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Um sobrevivente das memórias
Maria Tereza Carneiro Lemos (PUC-RJ)
Os gêneros memorialistas têm sido um importante objeto de investigação sobre a construção de identidades nas sociedades contemporâneas. Estes gêneros encerram verdades que deixam entrever ideologias, mentalidades, crenças e identificações que perpassam a vida daqueles que as produzem.
Procuro, neste trabalho, analisar a obra de Luís Alberto Mendes, Memórias de um sobrevivente 1, à luz das teorias contemporâneas sobre identidades e formação do sujeito. Utilizo como base destes estudos, a tese de Daniela Gianna C. B. Versiani, Autoetnografias: conceitos alternativos em construção .
O romance é a autobiografia de um presidiário, relatando a trajetória da sua vida desde a infância até os dias de hoje. Analisando a obra, busco uma compreensão da formação deste sujeito autobiografado, como um produtor de conhecimento e como um sujeito politicamente atuante, através de uma análise da trajetória de Luís sob uma perspectiva pluralista, considerando a heterogeneidade e os embates políticos presentes no seu discurso.
A partir da memória das trajetórias do autor, podemos chegar a uma compreensão deste sujeito complexo através da diluição das fronteiras que, antes dando forma a uma identidade fixa, tornam-se agora cada vez mais flexíveis, porosas e maleáveis, procurando dar conta desta realidade pluralizada que nos cerca, como também de um novo conceito de identidade. A família, a escola, as ruas, o trabalho e a prisão são mundos entre os quais Luís transita e que serão decisivos na formação deste sujeito complexo.
O relato de Luiz Mendes, destituído de conclusões ou lições de moral, nos convida à reflexão. E contrariando discursos de minorias, freqüentemente "vitimizados", Luiz assume a responsabilidade sobre seu próprio destino, não se revela um ressentido nem uma vítima do sistema, não se utiliza da tradicional dialética da exclusão-inclusão. Mas aponta para a importância da responsabilidade de cada um sobre sua própria vida. Convida-nos a um diálogo, acende em nós o desejo de nos aproximarmos dele. Todorov chama atenção para o crescimento do fenômeno do "vitimismo" que muitas vezes encontra-se presente nos discursos de minorias em que "o ideal da integração parece ter sido substituído por aquele da segregação" (p. 166). E lembra que "Considerar-se irresponsável pelo próprio destino é como considerar-se uma eterna criança, um brinquedo nas mãos de potências infinitamente superiores"(p.164). Luiz Mendes, nas epígrafes de Brecht e Sartre que escolheu para a sua história, parece querer resumir nesta mesma idéia, a sua mensagem: "A miséria e a desgraça não vêm como a chuva, que cai do céu, mas através de quem tira lucro com isso" e "Não importa o que o mundo fez de você, importa o que você faz com o que o mundo fez de você."
E quando convidados a este diálogo, nós leitores, somos levados também a um mergulho dentro de nós mesmos, até voltarmos à tona através de uma maior compreensão deste mundo e do nosso papel dentro dele. Fernando Bonassi lembra que:
Luiz, o sobrevivente deste verdadeiro romance de formação, nos oferece uma chance. A chance de nos conhecermos melhor. A chance de transformar o que é inaceitável mas que costuma arrancar de nós pouco menos que esgares caridosos. (MENDES, 2000, p.10)
A atuação política de Luiz, que buscamos compreender neste trabalho, se dá, segundo as teorias contemporâneas sobre identidades, somente a partir do reconhecimento e da explicitação de suas múltiplas pertenças que vão mostrar os processos pelos quais ocorrem identificações parciais entre indivíduos com diferentes trajetórias. Para a compreensão desta questão, é preciso enfatizar não apenas o sujeito em trânsito mas a memória dos seus deslocamentos.
Satya Mohanty, em seu estudo "Identity, multiculturalism, justice" 2 defende a idéia de que
O conhecimento adquirido a partir da mediação de determinada identidade cultural, está portanto ligado à cotidianeidade, em que pesam as atividades cognitivas dos indivíduos ligadas ao julgamento racional tanto quanto aos sentimentos e emoções (MOHANTY, 1997, p. 126)
Em outras palavras, a experiência pessoal é, ela própria, construída a partir de pressupostos culturais e teóricos, apreendidos nas relações sociais entre indivíduos e grupos. É nesse sentido que Satya Mohanty defenderá a idéia de que "a experiência pessoal é social e teoricamente construída, e é precisamente desta maneira mediada que produz conhecimento" (p.206). Neste sentido, nossos sentimentos, visões de mundo e a percepção de nós mesmos são mediados por valores aprendidos através da nossa convivência com os diversos grupos com os quais nos relacionamos durante nossa trajetória.
Seguindo esta lógica, utilizo aqui o conceito de "identificação" em substituição a "identidade", conforme propõe o sociólogo francês Michel Maffesoli em A transfiguração do político: a tribalização do mundo 3. Maffesoli mostra que a partir de um sujeito multifacetado torna-se impossível falar de uma identidade fixa, estanque, fechada, coerente e estável, mas sim de sucessivas identificações. Assim, diante desta transformação da identidade para identificações, o político deixa de estar limitado a um contexto de "identidades" de classe, sexo ou profissão, para ser compreendido como uma política do "doméstico", perdendo sua dimensão macroscópica para se realizar no microscópio, no dia a dia, "nas articulações flutuantes e maleáveis do cotidiano." (p.128)
Considerando que não existe uma identificação total e completa entre um indivíduo e um grupo, já que numa trajetória de vida um mesmo indivíduo se identificará com vários grupos através de determinadas características em comum com cada um deles, procurarei explicitar os processos pelos quais ocorrem essas identificações parciais na vida de Luiz Mendes. E para compreendermos este sujeito político e produtor de conhecimento, devemos, de antemão, conhecer os elos que ligam esta cadeia: o que move seus trânsitos, suas identificações com os diversos grupos, suas "identidades culturais".
Poderíamos resumir os "mundos" de Luiz em três categorias (sendo cada uma delas composta por vários grupos): a família, a prisão e a cidade-liberdade. A família é como o porto seguro - representado pela mãe - ao qual Luiz volta para se "realimentar" depois das sucessivas perdas. É um núcleo composto pelo pai e pela mãe, que criará no filho sentimentos que definirão grande parte de suas relações com os diversos "mundos". O menino Luiz, único filho, crescendo sob o ódio de um pai-algoz, era constantemente torturado sob o olhar desesperado da mãe que não conseguia reagir. A arte da trapaça e a atração pelos riscos já brotavam nesse momento:
Adorava os riscos, embora os temesse o mesmo tanto. Não era um menino querido nas classes. (...) Jamais aprendi a conquistar pessoas. Sempre fui um fracasso nessa arte. (...) Nos bilhetes das professoras comunicando meu comportamento lastimável, falsificava a assinatura de meu pai. Mil e uma maneiras de enganar a tantos quantos pudesse. (MENDES, 2000, p. 26, 27)
Daí para a primeira fuga, foi um passo. A liberdade seria conquistada nas ruas da cidade, longe de casa, longe do pai: "As luzes da cidade, as cores, as vitrines, as pessoas, tudo me enchia a alma de vontade de fazer parte daquilo, daquela vida." (p. 32). Aqui surge a sua primeira grande identificação, determinante na vida de Luiz. O amor da mãe não era suficiente para criar um ambiente atraente para o menino, não era possível eliminar o sofrimento causado pelo pai: "O medo de meu pai era algo que me alucinava. (...) Minha casa era o inferno, e meu pai o diabo a me esperar com o tridente em brasa para me espetar" (p. 34). As ruas então exercerão uma atração irresistível: "A cidade me enfeitiçara".
A cidade era a "liberdade" que escondia algo diabólico: o apelo do consumo. Os símbolos da juventude e da liberdade estavam expostos nas vitrines. A própria liberdade estava à venda:
A rua, a cidade, as pessoas, me atraíam. Todo o meu ser vibrava intensamente sob o clima do programa Jovem Guarda . Eu era rock. E era tudo que significasse liberdade, por mais prisão que fosse (...) Era mesmo impossível resistir mais. Estava fugindo com o dinheiro da empresa.(...) Fui de loja em loja onde havia meses namorava roupas nas vitrines. Comprei calça de helanca (o luxo da época) , jaqueta três-quartos e todos os acessórios da moda. Vesti as roupas novas nas lojas mesmo e joguei a roupa humilde que vestia na primeira lixeira que vi. (MENDES, 2000, p.46,47)
Luiz revela a formação de uma nova "identidade" ( termo usado pelo autor):
Para eles, eu já era malandro (e esse era um título que eu queria muito), sujeito esperto a ser respeitado. Adorei o jeito reverente como me tratavam! (...) Quis fumar um baseado. Queria me mostrar mais malandro ainda, aproveitando a oportunidade para formar a minha nova identidade de vez. O prestígio era fundamental. (MENDES, 2000, p. 49)
Além de tudo, vivia-se o auge da cultura de resistência, a "contracultura" com a qual surgia uma verdadeira e forte "identidade cultural":
Seus motivos [dos amigos] eram bem parecidos com os meus. Filhos de pais repressores, famílias conservadoras e reacionárias ante a revolução que acontecia no mundo todo. A juventude se levantava contra o conservadorismo e as instituições sociais, inconscientemente. A busca era ser livre a todo custo. Alguns vendiam o corpo, outros roubavam (...) Cabelos compridos, calças justas e rock. No fundo era apenas uma vontade de liberdade, de não ouvir mais ninguém. Não havia um pretexto consciente, uma não-participação decidida no esquema social. Apenas vadiagem sem esperança. Um ir-e-vir sem saber para onde, em que rumo, e por quê. (MENDES, 2000, p.52)
A "Escola do Crime" criava uma nova identificação, movida pelo ódio a tudo e a todos. A evolução do malandro levava-os a uma outra etapa: o assalto.
O assalto era o ápice de nossa formação como malandros. Título por demais apreciado por nós (p.181). Não achávamos que ninguém tinha mais direito que nós de ser feliz. A felicidade para nós eram armas, carros velozes, mulheres fáceis, droga, bebidas e curtição. (...) sermos bandidos era a glória. O nosso poder parecia infinito dentro do carro, com as armas. Tudo era nosso. Era só descer e tomar. Se tudo o que tinha significado estava nas mãos dos outros, nada mais justo que fôssemos tomar nossa parte. (MENDES, 2000, p.371)
Luiz é capturado pela polícia e condenado a oitenta anos de prisão pelos crimes cometidos, incluindo dois homicídios. A avalanche da sua vida enterrou todas as possibilidades de uma recuperação social, seu destino estava tragicamente traçado, sua liberdade acabara para sempre. Mas, surpreendentemente, a vida parece lhe oferecer mais uma chance, mostrando que nem tudo estava perdido, e o que parecia irreversível, é iluminado por uma nova esperança. Surge, como um "herói salvador", um outro prisioneiro que, à semelhança de um cavaleiro medieval, mostra a grande porta de saída. Henrique, um dos maiores assaltantes de São Paulo, com um
rosto parecido com o dos antigos patrícios romanos (...) era uma pessoa boa, extremamente generosa e despojada (...) o cara parecia aqueles nobres cavaleiros da Idade Média, estava sempre a tomar o partido dos mais fracos e humildes (MENDES, 2000, p.438)
Henrique entregava a Luiz a chave da "grande porta": "O novo amigo falava em livros, contava-me romances que lera, falava em poesia, filosofia, um monte de coisas novas para mim"(p.438). E foi a confiança, como um sentimento mágico e quase desconhecido naquele mundo, que permitiu a abertura para a grande e definitiva transformação: "Foi a primeira pessoa no mundo, fora minha mãe, em quem depositei minha confiança total e irrestrita." (p. 438). A identificação com o amigo tornou-se também a identificação com o mundo que este lhe apresentava. E este novo mundo era mais forte que todas as grades que tornavam Luiz incomunicável. Como uma Sherezade, que se libertara e transformara o terrível Sultão através do seu poder de contar histórias, ou à semelhança do Abade Faria de O Conde de Montecristo, que, através de um túnel secreto cavado na masmorra, traz ao amigo prisioneiro a esperança através de seu profundo conhecimento, grande sabedoria, e por fim a conquista do tesouro, Henrique revela a Luiz o mapa de um outro "tesouro":
As histórias dos livros que contava, eram extremamente fascinantes e belas. Ensinou-me a valorizar livros, a querer conhecê-los todos. Agora ansiava sair do castigo para começar a ler aquelas histórias de que ele falava. Era poeta, e eu também quis ser poeta. Prometeu ensinar-me. Passamos quatro meses no mesmo encanamento de privada, conversávamos todo o tempo que nos era possível. Havia tanto assunto...conversei mais nesses três meses do que em quase toda a minha vida. Seus conceitos de nobreza de propósitos, sua visão moral diversa daquela que aprendera no meio criminal, me falavam ao coração.(MENDES, 2000, p.438)
Ao sair do "castigo", Luiz recebeu do amigo
uma pilha de livros, cadernos com poesias e textos dele, papéis, canetas, a carta-rascunho para minha mãe e uma carta dele mesmo. Emocionou-me. Fiquei muito feliz em possuir um grande amigo. Olhei e namorei livro por livro, caderno por caderno. Aquilo era importante demais para mim. Eu iria construir uma nova história de minha vida, doravante. Uma história mais bonita. (...) Eu fazia milagres trocando livros à noite pela janela, com uma corda fina que chamávamos teresa. O risco era enorme. (MENDES, 2000, p. 438-454) (grifo meu)
A identificação de Luiz com o mundo dos livros parte da sua própria abertura ao discurso do amigo que, baseada na confiança, "falava ao coração". Essa relação afetiva revolvia em Luiz os sentimentos sedimentados com os anos de sofrimento, e trazia à tona sentimentos guardados que, ao aproximarem-no da mãe, a grande fonte de confiança e de amor, faziam de Luiz um campo fértil para uma verdadeira transformação. Henrique, mostrando conhecer muito bem o amigo: "Procurava me incentivar a que cultivasse o amor que havia em mim por minha mãe, pois dizia que era a melhor parte da vida" (p.447). A experiência da dor - talvez a síntese de toda a sua trajetória - foi determinante:
A dor submete. A dor humilha até nos fazer qual pó de estrada, tapete do mundo. Dizem que ensina. Sem dúvida, ensina. Principalmente a não querê-la mais, de modo nenhum, por mais que contenha qualquer ensinamento. (MENDES, 2000, p. 475)
Retornando às teorias sobre identidades, retomo o conceito de "identidade cultural" cuja construção ocorre diariamente nas relações interpessoais que por sua vez envolvem não apenas a "fria teoria" mas também os afetos, os desejos, as visões que temos de nós e dos outros, e dos grupos entre os quais circulamos.
Gilberto Velho em "Unidade e fragmentação em sociedades complexas" 4, se utiliza da noção de metamorfose do indivíduo que se daria a partir das diferenças entre o projeto individual e o projeto coletivo do grupo ao qual pertence. E lembra que para isso, é preciso que a sobrevivência cultural de um indivíduo não esteja condicionada à rejeição de suas identificações anteriores. Ao modificar-se, o indivíduo também opera mudanças nos outros e no grupo em que se insere. E aqui chegamos a um ponto importante: a atuação política deste sujeito está diretamente ligada à capacidade que ele tem de manter a memória dos seus deslocamentos. Só assim ele pode desempenhar um importante papel político, como interlocutor entre diferentes visões de mundo.
A experiência pessoal pode tornar-se a mais eficaz fonte para construção de conceitos. A própria compreensão do "mundo do crime" a partir da experiência vivida revela um conceito de sociedade como reprodutora da "sociedade oficial", com suas leis próprias e seu código de ética: "Malandro possuía moral engessada, com um sentimento forte de honra. Havia até uma fidalguia, uma nobreza em certos malandros. Acreditavam em duelo a bala ou a faca por questões de moral e honra" (MENDES, 2000, p.251)
Entre fugas e libertações, Luiz se forma na Escola do Crime, denunciando uma situação já bastante conhecida entre nós, mas que ao invés de ser reproduzida por uma voz "oficial" ou filtrada em reportagens de jornais, é legitimada pela voz da experiência.
E chama atenção para uma realidade de decadência institucional que já vivíamos mas que poucos conheciam, enganados ainda por uma ideologia da antiga crença na solidez das grandes instituições:
As pessoas simples do povo, como minha mãe, acreditavam nas instituições do Estado. Acreditavam na onisciência e onipotência do governo (...) Na época já se começava a sentir as garras do autoritarismo que caracterizaria a tomada do poder no golpe militar de 1964.(...) O militar era acreditado, digno de crédito (...) Comunismo era palavrão.(...) Julgava-se que o militar não fosse corrupto, como era o político. Não se falava em golpe, e sim em revolução gloriosa. (...) nem se imaginava o que se fazia ou se maquinava por trás das portas fechadas. (...) [a mãe] Não conseguia acreditar, ou não queria, que naquela instituição seu filho era tratado como um cão selvagem. Com violência extrema, num ambiente totalmente pernicioso, onde não havia a menor preocupação de recuperá-lo socialmente.(MENDES, 2000, p.133)
E conclui:
A sociedade da época, enganada, julgava que estávamos sendo reeducados [os presidiários]. Mas estávamos era desenvolvendo, ampliando e trocando nossos conhecimentos relacionados com o crime. Tenho certeza de que aqueles que executavam aquele trabalho de nos manter presos, como o juiz de menores, guardas e funcionários públicos, sabiam que não estavam nos reeducando.(...) O Instituto era apenas uma vitrine que o Estado ditatorial mostrava para a sociedade. E esta engolia, aliviando sua consciência de comunidade culpada (...) Criava-se uma geração de predadores que iria aterrorizar São Paulo. A maioria seria morta pela polícia em pouquíssimo tempo, mas antes disso... Nunca ninguém se preocupou em nos trazer uma mensagem positiva, nos transmitir valores ou discutir os nossos.(...) Estávamos abandonados à nossa capacidade de produzir uma cultura nossa e à mercê de nossos sicários. (MENDES, 2000, p. 180 -2; grifo meu)
Quando Luiz torna-se consciente de sua dupla pertença (prisão - liberdade), como também consciente do conhecimento que têm dos códigos desses diferentes mundos, tornando-se assim um sujeito ativo disposto a explicitar suas experiências de trânsitos entre esses mundos, podemos pensar em Luiz como um "ator-sujeito" que, ao partilhar suas identificações, ajuda-nos a elaborar uma noção de "identidade cultural" mais coerente com a experiência contemporânea:
Ainda sou aquele, mas sou também outros (...) O crime, a malandragem, a idéia que perseguira desde a infância, de ser bandido, malandro, foram se afastando do meu foco de visão. Agora aquilo era muito pouco para mim, diante dos horizontes que divisava. A cultura, o aprendizado, levaram-me a fazer uma releitura do mundo. Havia um lado melhor e eu queria pertencer a ele . (MENDES, 2000, p. 469, 471; grifo meu)
Luiz se transforma num sujeito atuante e difusor do próprio conhecimento que adquiriu, revelando seu importante papel político, não só através das suas memórias mas na prática de vida: "Sou professor aqui há quatro anos"(p. 471). Sua própria experiência de dor e transformação o leva a querer transformar também o mundo a sua volta:
Fazia algum tempo que vinha com uma idéia de tentar criar um movimento literário aqui. Minha idéia era montar um concurso para poesias, crônicas e contos (...) Tentei me apoiar em entidades que se afirmam de proteção e amparo ao preso (...) Chegando encontrei um sujeito vestido de preto (...) Chamava-se Fernando Bonassi (...) Deu-me espaço então relatei todo o meu projeto de um concurso literário com a finalidade de criar um movimento literário aqui dentro (...) O concurso realizou-se. Era uma idéia e hoje já está na fase de premiação dos ganhadores."(MENDES, 2000, p. 472 - 474)
A experiência de Luiz Alberto Mendes é um convite à reflexão sobre o "estar no mundo", hoje. E a partir da minha leitura, mediada pelos meus próprios conceitos sócio-culturais, vivi também um processo de aprendizagem através do diálogo, como proposto por Todorov , em que sobressaiu a vontade de conhecer este "outro" e suas experiências neste mundo. Aberta a este conhecimento, eu poderia concluir entre muitas coisas, que julgar é inútil, e seu efeito, completamente ilusório, e quando ele se torna um poder institucional pode transformar-se na mais cruel das ações humanas. E da mesma forma que as ciências sociais estudam os relatos memorialistas como ricas fontes de conhecimento sobre a formação do sujeito, o próprio sistema judiciário, já tão escandalosamente ultrapassado e corrupto, que teoricamente tem como finalidade "transformar os transgressores", deveria, se não se transformar radicalmente, ao menos considerar a produção prisional, como a que vimos aqui, como prova de reabilitação. E que atinge um valor ainda muito maior porque trata-se de uma transformação que ocorre a despeito da própria instituição prisional e da farsa à qual se propôs.
Poderia também confirmar a perversidade do sistema em que todos vivemos - presos ou "livres" - quando este próprio sistema cria a ilusão de uma liberdade negociável, comerciável, que esconde a maior das escravidões. E que para escaparmos a este convite perverso da sociedade de consumo que nos envolve como serpente sedutora, devemos acima de tudo ter uma vontade mais forte do que qualquer grade, e remando contra a maré, confiarmos no nosso próprio poder transformador, procurando o caminho da real liberdade: a libertação da cegueira, das ilusões, dos preconceitos, o encontro consigo mesmo e a capacidade crítica. Talvez assim ainda se possa falar em liberdade, mesmo que escondida nos encanamentos deste mundo.
MENDES, Luiz Alberto. Memórias de um sobrevivente . São Paulo: Cia. Das Letras, 2000.
MOHANTY, Satya. Literary theory and the claims of history. Postmodernism, multicultural politics . Ithaca , London : Cornell UP, 1997, p. 198-253.
MAFFESOLI, Michel. A transfiguração do político: a tribalização do mundo . Porto Alegre: Sulina, 1997.
VELHO, Gilberto. Projeto e metamorfose . Rio de janeiro: Jorge Zahar, 1994, p. 7-9, p 11-30, p. 31-48.