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Homens imaginados: subjetividade, nacionalidade e masculinidade em Antero de Quental
Rosemary da Silva Granja (USP)
O historiador americano de origem judáica George Mosse, em The image of mam : The creation of modern masculinity (1996) 1, afirma que, tanto no séc. XIX como na primeira metade do séc. XX, expressões como "ser muito homem" e "é preciso ser homem" se tornaram verdadeiros lugares-comuns. Isso porque o ideal masculino 2 converteu-se em elemento básico para auto-definição da sociedade moderna, sendo aceito e adotado amplamente pelas diversas correntes da cultura, da política e das diversas ciências.
Para Mosse, esse ideal masculino moderno está tão bem adaptado e tão profundamente arraigado na cultura ocidental que, desde a sua criação, em algum momento da segunda metade do séc. XVIII, ele tem mudado muito pouco, projetando ainda as mesmas virtudes ditas masculinas, como força de vontade, honra e valor.
As mulheres também representavam valores sociais normativos, como a castidade e a inocência, mas era na figura masculina que se depositavam as esperanças sociedade. Ela simbolizava a necessidade de alcançar a ordem e o progresso, assim como as virtudes próprias da burguesia como o autocontrole e a moderação 3. Não havia como escapar do estereótipo masculino, pelo menos não dentro da sociedade, uma vez que até as ciências da época, obcecadas pela ambição de analisar e classificar tudo, confirmavam a idéia de haver imagens fixas de homem e de mulher, o que não deixava margem para individualidades.
Mosse explica que estudos científicos do séc. XVIII, que defendiam a idéia da comunhão entre o ser humano e a natureza, foram fundamentais, pois muitos estudiosos acreditavam haver sempre um propósito maior na base de todos os fenômenos e cabia ao cientista desvendá-lo, mediante a leitura dos sinais externos. Assim, esperava-se que a aparência externa fosse o espelho das virtudes interiores.
Ao final do séc. XVIII, surgiram estudos que discutiam como se poderia ler na fisionomia e na conformação física dos indivíduos dados referentes à personalidade e ao caráter. É celebre o estudo Essay sur la physuignomy, de 1781, em que Johann Kaspar Lavater apresentou sua teoria segundo a qual era possível reconhecer o caráter oculto de um ser humano mediante o exame do nariz ou dos lábios de uma pessoa. Para Lavater, "quanto mais virtuoso, maior é a beleza de qualquer ser humano; quanto menos virtuoso, mas feia é sua aparência". 4
O modelo de beleza masculina que orientava essas idéias era inspirado pelas esculturas de jovens atletas da antiga Grécia, que foram popularizadas pelo trabalho do arqueólogo J. J. Winckelmann (1717- 17768). Mosse lembra que Goethe admirava a escultura do Apolo de Belvedere e via no físico perfeito representado na estátua nua um motivo de humilhação para o homem de seu tempo 5.
A repercussão da idéia de união corpo e espírito assinala uma característica marcante da era moderna: a preocupação com a beleza. Um corpo em forma e bem torneado trazia efeitos benéficos para o espírito, por isso, no fim do séc. XVIII, difundiu-se pela Europa a prática de exercícios físicos, tanto o atletismo quanto os esportes de equipe. Muitos educadores e médicos recomendavam como forma de construção do caráter masculino a ginástica, porque ela ressaltava qualidades do homem varonil, como força, determinação, honestidade, serenidade.
Esses critérios dão forma ao que a sociedade burguesa da época julgava ser o modelo perfeito de masculinidade e ajudava a identificar seus inimigos; ou seja, aqueles que por não corresponderem ao padrão deveriam ser encarados como uma ameaça e postos à margem do convívio social 6. Mas como se formou o quadro de valores morais, as virtudes que um verdadeiro homem deveria refletir em seu corpo e rosto?
A formação dessa masculinidade moderna se fez com base em fragmentos de elementos dos modelos anteriores de virilidade que foram adaptados às necessidades da sociedade burguesa do séc. XIX. Do ideal de virilidade aristocrático e da tradição cavalheiresca aproveitou-se o senso de honra, que engloba o sangue-frio, a coragem, ousadia e compaixão.
Muitos dos atributos desejáveis no homem moderno tinham raízes nos valores das religiões cristãs, como capacidade de controlar as próprias paixões, força de vontade, ativismo e pureza mental, e sexual, o heroísmo e a noção de que um homem deve dedicar-se a um propósito mais alto.
Após a Revolução Francesa, os símbolos visuais ganharam importância e por isso eram comuns pinturas que retratavam heróis e mártires nacionais. Esse heroísmo, a capacidade de sacrificar-se por um ideal e de até morrer por ele, foi reforçado pela necessidade de sensibilizar o povo para a causa da emancipação nacional. Assim, o homem ideal - a "fortaleza serena" onde repousavam as mais elevadas virtudes morais - devia estar sempre pronto para defender não só sua honra e sua família, mas também sua pátria.
Some-se a esse conjunto de virtudes as que são oriundas da expansão burguesa como a ética do trabalho e o desejo de ascensão social. Philippe Ariès, na sua História social da criança e da família , conta que "Na sociedade antiga, o trabalho não ocupava tanto tempo do dia, nem tinha tanta importância na opinião comum: não tinha o valor existencial que lhe atribuímos há pouco mais de um século. Mal podemos dizer que tivesse o mesmo sentido". 7
A imagem de homem que se depreende dos estudos de George Mosse reflete o imaginário da sociedade ocidental do séc. XIX. Em Portugal, a idéia de um homem novo, cuja masculinidade seria vital para o projeto de modernidade do país, já é preocupação de Antero de Quental desde pelo menos 1871. É o que se percebe ao analisar Causas da decadência dos povos peninsulares 8, obra que oferece boa visão de como Antero interpretava a questão da decadência cultural, política e econômica de seu país e o papel que as diversas figuras masculinas tiveram nesse processo.
No texto está implícito o conceito de decadência e degeneração, que eram termos muito usados na segunda metade do séc. XIX, principalmente pelos médicos, para explicar o surgimento, no seio masculinidade sadia, de doenças físicas, desvios morais e até a loucura 9. A degeneração das gerações de varões portugueses a partir do Renascimento, apresentada num vasto quadro de vícios, é a explicação subjacente às causas apresentadas pelo poeta 10. Assim, Portugal deixou de progredir porque, na aurora da modernidade, faltaram homens que tivessem as qualidades para fomentar o progresso.
É o próprio Antero que afirma isso: "Nos últimos dois séculos não produziu a península um único homem superior, que se possa pôr ao lado dos grandes criadores da ciência moderna(...)" 11.
Ao expor sua teoria, o poeta estabelece uma hierarquia da masculinidade, uma vez que, enquanto faz o balanço da história de Portugal, aponta e pesa também suas personagens. Logo, analisando as figuras históricas citadas, cotejando as qualidades e defeitos a elas atribuídos, pode-se montar um amplo painel das características que seriam desejáveis, para Antero, no homem moderno ou homem novo, para usar termos do próprio poeta.
Não é preciso muito esforço para verificar que, no contexto das Conferências do Casino, homens novos/modernos seriam aqueles capazes de estruturar a nação em todos os níveis. É isso que mostra, por exemplo, a teoria proposta por Antero nas páginas iniciais de Causas da decadência ..., onde, após propor que todos os ouvintes reconhecessem a total decadência do país, afirma que o último grande momento dos portugueses ocorreu no início da Renascença:
Esse movimento só foi entre nós representado por uma geração de homens superiores, a primeira. As seguintes, que os deviam consolidar, fanatizadas, entorpecidas, impotentes, não souberam compreender nem praticar aquele espírito tão alto e tão livre: desconheceram-no, ou combateram-no. Houve, porém, uma primeira geração (...); e enquanto essa geração ocupou a cena, isto é, até meados de XVI, a Península conservou-se à altura daquela época extraordinária de criação e liberdade de pensamento 12.
Mais adiante, o poeta cita vários dos tais homens superiores: D Henrique, D. Dinis, D. Fernando, Camões, Gil Vicente, o filósofo Sanches, além de judeus e mouros, "porque são raças inteligentes, industriosas, cuja expulsão é quase uma calamidade" 13. Mas, se são apontados os homens superiores, por contraste, também é possível identificar os homens inferiores que contribuíram para a decadência portuguesa, como Felipe II, cuja monarquia foi "anómala e desnatural", Afonso VI, João V e Felipe V - exemplos acabados, para Antero, de "vício, brutalidade e adultério" - e D. Sebastião, "que enterrou em Alcácer Quibir a nação Portuguesa" 14. Para terminar esta lista, acrescentem-se, é claro, nobres e jesuítas, responsáveis diretos pela decadência portuguesa e espanhola, segundo a tese proposta pelo poeta. Como se sabe, texto de Antero propõe três causas: a Contra-Reforma Católica, que teria sufocado a liberdade moral e intelectual; o estabelecimento do regime absolutista, que impediu o crescimento da burguesia, e as conquistas ultramarinas, motivo pelo qual os iberos não investiram na industrialização, voltando a economia para a escravidão e exploração das colônias.
Antero também distingue "a geração de filósofos, de sábios e artistas criadores" dos "eruditos sem crítica, académicos imitadores"; e "os homens que vivem num recinto acanhado e quase sepulcral, com uma atmosfera turva pelo pó dos livros" dos renascentistas "homens vivos, movendo-se ao ar livre" 15. Note-se que a criatividade, a atividade e o vigor, como se viu, são características que George Mosse aponta como integrantes da identidade masculina no séc XIX.
As implicações entre nacionalidade, masculinidade e modernidade podem ser percebidas ao final o texto quando Antero pergunta aos ouvintes o que é necessário para que Portugal reencontre o seu lugar entre as nações européias. É ele mesmo quem responde, dizendo que é necessário um "esforço viril", que oponha ao passado o "espírito moderno". E afirma: "Somos uma raça decaída por ter rejeitado o espírito moderno(...)" 16. Parece claro que, para ele, somente pela intervenção histórica de homens dotados de determinadas qualidades, como os primeiros modernos, representados pelos homens da primeira geração renascentista, o país reencontraria o caminho do progresso.
Pôde-se perceber a presença de um modelo de masculinidade em consonância com as exigências da vida moderna. Esse homem ideal, além de compromissado com a família e o trabalho, deveria reunir atributos que o tornassem capaz de intervir na História e promover a regeneração da decadência em que o país mergulhara desde o Renascimento.
Os intelectuais de 1870 tentaram, em outras oportunidades, o modelo de homem que Portugal necessitava - não se pode esquecer a construção coletiva de Fradique Mendes, ou as propostas mais tardias de Eça de Queiroz como Gonçalo Mendes Ramires e Jacinto de Tormes. Enquanto Fradique Mendes era o modelo já construído, isto é, corroborava o paradigma desejado em que confluíam o intelectual, o poeta e o aventureiro; as propostas de Eça são mais ousadas, já que apresentam uma trajetória redentora para as elites - seja para a aristocracia decadente de Gonçalo, seja para o dandismo cosmopolita de Jacinto. O primeiro regenera a si e, por extensão, Portugal, nome também, vale recordar, do paquete que o levara a África - seu retorno triunfante segue o exemplário histórico de Mouzinho de Albuquerque - herói português nas terras africanas - recebendo, enfim, a consideração de que retornava "mais homem" e com direito a um final mais feliz do que o algoz do Gungunhana, o inimigo número um do Império. Igualmente, Jacinto "está firme" e "brotou" em Tormes - encontrou o "equilíbrio" e é quem promove a subida do progresso à serra, sem riscos dos excessos do Champs Elysée, 202. Pode ser redundante dizer, mas esses modelos de masculinidade já haviam sido apontados, não apenas em esboço, mas em arte-final, por Antero 17.
MOSSE, George L. The image of man : the creation of Modern Masculinity. Nova York/Oxford University Press, 1996. Aqui será usada a edição espanhola: MOSSE, George L. La imagen del hombre: l a creación de la moderna masculinidad . Madrid : Talasa Ediciones, 2002. Trad. Rafael Heredero.
Nesse sentido, Mosse aproxima-se de Pierre Bourdieu, autor de La domination masculine (1998), mas enquanto o trabalho do antropólogo francês busca desvendar o processo de naturalização da dominação masculina, que se instaurou nos primórdios da civilização e resiste até hoje, Mosse procura compreender um momento específico da história do andropocentrismo: a formação da moderna identidade masculina.
Aqui, o termo homem diz respeito sempre ao gênero masculino e aos valores que definem o lugar do macho na sociedade moderna e nunca ao ser humano.
LAVATER, apud MOSSE, op. cit., p. 34.
MOSSE, op. cit. p. 37. Mosse lembra a correlação entre doença física e decadência moral e cita como exemplo a obra O retrato de Dorian Gray (1890) de Oscar Wilde.
Nesse grupo estão judeus, negros, ciganos, loucos, criminosos e homossexuais.
Cf. ARIÉS, Philippe. História social da criança e da família . 2. ed. Rio de Janeiro : Guanabara, 1981. p. 94.
QUENTAL, Antero. Causas da decadência dos povos peninsulares . 6. ed. Lisboa: Ulmeiro, 1994.
A princípio, decadência e degeneração são termos diversos. O primeiro, criado por artistas como Baudelaire, designava o surgimento de uma nova sensibilidade, de um refinamento dos sentidos que tem como expressão o indivíduo andrógino, portanto, a palavra não teria conotação negativa. Já o segundo, o termo degeneração, era usado pelos médicos da segunda metade do séc. XIX, que, igualando o vício à doença e a virtude à saúde, punham a medicina a serviço da criação do estereótipo moral e físico do homem degenerado. Mas esses termos foram usados indistintamente por aqueles que defendiam a preservação dos valores morais. Cf. MOSSE, 2000, p. 97.
Pode-se apontar como exemplo flagrante da compreensão, no séc. XIX, do conceito de decadência como degeneração física e moral, a larga literatura naturalista, da qual se destaca O Barão de Lavos, de Abel Botelho, de 1891. Rui Ramos, no volume 6 da História de Portugal , dirigida por José Mattoso, ao apresentar a percepção portuguesa da crise moral do fim de século, lista um extenso rol de obras naturalistas que investigavam com pretensões científicas os vícios da sociedade portuguesa. Repare-se na gravidade dos títulos: "Tuberculose social", série de romances de Alfredo Gallis, "Comédia Burguesa", série de Francisco Teixeira de Queiroz, publicada entre 1881 e 1901, "Patologia social" de Abel Botelho, publicada entre 1891 e 1910, da qual faz parte o romance O Barão de Lavos . ( Cf . RAMOS, 1994, p. 312-4).
Em outra pesquisa, tive a oportunidade de estudar as implicações entre masculinidade e nacionalidade na correspondência de Antero. Cf. GRANJA, Rosemary da Silva. Varões assinalados: o tema do homem moderno na epistolografia de Antero de Quental (Dissertação de Mestrado). Niterói: Pós-Graduação em Letras / UFF, 2003. Orientador: Mário César Lugarinho.