![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
O diabo do tambor: transgressão, travessura e erotismo em Machado de Assis.
Eva Pereira (USP)
O capítulo XI de Memórias Póstumas de Brás Cubas tem como título a seguinte afirmação: "o menino é pai do homem". O mote serve ao narrador para rememorar a própria infância, destacando as travessuras, as maldades, as preocupações da mãe com a péssima educação do menino e a tolerância e acobertamento do pai, orgulhoso das diabruras do filho. Se ao lado do pai o menino desenvolve um certo espírito galhofeiro, é por causa da morte da mãe que o jovem Bras Cubas volta da Europa, onde desfrutava dos prazeres e da ausência de responsabilidades, redescobrindo a melancolia. Sua inclinação para a literatura, ironicamente colocada como realização possível apenas quando a vida já estava terminada, será a mesma de Bento Santiago, outro menino cuja biografia acompanhamos e que vemos transformar-se no candidato a escritor e velho casmurro afastado da sociedade.
Muito poderia ser dito sobre os anos de aprendizagem de Bentinho, já que o narrador dedica um espaço bastante largo nas suas memórias a esse período da vida, sendo também mais detalhista quanto às influências exercidas pelo pai (melhor seria dizer o "fantasma" do pai), pela mãe e pelos muitos "agregados" que viviam em torno da família. A infância e a adolescência do futuro misantropo estão permeadas por discussões em torno da dúvida quanto à vocação profissional do menino, seduzido ora pelo clero, ora pela medicina e, finalmente, pelo direito, dedicando-se, porém, no final da vida, à literatura.
Tanto o deputado e quase ministro Bras Cubas quanto o advogado e quase padre Bentinho passam por uma outra experiência bastante importante na formação individual: a experiência amorosa. Na obra madura de Machado tal experiência deve ser entendida como iniciação erótica e como lugar privilegiado para a aprendizagem dos mistérios contidos nas relações humanas, na medida em que as tramas amorosas flagradas pelo escritor evidenciam os jogos de interesses sociais e econômicos, a impossibilidade de obtenção da verdade, o necessário desencontro entre o desejo e sua realização. Além disso, é na descrição das situações eróticas que Machado demonstra uma das características essenciais do ser humano: a tendência à transgressão da lei em suas mais variadas formas, seja religiosa, social ou simplesmente jurídica. Assim, se o amor de Bras Cubas e Virgília só é possível após o casamento da moça com Lobo Neves, o amor de Bentinho e Capitu já nasce pecaminoso, porque contrário ao destino eclesiástico do menino, e marcado pela diferença social.
Apesar da ilegitimidade das duas situações amorosas, os dois casais conseguem se estabelecer: Bras Cubas quase chega a ser pai junto de Virgília, compondo com a amante um simulacro de família na casinha da Gamboa; Bentinho consegue se livrar do seminário, formar-se advogado, casar-se com Capitu e ter, até que se prove o contrário, um filho com ela. Seria o final feliz de histórias de amor atribuladas se as sombras das dúvidas, da melancolia e do ciúme, presentes já na infância, não voltassem a atormentar. E é certamente essa ausência de final feliz, ou mesmo de certeza quanto ao destino do homem, que fará com que os personagens-narradores se coloquem radicalmente à margem da vida, para melhor observá-la e descrevê-la. Assim, o que seria um típico Bildungsroman , cujo modelo é Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister , de Goethe, tem um desdobramento diferente nesses dois romances de Machado. Neles, o resultado final, como se sabe, reitera a negatividade em relação à vida e ao amor e afirma a opção pela literatura, ou melhor, por um certo tipo de literatura que combina o falho, o difuso, o fragmentário, o alusivo, o incerto e que parece, ironicamente, ter sido desenvolvida justamente a partir de certa similaridade com o discurso erótico, com as transgressões, simulações e dissimulações (de que Virgília e Capitu, por exemplo, são mestras) que caracterizam as situações amorosas.
Esse aspecto da produção machadiana, relativo ao processo de formação de um personagem-escritor de certo tipo de literatura, pode ser analisado passo a passo em ambos os romances. Para este trabalho, no entanto, optei por observar a relação entre aprendizagem, literatura e erotismo em três contos do escritor fluminense, onde o tema é desenvolvido de forma mais concentrada. São eles: "Uns braços", "Missa do galo" e "Conto de escola". Nos dois primeiros, essa relação consiste em uma espécie de iniciação amorosa de dois estudantes adolescentes que, hospedados em casa de amigos ou parentes dos pais a fim de obterem posteriormente uma formação profissional, passam por uma sutil experiência erótica com as donas das casas, mais velhas do que eles. No último conto, o espaço da aprendizagem é a própria escola e a lição a ser aprendida, se não é explicitamente erótica - na medida em que não se observa a presença de um par amoroso -, acaba por pôr em evidência os prazeres intelectuais e físicos obtidos a partir da experimentação da liberdade, de que a arte é, para Machado, a grande reserva. Mas voltemos ao primeiro conto.
"Uns braços" conta a história de Inácio, adolescente pobre que é enviado pelo pai, um barbeiro desejoso que o filho seguisse a carreira de procurador, para a casa do solicitador Borges, a quem deveria servir como agente ou escrevente e assim ser iniciado nos segredos da profissão. Ali, o moço - que tem "olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer saber e não acaba de saber nada" - conhece D. Severina, a senhora possuidora dos belos braços do título e que vive maritalmente com o rude solicitador. A paixão secreta que o jovem mantém pela dona da casa é a responsável pelos muitos devaneios e distrações do rapaz; até que a própria anfitriã lhe descobre o segredo, ficando depois ela também apaixonada pelo "quase menino" que ali estava na situação de "quase filho" do casal. Há, segundo a visão de D. Severina, nesse "amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo", uma "complicação moral". A jovem senhora passa a tratar o menino com benignidade, com cuidados de amiga e mãe, deixando-o ainda mais inquieto e confuso. Num domingo - não apenas cristão, mas um "imenso domingo universal" - D. Severina vai até o quarto do rapaz, beija-o e depois foge arrependida e amendrontada diante da possibilidade de ter seu deslize descoberto. Inácio, por sua vez, que havia lido alguns folhetos e sonhava agora - num explícito caso de bovarismo - com a "dama dos seus cuidados", não percebe que o beijo do sonho havia, de fato, se passado na realidade. O moço ingênuo também não compreenderá o porquê de ter sido logo depois despedido pelo solicitador, além de nunca mais ter podido ver os braços de D. Severina - desde aquele domingo sempre envoltos em xales - continuando a acreditar na inocência da bela senhora, levando consigo apenas o valiosíssimo "sabor do sonho".
Escrevendo na terceira pessoa, o narrador primeiro acompanha a paixão do jovem para depois descrever os movimentos da "tentação diabólica" por que passa D. Severina. A transgressão religiosa está apontada desde o começo do conto, quando Inácio, obrigado a disfarçar o desejo pelos braços da anfitriã, percorre com os olhos as paredes da sala onde estão os quadros de um alegre S. João e de um austero S. Pedro. Se o rapaz deseja a mulher do próximo, mas mantém no espaço do sonho a possibilidade de sua realização, o pecado de D. Severina é explícito, pois é ela quem não consegue domar a paixão, mesmo sendo conhecedora de todas as implicações do ato, inclusive das proibições básicas das sociedades humanas, que incluem o incesto e a violação das crianças. O mais inocente na história é o "antes grosseiro que mau" solicitador Borges, um dos muitos representantes da lei que são de alguma maneira traídos na sua própria casa, como os advogados Vilela, de "A cartomante", e Conrado, de "D. Paula". O que se percebe no decorrer do conto é que é justamente esse conjunto de interdições ao seu desejo que torna Inácio tão tentador para D. Severina, numa demonstração clara daquela lei fundamental apontada por Georges Bataille, segundo a qual o erotismo só acontece onde há transgressão.
O segundo conto, "Missa do galo", também parte de uma incompreensão, ou melhor, da busca de entendimento de uma conversação que teve o narrador quando adolescente com Conceição, a boa esposa do escrivão Meneses. Diferentemente de Inácio, o hóspede do casal Meneses não está ali para servir nem propriamente para aprender um ofício, mas, vindo de Mangaratiba para o Rio de Janeiro a fim de estudar "preparatórios", mora por algum tempo com o homem que fora casado, em primeiras núpcias, com uma das primas do narrador; havendo, portanto, entre eles uma espécie de parentesco oblíquo. Assim como Borges, Meneses é também um marido rude, manifestando-se a sua grosseria no fato de manter sob os olhos de todos uma amante e de conservar na parede da sala quadros vulgares de mulheres, os quais Conceição preferia trocar por imagens de santas. Essa atmosfera ambígua onde convivem pecado e santidade percorre todo o conto, e é justamente enquanto espera o momento de ir a uma missa do galo - onde se celebra um dos momentos fundamentais do Cristianismo - que o narrador vai viver um momento indefinível de sedução e mistério. À interdição religiosa se somam as interdições sociais: a diferença de idade entre os personagens e o fato de Conceição ser casada. Além disso, observe-se que o par corre um certo risco, pois, apesar de Meneses ter saído para encontrar a amante, a mãe de Conceição dormia naquele momento no andar de cima da casa.
Mas o que houve exatamente nessa noite especial que o narrador revisita, reconstrói e quer compreender tantos anos mais tarde? Ele próprio não consegue definir ou nomear. O que se percebe durante todo o tempo em que os dois personagens ora conversam ora silenciam é uma constante troca de lugares e olhares, um molhar insinuante dos lábios por parte de Conceição que, "com o desalinho honesto que trazia", "tinha não sei que balanço no andar" e que reitera sempre o pedido de que falassem "mais baixo, mais baixo"; e uma espécie de sono magnético que toma conta do narrador, tolhendo-lhe a língua e os sentidos, um pouco perdido e sonolento diante daquela mulher insinuante e que, antes "apenas simpática", por causa da atmosfera erótica, "ficou linda, ficou lindíssima". O encantamento é quebrado com o chamado do amigo do narrador que o desperta para o compromisso de irem juntos à missa, onde, porém, a figura da mulher se interpõe entre o jovem e o padre. A volta do rapaz para Mangaratiba, a morte de Meneses e o casamento de Conceição com o escrevente juramentado do marido afastam de vez o possível par daquela noite, ficando o narrador apenas com uma vaga lembrança da estranha conversação que teve com a esposa do escrivão.
Escrivão, escrevente... Seguindo os passos de Roland Barthes, não é difícil chegar ao terceiro elemento desses amores de Conceição. O escritor que escreve o conto e volta no tempo para reconstituir os passos da bondosa senhora parece apontar para uma outra possibilidade de relação amorosa, à margem da lei, tão à margem que não chega a definir-se nem mesmo como algo explícito e verificável, mas (como negar?) de conteúdo incontestavelmente erótico. Da mesma forma, a escrita desse escritor não é "transitiva" ou "ingênua" como aquela do escrivão ou do escrevente. Ela é uma escrita que procura não exatamente resguardar a lei e os costumes, mas subvertê-los, colocar a figura da mulher entre o jovem e o padre, usar a língua - geralmente "fascista", porque, segundo a lição de Barthes, "obriga a dizer" - como um dos instrumentos de combate a qualquer tentativa de uniformização da sociedade. A inocência, o respeito e os romances de amor e aventura que o rapaz está lendo, e que deflagram a conversa, tornam possível o modo como foi conduzido o encontro. Assim como o jovem Inácio de "Uns braços", o narrador de "Missa do galo" sai dessa experiência de certa forma iniciado nos mistérios da vida e do amor. A diferença entre eles talvez esteja na total inconsciência de um, que remete o desejo para o sonho, e a consciência, parcial e falha, do outro, que remete o desejo para a linguagem.
Se o desejo dos dois jovens em questão pode ser relacionado ao amor e à preparação para a vida profissional, o desejo do menino de "Conto de escola" é explicitamente o desejo de liberdade. Na dúvida entre ir brincar no Campo de Sant'Ana ou no morro de S. Diogo, Pilar, no início do texto, opta por ir à escola. A decisão se deve única e exclusivamente ao medo que o menino tem do pai, que queria que o filho estudasse para seguir a profissão de caixeiro e a partir daí conseguir alguma posição comercial. Na escola, porém, o desejo de liberdade do menino é reacendido, primeiro pela visão de um papagaio de papel, "alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma coisa soberba", e depois pela experiência negativa do castigo que sofreu por ter passado as respostas da lição de escrita para um colega, em troca de uma moedinha de prata; experiência que se constitui para ele num momento privilegiado de aprendizagem de como funciona a sociedade comercial e policial a que o pai quer destiná-lo. Ao final do texto, um terceiro elemento é colocado como alternativa a essa vida de pura brincadeira ou de puro trabalho. Ao chamado do papagaio de papel que "bojava no ar" como representante da pura felicidade e da ausência de responsabilidades, ao chamado rude e ameaçador do mestre depois que é feita a delação do pequeno crime cometido por Pilar, o narrador opõe um terceiro chamado, o do tambor, tocado na manhã seguinte por uma companhia do pelotão de fuzileiros. A música faz com que o menino sinta uma comichão nos pés, siga os soldados, enxovalhe as calças novas dadas pela mãe, e esqueça a vingança contra o colega que o havia delatado e a decisão de procurar a moeda. No final do dia, Pilar volta para casa "sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma", o que aponta de alguma forma para uma positividade da experiência e para o poder exercido pelo "diabo do tambor" sobre o menino, longe agora dos moleques "levados do diabo" que vagabundeavam pelos morros e campos ou dos "pobres diabos" que sofriam os castigos na escola.
A utilização da palavra "diabo" - entidade religiosa transgressora por excelência - em várias de suas acepções e numa distribuição estratégica no conto demonstra a sagacidade de Machado e a sua disposição para brincar com os sentidos dos vocábulos. No final das contas não sabemos a exata profissão a que se destinou o menino (assim como também não temos certeza do que se tornaram o narrador de "Missa do galo" e o jovem de "Uns braços"), mas sabemos que o mundo da literatura, ou pelo menos das letras, exerceram um importante papel na sua formação. No caso de "Conto de escola", um trecho em que aparece a questão literária é bastante significativo:
"Começou a lição de escrita. Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados na escola; mas era. Não digo também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção. (...) acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no papel ou na tábua, ocupação sem nobreza nem espiritualidade, mas em todo caso ingênua. Aquele dia foi a mesma cousa; tão depressa acabei, como entrei a reproduzir o nariz do mestre, dando-lhe cinco ou seis atitudes diferentes, das quais recordo a interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a cogitativa. Não lhes punha esses nomes, pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente, dava-lhe essas expressões."(p.548)
Entre o menino ingênuo, estudante das primeiras letras, e o narrador experimentado pode-se notar algumas diferenças; entre elas estão com certeza a aquisição dos conhecimentos teóricos e práticos e a perda da inocência na análise das relações humanas. Mas a mesma atitude zombeteira e dessacralizadora permanece, pois o narrador não faz mais do que continuar a recortar no papel os narizes das autoridades. E assim como o homem ironiza a fala do mestre ao denunciar a sua negligência não só com os alunos em geral mas com o próprio filho, o menino subverte o desejo do pai, que queria colocá-lo de caixeiro no comércio, preferindo seguir ele, Pilar, um outro tipo de caixa, agora de ressonância, representada pelo tambor. Não é difícil ver nesse "diabo do tambor" o chamado da literatura, pois, como ensina Paul Valéry, o ritmo bem marcado, que exige a participação do corpo numa espécie de dança delirante, está muito próximo do movimento, em muitos aspectos erótico, da inspiração.
OBRAS CONSULTADAS:
BATAILLE, George. L'érotisme . Paris, Minuit, 1957.
BARTHES, Roland. Aula . São Paulo, Cultrix, 2001.
_________. "Escritores e escreventes", em Crítica e Verdade . São Paulo, Perspectiva, 1970.
GOETHE, Johann W. Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister , São Paulo, Ensaio, 1994.
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Obra completa . Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1985.
MARCUSE, Herbert. Eros e civilização . Rio, Zahar, 1975.
VALÉRY, Paul. Degas, Dança, Desenho . São Paulo, Cosac & Naify, 2003.