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Sociedade e jogo dialético em Esaú e Jacó
Pedro Armando de Almeida Magalhães (UERJ)

Ao se analisar a questão das posturas políticas em Esaú e Jacó (1904) 1, de Machado de Assis, em geral os críticos sugerem a equivalência de partidos aparentemente opostos tanto através de metáfora associada aos personagens principais, os gêmeos Pedro e Paulo, como por intermédio da personagem secundária, D. Cláudia, cujo discurso cínico reflete um individualismo arrivista tipicamente burguês.

Deve-se frisar que tanto a metáfora quanto o posicionamento de D. Cláudia inscrevem a obra na tradição literária, brasileira e ocidental. O presente trabalho visa destacar a intertextualidade desses dois elementos e seu efeitos na economia do romance em questão.

Como é sabido, o romance Esaú e Jacó trata do nascimento, infância e juventude dos gêmeos Pedro e Paulo, que tiveram a "sorte" de nascer em uma família burguesa abastada. A previsão enunciada no início da trama se concretiza com a oposição dos dois, que, ao se tornarem adultos, afiliam-se a correntes políticas divergentes:

As barbas não queriam vir, por mais que chamassem o buço com os dedos, mas as opiniões políticas e outras vinham e cresciam. Não eram propriamente opiniões, não tinham raízes grandes nem pequenas. Eram (mal comparando) gravatas de cor particular, que eles atavam ao pescoço, à espera que a cor cansasse e viesse outra. Naturalmente cada um tinha a sua. Também se pode crer que a de cada um era, mais ou menos, adequada à pessoa. 2

Neste trecho a gravata é a metáfora de que faz uso o narrador para indicar a superficialidade da oposição entre os dois jovens. Muito embora Pedro se afilie à corrente monarquista e Paulo adote os ideais dos liberais republicanos, permanecendo em desacordo ao longo de quase toda a narrativa, a aparência idêntica dos dois e o contexto sócio-político revelam a inconsistência do contraste assumido. A oposição não passa portanto de uma tira de pano atada ao pescoço, peça do vestuário que recobre a evidência da semelhança. A gravata parece indicar mais a necessidade de afirmação da individualidade, a fragilidade da distinção entre os pontos de vista políticos, que uma convicção fundamentada em idéias, calcada em ideais filosóficos.

A metáfora da gravata se extende à integralidade dos gêmeos, mais encenação de diferença que diferença efetiva. Ela revelaria o simulacro no romance, na atitude política de determinados personagens.

Assim, o pai dos dois gêmeos, Agostinho Santos, consegue enobrecer o nome burguês, mas não fica especialmente abalado pela derrocada do Império 3. A recente aquisição do título de barão não o impede de aceitar o advento da República com bastante serenidade. Um burguês abastado como ele não encontraria dificuldades em abrir mão de tal título em proveito dos novos jogos de poder. Para um burguês rico o baronato não passaria de uma gravata presa ao pescoço.

A atitude de Santos é equivalente a de seu grande amigo, Batista. Como Santos, Batista corrabora o que se revela através da metáfora da gravata, ao procurar permanecer a todo custo na carreira política. Para isso, Batista ouve os conselhos de sua mulher, D. Cláudia.

Pertencente ao partido conservador durante a Monarquia, antes do Baile da Ilha Fiscal, Batista se vê desocupado mas ansioso por ocupar uma presidência. Como os liberais tomaram o poder, ele não vê qualquer solução para seu problema.

Todavia, para sua surpresa, D. Cláudia encontra uma saída, alegando que ele nunca tinha sido conservador:

- Batista, você nunca foi conservador!

[...]

- Você estava com eles, como a gente está num baile, onde não é preciso ter as mesmas idéias para dançar a mesma quadrilha.

Batista sorriu leve e rápido; amava as imagens graciosas e aquela pareceu-lhe graciosíssima, tanto que concordou logo; mas a sua estrela inspirou-lhe uma refutação pronta.

- Sim, mas a gente não dança com idéias, dança com pernas.

- Dance com quem for, a verdade é que todas as suas idéias iam para os liberais; lembre-se que os dissidentes na província acusavam a você de apoiar os liberais ... 4

A estratégia visa contornar a dificuldade de acesso ao poder e, se é bem sucedida, deve-se à inconsistência de partidos que se assemelham na sua dificuldade em seguir uma linha ideológica.

Ardilosa, D. Cláudia descobre o mascaramento através de sua afirmação cínica. Sua ironia é a gravata de seu discurso: Batista nunca foi conservador porque não é preciso ter as mesmas idéias para dançar a mesma quadrilha. D. Cláudia acha uma pronta solução para o dilema do marido: sugere uma mudança de adjetivo, como se muda de gravata e afirma a importância da adaptação através da imagem da dança ("Dance com quem for [...]").

D. Cláudia pode ser incluída numa galeria de personagens femininos que descobrem o véu dos meandros do poder nas obras ditas "realistas". Em Esaú e Jacó , D. Cláudia explicita, através de sua convicção cínica, as reais implicações da mecânica de poder: primazia da adaptabilidade às mudanças, alegorizada pela imagem da dança.

Num mundo em que os fins justificariam os meios, e o dinheiro é todo-poderoso, a mobilidade social é facultada para aqueles que souberem se adaptar o mais rapidamente possível ao contexto, aproveitando as oportunidades. O personagem Nóbrega é exemplo desta mobilidade e não causa espanto. Pobre e sem nome no início do romance, o irmão das almas utiliza a esmola que recebeu da mãe dos gêmeos, Natividade, para mudar a sorte e enriquecer se valendo de circunstâncias econômicas favoráveis. Graças ao Encilhamento torna-se capitalista 5. Encantado com a bela Flora, filha de Batista e D. Cláudia, faz proposta de casamento e, diante da recusa, fica surpreso. Nóbrega não entende que alguém possa recusar uma vida de riquezas materiais. Pelo fato de seus valores estarem associados ao dinheiro, não compreende a decisão de Flora, concluindo que ela só poderia estar doente 6.

As posturas dos personagens de Esaú e Jacó Pedro e Paulo, Batista e D. Cláudia, e Nóbrega se equiparam à posição adotada pelo narrador de A carteira de meu tio (1855) e Memórias do sobrinho de meu tio (1868), de Joaquim Manuel de Macedo, autor ainda hoje subestimado pela crítica. Nessas obras, que antecedem cronologicamente o romance em exame, o tom é abertamente irônico para tratar dos assuntos políticos no país. Sátiras contundentes, os dois livros se completam por representarem dois períodos da vida de um político brasileiro.

O narrador de A carteira de meu tio e Memórias do sobrinho de meu tio rejeita a postura do compadre Paciência, que critica a falta de ética e cinismo dos políticos da época. Com sinceridade "o sobrinho de meu tio" declara seu individualismo irredutível ao afirmar ser membro do partido do Eu. Enumera atitudes políticas em voga, como o desrespeito às leis, a injustiça, o pouco comprometimento com frágeis ideologias partidárias, para em seguida reafirmar a defesa de seus interesses pessoais em detrimento de qualquer outro. Nas duas obras defende as práticas condenáveis, nocivas ao bem comum, à coisa pública, para que possa vir a fazer carreira política, e é bem sucedido nesta empreitada.

Como para a sociedade descrita em Esaú e Jacó , o dinheiro é o valor que assumidamente move o protagonista de Macedo. Não se pode esperar um comportamento idealista por parte do herói. O sobrinho celebra os valores preponderantes do mundo burguês.

Ademais, sua mulher Chiquinha guarda uma certa semelhança com D. Cláudia, na sua astúcia e perspicácia. Também adota pontos de vista de acordo com sua conveniência, procurando se adaptar às circunstâncias do momento. Tal como a esposa de Batista 7, Chiquinha não é ingênua politicamente:

- Eu conheço, por exemplo, as suas idéias filosóficas relativas à necessidade material e moral do comer, e nós as senhoras, embora injusta mas felizmente excluídas da vida política, damos na prática material da nossa vida a mais sábia lição moral aos homens filosóficos e políticos: nós à mesa dos convidados ao banquete, e até à mesa da família apenas tocamos com os lábios em uma asinha de frango; mas antes do almoço ou do jantar regularmente servidos, comemos tanto quanto é preciso, embora às escondidas, para satisfazer as exigências da natureza. A lição é eloqüente e sábia aplicada à filosofia e à política: cumpre comer o mais possível atrás da porta da despensa, e de inteligência com os cozinheiros, e ostentar sobriedade ante os olhos profanos, ou diante do público.

[...]

A prima Chiquinha era um Maquiavel metido em saia de balão, e com sapatinhos de duraque preto. 8

E como Cláudia sabe ser flexível às mudanças de poder, sempre aconselhando o marido, Chiquinha chega a ser comparada a Talleyrand 9, diplomata francês que atravessou incólume e altivo as grandes mudanças de seu tempo, demonstrando grande adaptabilidade aos "sabores dos ventos".

A ausência de identidade marcante dos partidos políticos brasileiros, sugerida em Machado, é explicitada em Macedo, que prefere a metáfora das fardas ministeriais às gravatas para expressar o engodo ideológico encoberto:

[...] felizmente, para os homens de juízo, para os especuladores políticos a cuja grei pertenço, ou não há, como sustento, verdadeiros partidos políticos no Brasil, isto é, partidos de idéias, cujos chefes só o sejam pelas idéias e pela capacidade e leal disposição de as realizar no poder, sine qua non , e há somente bandos e seqüelas, e que tomam nomes sem dar importância às idéias que esses nomes significam.

[...] Eu acho muito melhor vestir-me à moda do tempo: os alfaiates não fazem fardas de ministros para vestir idéias; fazem-nas para pendurá-las nos ombros de cabides humanos. 10

Este não comprometimento com idéias e opiniões, tanto individual como coletivamente, é uma tendência do mundo burguês movido a dinheiro. No romance Le père Goriot (1834), Honoré de Balzac, através de seu personagem cínico Vautrin, também menciona peças de vestuário ao discursar sobre a mentalidade política dos novos tempos. Só que não se refere a gravatas, como Machado ao tratar do posicionamento político de Pedro e Paulo, ou a fardas, como Macedo, mas prefere as camisas para estabelecer uma comparação. Vautrin é uma espécie de Mefistófeles que procura insistentemente seduzir o herói Rastignac:

Se ainda tenho um conselho a lhe dar, meu anjo, é de que você não se deve apegar a suas opiniões nem a suas palavras. Quando lhas pedirem, venda-as. Quem se jacta de nunca mudar de opinião é como quem se propõe a seguir sempre em linha reta, um idiota que crê na infabilidade. Não há princípios, há apenas acontecimentos; não há leis, há apenas circunstâncias: o homem superior abraça os acontecimentos e as circunstâncias para conduzi-los. Se houvesse princípios e leis fixas, os homens não os mudariam como mudamos de camisa. 11

E, no mesmo discurso, assim como faz o narrador de Joaquim Manuel de Macedo, Vautrin faz o elogio do Príncipe de Talleyrand, que soube se adaptar às circunstâncias, tal como procura fazer Batista a conselho de D. Cláudia em Esaú e Jacó :

Enquanto isso, o príncipe a quem todos atiram pedras e que despreza suficientemente a humanidade para cuspir-lhe na cara tantos juramentos quantos ela lhe pede, impediu a partilha da França no Congresso de Viena: devem-lhe coroas e atiram-lhe lama. Oh! Conheço os negócios públicos, sei os segredos de muitos homens! Isso basta. Eu teria uma opinião inabalável no dia em que encontrasse três cérebros de acordo sobre o emprego de um princípio. Teria de esperar muito por isso! 12

Além do criminoso Vautrin, o herói Rastignac conta com a ajuda da nobre Madame de Beauséant, prima que pertence às altas esferas do faubourg Saint-Germain. Todos os dois, cada um a seu modo, procuram ajudá-lo na luta por um lugar na elite parisiense. A viscondessa de Beauséant, é tão astuta quanto D. Cláudia e Chiquinha, quando revela as estratégias de comportamento para chegar ao topo da sociedade:

Quanto mais friamente você calcular, mais longe irá. Fira sem piedade e será temido. Considere os homens e as mulheres apenas como cavalos de posta que você abandonará estafados em cada estação de muda e assim atingirá o auge de suas ambições. Fique sabendo, você não será nada aqui, se não tiver uma mulher que se interesse por você. É preciso que ela seja jovem, rica e elegante. Mas se tiver uma afeição sincera, esconda-a como um tesouro; não permita que suspeitem dela, senão você estará perdido. 13

Como se pode notar, em Machado, Macedo e Balzac, a mulher é aliada na luta pela ascensão social, revelando o que a vestimenta aparentemente distintiva encobre, pregando a dissimulação que serve ao arrivismo burguês. Em Esaú e Jacó , se a mulher é grande aliada na ascensão social, na afirmação da versatilidade política em detrimento de grandes ideais, ela também pode sugerir um romantismo bem mais complexo, que não aceita se deixar enganar pela superfície, por gravatas ou outros disfarces.

 

ASSIS, Machado. Esaú e Jacó . Garnier; Rio de Janeiro; 243 p.; 1988.

Ibidem pp. 62-63

A aflição de Santos dura pouco. É o que parece demonstrar o capítulo LXVI [Ibid. pp. 147-148].

Ibid. pp. 103-104

Ibid. p. 161

Ibid. pp. 211-212

Ibid. capítulos XLVII e LXXVIII

MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias do sobrinho de meu tio . Companhia das Letras; São Paulo; 535 p.; 1995. [pp. 131-132]

Ibidem p. 510

Ibid. pp. 317-318

BALZAC, Honoré de. O pai Goriot . Trad. Gomes da Silveira. Globo; São Paulo; 1989. [p. 107]

Ibidem

Ibid. p. 82