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Panlusismo em As epopéias da raça, de Albino Costa (1858-1937)
Artur Emilio Alarcon Vaz (FURG/UFMG)

Essa comunicação analisa os conceitos de nação no livro poético As epopéias da raça, publicado por Albino Costa em 1922, procurando refuncionalizar esses conceitos expressos em textos Homi Bhabha, Stuart Hall, Eric Hobsbawn entre outros. Pretendo mostrar como essa obra estabelece, no início do século XX, a nação a partir de raça, língua e limites geográficos.

Essa investigação segue o caminho traçado por Reinaldo Marques de que a poesia - e não só as narrativas, como demonstrado por Benedict Anderson - também é importante na construção e na consolidação da identidade nacional ou a identidade binacional (como será visto nessa obra).

O antilusitanismo atingiu grandes proporções no final do século XIX, mas após um século de oposição a todo traço da ex-metrópole, o centenário da Independência brasileira é o momento em que se firma a necessidade de pensar a união das culturas brasileira e portuguesa.

Albino Costa, em As epopéias da raça 1, tematiza a travessia aérea feita em 1922 entre Portugal e Brasil pelos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral 2, propondo um ponto de vista "híbrido" entre Portugal e Brasil e promovendo um espaço para uma negociação cultural por hibridização.

Ainda da forma hoje criticada por Hall, mas muito comum no Brasil do século XIX e princípio do seguinte, Albino Costa mostra que a diferença das nações portuguesa e brasileira - numa unidade hoje impossível - para as outras nações é estabelecida a partir do étnico e do lingüístico, simbolizando-se através de uma única "raça". A índole portuguesa de se tornarem viajantes e desbravadores teria origem nos fenícios e estaria incutida também nos brasileiros, que também teriam um impulso de busca de novos horizontes e do desconhecido, configurados pelos precursores brasileiros da aviação, além da bravura de figuras militares brasileiras.

Das dedicatórias feitas por Albino Costa no início da obra, vale destacar a feita aos seus filhos: para que aprendam a amar a história comum das duas Pátrias na nossa raça (p. 5). Após as dedicatórias, Albino Costa reúne alguns discursos, no qual se destaca a fala de Gago Coutinho numa entrevista a jornalistas em Pernambuco: Sinto que sou brasileiro sem deixar de ser português (p. 9).

Sérgio Buarque de Hollanda mostra que

Portugal esteve destinado, desde as origens, a completar-se fora de si mesmo. Seja com o socorro de suas províncias ultramarinas, seja com o fortalecimento dessa 'unidade de sentimento e cultura' - unidade transnacional - que constitui hoje o mundo de língua portuguesa. Expandindo-se pelas colônias ou pelo Brasil - principalmente pelo Brasil - é que chegariam a desenvolver-se, sem estorvo, todas as virtualidades de sua gente. 3

 

A integração entre Brasil e Portugal assemelha-se ao descrito por Bhabha sobre a impossibilidade de uma identidade fixa na literatura contemporânea, ao contrário do movimento nacionalista característico do século XIX, que promovia um binarismo antagônico que impedia a integração de duas nações num único sentimento.

A visão, no entanto, não é igual à descrita na contemporaneidade (e nem poderia), pois há em certa medida a fixação de uma identidade na "raça" lusitana, em oposição aos outros sentimentos nacionais, visão esta ainda centrada no tradicional nacionalismo do século XIX.

Albino Costa também se mostra tradicional ao buscar definir a nação pelos conceitos como raça, língua ou território, ao contrário de Renan, que desfaz esses conceitos para a definição de uma nação, preferindo centrar-se no conceito de plebiscito diário, o qual seria expresso no desejo claramente expresso de continuar a vida em comum 4.

Assim se "a língua é um convite à união, não um mandamento", o caso luso-brasileiro serve de exemplo para que os cidadãos desses dois países desejem uma unidade binacional. A vontade não mais é de limitar a cultura dentro de limites geográficos de cada país, mas aproximar o que há de comum entre Portugal e Brasil, procurando glórias comuns no passado, uma vontade comum no presente e, para isso, é preciso esquecer as diferenças do passado.

A obra de Albino Costa é extremamente otimista e idealizante, mostrando tanto passado como presente de Portugal e do Brasil como sendo grandiosos, apagando qualquer traço negativo do passado para induzir que esses povos busquem a integração, como isso fosse possível.

O nacionalismo dessa obra - observável também nas entrevistas dos aviadores, p. ex. - é o tradicional conceito de nação realiza-se a partir da "raça", igualando assim o sentimento para Portugal e para Brasil e que ambos países têm uma história fadada ao sucesso eterno. O tom da obra de Albino Costa é o da união de Portugal e Brasil, igualando-se ao termo panlusismo, usado por Sérgio Buarque de Hollanda para definir esse sentimento binacional entre Portugal e Brasil.

É com esse conceito de nação que o autor imigrante louva, em As epopéias da raça , as grandes conquistas feitas por Portugal em três situações diferentes: as grandes navegações, nos séculos XV e XVI; a construção de um submarino, no século XIX; e a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, no século XX.

Das três partes em que o livro é dividido, a primeira é denominada " A epopéia do Azul ", em que é narrado o grande feito dos aviadores portugueses Sacadura Cabral e Gago Coutinho . Refazendo metaforicamente as conquistas feitas durante as grandes navegações, a primeira travessia aérea do Atlântico Sul provoca festas comemorativas em Portugal 5 e em várias cidades brasileiras, sendo a travessia amplamente saudada por brasileiros e também pelos imigrantes portugueses, pessoas que sofreram fortemente o sentimento contra a ex-metrópole, procurando assim possibilidades de negociação cultural.

Essa integração entre as duas nacionalidades é percebida nos versos em que se igualam personalidades históricas brasileira e portuguesa sob a marca da mesma "raça", já que os brasileiros Bartolomeu Lourenço de Gusmão e Alberto Santos Dumont são idolatrados juntamente com os aviadores portugueses Sacadura Cabral e Gago Coutinho.

A marca da "raça" é uma forma de ampliar os limites geográficos desses países, como se criando um novo país com novos limites geográficos: do rio Uruguai, localizado no extremo sul do Brasil, ao rio Minho, localizado no extremo norte do Portugal:

Que raça! A gente de hoje é como dantes era...

É o sangue fenício a arder dentro da raça!

Gente de terra e mar... e do ar! Só Deus a enlaça.

 

Raça! Deste o primeiro homem que voou no espaço!

E os que, contra os tufões, voam como águias de aço:

- Gusmão, Santos Dumont, Cabral, Gago Coutinho -

Só podiam nascer entre o Uruguai e o Minho!

 

É dessa forma que a nação luso-brasileira de Albino Costa é explicitamente uma comunidade imaginada, pois há realmente a invenção de uma nação que não existe (e que nem apresenta possibilidade de existir). Ao ampliar os limites das nações portuguesa e brasileira, contrapondo-os aos de outras nações, há também aqui a idéia de que a invenção dessa nação não é falsidade e sim imaginação e criação, pois esses são os traços dentro da diegese poética.

Assim como o Romantismo português já havia feito uma busca da construção nacional, Albino Costa remonta ainda a origem das grandes conquistas feitas pelas duas nações pelo sentimento de origem nos fenícios, realizando assim a busca de um passado imemorial:

Dos fenícios, colheu a tradição, tão boa,

Que Ulisses, seu herói, veio fundar Lisboa,

Na Tubalândia azul das ínsuas perfumadas,

Dos pomares sem fim e das maçãs doiradas!

Milagre de Astartéa: era o país divino!

 

Essa união das culturas distintas é buscada também no passado mais próximo, no descobrimento das terras brasileiras, retomando a lenda de Ipeca e Brás Arantes, que teriam sido os primeiros a realizar a "comunhão da raça":

Brás Arantes... A Ipeca espera ainda o outro beijo...

Frei Henrique benzeu-o ao divinal lampejo

Da cruz: missal aberto, hóstia erguida... Ipeca,

À missa florestal sob uma linda areca,

Ajoelha e cora... A virginal liga quebrou-se!...

Primeira comunhão da raça consumou-se...

Na apoteose do sol!

Um hino ao longe ecoou

Na selva imensa, em verde mar, nas naus à vela...

O céu, cúpula azul, abre infinita umbela,

Ao inúbio racial que Deus abençoou!

 

Essa pretensa unidade eliminaria diferenças não só intranacionais como supranacionais, apagando contrastes de diversos matizes e criando uma totalidade idealizante. Dessa forma, é necessário que a formação do Brasil seja vista de uma forma lendária, transformando-se em algo positivo e assemelhando-se assim ao comentário de Renan de que o esquecimento, e até mesmo o erro histórico, são fatores essenciais na criação de uma nação .

Os versos finais dessa parte retomam a metáfora da união geográfica entre os dois países, ou pelos limites geográficos da foz do Minho à foz do Chuí ou pela visão d o rio português Tejo e da constelação da Grande Ursa, que só é vista no hemisfério norte, que se opõem à Baía da Guanabara - na cidade do Rio de Janeiro - e ao Cruzeiro do Sul, que só é visto no hemisfério sul.

Evoé! Cabral! Coutinho! Eu vos saúdo... Glória!

Vosso raide ao Brasil é a sagração da história!

É a posse do espaço e a do Céu, todo inteiro:

Desde o cristal do Tejo, que a Grande Ursa ilumina,

À Guanabara azul, onde brilha o Cruzeiro!

 

Há também a idéia de que o sentimento de nacionalismo pode ser demonstrado não só na guerra (há a citação de oito guerras em que portugueses defenderam o Brasil e vice-versa), mas também em outras formas de coragem, ao arriscar a vida em nome da consagração do país natal:

Caindo, - fique o gesto, o ímpeto, a memória,

Nosso nome a ancorar dentro da pátria história!

 

Vencendo, - Portugal, sobre imortais ações,

Retome o seu lugar de líder das nações!

Ícaro não voou; teve somente o gesto..

 

Com esses exemplos, o autor busca confirmações históricas para a afirmação de que os povos brasileiro e português devem caminhar um com a ajuda do outro, buscando desfazer assim o ímpeto antilusitanista instaurado após a Independência brasileira e que ainda permanecia no início do século XX.

A segunda parte, denominada " A epopéia do Mar " e composta por cinco poemas, narra as grandes navegações e a conquista do submar feita através do Espadarte em 1888. O primeiro poema, "O Cruzeiro Astral", mostra as decisões do rei d. Manuel antes das viagens de Álvares Cabral e Vasco da Gama, que fariam Portugal espalhar-se pelo mundo.

Os três sonetos seguintes são dedicados, já pelos seus títulos, para Afonso Sanches, Vasco da Gama e Álvares Cabral, heróis portugueses que elevaram o país à condição de potência mundial ao se expandir pelos cinco continentes, mantendo o tom de grandiosidade de Portugal em relação aos outros países do mundo, como fica demonstrado na fala do rei português no poema "O Cruzeiro Austral":

Sorriu. "Tenho Guiné e as Índias refulgentes...

Mais que as ilhas do mar: eu tenho os continentes:

Meu reino avassalou mais de metade do mundo!"

 

Ou mesmo nos versos finais do soneto "Vasco da Gama":

Nesse áureo Oriente colhereis da onda

Um mundo para o luso pavilhão!

 

O último poema do livro - "Epopéia do submar" - dedica-se a idolatrar outro feito português: a conquista do submar feita em 1888, quando um "um oficial da marinha portuguesa inventou o Espadarte . Foi o precursor das naves submarinas". Nesse poema, após uma introdução na primeira estrofe, ocorre um diálogo entre o mar personificado - que se irrita com a invasão em seus domínios - e um homem, que mostra sua evolução até a conquista dos abismos do mar.

A invenção do submarino, ou mesmo do submersível, pelos portugueses em 1888, não é confirmada pela História e nem mesmo pela Marinha portuguesa atualmente, pois esta considera o Espadarte como o primeiro submersível - pois permite somente uma submersão temporária - português e sua incorporação à frota ocorreu em 1913, sendo desligado da frota em 1928.

Admitindo essa versão oficial da História, o provável é que houve uma ficcionalização de fatos históricos para que os portugueses fossem valorizados na produção poética em questão, pois é improvável um erro na datação da primeira publicação do poema, já que o autor faz uma nota explicando que o poema foi escrito treze anos antes de Santos Dumont maravilhar o mundo dando direção no Demoiselle, no vôo em torno da torre Eiffel (p. 24).

Fica reforçada, assim, a idéia de que , na busca pela afirmação da "raça" lusitana, o autor acaba por inventar a tradição portuguesa, ao atribuir até mesmo a invenção do submarino aos portugueses no século XIX.

Essa construção da História feita pelo autor é semelhante ao descrito por Umberto Eco, para quem "cada um é prisioneiro da própria história e dos próprios mitos nacionais" 6, evidenciando que, após o momento da criação dos mitos, esses são tomados como símbolos para o povo, sendo difícil a transformação da ideologia incutida.

É dessa forma que a nação luso-brasileira de Albino Costa é explicitamente uma comunidade imaginada, pois há realmente a invenção de uma nação que não existe e nem teria espaço para existir, mas que serviu para diminuir os atritos entre brasileiros e portugueses, ao estabelecer o conceito de nação que ainda era pouco firmada em ambos os países, por exemplo, de maneira não opositora entre brasileiros e portugueses, como feito pelos românticos brasileiros.

Ao final do poema, a evolução humana já teria dominado a natureza, mas seria a "raça lusitana" que teria conseguido realizar os grandes feitos da humanidade: a conquista dos oceanos no século XV e do submar no século XIX:

- "Eu subjuguei o raio, a eletricidade, os ventos,

Falo de um mundo a outro em breve instante; e vou

Galgando o espaço azul, governo os elementos...

(...)

Silêncio, irado Mar! Basta de cataclismos!

És meu! Já posso, enfim, como senhor falar-te!

E, quando me aprouver, passeio em teus abismos,

Como o fez essa nau dos lusos - o Espadarte!

 

Deve-se afirmar que "Epopéia do submar" - assim como os poemas anteriores - é uma fonte para a invenção de uma tradição, já que procura ligar o ímpeto português pelo desconhecido a um passado imemorial de um povo fundador, mostrando que o mais importante não é o que realmente conservado na memória popular, mas àquilo que foi selecionado, escrito, descrito, popularizado e institucionalizado por quem estava encarregado de fazê-lo 7.

Albino Costa tentou iniciar deliberadamente uma tradição inventada ao atribuir a criação do submarino ao povo português, mas - pelas versões atualmente aceitas - tal tradição não foi assimilada/repetida. No entanto, a dúvida de Hobsbawn sobre a função "do estudo da invenção das tradições" é desfeita nesse caso devido à necessidade do estudo dessa invenção histórica, que serviu para comprovar que Portugal (e também o Brasil) estaria num contexto social em que era necessária a criação de heróis, como Gago Coutinho e Sacadura Cabral.

A conclusão aqui é de que o imigrante português Albino Costa defendeu o panlusismo como uma autodefesa particular da cultura local e da sua cultura nativa, realizando pequenos traços de hibridismo no início do século XX em meio ao estilo conservador do século XIX, condizendo assim com sua época e sua possibilidade de negociação cultural, num exemplo da luta constante existente num imigrante entre o quanto se deve manter do "ser português" e do quanto deve se incorporar do "ser brasileiro".

 

 

COSTA, Albino. As epopéias da raça . Rio de Janeiro: O farol, 1922. Os poemas citados ao longo do artigo sempre são a partir dessa obra.

A viagem começou no rio Tejo, em Lisboa, em 30 de março, e sua chegada foi no Rio de Janeiro em 17 de junho de 1922. Essa travessia, a primeira aérea do Atlântico Sul, fez parte das comemorações do centenário da Independência Brasileira, sendo considerado como um evento histórico para a aeronáutica mundial, devido a necessidade de modificação em alguns instrumentos, adaptando-os ao uso aéreo, no intuito de possibilitar a precisão da rota e do consumo de combustível. Como era preciso amerissar perto de pequenas ilhas ao longo do oceano, qualquer desvio da rota causaria uma pane seca.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Panlusismo. In. _____. Cobra de vidro. São Paulo: Perspectiva, 1978, p. 81.

RENAN, Ernest. Qu'est-ce qu'une nation? (1882). In MELLO, Renato de. Tradução: A nação de Renan. In Caligrama - Revista de Estudos românicos, Belo Horizonte, v. 4, 2002, p. 159.

Há cartas de Florbela Espanca que demonstram o cotidiano de Portugal de então: "Nestes dias é que cá deviam estar; não imaginas o entusiasmo que vai por cá, por causa dos nossos aviadores. Os jornais não dão idéia do que isto é. Portugal está vivendo uma das suas horas mais belas. Estou ouvindo as salvas em Lisboa e parece que tudo rebenta dentro do meu coração. Tenho chorado, eu que nunca choro. É uma coisa extraordinária o que aqueles dois homens estão fazendo, e em Lisboa anda tudo maluco; não se descreve a ansiedade com que dia e noite se esperam notícias; até eu ando maluca, e poucas coisas já me comovem nesta vida. A marinha de guerra anda inchadíssima e com razão, caramba! Venham depressa gritar com toda a gente: Viva Gago Coutinho! Viva Sacadura Cabral!". (ESPANCA, p. 250).

ECO, Umberto. Viagem na irrealidade cotidiana . Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, 143.

HOBSBAWN, Eric. A invenção das tradições . São Paulo: Paz e Terra, 2002, p. 21.