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Fortuna crítica machadiana : travessias temporais, interpretativas e interdisciplinares - do século XIX ao XXI
Paulo Bungart Neto (UNESP)
Não temos a pretensão de referir, em tão curto espaço, toda a história da crítica machadiana, uma vez que, conforme indica Jean-Michel Massa na introdução de A juventude de Machado de Assis (1839-1870) - Ensaio de biografia intelectual 1, somente até 1958, ano do cinqüentenário de morte do autor, há mais de 2.500 trabalhos a respeito da vida e da obra de Machado de Assis. Assim, além de comentarmos alguns estudos tidos como comparatistas e interdisciplinares, pensaremos sobretudo no modo pelo qual a fortuna crítica machadiana transitou por diversas fases ao longo de sua evolução, fato que nos leva a eleger determinados críticos como representativos das várias travessias efetuadas.
Se considerarmos que a crítica literária brasileira nasceu com a geração de 1870, encabeçada por estudiosos tais como Araripe Júnior, Capistrano de Abreu e, sobretudo, Sílvio Romero e José Veríssimo, não seria exagero afirmar que tal despertar está intimamente ligado ao próprio início da crítica machadiana, uma vez que Romero e Veríssimo polarizaram, entre o final do século XIX e o início do XX, as discussões a respeito do valor do texto machadiano, a partir de critérios divergentes - Romero, influenciado por teorias cientificistas então em voga, não reconhecia a excelência da produção de Machado, pois se apoiava na superficialidade de critérios tidos como "nacionalistas", ao passo que Veríssimo, amigo pessoal de Machado e companheiro deste na fundação da ABL, logo percebeu a importância de sua literatura apoiando-se exclusivamente em critérios estéticos e estilísticos.
José Veríssimo foi o primeiro a notar que Machado de Assis, "escritor desde os seus
princípios consciente e reflexivo, que nunca se deixou arrastar pelas modas literárias" (1954, p. 349), era um dos "engenhos privilegiados que, sentindo fortemente a vocação literária, com a clara consciência da necessidade de ajudá-la pela aplicação e trabalho, a si mesmo se educam" (1954, p. 344) 2. Já Sílvio Romero, comparando equivocadamente a obra de Machado de Assis à de Tobias Barreto, fracassa em sua abordagem pois tenta em vão aplicar um sistema predeterminado de fórmulas positivistas a uma obra que fugia a qualquer espécie de classificação, além de julgar que o pessimismo, o humour e a ironia de Machado eram mera cópia de autores ingleses e franceses. A seqüência dos estudos a respeito da obra machadiana e o fato de um crítico como Harold Bloom relacioná-lo como um dos "cem gênios da humanidade" comprovam o pioneirismo das considerações de Veríssimo e o erro de interpretação por parte de Sílvio Romero.
Após a morte de Machado de Assis, em 1908, uma série de estudos biográficos e laudatórios vieram a lume, destacando-se aqui as palestras de Alfredo Pujol apresentadas à Sociedade de Cultura Artística de São Paulo entre novembro de 1915 e março de 1917, e reunidas posteriormente sob o título de Machado de Assis - Curso literário em sete conferências 3. Neste ciclo de homenagens, o próprio palestrante adverte que não fará "obra severa e profunda de crítica literária" (1917, p. VII), e que seu humilde levantamento biográfico servirá apenas como sugestão para estudos de maior fôlego. Dessa forma, Pujol apenas narra, em ordem cronológica, fatos marcantes da vida e da carreira de Machado de Assis. Em tom excessivamente romântico, Pujol idealiza o sofrimento de Machado, pintando-o com lirismo e afetação:
A crueza exterior da vida, com as suas rudes arestas, com as suas realidades agressivas, enchia de sombras a pobre alma de Machado de Assis, mas ninguém lhe escutava uma queixa, porque sabia afogar dentro em si mesmo as suas penas. (1917, p. 27)
A sugestão de Pujol, a respeito do "estudo documentado da vida e da obra do mestre", encontra ressonância no volume publicado por Lúcia Miguel Pereira em 1936 4. Mesmo tendo surgido após o início, a partir do ensaio de Augusto Meyer (1935), de um novo ciclo da crítica machadiana (a "abordagem psicológica", como veremos a seguir), e embora muitas de suas afirmações, sobretudo a respeito da influência de Carolina na produção machadiana, tenham sido rechaçadas por Raimundo Magalhães Júnior em 1955, no volume Machado de Assis desconhecido , a obra de Miguel Pereira possui o mérito de fixar alguns importantes conceitos a respeito da figura de Machado, fornecendo dados que serão, a seu tempo, interpretados por autores como Mário Matos, Eugênio Gomes e outros.
Em Machado de Assis na literatura brasileira , Afrânio Coutinho 5 aponta a obra Machado de Assis - Algumas notas sobre o 'humour' , de Alcides Maya 6, lançada em 1912, como a primeira grande travessia da fortuna crítica machadiana, uma vez que, a partir deste volume, segundo Coutinho, podemos falar em uma separação entre crítica biográfica e crítica 'interna'. Diz o crítico:
Passada a primeira fase da crítica, a dos precursores por assim dizer, (...) que atuaram ainda em vida do escritor, será necessário aguardar até 1912 para a retomada de contato, por parte da crítica brasileira, com a obra de Machado de Assis. É a publicação do livro de Alcides Maya. Podem-se apontar a partir de então duas correntes que se avolumam, envolvendo pela sua mirada os diversos aspectos de Machado de Assis: a corrente do biografismo e a corrente da crítica interna. Uma esmiuçando a vida do autor, sua psicologia, sua posição no tempo, e em face dos vários problemas do país, procurando interpretar a obra através da vida e vice-versa; a outra, dedicando-se à análise e interpretação da obra em si mesma, nos seus elementos estruturais, temáticos, estilísticos e ideológicos, nas influências literárias e filosóficas, na sua técnica, nas idéias estéticas. (1994, v.1, p. 61)
Trinta e cinco anos após a publicação do estudo de Alcides Maya, Augusto Meyer reconhece, no capítulo "Sugestões de um texto", presente em À sombra da estante 7, o caráter pioneiro da abordagem de Maya, já que este foi o primeiro a perceber que o que salvara a obra
machadiana da monotonia era justamente a "paixão da análise psicológica". (Meyer, 1947, p. 78). Pela primeira vez, segundo Meyer, Machado encontrava "um intérprete à altura do seu espírito, capaz de analisar-lhe a obra com igual paixão de análise, decidido a romper a crosta de opiniões feitas, para insuflar vida nova ao morto ilustre" (1947, p. 65).
Na esteira do novo ciclo iniciado por Alcides Maya, o próprio Augusto Meyer ocupa um lugar fundamental na consolidação desta guinada nos estudos machadianos ao defender, em 1935, a idéia segundo a qual Machado de Assis, introspectivo ao extremo, deliciava-se voluptuosamente com a análise pelo "puro prazer da análise". Assim, seu volume, intitulado Machado de Assis , tornou-se um marco da chamada "fase psicológica" da fortuna crítica do romancista, pois ao comparar o próprio autor ao "homem subterrâneo" das Memórias do subsolo de Dostoiévski, Augusto Meyer abandona a abordagem biográfica na tentativa de surpreender o escritor através das "atitudes" de seus personagens. Predomina, nesta abordagem, o ângulo da introspecção e do psicologismo, motivo pelo qual tal estudo, iconoclasta e desafiador, fez de Augusto Meyer um agudo observador dos meandros da alma machadiana, configurando, assim, o grau mais elevado de interpretação psicológica da obra de Machado de Assis e inaugurando uma nova fase da crítica de nosso autor maior.
Ainda na década de 1930 surge um outro estudo fundamental para a consolidação deste novo ciclo da crítica machadiana - o ensaio "Influências inglesas em Machado de Assis" (1939), de Eugênio Gomes, incorporado, dez anos depois, à primeira edição de Espelho contra espelho - Estudos e ensaios 8. Para Otto Maria Carpeaux, o ensaio de Eugênio Gomes deve ser considerado "o primeiro estudo sério de literatura comparada aplicada a Machado" 9, uma vez que o crítico baiano analisa os supostos influxos recebidos por Machado de Assis, direta ou indiretamente, de escritores tais como Shakespeare, Swift, Sterne, Lamb e Dickens,
sendo que o autor de Hamlet é, para Eugênio Gomes, o influxo mais evidente, fato que pode ser comprovado através do grande número de alusões presentes na obra machadiana a emblemáticos trechos e personagens que compõem o cânone shakespeariano, principalmente aqueles que dizem respeito às peças Otelo , Hamlet , Macbeth e Romeu e Julieta .
Também em Espelho contra espelho , Gomes publica outro importante estudo comparatista envolvendo Machado de Assis - trata-se do ensaio intitulado "Uma fonte francesa: Victor Hugo" (1949, p. 78-93), no qual mostra a influência do poeta francês sobre a obra de Machado, especialmente sobre a narrativa do delírio de Brás Cubas. Além dos textos supracitados, Eugênio Gomes veicula ainda seis ensaios sobre Machado no volume Prata de casa , de 1953, e um volume inteiro, lançado em 1958 sob o título de Machado de Assis 10. Neste último, além de aproximá-lo, uma vez mais, a grandes nomes da literatura universal (Pirandello, Gógol, Balzac e Oscar Wilde, por exemplo), Gomes concentra-se em aspectos específicos de sua obra, tais como: Machado como crítico teatral e como autor de peças; como censor dramático; e como colaborador de seções de jornal pouco divulgadas.
Além dos estudos comparatistas de Eugênio Gomes, convém lembrarmos que no final da década de 1930 surgiram diversos estudos interdisciplinares envolvendo a obra machadiana, dentre os quais poderíamos citar o de Peregrino Júnior ( Doença e constituição de Machado de Assis , 1938) 11, significativa contribuição psicofisiológica para a compreensão da enfermidade de Machado; o de Hugo Bressane Araújo ( O aspecto religioso na obra de Machado de Assis , 1939) 12, que, ao fazer o levantamento das passagens bíblicas presentes em sua produção, relaciona literatura e religião; e o de Astrojildo Pereira ( Interpretações , publicado em 1939 na Revista do Brasil ) 13, importante análise sociológica da obra do escritor.
Esta segunda fase dos estudos machadianos pôde rever seus próprios conceitos a partir da publicação, em 1955, do volume Machado de Assis desconhecido , de Raimundo Magalhães Júnior 14, obra destinada a rechaçar e retificar várias idéias inconsistentes - que anteriormente posavam como verdades irrefutáveis - a respeito da vida e da obra de Machado de Assis. Segundo Magalhães Júnior, o seu livro
(...) representa o levantamento de alguns aspectos da vida e da obra de Machado de Assis que permaneciam obscuros, ou ignorados, e um esforço no sentido de ampliar algumas das pesquisas já iniciadas, mas não aprofundadas, por vários de seus comentadores e biógrafos. Sob certos aspectos, constitui uma refutação a conceitos e afirmações que, há longo tempo impressos, ganhavam foros de autenticidade que estão longe de possuir. Em grande parte, esses falsos conceitos nascem do desconhecimento de uma parcela da vasta produção que Machado de Assis deixou dispersa, em jornais e revistas, nos quais poderia ser recolhido material para pelo menos mais uma dezena de volumes. (1957, p. 01)
Inúmeras são as crenças e idéias refutadas por Magalhães Jr. em Machado de Assis desconhecido . O crítico preocupou-se em pesquisar a autenticidade de afirmações relacionadas sobretudo à postura política e social de Machado em face dos acontecimentos mais expressivos de sua época - a guerra do Paraguai; a abolição da escravatura; e a proclamação da República, entre outros. Em cada discussão, Magalhães Júnior apresenta diversas provas, retiradas da própria obra literária ou jornalística de Machado de Assis, contrariando o estereótipo de absenteísta, anti-social, misantropo e recalcado, criado pelas gerações anteriores, e confirmando a nova tônica a imperar na crítica machadiana, qual seja, a de se apoiar nos textos do autor e não mais em sua biografia.
Fica claro, portanto, que estudos como os de Augusto Meyer, de Eugênio Gomes e de Raimundo Magalhães Júnior, bem como os de Afrânio Coutinho e de Mário Matos, são
responsáveis por uma espécie de ponte entre a abordagem inicial da obra machadiana e a crítica moderna, que, sobretudo a partir da década de 70, procurou interpretar a obra de Machado concentrando-se exclusivamente em questões ligadas ao texto.
A análise da estrutura intrínseca da obra machadiana começa a tomar forma a partir dos textos de Antonio Candido, os quais, abandonando definitivamente o clichê romântico de seus predecessores, que se compraziam na valorização excessiva de componentes biográficos relacionados à cor, à epilepsia e à origem social humilde de Machado de Assis, mostraram a necessidade de se estudar a obra de Machado como parte significativa de nossa evolução literária e cultural e do despertar da consciência de uma identidade nacional.
No ensaio de abertura do volume Vários escritos 15, intitulado "Esquema de Machado de Assis", Antonio Candido destaca o caráter moderno da escrita de Machado - "modernidade" esta que faz dele, atualmente, referência unânime de estilo e modelo de refinada sutileza psicológica - , bem como a distância que o romancista soube manter dos rótulos literários da época, pois
(...) num momento em que os naturalistas atiravam ao público assustado a descrição minuciosa da vida fisiológica, ele timbrava nos subentendidos, nas alusões, nos eufemismos, escrevendo contos e romances que não chocavam as exigências da moral familiar. (1970, p. 19)
Muitos desses contos e romances, segundo Candido, anteciparam, de certa forma, diversos aspectos explorados pelos autores do século XX, sobretudo nos textos escritos entre 1880 e 1900, nos quais encontramos, "disfarçados por curiosos traços arcaizantes, alguns dos temas que seriam característicos da ficção do século XX". Para Candido, o fato de a obra de Machado "encontrar atualmente certo êxito no Exterior, parece mostrar a [sua] capacidade de sobreviver, isto é, de se adaptar ao espírito do tempo, significando alguma coisa para as gerações que leram Proust e Kafka, Faulkner e Camus, Joyce e Borges" (1970, p. 17).
Já em "Machado de Assis de outro modo", presente na coletânea Recortes 16, Antonio Candido indica os estudos de Roger Bastide como
(...) o primeiro ensaio que trata a obra de Machado de Assis de modo realmente contemporâneo, pois não se refere à biografia, nem à psicologia, nem à sociedade, nem à correção da língua, mas à própria natureza do discurso, propondo explicitamente o conceito de latência e encarando a realidade exterior como matéria de construção literária. (1993, p. 103)
Antonio Candido esclarece ainda que Roger Bastide, duvidando da "tradição gasta" e da "opinião geral", que insistiam na "ausência de cor local" nos textos machadianos, conseguiu provar que na obra de Machado de Assis o Brasil "estava presente no miolo" e "não na aparência", motivo pelo qual a descrição explícita da natureza assumia papel secundário.
José Guilherme Merquior, em "Machado de Assis e a prosa impressionista", pertencente a De Anchieta a Euclides: breve história da literatura brasileira 17, também acredita que Machado de Assis "universalizou decisivamente a mensagem da literatura brasileira", pois "com ele é que as nossas letras, enfim compenetradas da função predominante da literatura na era contemporânea - a função de problematização da vida - passam a enfrentar com força e originalidade o desafio das mais altas produções do espírito ocidental" (1977, p. 185). A modernidade de Machado, para Merquior, está no fato de ele, através de sua "visão problematizadora", caracterizada pela discussão do "sentido da existência", inscrever-se "no centro vivo da tradição moderna", ao lado de "nomes como Goethe ou Hölderlin, Dostoiévski, Kafka ou Fernando Pessoa" (1977, p. 154).
Também em 1977, Roberto Schwarz lança Ao vencedor as batatas 18, primeira parte de um estudo que somente se completaria em 1990, com a publicação de Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis 19. No primeiro, Schwarz analisa os romances "românticos" de Machado (em especial, A mão e a luva , Helena e Iaiá Garcia ) , com o intuito de
"especificar o mecanismo social, na forma em que ele se torna elemento interno e ativo da cultura""(p. 24) e de "examinar mais de perto (...) a formação de um substrato literário com densidade histórica suficiente, capaz de sustentar uma obra-prima" (p. 50). A intenção do crítico é apontar de que forma a produção literária do final do século XIX no Brasil (e em particular a produção machadiana) se relaciona à peculiar e complexa situação de nossa sociedade, àquele momento já vivendo sob regime republicano e livre, porém ainda sofrendo as mazelas do sistema escravista e as conseqüências de inúmeros séculos de colonização européia. A esse respeito, leia-se do crítico o ensaio "Duas notas sobre Machado de Assis", de Que horas são? 20, no qual Schwarz discute a dialética do local e do universal na literatura machadiana.
Foi também sob o signo desta dialética que Roberto Schwarz focalizou as Memórias Póstumas de Brás Cubas em Um mestre na periferia do capitalismo , buscando demonstrar "a possível correspondência entre o estilo machadiano e as particularidades da sociedade brasileira, escravista e burguesa ao mesmo tempo (...)", e concluir pela "ousadia de sua forma literária, onde lucidez social, insolência e despistamento vão de par, define-se nos termos drásticos da dominação de classe no Brasil (...)" (1991, p. 12).
Abordando a obra de Machado a partir do que ela representou para a afirmação de nossa literatura e de nossa identidade cultural, Schwarz não poderia deixar de observar a modernidade presente no grande painel que Machado traçou do funcionamento da sociedade brasileira do século XIX, através de um estilo que, "anunciando rupturas radicais", refletia a substituição do "mecanismo atrasado da patronagem oligárquica por espécies novas de autoridade, fundadas na ciência e no mérito intelectual" (1991, p. 143).
Influenciado pela análise de Schwarz em Ao vencedor as batatas , o crítico inglês John Gledson publica, em 1984, o volume Machado de Assis: Impostura e realismo - Uma reinterpretação de Dom Casmurro 21, que tem por objetivo "apresentar ao leitor uma nova interpretação de uma das obras mais célebres da língua portuguesa", orientado pela noção segundo a qual "nos maiores romances de Machado, o enredo e o retrato das personagens são determinados, em primeiro lugar, por fatores sociais", a despeito da "perspicácia psicológica" do autor (1991, p. 13). Na opinião do crítico britânico, Dom Casmurro nos mostra
(...) uma ordem social conservadora empenhada numa tentativa dolorosa e, sob muitas formas, fracassada e autodestruidora de conservar seu poder e sua autoconfiança: o microcosmo familiar, visto como uma metáfora de toda a classe dominante, também desvenda verdades sobre a composição política, ideológica e religiosa do Segundo Reinado. (1991, p. 13)
Carlos Fuentes, em "O milagre de Machado de Assis" 22, também se refere à modernidade da obra de Machado e à extrema sintonia entre esta e a discussão a respeito da identidade latino-americana, a tal ponto que, para ele, "os elementos carnavalescos, o riso jucundo que Bakhtin atribui às grandes prosas cômicas de Rabelais, Cervantes e Sterne estão presentes em Machado" (2000, p. 08). O último parágrafo do texto de Fuentes resume perfeitamente a modernidade, a maturidade e o alcance da obra de Machado de Assis, servindo, ao mesmo tempo, como exemplo das amplas possibilidades que os críticos atualmente detectam na mensagem deixada pelo romancista:
Machado de Assis (...) é um 'adelantado' do mundo da imaginação e da ironia, da mestiçagem e do contágio em um mundo cada dia mais ameaçado pelos carrascos do racismo, da xenofobia, pelo fundamentalismo religioso e por outro implacável fundamentalismo: o do mercado. (...) Machado, o brasileiro milagroso, continua a nos decifrar porque continua a nos imaginar, e a verdadeira identidade ibero-americana é somente a da nossa imaginação. Imaginação literária e política, social e artística, individual e coletiva. (2000, p. 11)
Como não há espaço suficiente para analisarmos outros textos fundamentais para a compreensão da moderna fortuna crítica machadiana, gostaríamos apenas de indicar a leitura de estudos como os de Silviano Santiago ("Retórica da verossimilhança", em Uma literatura nos trópicos ) 23; de José Paulo Paes ("A armadilha de Narciso" e "Um aprendiz de morto", de Gregos & Baianos ) 24; e de Gilberto Pinheiro Passos ( A poética do legado: Presença francesa em Memórias Póstumas de Brás Cubas 25, e As sugestões do Conselheiro - a França em Machado de Assis: Esaú e Jacó e Memorial de Aires ) 26.
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1971.
Veríssimo, José. História da literatura brasileira - de Bento Teixeira a Machado de Assis . 3ª edição. Rio de Janeiro, José Olympio, 1954.
São Paulo, Tipografia Brasil, 1917.
Miguel Pereira, Lúcia. Machado de Assis - Estudo crítico e biográfico . 5ª edição. Rio de Janeiro, José Olympio, 1955.
V. Obra completa de Machado de Assis . 9ª edição. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994, v.1.
2ª edição. Rio de Janeiro, Bedeschi, 1942.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1947.
São Paulo, Instituto Progresso Editorial, 1949.
V. Carpeaux, Otto Maria. Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira . Rio de Janeiro, Ediouro, s.d., p. 203.
Rio de Janeiro, Livraria São José, 1958.
2ª edição. Rio de Janeiro, INL / José Olympio, 1976.
São Paulo, Edições Paulinas, 1978.
Rio de Janeiro, Casa do Estudante do Brasil, 1944.
3ª edição. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1957.
São Paulo, Duas Cidades, 1970, p. 15-32.
São Paulo, Companhia das Letras, 1993, p. 105-109.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1977, p. 150-201.
São Paulo, Duas Cidades, 1977.
2ª edição. São Paulo, Duas Cidades, 1991.
São Paulo, Companhia das Letras, 1987, p. 165-178.
São Paulo, Companhia das Letras, 1991. Tradução de Fernando Py. Título do original em inglês: The deceptive realism of Machado de Assis - A dissenting interpretation of Dom Casmurro.
Caderno Mais! - Suplemento cultural da Folha de São Paulo , São Paulo, 01 out. 2000.
São Paulo, Perspectiva, 1978, p. 29-48