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O outro, ele-próprio: amor e amizade em A Confissão de Lúcio
Osmar Pereira Oliva (Unimontes)
Para poucos homens, viver ultrapassa os limites das satisfações físicas e biológicas, considerando a arte imprescindível para suas existências. Para esses, a escrita é uma maneira de se manterem vivos. A Confissão de Lúcio é um meio encontrado pelo escritor Lúcio, personagem de Mário de Sá-Carneiro, de revelar que está vivo e, por quanto tempo ainda viverá. O prefácio da obra antecipa essa visão espectral e fantasmática do narrador, "morto para a vida e para os sonhos: nada podendo já esperar e coisa alguma desejando" 1. Cumprida a pena de 10 anos por assassinato, sem família, sem necessidade de reabilitação moral e social, mesmo assim Lúcio propõe fazer a sua confissão - um mero documento - porém, um documento sem qualquer cunho científico, comprovável, a não ser pela própria escrita desse diário da consciência, que o narrador vai confessando, mais ou menos organizado. Lúcio sabe, de antemão, que a sua confissão resultará "a mais incoerente, a mais perturbadora, a menos lúcida" 2, pois sua narrativa se estrutura no entre-lugar do sono e da vigília, único espaço possível para revelar seus desejos homoeróticos com certa liberdade, considerando, com Edgard Pereira 3 que "todo entre-lugar é um lugar sem suporte, desamparado, tenso. O ideal de uma sociedade isenta de coerções e dominações, a cidade ideal da ética humanista e democrática, onde haja a liberdade de se amar de qualquer maneira, é uma proposta para qualquer cultura."
Quem lê a confissão espera encontrar nela a verdade sobre os fatos - mas uma verdade inverossímil, elaborada por aquele que está fora do texto, juntando passagens diluídas ao longo da narrativa, construindo um sentido, aferindo conclusões, por sua vez, mais ou menos verossímeis. Se a verdade apresentada pelo narrador e perquirida pelo leitor é uma verdade inverossímil, ela também pode ser construída - basta aceitar o pacto ficcional proposto no prefácio e procurar seguir as pistas nebulosas que vão sendo apresentadas ora no delírio consciente, ora nos sonhos, ora nos entrecruzamentos e nos trânsitos do "real" para o imaginário do confidente, já que sonho e realidade se interpenetram praticamente em todo o enredo.
A escritura é, para Lúcio, o exercício e a fundação da sua existência; para o leitor, é a tentativa de encontrar uma das verdades que o texto, a confissão, vai expondo. Entre elas, a que me parece mais verossímil, é a formulação e a construção de uma segunda realidade na qual os amantes podem manifestar seus desejos e ternuras-amores, sem a censura da sociedade da época e, mais que isso, sem a limitação das consciências moldadas desde o nascimento do homem, consciências rotuladas por um nome e por uma identidade autorizada pelos pais a partir do sexo biológico que, nessa narrativa, não corresponde à sexualidade desejada tanto por Lúcio quanto por Ricardo de Loureiro.
2- A Fabricação do "Real" - O Lugar da Dispersão
A criação desse segundo plano da realidade, menos proibitiva e onde é possível revelar o que cada pessoa realmente é e sente, sem as máscaras sociais, parece pertinente se aceitarmos as sugestões das cenas que envolvem a americana fulva e seus amigos, entre eles Gervásio Vila-Nova e Lúcio. No primeiro encontro deles, a americana discute e apresenta uma nova forma de arte - a voluptuosidade - opinião divergente de todos que participavam da discussão: "Não; a voluptuosidade não era uma arte. Falassem-lhe do ascetismo, da renúncia. Isso sim!... A voluptuosidade uma arte? Banalidade... Toda a gente o dizia ou, no fundo, mais ou menos o pensava." 4 Que arte abstrata seria essa, proposta pela americana? a arte da sensualidade, da sexualidade, dos sentidos e dos desejos "impuros"? Como provar suas opiniões se não construísse uma realidade para essas abstrações? De fato, um mês após esse encontro, os amigos da americana fulva são convidados para uma soirée em sua casa, a fim de apresentar-lhes suas idéias "materializadas":
Pouco antes, chegara-se a nós a americana e, confidencialmente, nos dissera:
_ Depois da ceia, é o espetáculo - o meu Triunfo! Quis condensar nele as minhas idéias sobre a voluptuosidade-arte. Luzes, corpos, aromas, o fogo e a água - tudo se reunirá numa orgia de carne espiritualizada em ouro! 5
Como se vê, projeto audacioso, em que a verdade se manifestará por meio do inverossímil, num ambiente diáfano, sinestésico, próprio do mundo simbolista, da sugestão. Nesse espaço do onírico, o concreto e o abstrato se interpenetram, fazendo emergir as sensações, síntese da percepção, do desejo e do conhecimento interior, da alma. As danças e as encenações, carregadas de sexualidade homoerótica feminina, parecem comprovar a teoria defendida pela americana, pois os presentes "evidenciaram, em rostos confundidos e gestos ansiosos, que um ruivo sortilégio os varara sob essa luz de além-Inferno, sob essa luz sexualizada. " 6 A luz, o perfume, os movimentos das dançarinas e a visão perplexa da nudez e da luxúria transformam o espaço físico, que acabara de ser construído e inaugurado (motivo da soirée) em um espaço sinestésico, percebido pela alma - um mundo ficcionalizado, e, ao mesmo tempo, real, lugar onde as fantasias podem se manifestar sem preocupação com as normas de conduta e da moral da sexualidade ocidental:
E os quadros sensuais valiam apenas como um instrumento dessa orquestra. Os outros: as luzes, os perfumes, as cores...Sim, todos esses elementos se fundiam num conjunto admirável que, ampliando-a, nos penetrava a alma, e que só a nossa alma sentia em febre de longe, em vibração de abismos. Éramos todos alma. Desciam-nos só da alma os nossos desejos carnais. " 7
As impressões dessa noite fantástica foram tão intensas que emudeceram os presentes, marcando em suas memórias, para sempre, não só as sensações sentidas, mas as possibilidades de uma realização erótica isenta de culpabilidade. Não é por acaso que Lúcio confessa que "dessa noite, se originava a minha amizade com Ricardo de Loureiro" 8e que esse encontro marcou o princípio de sua vida, como ele mesmo diz. Cabe ressaltar a última confissão desse capítulo: "Ah! sem dúvida amizade predestinada aquela que começava num cenário tão estranho, tão perturbador, tão dourado..." 9 Que estranha amizade predestinada essa, que começa num ambiente impregnado de erotismo e de homossexualidade, num espaço construído para além do verossímil?
Assim como Lúcio começou a viver a partir dessa noite de apoteose sinestésica, acompanhamos também um processo de revitalização de Ricardo de Loureiro, personagem tão ao gosto do decadentismo, medroso, magro, corcovado, convivendo com um tédio terrível e um imenso vazio existencial, como ele diz a Lúcio: "_ Ah! meu caro Lúcio, acredite-me! Nada me encanta já; tudo me aborrece, me nauseia. (...) De forma que gastar tempo é hoje o único fim da minha existência deserta." 10 Percebemos, então, uma certa ânsia de completude. Lúcio e Ricardo de Loureiro são duas partes de um único ser, que se encontram e se identificam.
No entanto, a união dos dois é bloqueada pela identidade de gênero: ambos os amantes são homens! Talvez por isso Ricardo deseja tanto ser belo e ser mulher: "Ah! como eu me trocaria pela mulher linda que ali vai... Ser belo! ser belo!... ir na vida fulvamente ... ser pajem na vida... Haverá triunfo mais alto?" 11 Esse sentimento decadentista e essa aguda crise da identidade masculina são apontados por Pereira 12 no ensaio "O sujeito fragmentado e disperso": "Para além dos efeitos irônicos e paródicos (a nostalgia da teatralização da vida, a imitação de atrizes distantes e fatais), o desejo de ser mulher (...) pode sugerir uma inadequação irremediável com a sexualidade masculina." Há, por parte de Ricardo, um intenso desejo de ser mulher, para poder amar pessoas do mesmo sexo que ele. Na sua opinião, é impossível ser amigo sem sentir ternura. Amizade é igual à ternura que é igual a amor:
... não posso ser amigo de ninguém ... Não proteste... Eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afetos (já lhe contei), apenas ternuras. A amizade máxima, para mim, traduzir-se-ia unicamente pela maior ternura. E uma ternura traz sempre consigo um desejo caricioso: um desejo de beijar... de estreitar... Enfim, de possuir! (...) Logo eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo . 13
Do que fica exposto, conclui-se que a amizade conduz efetivamente ao amor, à posse. Daí o homem não poder ser amigo de outro homem, sob o risco de tornarem-se amantes, homossexuais. É necessário que um dos amigos se transexualize. Assim, o desejo homossexual - crime e proibição - pode ser burlado, principalmente se o relacionamento amoroso se configurar no plano do imaginário, da criação ficcional. Essa interdição talvez seja conseqüência, também, dos discursos científicos do século XIX, sobre a homossexualidade, considerada uma patologia, um desvio sexual. A vigilância sobre a identidade sexual gerou um mal-estar na sociedade e nos próprios indivíduos com tendências homossexuais, despertando a homofobia, aversão e medo desses "invertidos" sexuais, como podemos comprovar na fala de Ricardo, após declarar suas preferências sexuais a Lúcio:
Em certos momentos chego a ter nojo de mim. Escute. Isto é horrível! Em face de todas as pessoas que eu sei que deveria estimar (em face de todas as pessoas por quem adivinho ternuras) assalta-me sempre um desejo violento de as morder na boca! Quantas vezes não retraí uma ânsia de beijar os lábios de minha mãe... 14
A tensão gerada por esse desejo tão incestuoso quanto homossexual leva Ricardo e Lúcio a fabricarem um real-imaginário que escapa às normas morais da sexualidade ocidental. A construção dessa realidade dupla e ambígua muda o comportamento e a imagem física dos dois amigos. Após essas confidências, Ricardo sai de Paris e fica um ano em Lisboa, talvez para silenciar o desejo sentido por Lúcio, ou fabricando o mundo onde suas ternuras pudessem ser compartilhadas com o amigo.
3- O Outro, Ele-Próprio
Não sendo possível ficar longe de Ricardo, Lúcio também volta para Portugal, ao encontro dele e se depara com certas mudanças bastante significativas operadas no amigo: "As suas feições bruscas haviam-se amenizado, acetinado - feminilizado , eis a verdade - e, detalhe que mais me impressionou, a cor dos seus cabelos esbatera-se." 15 Aqui, precisamos resgatar as discussões iniciais, sobre a soirée oferecida na casa da americana fulva, na qual procurei demonstrar a liberação erótica sob a influência do ambiente diáfano e sinestésico - portanto simbólico, em que se manifestaram a luxúria e o jogo homossexuais. Assim que se reencontram, Lúcio é convidado a jantar na casa de Ricardo. O narrador-confidente nos transmite as seguintes impressões desse novo espaço que passará a freqüentar:
Cheguei. Um criado estilizado conduziu-me a uma grande sala escura, pesada, ainda que jorros de luz a iluminassem . Ao entrar, com efeito, nessa sala resplandecente, eu tive a mesma sensação que sofremos e, vindos do sol, penetramos numa casa imersa em penumbra. (...) Enfim, eu entrara naquela sala como se, ao transpor o seu limiar, tivesse regressado a um mundo de sonhos. 16
O jogo de luzes e a ausência delas, provocando a sombra, a penumbra, demarcam, simbolicamente, o entre-lugar dos dois mundos - o real e o fabricado por Ricardo - onde as fantasias eróticas passarão a se realizar sem interdições. O verbo regressar, nessa passagem, remete-nos ao mundo de sonhos criado pela americana fulva. Mas Ricardo de Loureiro, a meu ver, foi mais criativo e mais ousado do que a primeira artista, pois além de um mundo ficcionalizado, este último artista se duplica, criando um alter-ego que, contrariamente, se desdobra em si mesmo e em um outro, igual à face e contra-face Ricardo/Marta. Explicando melhor, Ricardo e Marta coexistem como um duplo em um único ser. Lúcio chega a se perguntar se Marta de fato existe. Quem é essa mulher? De onde ela veio? A resposta, vaga e imprecisa, como não poderia deixar de ser, é sempre a mesma: "Mistério...", "Mistério!", reiteradas vezes, como diz o narrador-confidente:
Marta parecia não viver quando estava longe de mim. Pois bem, pela minha parte, quando a não tinha ao meu lado, coisa alguma me restava que, materialmente, me pudesse provar a sua existência: nem uma carta, um véu, uma flor seca - nem retratos, nem madeixas. Apenas o seu perfume, que ela deixava penetrante no meu leito, que bailava sutil em minha volta. Mas um perfume é uma irrealidade. 17
Como se vê, a ausência de um referencial concreto que pudesse explicar a existência de Marta reforça o caráter simbólico dessa personagem, duplo de Ricardo. O que pode ser percebido desse ser fantasmático é apenas o perfume, sombra, mistério, sensação erótica que inebria e depois se esvai. Portanto, não é demais associar Marta a Ricardo como uma projeção narcísica do desejo e do delírio e da ternura que sente por Lúcio, como ele mesmo confessa:
Evocando-a, nunca a lograra entrever. As suas feições escapavam-me como nos fogem a das personagens dos sonhos. E, às vezes, querendo-as recordar por força, as únicas que conseguia suscitar em imagem eram as de Ricardo. Decerto por ser o artista quem vivia mais perto dela. 18
Essa sedução que Marta/Ricardo exerce sobre Lúcio deixa-o tão perturbado que ele procura os amigos do casal para saber quem é esse ser misterioso. Busca frustrada, respostas reticentes, estranhamento, porque "ninguém se admirava do que eu admirava; ninguém notara o que eu tinha notado." 19 Se os amigos de Ricardo consideram estranho e indelicado o comportamento de Lúcio em tentar decifrar o enigma de Ricardo/Marta, isso não seria um indício de que somente Lúcio havia notado a transformação que se operara no seu amigo, assumindo uma outra identidade, feminina, para poder amar alguém do mesmo sexo? O primeiro contato erótico-amoroso pleno entre Lúcio e Marta/Ricardo 20 acontece na casa dele, imprevisivelmente, às quatro horas da tarde, num momento precedido de sonho: "Eu sonhava dela quando, de súbito, a encantadora surgiu na minha frente... Tive um grito de surpresa. Marta, porém, logo me fez calar com um beijo mordido... (...) ela mordia-me sempre..." 21Há que salientar dois aspectos importantíssimos nessa cena. Primeiro, a questão do onírico, em que a sexualidade pode se manifestar sem o peso das interdições. Segundo, a descrição dos beijos mordidos, já prenunciados por Ricardo, no início da narrativa, quando se referia à impossibilidade de ser amigo de alguém sem que isso desencadeasse o erotismo, a sexualidade, o desejo de possuir e de morder os lábios do amigo. Interessante que as relações sexuais entre Marta/Ricardo e Lúcio são marcadas por mordidas e certas violências. Nesse espaço imaginário e simbólico, pode-se transgredir as normas e quebrar os tabus. Como já disse, Ricardo se desdobra numa personalidade feminina, para possuir Lúcio. Numa passagem subseqüente, Ricardo comenta com Lúcio que, ao se olhar no espelho, viu uma outra imagem refletida, e não a dele:
_ Sabe você, Lúcio, que tive hoje uma bizarra alucinação? foi à tarde. Deviam ser quatro horas... Escrevera o meu último verso. Saí do escritório. Dirigi-me para o meu quarto... Por acaso olhei para o espelho do guarda-vestidos e não me vi refletido nele ! Era verdade! Via tudo em redor de mim, via tudo quanto me cercava projetado no espelho. Só não via a minha imagem ... 22
De fato, Ricardo não poderia ver a sua imagem refletida no espelho porque havia se desdobrado e, naquele momento, ele era Marta também, e estava na casa de Lúcio, realizando suas fantasias e desejos eróticos, até então contidos. Retomando Edgard Pereira 23, "relacionado a espelho, o corpo do outro funciona como reflexo e metáfora do corpo do sujeito e de sua sexualidade, lugar de encenação do desejo narcísico."
Em uma cena seguinte, os amigos encontravam-se lanchando no terraço da casa de Ricardo, quando Marta pede a Lúcio que lhe beije na testa, em castigo a alguma coisa que dissera. Lúcio o faz, desajeitadamente. Insatisfeita, Marta pede a Ricardo que mostre a Lúcio como deveria ser beijada: "Rindo, o meu amigo ergueu-se, avançou para mim... tomou-me o rosto... beijou-me... O beijo de Ricardo fora igual, exatamente igual, tivera a mesma cor, a mesma perturbação que os beijos da minha amante. Eu sentira-o da mesma maneira. " 24 Portanto, mais uma vez percebemos a identificação do duplo Ricardo/Marta. Lúcio conclui que, possivelmente, nunca houvera possuído Marta completamente, apesar de se encontrar com ela todas as tardes. Isso porque permanecia ainda uma interdição, de ordem física, que não podia ser violada, transgredida:
não era possível possuir aquele corpo inteiramente. Por uma impossibilidade física qualquer: assim como se ela fosse do meu sexo!"
E ao penetrar-me esta idéia alucinadora, eu lembrava-me sempre de que o beijo de Ricardo, esse beijo masculino, me soubera às mordeduras de Marta; tivera a mesma cor, a mesma perturbação... 25
Quando desconfia de que Marta/Ricardo o está traindo, Lúcio sente ciúme e passa a segui-la. Descobre que ela tem outros amantes. Um deles é o russo Sérgio Warginsky, descrito por Lúcio da seguinte maneira: "Era um belo rapaz de vinte e cinco anos (...). Alto e elançado (...) Os seus lábios vermelhos, petulantes, amorosos, guardavam uns dentes que as mulheres deveriam querer beijar - os cabelos de um loiro arruivado caíam-lhe sobre a testa em duas madeixas longas, arqueadas." 26 Esse homem belo, sedutor, relaciona-se sexualmente com Marta/Ricardo, despertando inveja e ciúme em Lúcio, o qual, ao possuir Marta, "tinha a sensação monstruosa de possuir também o corpo masculino desse amante." 27 Refletindo sobre essa angústia de amar Marta/Ricardo, Lúcio tece o seguinte comentário: "E ao mesmo tempo - arrepiadamente, desarrazoadamente - acudiu-me à lembrança a estranha confissão que Ricardo me fizera uma noite, há tantos anos... no fim de um jantar... para o Bosque de Bolonha... no Pavilhão... no Pavilhão d' Armenonville..." 28 Se o leitor bem se lembra, foi nessa noite que Ricardo confessou a irrefreável necessidade de amar aquele que fosse seu amigo e tomar posse dele, com a condição de que "essa criatura ou eu mudássemos de sexo." Foi por essa necessidade de amar outros homens que Ricardo construiu Marta, esse duplo, ser fantasmático, especular e imaginário. Nos diálogos finais da confissão, em que Lúcio e Ricardo procuram explicações para essa angústia de amar, Ricardo se justifica:
_ Ai, como eu sofri... como eu sofri!... Dedicavas-me um grande afeto; eu queria vibrar esse teu afeto - isto é: retribuir-to; e era-me impossível!... Só se te beijasse, se te enlaçasse, se te possuísse... Ah! Mas como possuir uma criatura do nosso sexo?... (...)
Uma noite, porém, finalmente, uma noite fantástica de branca, triunfei! Achei-A... sim, criei-A! criei-A . (...) Somos nós-dois ...
Mas estreitando-te ela, era eu próprio quem te estreitava... Satisfiz a minha ternura: Venci! 29
Dessa forma, Marta foi a ponte para Ricardo amar Lúcio, autorizado pelos padrões morais da sexualidade ocidental. Isento de pecados e culpas, Ricardo pode amar Lúcio e amar Sérgio quando se "transexualiza". No entanto, ao mundo simbólico criado por Ricardo, se sobrepõe o mundo real, do qual não pode se ausentar por completo. É-lhe necessário, então, a auto-punição. Assim como criou Marta, é ele quem a destrói:
Em pé, ao fundo da casa, diante de uma janela, Marta folheava um livro... (...)
Ricardo puxou de um revólver que trazia escondido no bolso do casaco e, antes que eu pudesse esboçar um gesto, fazer um movimento, desfechou-lho à queima-roupa... Marta tombou inanimada no solo... Eu não arredara pé do limiar...
E então foi o Mistério... Mistério o fantástico da minha vida...
Ó assombro! Ó quebranto! Quem jazia estiraçado junto da janela não era Marta - não! _ , era o meu amigo, era Ricardo... 30
A confissão de Lúcio cumpriu seu propósito: esclarecer os crimes e apontar os verdadeiros criminosos. No prefácio, já sabemos que o confidente não requer reabilitação social, pois não tem família; não requer absolvição, pois já cumpriu pena de dez anos de prisão por um crime que não cometeu. Mesmo que não seja essa a sua intenção, o confidente inocenta-se, para mim, pelo menos desse crime, mas, para si mesmo, continua culpado do outro, que é mais terrível que aquele: o crime de amar alguém do mesmo sexo...
SÁ-CARNEIRO, Mário de. A confissão de Lúcio . Portugal: Publicações Europa-América, s/d, p. 61.
PEREIRA, Edgard. Portugal - Poetas de fim de milênio. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Editora UFMG/SetteLetras, 1999, p. 104.
SÁ-CARNEIRO, Mário de. A confissão de Lúcio . Portugal: Publicações Europa-América, s/d, p. 67.
SÁ-CARNEIRO, Mário de. A confissão de Lúcio . Portugal: Publicações Europa-América, s/d, p. 74.
PEREIRA, Edgard; OLIVEIRA, Paulo Fernando da Motta; OLIVEIRA, Silvana Maria Pessôa de. Intersecções - Ensaios de Literatura Portuguesa. Campinas: Komedi, 2002, p. 41.
SÁ-CARNEIRO, Mário de. A confissão de Lúcio . Portugal: Publicações Europa-América, s/d, p. 89.
SÁ-CARNEIRO, Mário de. A confissão de Lúcio . Portugal: Publicações Europa-América, s/d, p. 91.
De agora em diante, ao fazer referência a Marta, usarei esta configuração, porque creio ser impossível dissociá-los, até o final deste meu trabalho. O nome composto Marta/Ricardo, para mim, significa que Marta é uma projeção, uma sombra que encobre a identidade de Ricardo, autorizando suas fantasias eróticas com Lúcio.
SÁ-CARNEIRO, Mário de. A confissão de Lúcio . Portugal: Publicações Europa-América, s/d, p. 104.
PEREIRA, Edgard. Portugal - Poetas de fim de milênio. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Editora UFMG/SetteLetras, 1999, p. 99)
SÁ-CARNEIRO, Mário de. A confissão de Lúcio . Portugal: Publicações Europa-América, s/d, p. 111.
SÁ-CARNEIRO, Mário de. A confissão de Lúcio . Portugal: Publicações Europa-América, s/d, p. 131 e 132.