias de Luís da Silva também aparecem nas histórias do narrador de Infância. Evidência de um passado comum, cuja origem está no criador dessas histórias.

 

“Dez ou doze reses, arrepiadas no carrapato e na varejeira, envergavam o espinhaço e comiam o mandacaru que Amaro Vaqueiro cortava nos cestos. O cupim devorava os mourões do curral e as linhas da casa.”(A, p.11)

 

“As sombras me envolveram, quase impenetráveis, cortadas por vagos clarões: os brincos e a cara morena de Sinha Leopoldina, o gibão de Amaro Vaqueiro, os dentes alvos de José Baía, um vulto de menina bonita, minha irmã natural, vozes ásperas, berros de animais ligando-se à fala humana.”(Nuvens, I, p.14)

 

Em função das relações estabelecidas, podemos tentar uma significação em Angústia a partir de Infância. As memórias da vida real buscam explicar o mundo ficcional do autor. Os personagens reais que se apresentam em Infância, ressurgem no romance Angústia e desencadeiam o processo memorialístico que, seguidamente irrompe do pensamento de Luís da Silva.

Percebemos assim que, Infância não revela uma série de contos semelhantes aos de fadas ou fábulas que tanto seduzem e atraem as crianças. Um mundo de extremo realismo apresenta-se aos olhos do leitor.

Essa realidade violenta também será de Luís da Silva, ao debater-se para aprender a nadar tendo sido jogado no ribeirão pelo seu próprio pai, ou ao se sentir abandonado, um “bicho”, “sozinho no mundo”, quando da morte do avô e do pai. Não há distanciamento entre essas duas realidades que se encontram na violência, na dor, na solidão, na miséria humana e na injustiça. Essas páginas transportam o leitor para o mundo romanesco de dor, tristeza e solidão que pouco ou nada transmitem de “doce encanto”. E em função dessa compreensão é que a biografia de Graciliano Ramos pode ser uma possibilidade de explicação para esse tom áspero, rude e objetivo que emana de suas obras

A relação biográfica do autor com sua criação literária não significa enquadrá-lo numa produtividade autobiográfica pois, desmereceríamos a ficcionalização a que o autor recorre no ato da criação artística. Por isso, nos textos em estudo, poderíamos dizer que, o caráter autobiográfico assume a posição de ficção autobiográfica, estudada por Philippe Lejeune 7.

Para o teórico, a autobiografia é uma “narrativa introspectiva em prosa, feita por uma pessoa real sobre sua própria existência, quando enfatiza sua vida individual, em particular a história de sua personalidade.” Enquanto a ficção autobiográfica refere-se ao fato biográfico que parte do indivíduo e torna-se ficção. Denominado por Lejeune de romance autobiográfico , “textos ficcionais nos quais o leitor tem razões para desconfiar, a partir de similitudes, que haja identidade entre autor e personagem, embora este último tenha optado por negar esta identidade ou simplesmente não afirmá-la”.

De todo modo, o objeto fundamental da autobiografia é o nome próprio, o trabalho sobre ele e sobre a assinatura, o que Philippe Lejeune chama de “pacto autobiográfico”. Esse pacto consiste num contrato entre o leitor e o autor, e a importância dessa relação determina a atitude do leitor diante da obra.

Wander Mello Miranda 8 argumenta que, a diferença crucial entre romance e autobiografia depende desse pacto de leitura estabelecido entre o autor e o leitor, contudo, não é fácil precisar o grau de distanciamento que há entre o fato e a ficção.

Trata-se de uma dificuldade que até mesmo os próprios autores procuram esclarecer. No caso de Graciliano Ramos, a afirmativa aparece no relato “Alguns tipos sem importância” 9, incluído no livro de crônicas Linhas Tortas (1962):

 

“Todos os meus tipos foram constituídos por observações apanhadas aqui e ali, durante muitos anos. É o que penso, mas talvez me engane. É possível que eles não sejam senão pedaços de mim mesmo e que o vagabundo, o coronel assassino, o funcionário e a cadela não existam.”

 

O mundo empírico do autor mostra-se a partir do momento que deixa de pertencer à memória e à experiência e transforma-se ficcionalmente. A experiência dessa identidade autoral leva-o a trabalhar uma “multiplicidade de papéis”. Desse modo, há a possibilidade de se estabelecer tanto o autor da capa quanto o narrador das histórias de Infância como uma identidade que vai sendo construída no decorrer do processo literário. Não se trata de afirmar que Infância é um livro autobiográfico. Mesmo porque, a obra foge a determinadas características estabelecidas por Philippe Lejeune para classificar obras autobiográficas. Tampouco poderia ser denominada romance autobiográfico uma vez que não se estrutura como romance.

O que se discute é o pacto de leitura estabelecido entre o leitor e o autor para que se acredite que muitas passagens do texto literário referem-se à infância do autor. Esse acordo permite ao leitor a crença no fato e no ficcional. A ficção parte do factual e aquele que a lê, toma como verdade absoluta sabendo, no fundo, que não se trata de uma verdade tal como se apresenta. Também é visível esse contrato em Angústia , já que a obra reflete a autobiografia de um personagem que mesmo distante de ser o autor da obra, ainda assim possui alguns pontos de similaridades com a vida de Graciliano, como afirmou Ivan Teixeira “ Angústia possui estrutura de autobiografia, podendo também ser entendido como espécie de diário íntimo, (...)”. 10.

De certa forma, verificamos uma impossibilidade em se afimar essas duas obras como romances autobiográficos. Memória e autobiografia não possuem a mesma significação. A distinção entre elas é fixada por Wander Miranda 11

“(...) a distinção entre memorialismo e autobiografia pode ser buscada no fato de que o tema tratado pelos textos memorialistas não é o da vida individual, o da história de uma personalidade, características essenciais da autobiografia. Nas memórias, a narrativa da vida do autor é contaminada pela dos acontecimentos testemunhados que passam a ser privilegiados. Mesmo se se consideram as memórias como a narrativa do que foi visto ou escutado, feito ou dito, e a autobiografia como o relato do que o indivíduo foi, a distinção entre ambas não se mantém muito nítida. O mais comum é a interpenetração dessas duas esferas, (...)”

 

 

Temos, então, a dificuldade de determinar a diferenciação entre uma propriedade e outra. E os critérios utilizados para que se precise o que é memória e o que é autobiografia ora tendem para o subjetivismo ora para a metodologia, sem discutir exatamente as características distintas de cada uma. Apesar dos postulados diferenciadores acima não serem “convincentes”, a autobiografia pode ser compreendida como uma auto-representação, enquanto as memórias, uma cosmo-representação. Aquela porque volta-se para o eu numa condição de profundidade maior e esta porque o processo de agenciamento do sujeito não submete-se somente à sua individualidade mas sim, a todo um painel que configura sua construção, que é o fator empírico de sua formação.

O que o crítico comenta ainda é o caso de a autobiografia não ser evidenciada somente no pacto autobiográfico, mas também, a partir de formas mistas ou intermediárias como o “pacto fantasmático” 12. Esse pacto é um dos muitos que Graciliano Ramos tenta estabelecer com o leitor. Ora em Angústia ora em Infância, o leitor é levado a acreditar em fatos que “podem” realmente ter acontecido, assim como podem ter sido simplesmente criados a partir de um fragmento de imagem da memória. Nesse jogo de sedução através da leitura é que a obra do escritor vai se configurando.

O fundamental é que não devemos conceber essas obras como um trabalho exclusivamente autobiográfico e memorialístico, mas compreendermos o material literário que é fornecido pelo autor. Também, não significa que se deve ler Infância para compreender melhor seus romances. Ou se ler Angústia, para encontrar em Luís da Silva, um Graciliano que se vê vítima da elite social. Devemos ler as obras para perceber como esses pactos de leitura são componentes fundamentais de sua criação.

Se antes abordamos o processo de criação que o autor desenvolve em seus escritos, partimos agora para a representação que essa criação evoca. Em Angústia, o texto se apresenta de forma fragmentada, estabelece um vai e vem constante que é prenunciado pela infância do narrador Luís da Silva. Para o crítico Antonio Candido 13, a construção narrativa é fragmentada, o ritmo é um vai e volta do presente para o passado, há um constante estado de devaneio e uma “deformação expressionista” é apresentada através de uma visão subjetiva. Essas considerações nos levam a retomar o critério criativo de Graciliano.

Primeiro, o autor parte de elementos de sua experiência infantil apresentando um menino que vive só, em contato com figuras masculinas que vão se perdendo no meio do caminho, e somente as lembranças (algumas sempre recuperadas, como a cobra no pescoço de seu avô, José Baía, Sinha Germana ou o vaqueiro Amaro) insistem em permanecer. Cabe lembrar que, o trajeto infantil de contato com a injustiça, a violência e a solidão reaparece em Infância, o que permite entrever lampejos biográficos do autor Graciliano Ramos agora fazendo parte da autobiografia da personagem ficcional Luís da Silva. Se o autor real parte de experiências próprias para criar um personagem é visível a tentativa de manifestar o impacto que essa impressão lhe causou. No entanto, não basta ao ficcionista detalhar essa experiência de forma naturalista, convém expressar esse impacto de forma única, que além de representar seu estilo consiga atingir o leitor.

Segundo, a deformação expressionista que Antonio Candido encontra em Angústia vem do “conhecimento seguro da realidade normalmente percebida e das técnicas destinadas a exprimi-la”. Graciliano Ramos, enquanto autor, apodera-se da realidade, ou melhor, das realidades (passada, presente, futura) e realiza um trabalho de ficcionalidade a partir delas. Esse trabalho, vindo da apreensão do mundo exterior manifesta-se em imagens espontâneas, que atingem uma outra dimensão.

Dessa forma, podemos ler nas suas obras, em especial Angústia, matérias da reação subjetiva frente à realidade. Não é somente o real que se apresenta no personagem e no seu delineamento, mas uma resposta emotiva do autor que não vê somente um acontecimento a ser narrado e sim, a possibilidade de captar um exterior dissonante e representá-lo numa deformação de discurso, de tempo e de estrutura.

Portanto, em concordância a Antonio Candido quando diz que “os romances de Graciliano concatenam-se num sistema literário pessimista”, somos levados a crer na necessidade do autor em colocar em exposição almas torturadas, fragmentadas, num pêndulo entre o êxtase e a desesperança. E, se o autor expressa a angústia do ser humano através de um personagem fictício, ele segue os elementos já preconizados pela vanguarda expressionista. O principal deles, a criação artística que tem no impacto da expressão sua intensa subjetividade.

 

 

Para Pierre Janet, citado por Le Goff, o ato mnemônico é o “comportamento narrativo”, caracterizado pela sua função social, já que através da comunicação as informações vão sendo passadas de uns aos outros, como forma de reconstruir aquilo que já está ausente. LE GOFF, J . História e memória . Trad. Bernardo Leitão [et al]. 2 ed. Campinas, São Paulo: Ed. UNICAMP, 1992.

Em relação ao conceito imagem, opero aqui com a idéia de visão, representação mental de objetos, situações e percepções. Não ainda com a idéia de imagem numa perspectiva literária.

Conferência “ Memória a contrapelo da História” , ministrada pela Profª Jeanne Marie Gagnebin, a 05 de junho de 2003. UFSC/CCE/PGLB.

RAMOS, G. Infância. 10 ed. Rio, São Paulo: Record, Martins, 1975 .

RAMOS, G. Angústia. 53 ed. Rio, São Paulo: Record, 2001.

LINS, A. Posfácio de Vidas Secas. In: RAMOS, G. Vidas Secas. 65 ed. Rio, São Paulo: Record, 1994.

TORNQUIST, H. O pacto autobiográfico. Capítulo traduzido a partir do original: LEJEUNE, P. Le pacte autobiographique . Paris: Seuil, 1997. (ed. Aumentada).

MIRANDA, W. Corpos escritos: Graciliano Ramos e Silviano Santiago . São Paulo: EDUSP; Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1992.p.33

RAMOS, G. Linhas Tortas: obra póstuma . 6 ed. Rio de Janeiro, Record; São Paulo, 1978. p.194-97. O texto de Graciliano é de agosto de 1939.

Em artigo veiculado no Caderno2/Cultura do Jornal O estado de São Paulo, de 10 de setembro de 2000, intitulado “Angústia, uma teoria do romance de Graciliano.

MIRANDA , 1992, p. 36.

Para Wander Miranda, esse pacto fantasmático ocorre quando o leitor é convidado a ler romances não apenas como ficções que remetem a uma verdade de natureza humana, mas também como fantasmas reveladores de um indivíduo, o autor.

CANDIDO, A. Os bichos do subterrâneo . In: CANDIDO, A. Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos . Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.