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"A igreja do Diabo" - uma leitura machadiana do tema fáustico
Eunice Terezinha Piazza Gai (UNISC)

Não são freqüentes na obra de Machado de Assis incursões no âmbito transcendental. Prefere o autor permanecer nos domínios terrestres e humanos e utilizar o seu gênio para espicaçar as imperfeições inerentes ao comércio dos seres humanos entre si e com sua natureza íntima. Entretanto, alguns de seus textos apresentam essa possibilidade de leitura. Nota-se a presença de uma certa perspectiva transcendental no romance Esaú e Jacó , manifesta através da construção de poderosas alegorias, sendo a da dúvida, encarnada pela personagem Flora, a mais significativa. Do mesmo modo, com o conto "A igreja do Diabo", o autor penetra nesse espaço e, embora não apresente uma visão tradicional, dualista a respeito dos temas ligados às relações dos seres com a divindade e sobre os valores universais, como Bem e Mal, aborda tais aspectos de um modo específico.

O conto revela que Machado foi leitor do Fausto , de Goethe, no qual se inspira em relação à construção das situações, personagens e configuração do mito fáustico. Esses elementos são retomados e transformados segundo a visão machadiana que ali apresenta um Diabo irônico e melancólico, enquanto catalisador da visão do mundo dos grandes moralistas, um narrador distanciado, o gênero humano, contraditório em sua própria natureza e o Senhor Deus, enigmático criador de um mundo incompreensível.

Eis como se desenvolve o conto. A narrativa pertence a um velho manuscrito beneditino e relata o fato de que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Então foi ter com o Senhor Deus que lhe deu permissão para tal. Em pouco tempo, a igreja do Diabo progrediu muito. Sua doutrina ganhou numerosos adeptos e consistia, principalmente, na insistência e na pregação de que as virtudes aceitas deveriam ser substituídas por outras, "mais naturais e legítimas". Pregava assim o culto à preguiça, à ira, à luxúria, à avareza, à inveja, e julgava então ter minado as belas ações e sentimentos que os seres humanos esporadicamente esforçam-se por praticar. E o Diabo pensou ter triunfado definitivamente sobre a terra.

Mas, depois de longo tempo, percebeu que os seus fiéis praticavam as antigas virtudes às escondidas. Às vezes, avaros davam esmolas, glutões comiam frugalmente, dilapidadores do erário restituíam pequenas quantias... Voltou o Diabo a ter com Deus e levou a mais contundente lição do Pai Eterno: "-Que queres tu, meu pobre Diabo? (...) É a eterna contradição humana." 1

Estão presentes nesse conto os protagonistas de um dos mitos mais importantes da cultura ocidental. Tendo em vista as versões mais significativas do mesmo, foi considerado por alguns teóricos a encarnação da tragédia do conhecimento. E com razão ele acabou por assumir tal importância e teor absoluto, pois concentra em si discussões e abordagens amplas sobre o sentido da vida, a natureza do Bem e do Mal, a salvação ou condenação da alma, aspectos constituintes do que poderia ser designado como o conhecimento por excelência, que ultrapassaria não só o âmbito da ciência humana, mas todas as limitações terrenas. Encarna o desejo do ser humano de ultrapassar todos os limites, de pretender alçar-se à divindade.

Nas diferentes versões do mito fáustico os protagonistas são sempre Deus, o Diabo, o homem, em geral denominado Fausto, por ser tributário de uma figura histórica com esse mesmo nome, que viveu provavelmente entre 1480 e 1540 ou 1541, na Alemanha. Era considerado mago, pactário, alquimista, erudito e teve sua biografia, de autor anônimo, publicada em 1587, por Johan Spies. Essa personalidade histórica passou para o âmbito literário e teve diferentes tratamentos. Nas versões mais tradicionais aparece também uma personagem feminina que desempenha papel importante, encarnando diferentes perspectivas no contexto narrativo: a realização amorosa, a eterna beleza, etc. O Fausto, de Goethe, em suas duas partes, traz Margarida e Helena; já A história trágica do Doutor Fausto , de Marlowe, contempla a figura de Helena. O tema principal desenvolve-se a partir do momento em que ocorre uma disputa pela alma humana entre Deus e o Diabo. O homem é o pactário, deixa-se seduzir pelo demônio que, em troca da perda eterna da alma, oferece satisfação, prazeres, conhecimento. Na maioria das versões do mito, a personagem tem morte trágica, nas mãos do Demo. Em outras, como na monumental versão goetheana, a mais importante, tanto pelas suas dimensões formais quanto pela proposta da obra em si, não há condenação. Contém uma cosmovisão específica, expressa numa vasta simbologia da qual faz parte a morte do herói e sua condução aos céus, em forma de crisálida, pelas grandes mulheres da tradição religiosa e literária: Margarida, Maria Egipcíaca, Beatriz, Maria.

Inspirado no texto gotheano, o qual constava em sua biblioteca, segundo informações de J. M. Massa 2, mas construindo obra com outras dimensões e proposta, Machado apresenta como protagonistas de seu conto fáustico Deus, o Diabo e o gênero humano como um todo e não apenas um indivíduo fáustico: "Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos". De algum modo, entretanto, deixa perceber a fonte de onde bebeu. Ocorre que, apesar das tortuosas vias machadianas, a sua concepção do Diabo apresenta algumas semelhanças com o Mefistófoles criado por Goethe. Da mesma forma, as idéias de Bem e Mal, que em Machado assumem a feição do Vício e da Virtude, ou da Virtude segundo dois pontos de vista contrários, são aspectos que podem ser comparados nos dois textos.

Grande parte da cultura ocidental, herdeira de uma visão dicotômica em relação às dimensões da vida, seja a religiosa, a da atividade humana, ou a da concepção da natureza, mostra-se reticente ao considerar certas obras mais complexas. Em geral, tende a forçá-las a uma significação racionalista, fundada na idéia da oposição dos princípios. Não é da mesma forma na cultura oriental onde as grandes religiões apresentam uma perspectiva não dualista que pode absorver os contrários numa unidade. O Fausto, de Goethe, catalisa uma profunda simbologia oculta, com raízes orientais e gnósticas, razão pela qual a visão do mundo que apresenta não está condicionada ao dualismo e à separação entre Bem e Mal.

Mircea Eliade, no livro Mefistófoles e o Andrógino , observa que, no "Prólogo no céu", um dos capítulos iniciais do Fausto , de Goethe, o diálogo entre Deus e Mefistófoles denota uma simpatia mútua, pois ambos pronunciam as palavras "de muito bom grado", "com muito prazer", referindo-se um ao outro. Ora, a partir dessa perspectiva, desaparece a idéia da existência de uma divindade do Bem e outra do Mal enquanto contendoras. Elas surgem como complementares na realização da obra da criação. Eliade chega à conclusão de que Mefistófoles, se visto no conjunto da obra de Goethe, justifica a presença dessa simpatia por parte de Deus. Ele é o espírito que estimula a atividade humana e portanto colabora com a evolução espiritual da humanidade, apesar de ser, e por isso mesmo, um espírito de negação. Assim se expressa o autor acima:

E no entanto, como já se observou muitas vezes, embora se oponha com todos os seus meios ao fluxo da Vida, Mefistófoles estimula a Vida. Luta contra o Bem, mas acaba por fazer o Bem. Esse demônio que nega a Vida é, contudo, um colaborador de Deus. É por isso que Deus, em sua presciência divina, impõe ao homem, com muito prazer, esse companheiro. 3

 

No conto de Machado, a presença de uma certa simpatia, como considera Eliade, pode ser reiterada. Com efeito, o tom do diálogo entre Deus e o Diabo é, por parte Daquele, apesar das poucas represálias que lhe impõe, senão amistoso, pelo menos humorístico. Chama- O de "Velho retórico e sutil", dá-Lhe permissão para fundar a sua igreja, trata- O com boa dose de severidade, mas sem desfaçatez. O Diabo, por sua vez, tem no Senhor a presença da sabedoria e da autoridade. Vai pedir-lhe permissão para fundar sua própria Igreja e, ao final, volta ao céu para buscar uma explicação para o que não compreende. O Diabo mostra respeito pelo Senhor. Em síntese, embora a superioridade divina esteja assegurada, Deus e o Diabo dialogam, não se digladiam nesse contexto ficcional machadiano.

Com a perspectiva da coexistência do Bem e do Mal, ou da existência do Mal como uma força complementar no conjunto da criação, uma concepção que no contexto fáustico é tributária da visão gotheana, é necessário reconsiderar os conceitos unidimensionais e maniqueístas utilizados para explicar principalmente a natureza humana, a consciência. No conto aqui analisado, o autor vale-se dos arquétipos da tradição fáustica, mas nele aparecem os principais elementos conformadores de uma estética particular. Isto é, a idéia da coexistência do Bem e do Mal, um tema de cunho transcendental, resolve-se no conto através da explicitação do paradoxo como condição da existência. Para desenvolver essa idéia, o autor vale-se, no âmbito da ficção, da metáfora das franjas. É o Diabo o seu autor:

 

Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para a minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...

 

A metáfora das franjas expõe um ponto de vista sobre o mundo e pode ser assim desconstruída: as ações humanas têm motivações inexplicáveis. Uma ação considerada virtuosa, pode ter um objetivo escuso. Há muitas variações sobre esse tema na obra de Machado: Brás Cubas nos diz que o vício é o estrume da virtude, o caridoso Fortunato sente prazer com o sofrimento alheio, o misantropo cede o seu lugar na vida com satisfação. Este último faz parte de "A igreja do Diabo", a outra é personagem de um conto, "A causa secreta".

No caso das franjas, o Diabo se mostra, de fato, muito sutil, uma vez que estabelece graus entre as possibilidades secretas da existência das virtudes: as de algodão e as de seda pura. Todas, entretanto, passíveis de sedução. A estética de Machado de Assis tem como substrato filosófico a teoria humanitista, exposta em Memórias póstumas de Brás Cubas e em Quincas Borba . Essa teoria possui alguns princípios: está fundada na necessidade do homem de adorar-se a si próprio, tem como positivas ações que a moral tradicional considera execráveis, como a luta, a inveja, a avareza... Não há como não alinhar lado a lado os conceitos filosóficos de Humanitas e os da Loucura, do texto Elogio da Loucura , 4 de Erasmo de Roterdam. Ambos têm o mesmo ponto de vista afirmativo acerca do que o bom senso e a moral tradicional consideram comportamentos reprováveis. Pregam ambos uma moral às avessas, justificando semelhante raciocínio pela sua perfeita concatenação com a natureza humana. É assim que a Loucura, em suas metamorfoses como ódio, imperícia, embriaguês, amor-próprio, volúpia, etc. , se afirma como constituinte da natureza humana. É assim que o Diabo se mostra um irmão da Loucura de Erasmo, de Quincas Borba e de muitas outras personagens machadianas.

Até aqui, poderíamos concluir com um ponto de vista apenas, o do Diabo, o mesmo que também está na pena dos grandes moralistas, conforme observa o Senhor. Trata-se apenas de desmascarar o outro lado da virtude. Entretanto, a conclusão do conto distorce essa perspectiva proposta. Eis como Deus se pronuncia: "-Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana".

A partir do ponto de vista divino, entra um outro aspecto que vai tornar a questão mais complexa. Ou seja, não há apenas o outro lado da virtude, há também o avesso do avesso. Todo o movimento do Diabo consistiu em afirmar o vício, ou o oposto da virtude, como verdade. Fez isso com bons resultados, até certo momento, pois então percebeu que há na alma humana tendências a praticar as virtudes normais. Como então manifestar alguma certeza, alguma visão última sobre ela? Assim, pelas profundas e infindáveis investigações do autor acerca da alma humana, não há na sua obra uma verdade, uma positividade, um ponto de vista definitivo sobre os seres. Tudo pertence ao campo da incerteza. Nem mesmo Deus tem uma resposta plausível para semelhante comportamento, característico do gênero humano.

Tais são os elementos constituintes da estética machadiana: a ausência de qualquer dogmatismo, a incerteza diante dos juízos, a observação minuciosa da alma humana e a descrição de seus traços, a constatação da conformação multifacetada da natureza humana, o acento nas várias deformidades de caráter. Machado de Assis não oferece soluções nem perspectivas para os enigmas e contradições da vida. Vale-se todavia de uma espécie de humorismo, semelhante ao riso de Demócrito, saturado de impossibilidades.

Assim, também o mito fáustico não pode ser descolado da estética machadiana. Em sua abordagem o autor não prevê nenhum caminho de salvação, nem de condenação. O Fausto de Machado não é um indivíduo em especial, mas o gênero humano, limitado, impossibilitado de alcançar o conhecimento que almeja, um Fausto contraditório, inexplicável, como a Flora, de Esaú e Jacó .

A percepção machadiana a respeito da natureza contraditória do ser humano evita a dicotomia, quase sempre presente no tratamento do tema fáustico, e alcança a unidade ao indicar o paradoxo como o estado natural do ser. Desse modo, a união das visões divina e demoníaca a conformar o mundo, surge como conseqüência inevitável. Nesse ponto, afasta-se da perspectiva dualista que caracteriza grande parte das manifestações culturais e religiosas da sociedade ocidental e ultrapassa os estreitos limites que semelhante ponto de vista impõe. Eis o modo próprio do autor de abordar os grandes temas universais e transcendentais: permanecendo no âmbito terreno, alcança todavia desvelar a complexidade da natureza humana regida por leis inescrutáveis.

 

ASSIS, M. de. Obra completa . Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994. As citações do conto são desta edição.

In: JOBIM, J.L. (org.). A biblioteca de Machado de Assis . ABL, Topbooks. Rio de.Janeiro, 393p, 2001.

ELIADE, Mircea. Mefistófoles e o Andrógino . Martins Fontes, São Paulo, 232p, 1991, p. 79.

ROTERDAM, Erasmo de. Elogio de la locura . Alianza Editorial, Madri, 187p, 1995.