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A crônica machadiana no contexto de Ilustração Brasileira: ironia, trocadilho e fábula como estratégias de leitura a 'contrapelo'
Maria Rosa Duarte de Oliveira (PUC-SP)

" Este mês de maio, que é o mês das flores, vai ser o mês das artes, que são as flores do espírito. Bonita idéia! Não é sublime, mas tem a vantagem de ser chocha " ("Histórias de 15 dias", 15/05/1877)

 

O gênero crônica foi aquele ao qual Machado de Assis se dedicou durante toda a sua vida de escritor, produzindo mais de 600 pelos diversos periódicos nos quais atuou. Desses, Ilustração Brasileira foi aquele do qual Machado participou de 1876 a 1878, inscrevendo suas crônicas na seção "História de 15 dias", substituída depois por "Histórias de 30 dias" de janeiro a abril de 1878, data do término dessa publicação.

Embora em séries posteriores na Gazeta de Notícias - "Balas de Estalo" (1883-1886), "Bons Dias!" (1888-1889), "A Semana" (1892-1897) - haja maior aprimoramento da arte do cronista, nestas "Histórias de 15 dias" já se percebe a sensibilidade de Machado de Assis para a singularidade do novo meio - o jornal - que veio não apenas para dar maior visibilidade pública e trabalho para os homens de letras como ele, mas também para proporcionar a experimentação de outras estratégias discursivas que Machado levou para os seus romances e contos, também eles filhos híbridos em travessia do jornal para o livro.

De quais estratégias se trata? No caso machadiano, a percepção de que é preciso apostar no "chocho" e popular, capaz de desestabilizar o "sublime" do estilo retórico, que deve habitar outras paragens - a do livro - mas não a do jornal. A ironia, o trocadilho e a fábula se ajustam a essa tarefa por terem raízes no universo popular, bem como o discurso dialogado, a chave-mestra que penetra em todas as reentrâncias da crônica, trazendo o leitor para dentro da cena discursiva, num contato "corpo a corpo" que remonta à tradição oral de uma população quase que totalmente analfabeta. Um exemplo disso está na crônica de abertura da seção História de 15 dias em 01/07/1876:

(IV) Sobre notas tivemos esta quinzena duas espécies, as falsas e as da ópera italiana (...) ópera italiana é uma maneira de falar. Reuniram-se alguns artistas, que vivem há muito entre nós, e cantaram o Trovador; prometem cantar algumas óperas mais.

São bons? Não sei, porque não os fui ainda ouvir ; mas das notícias benignas dos jornais, concluo que, _um 'não cantou mal', _outro 'interpretou bem algumas passagens', o coro de mulheres 'esteve fraquinho' e o de homens 'foi bem sofrível e não se achava mal ensaiado' .

São as próprias expressões de um dos mais competentes críticos.

Que concluir depois, se não que o público fluminense é uma das melhores criaturas do mundo ? 1

Se, por um lado, o discurso do cronista mantém-se próximo do modelo artesanal de narrativa - seja pela proximidade da língua falada por meio da seleção vocabular mais afinada com o popular ("é uma maneira de falar"; "fraquinho"), seja pela inserção do interlocutor na cena ("São bons?")-, por outro, põe em crise esse mesmo modelo ao violar o princípio de autoridade desses primeiros narradores da tradição oral: os viajantes, os agricultores e os comerciantes 2.

No lugar do relato vinculado a um "eu", de cuja experiência e sabedoria provém a história a ser contada, o que temos aqui é um "eu" fragmentado, que admite o não-saber e, além disso, demonstra a relatividade de seus comentários, já que feitos a partir de fontes informativas sobre as quais não tem poder. Revela-se aí uma tensão entre assumir - não assumir o controle da linha narrativa ao dividir a autoria com outros interlocutores, sejam eles os jornais, sejam os leitores potenciais da crônica. Instaura-se, de qualquer modo, uma forma nova, que faz do princípio dialogal seu constructo de base.

Curiosamente, Manassés, a assinatura ficcional de Machado de Assis em "Histórias de 15 dias", remete-nos, também, à mesma ambivalência e tensão presentes na voz do cronista: de um lado o esquecimento 3, inscrito nas origens de seu nome, aponta para os vazios e cortes da narrativa industrial; de outro, recupera o sentido do narrador tradicional ao inserir na sua visão particular de mundo as notícias lidas e relembradas durante os quinze dias de intervalo entre uma crônica e outra.

A crônica, no jornal, dá lugar a outra sintaxe narrativa feita por saltos e panorâmicas que cortam a continuidade da linha por meio da pluralidade de "quadros em movimento", à semelhança da linguagem do cinema. Para o cronista o desafio é, então, o de restabelecer a unidade em meio à fragmentação e à digressão, o que leva Machado, assim como Alencar, a inventar soluções para esse novo tipo de prosa que deve incorporar em sua forma os cortes e as lacunas de um mundo múltiplo, em travessia acelerada pelas páginas do jornal.

Esses "saltos" desestabilizadores do continuum narrativo remeteram José de Alencar, em "Ao Correr da Pena", a uma associação entre o cronista e o colibri, imagem que Machado de Assis recupera na figura do colibri-folhetinista, "espécie fútil e vulgar que salta, esvoaça, brinca, tremula, paira e espaneja-se sobre todos os caules suculentos, sobre todas as seivas vigorosas. Todo o mundo lhe pertence; até mesmo a política." 4

Com efeito, se há certa afinidade entre o cronista e o folhetinista-colibri pela proximidade com a função de divertimento, própria dos rodapés de jornais, há também afinidade entre o cronista e o ensaísta, ao modo de Montaigne, pelo caráter a-sistemático e não especializado de seus escritos, fazendo eco à frase machadiana de que "todo mundo lhe pertence; até mesmo a política".

Tal como o ensaísta, o cronista se apropria de realidades de segunda mão, à semelhança de um "colecionador de miudezas", alimentando-se daquilo que o jornal lançou fora do circuito informativo. Nesse sentido, é ele também um duplo do artista-trapeiro 5, imagem tão cara a Benjamin para definir o novo papel do artista na era industrial - o de colecionador do lixo que a metrópole despreza e que ele recupera por meio da intervenção estética.

É no modo como o cronista Manassés se apropria das notícias que lê, seleciona e interpreta, que está a chave dessa intervenção estética, como poderemos perceber em "História de 15 dias" de 01/03/1877:

Publicou-se nesta quinzena o relatório da Repartição de Estatística . Já o folheei em grande parte. Achei algumas notícias curiosas para mais de um leitor . Assim, por exemplo, quantos persas supõem que há no Império?45. Deste, oito estão nesta Corte. Os turcos são apenas quatro, dos quais, nesta Corte, três. São 11 os japoneses; 60 os gregos. Uma arca de Noé em miniatura". 6

Observe-se aí como a atitude do cronista é a de um leitor que "lê ao revés", isto é, retira de um simples relatório de estatística aquilo que, embora irrelevante enquanto teor informativo, produz efeito ficcional com base no inusitado de outro tipo de "achado estatístico": aquele que observa a incidência das nacionalidades, as mais exóticas, nos habitantes do Rio de Janeiro e daí deriva uma metáfora imprevisível: a Corte é uma "arca de Noé em miniatura"; interrupção abrupta que, à semelhança da anedota ou de um dito chistoso, detona o riso ambivalente e irônico.

Manassés-cronista assume, então, a dupla face de autor-leitor, pondo em prática, por vias transversais, o sentido do "conselho" dos narradores da tradição oral, ou seja, formar a partir de sua performance discursiva outros autores e leitores ideais: aqueles capazes de narrar ou escrever uma leitura a contrapelo; leitura mastigativo-ruminativa de quem tem "4 estômagos no cérebro", capacitando-se a ler "o oculto e o escondido", conforme a lúcida autobiografia de outro duplo autoral do cronista, vinte anos mais tarde, na seção "A Semana" de 11/11/1897 na Gazeta de Notícias :

Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto (...) coisas que entram pelos olhos, eu apertei os meus para ver coisas miúdas, coisas que escapam ao maior número, coisas de míopes. A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam . 7

 

Ironia, trocadilho e fábula no discurso dialogado: estratégias para a formação de autores-leitores

A ironia, o trocadilho e a fábula são matrizes discursivas perpassadas por um diálogo interno, no sentido bakhtiniano. Isso significa desdobramento e bivocalidade entre o "eu" e o "tu" num discurso capaz de divertir e fazer pensar por meio da fusão entre o estético e o ético em ação sobre a conduta. Ocupam, na cultura popular, espaço significativo por serem armas de astúcia, talvez resquício da tradição de um grupo de narradores - os comerciantes. Com elas, é possível "ouvir sem ouvir" a voz da cultura popular no seu confronto com a oficial, instaurando, na cena discursiva, o embate das diferenças e das tensões sociais.

Mais que uma figura retórica, a ironia pressupõe uma cena triádica: a do "ironista", a do destinatário-interpretador e as circunstâncias (contexto) que cercam a situação discursiva. Essa é também a visão de Hutcheon 8, que vê a ironia como um jogo inferencial no qual ambos os jogadores - o ironista e o interpretador - não partem dos mesmos pressupostos e, por isso mesmo, a intenção do ironista pode não ser interpretada enquanto tal pelo destinatário, caso este não tenha conhecimento do contexto referido.

É importante acrescentar, ainda, que ironia pressupõe duplo-sentido, sendo a inversão um deles, talvez o mais freqüente, porém não suficiente para se constituir no único fator determinante desse tipo de discurso. Segundo Hutcheon, é o caráter pragmático-social de avaliação e de crítica que distingue a ironia de outros jogos verbais, como é o caso dos trocadilhos, nos quais a intenção é muito mais lúdica e humorística.

A ironia, como estratégia de combate, pode se valer, também, da intimidade com o destinatário, o que ocorre com muita freqüência nas crônicas de Manassés, para produzir um efeito de oposição ainda mais eficaz. Esse é o caso desta crônica de 15/02/1877 em "História de 15 dias" na qual a ironia se irmana ao trocadilho, e até mesmo à fábula, para produzir o efeito corrosivo de crítica social:

(III) Inauguraram-se os bonds de Santa Teresa, - um sistema de alcatruzes ou de escada de Jacó, - uma imagem das coisas deste mundo (...)

Escusado é dizer que as diligências viram esta inauguração com um olhar extremamente melancólico. Alguns burros, afeitos à subida e descida do outeiro, estavam ontem lastimando este novo passo do progresso. Um deles, filósofo humanitário e ambicioso, murmurava: __ Dizem: les dieux s'en vont. Que ironia! Não, não são os deuses, somos nós. Les ânes s'en vont , meus colegas, les ânes s'en vont .

E esse interessante quadrúpede olhava para o bond com um olhar cheio de saudade e humilhação. Talvez rememorava a queda lenta do burro, expelido de toda a parte pelo vapor, como o vapor o há de ser pelo balão, e o balão pela eletricidade, a eletricidade por uma força nova, que levará de vez este grande trem do mundo até à estação terminal . 9

O recurso do trocadilho aí gera efeitos distintos: de um lado a diversão e o riso provocados pela rápida substituição - deuses/asnos se vão- ; de outro, levar à reflexão de como uma simples troca de palavras pode significar as conseqüências perversas do progresso (burros/bondes), além de derrubar a "língua dos deuses" do século XIX - o francês - de seu trono, ao ser alvo de troça/troca pelo mais irracional dos animais - o burro. No entanto (inversão das inversões!), trata-se de um burro filósofo e mestre da ironia, numa reunião contraditória entre saber e não saber; intelecto e força bruta; alto e baixo.

A cena irônica se estabelece, então, por força do duplo sentido do trocadilho cujo alcance crítico e corrosivo atinge, de uma só vez, quer a artificialidade de imitação dos hábitos franceses pela burguesia do Rio de Janeiro, quer o conceito de filósofo vinculado ao letrado, distanciado dos casos anônimos do cotidiano. Na figura do burro-filósofo, pois, os opostos se tangenciam e criam um híbrido que condensa a essência do cronista e da crônica, essa espécie de ruminação de coisas miúdas, digressiva e a-sistemática, não por acaso afinada com a atitude do ensaísta.

A autoria e a intenção irônica, por sua vez, cabem à parceria entre o burro-filósofo e o cronista, que é capaz não só de entender o murmúrio desse animal, tal qual ocorrerá em crônica posterior na Gazeta de Notícias 10, como também de transportar-se para o seu ponto de vista sobre o mundo e os homens. Visão realista e desencantada, de quem, tal como o burro e o cronista, está imerso na labuta do dia a dia e cuja filosofia é irmã da incerteza, da dúvida e do ceticismo.

Na figura do burro filósofo representa-se, ainda, a ideologia do cronista, que, de certa forma, atua como os moralistas das fábulas ao personificar, nos animais, conceitos e valores que deseja incutir no leitor: a reflexão sobre a irreversibilidade do tempo em sua marcha evolutiva, que não deixa lugar para o lamento do que se foi: burro-vapor-balão-eletricidade e esta, também, sendo substituída por uma força nova, "que levará de vez este grande trem do mundo até à estação terminal".

Com sua capacidade ficcional a serviço da argumentação, a fábula é uma das armas do cronista para atuar sobre a conduta do leitor, para, mais do que deleitar-ensinar, aliar-se à ironia, provocando, na recepção, inferências metacognitivas sobre as intenções subentendidas da mensagem. Na ironia, está a base sobre a qual se funda outro pacto de leitura do cronista com seu leitor: o de formação de consciência crítica e agudeza perceptiva para os dois lados daquilo que se diz: o visível e o invisível; o dito e a sua negação; o revelado e o subentendido. Nela, na ironia, se fundamenta a arte da leitura enquanto "mastigação ruminativa", exigindo que a atenção do leitor se volte para as tonalidades e sutis deslocamentos do discurso, assumindo a autoria de outro escrever: o da sua leitura.

Ser autor de sua própria leitura, eis aí o desafio que o autor-leitor Manassés lança para o seu leitor ideal por meio do apelo irresistível do discurso dialogado, em contínuo processo de deslocamento do "eu" ao "tu". Cronista e leitor partilham de uma mesma cumplicidade: a de ter olhos e ouvidos afinados com o "contra-sentido", aquele que vem na direção oposta ao previsível e estabelecido para desestabilizar certezas e exercer a capacidade crítico-reflexiva, ainda que no ínfimo espaço dos rodapés e entretenimentos de um periódico mais livresco do que jornalístico como é o caso de Ilustração Brasileira .

 

 

ASSIS, Machado de . Crônicas (1871-1888) . vol. 3. W.M. Jackson Inc. Editores: Rio de Janeiro, p.79-80, 1946. (grifos nossos)

Essa é a colocação que Walter Benjamin faz sobre as famílias de narradores da tradição oral no seu clássico ensaio "O Narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov" em Obras Escolhidas -Magia e Técnica, Arte e Política. Editora Brasiliense: S.Paulo, p.197-221, 1985.

Manassés, segundo a Enciclopédia Católica , foi o filho mais velho de José do Egito. O nome vem do hebraico "menas" que significa "aquele que faz esquecer". Diz o livro do Gênesis (41, 50-51): " Antes que viesse o ano da fome, nasceram a José dois filhos, que lhe deu Asenet, filha de Putifar, sacerdote de On. José chamou ao primeiro Manassés, porque, dizia ele, 'Deus fez-me esquecer de todo o meu trabalho e de toda a minha família' " ( Bíblia Sagrada , p.90).

ASSIS, Machado de. "O Folhetinista" em Obra Completa. (org.) Afrânio Coutinho. vol. III. Editora Nova Aguilar: Rio de Janeiro, p.959, 1992.

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas III - Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo . Editora Brasiliense: São Paulo, p.78 -79, 1989.

ASSIS, Machado de . Crônicas (1871-1888) . vol. 3. W.M. Jackson Inc. Editores: Rio de Janeiro, p.191, 1946. (grifos nossos)

ASSIS, Machado de. Obra Completa vol. III. Editora Nova Aguilar: Rio de Janeiro, p.772, 1992.

HUTCHEON, Linda. Teoria e Política da Ironia. Editora da UFMG: Belo Horizonte, p. 28-30, 2000.

ASSIS, Machado de. Obra Completa . vol.III. Ed.Nova Aguilar: Rio de Janeiro, p.363-364, 1992. (grifos nossos)

Trata-se da crônica de 16/10/1892 em "A Semana" na qual o cronista surpreende os próprios burros por entender a língua deles: "_Que homem és tu, que sabes a nossa língua?" (ASSIS, Machado de. Obra Completa . vol.III. Ed. Nova Aguilar, R. Janeiro, p.553, 1992.)