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As memórias difusas de Brás Cubas
Augusto Rodrigues Junior (UFF)

No prólogo "Ao leitor" das Memórias póstumas de Brás Cubas 1 temos um defunto-autor olhando para um passado de tradição literária e para um possível futuro em que se vislumbra como escritor. Nesse curto espaço textual vislumbramos uma poética dessa inusitada auto-biografia que confunde o autor de carne e osso, Machado de Assis, com o autor imaginário Brás Cubas. O prólogo, uma forma de "direcionar" os possíveis "cem leitores", funda, além disso, uma genealogia na qual o autor se filia a outros nomes intimamente relacionados. Esse pré-texto literário tenta sintetizar a expectativa de Brás Cubas no que diz respeito aos seus leitores (frívolos, críticos, graves e bibliômanos) e ao mesmo tempo procura anunciar ao seu leitor ideal (como o fez Sthendal) sua "prosaica dialógica" - nem pura, nem usual. Dotado da volubilidade (de um Sterne) e da forma livre (de um Xavier de Maistre), esse "diálogo" é consubstanciado pelas rabugens de pessimismo inerentes a um defunto-autor. A partir desses elementos instaura-se, entre a glosa e a citação de um cânone, o que Brás Cubas chamou de obra difusa - tessitura feita de lágrimas e risos que "emendam" as mais diversas vozes literárias com "a pena da galhofa e a tinta da melancolia".

Considerando os romancistas anunciados no prólogo - Sterne, de Maistre e Sthendal 2 -, notamos que eles compõem uma linhagem prosaica para o autor Brás Cubas. Ao elaborar um tipo de criação artístico-ficcional que se interroga e se discute enquanto se faz, o defunto-autor revela, de início, suas predileções estilísticas ou os as obras a servirem como parâmetros de comparação. Se, por um lado temos a maneira ziguezagueante de um Sterne e por outro, a narrativa introspectiva e ao mesmo tempo cronológica de Xavier de Maistre, o nome de Sthendal apresenta-se como um elo entre Brás Cubas e os outros dois autores. Esse fato peculiar pode ser visto da seguinte maneira: somente nos dez primeiros capítulos das Memórias póstumas temos uma negação constante da narrativa linear à maneira das obras de forma livre. Depois da transição entre morte e delírio, o próprio defunto-autor passa à uma narrativa linear de sua biografia e mesmo com suas cabriolas, parando e pensando o texto, o estilo sthendaliano se faz presente.

Citemos o prólogo:

 

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem leitores de Sthendal, nem cinqüenta, nem vinte, e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se na verdade de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a [a obra] com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

 

Brás Cubas foi um contemporâneo de Stendhal. Mais ou menos por volta de 1827, data da publicação de Armance , o personagem machadiano volta da Europa com seu assumidamente medíocre bacharelado. De certa maneira ele se apresenta como leitor desse autor real, lido por Machado, e apresenta as mesmas angústias do estreante francês (em romances). Suas memórias romanceadas, apresentadas como biografia, tem como entrada a instauração de uma farsa entre um autor real e a voz imaginária do defunto que faz uma referência aos anseios de Stendhal e que demonstra ter o mesmo desejo que o autor francês: ser lido.

Ao falar da expectativa quanto ao número de leitores, Cubas fica ironicamente consternado e admirado, ao mesmo tempo em que eleva sua obra de estréia ao nível de um francês contemporâneo. No reino do Nada, esse solitário leitor titubeia ao ver seu livro publicado, e opta por um prólogo. Esse pré-texto, se relido ao final da obra, ou seja, depois do capítulo "Das negativas", tem uma outra dimensão. O Brás Cubas mordaz, que não poupa nem perdoa ninguém, aparece aqui esperançoso e ávido por uns míseros cinco leitores. Lembrando que o livro é de Machado, temos Brás Cubas como uma boa máscara 4 para o fingimento de um autor já reconhecido pela crítica de seu país como uma figura intelectual importante.

O defunto-autor, ao fazer uma leitura de si mesmo, tenta se definir para o leitor, e faz uma espécie de crítica comparativa (fato que ocorrerá em toda a obra) ao aproximar seu estilo com os de Sterne e Xavier de Maistre. Tenta antecipar ao leitor o que o distingue dos outros: as rabugens de pessimismo - traço de originalidade. Logo, temos uma filiação genealógica estilística, um acréscimo ideológico no modo de olhar a realidade e um caminho para o leitor ideal. Enfim, o que diferencia Brás Cubas dos outros autores é ser um defunto-autor, fato exaustivamente elucidado no começo do livro. Sendo assim, com um estilo "inédito" e contaminado pelas rabugens do sepulcro, o defunto confessa no capitulo XXIV, "Curto, mas alegre", uma característica implícita no prólogo - a franqueza luciânica 5:

 

Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência. [...] Mas, na morte, que diferença! que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.

 

O monólogo de Cubas, possível romance, marcado pelo pessimismo (apontado constantemente pela crítica machadiana 6) é um indício do escritor que se transformava nessa época. Com uma certa reticência diante da humanidade (já presente em personagens como Félix e Helena) as rabugens sepulcrais de Brás Cubas ecoam na produção após 1880. Em Quincas Borba , a loucura (possível até mesmo naquele narrador onisciente) é um dos traços que mostra cruamente a natureza humana. Em Dom Casmurro , a idéia fixa da traição faz com que o epíteto dado ao personagem defina bem o caráter do livro. Em livros em que "os vivos vão mais depressa que os mortos", o narrador Aires narra os dias sempre lembrando que o homem sabe que morre.

A obra é, assim, difusa, não só pelo seu estilo livre, pensante e risível, mas pelo sentimento pessimista e trágico inerente ao homem moderno desde Dom Quixote. Nesse sentido, o discurso individual e especulativo que o romance machadiano representa por intermédio do narrador e dos personagens nos leva ao conceito de dialogismo cunhado por Bakhtin 7. Conceito que, de certa maneira, se assemelha ao estilo difuso de Brás Cubas - entendendo esse dialogismo como o estabelecimento do diálogo de vozes no contexto do romance enquanto gênero - estilo que traz outras vozes literárias para encontrar o próprio tom. Com isso, Machado cria um instinto de universalidade num país de romancistas que buscavam o nacional. Centrando-se na morte (universal), esse bruxo da linguagem, por meio de uma epígrafe-epitáfio, faz uma dedicatória tipicamente hamletiana 8 ao leitor da verdadeira obra de Brás Cubas, a vida:

 

AO VERME

QUE

PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES

DO MEU CADÁVER

DEDICO

COMO SAUDOSA LEMBRANÇA

ESTAS

MEMÓRIAS PÓSTUMAS.

 

Nessa poética, Brás tenta orientar a leitura e ressalta que o riso do homem do século XIX (um processo iniciado em Cervantes, afinado por Sterne e refinado por Xavier de Maistre) vem acompanhado da melancolia Shakespearena e acentuada no seu século iluminado e positivista. Riso e melancolia fundidos, o estilo livre e as rabugens de pessimismo são fórmulas para contar o que o olhar difuso e defunto recorda do sepulcro. As memórias póstumas dedicadas a um verme-leitor igualam vida e livro, roídos pelo tempo que nos enterra, e retiram as máscaras do país do carnaval - marcas da eterna obliqüidade humana.

Como nos romances de Cervantes, Sterne e de Maistre, o dialogismo constitui o caráter da obra. No intróito de Machado temos os três autores mencionados e não será diferente no restante da narrativa. Diversos capítulos têm uma referência (direta ou indireta) e o embate de vozes é inevitável. O que os une é um desprendimento e a liberdade proporcionada pelo estilo difuso ao fazerem suas citações, suas "emendas" (para usarmos um termo cunhado por Quincas Borba). Muitas vezes eles trocam e dissimulam as fontes, citam (como se escrevessem "de memória"), e as parodiam no andamento da narrativa. As glosas, citações e emendas funcionam para distinguir as características dos personagens, para jogar com idéias da época de Machado e para "direcionar" a leitura. Obra difusa e obra de finado, Memórias póstumas tem um caráter dialógico porque a palavra franqueada ao outro se cruza e dialoga com a do autor-narrador. As vozes do espanhol, do inglês e do francês e a réplica de Brás Cubas formam em "Ao leitor" uma espécie de polifonia.

Antonio Candido assim define a relação de Machado com esses autores:

 

[...]Xavier de Maistre, que foi quem usou os pontilhados, mas adotou outras "esquisitices" de Sterne, pode ter influenciado Machado de Assis tanto ou mais do que ele, a julgar por alguns indícios [narrativa caprichosa, digressiva, informação suspensa]. E talvez até haja servido de mediador entre ambos, graças à presença dominadora da literatura francesa no Brasil. 9

 

Solitários, esses personagens e narradores modernos isolam-se das relações humanas para contar suas histórias. "Longe da pequenez e perfídia dos homens" - a melancolia com que de Maistre engendra suas narrativas parece um prenúncio das rabugens schopenhaurianas de Machado. Tanto de Maistre, quanto Brás Cubas convocam seus leitores, sejam frívolos ou graves, infelizes e doentes, para os acompanharem em suas viagens textuais. Ao mesmo tempo a morbidez é renovada por convite à volúpia lasciva do riso. A ironia, com o riso de Voltaire estampado na máscara, convida a olhar para a viagem/vida por uma nova ótica. Os estilos coincidem e, na luta de idéias, a expressão oral (o livro escrito como se o narrador falasse e pensasse enquanto escreve) consegue instaurar uma nova postura (estética) fora do padrão clássico, que visa não só a um rebaixamento do elevado (clássico) levando-o a uma aterrissagem, mas à uma intervenção no que está sendo contado.

A genealogia do romance pensante é formada por histórias que teimam em chamar a atenção para seus modus operandi enquanto são contadas. O dialogismo, a luta de vozes continuada por Machado, encontra na "emenda" paródica a renovação textual e os desdobramentos inerentes ao gênero romanesco - gênero que ainda se faz enquanto se escreve nesses quatro séculos prosaicos. Essa forma de "infundir grandeza ao cômico", renovada por Cervantes, advém de Aristófanes que, ridicularizando os deuses, os faz aterrissar para a horizontalidade terrestre. Esse destronamento pelo riso, nas penas da galhofa, se une à pena da melancolia da modernidade tão bem retratada pelo escritor espanhol e por Shakespeare.

Sterne, por sua vez, é importante porque representa um movimento prosaico que aproxima os dois exponentes da fundação do homem moderno. O narrador "Tristram Shandy", em mal traduzido português Tristão Félix, ao narrar sua vida, infunde uma liberdade criadora que possibilita jogar estilisticamente com os fatos de sua própria vida. A partir de seus caprichos sentimentais, das filosofices e esquisitices de outros personagens (seu pai, sua mãe, Tio Tobby e seu criado, sem falar no cônego de inspiração sterniana, Yorick), instaura um espaço em que as vozes dos outros personagens disputam espaço com a sua vontade de contar histórias. O narrador não se prende, desse modo, a possíveis regras romanescas pré-estabelecidas, e as cria, as suas próprias, à medida que vai escrevendo. Pelo riso, pela libertinagem narrativa e pela suspensão da informação, o jogo estilístico de incitar o leitor a pular o capítulo, as interferências de outros personagens, e a arbitrariedade de ora narrar linearmente a vida, ora fugir dos fatos e optar pela crítica aos homens, serão alguns dentre outros recursos reutilizados por de Maistre e renovados pela forma "original" de Machado de Assis ao criar Brás Cubas.

Primeiro ou último capítulo, o prólogo poderia se chamar "Das esperanças de Brás Cubas", pois ao comentar seu estilo, acaba descortinando uma veleidade: que seu livro seja lido - por leitores vivos! Depois de discutir suas idéias, o defunto-autor fala da expectativa da inserção de sua obra em um gênero específico e tão em voga no século XIX - o romance. Dessa maneira, o romance que se pensa a si mesmo, além de fazer "literatura comparada" e antecipar a "crítica literária", dialoga com a postura do leitor diante da publicação.

Passemos ao segundo parágrafo do prólogo e à conclusão:

 

Mas eu ainda espero angariar a simpatia da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias , trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

 

No segundo parágrafo temos o defunto mostrando suas idéias sobre literatura, sobre prólogos e sobre a "opinião" pública. Reforçando a esperança de ser lido e, apesar de suas rabugens e cabriolas, Brás Cubas confessa que tomou alguns cuidados para angariar futuros leitores. No ato mesmo de fazer seu prólogo, pensa sua finalidade e sua eficiência, e busca uma forma que agrade ao leitor das páginas que se seguem - o 3º interlocutor do diálogo difuso entre autor, narrador e leitor ideal. Deixando de contar algumas coisas, ideal para uma introdução, ou dizendo-as de maneira obscura e truncada, o prólogo dá o tom de todo o romance: feito de explicações que raramente explicam, de silenciamentos que dizem muito e por negações que ensinam que a vida se resume à morte.

Ao mesmo tempo, essa aparente metalingüagem é um artifício para justificar o que é dito em seguida. Ou seja, a grandeza do fato de sua obra ser póstuma. De maneira astuciosa, para usar um predicado homérico, "nas relações dialógicas com a própria fala, o narrador demonstra sua sagacidade estilística e se transporta para um outro campo da existência" (Bakhtin, 2003), dando impressão de que realmente conta sua história do undiscovered country . Pela suposta exigência de caráter sucinto do prólogo, ele diz que deixará de revelar ao leitor a "razão" de um livro sepulcral de autoria póstuma. Deixa de dizer, assim, como ele, Brás Cubas, pôde escrevê-lo no outro mundo. Curto o prólogo, curtos os capítulos. Longo, somente o "delírio"...

E continua pensando enquanto escreve de forma galhofeira. "Ao deixar de explicar" tal fato, o narrador impossibilita qualquer enquadramento da obra numa escola ou postura crítica. Mesmo com os nomes acima sugeridos, Brás Cubas deseja se firmar como autor e faz de seu próprio discurso um cúmplice da trama. As variações desse do gênero híbrido, o romance, possibilitou uma nova forma de aproximar aparentes idéias fora do lugar num contexto (o literário) que consegue cronotopicamente instaurar-se como universal. Esse texto difuso das Memórias póstumas ancora-se no fato de o narrador ser um defunto-autor. Esse artifício usado por Machado possibilitou um jogo entre verdade, verossimilhança e ficção no interior da narrativa. Dessa maneira, o defunto-autor (com o frio das órbitas vazias e a tinta pessimista) pode analisar os homens, suas vaidades e suas máscaras, já não necessárias "do outro lado" - apesar de se preocupar com a opinião alheia.

O leitor não sabe ao certo se as memórias compõem um livro realmente póstumo, ou se não passam de um delírio de uma mente insana, se elas são o puro romance brasiliano ou um romance usual fadado ao esquecimento - tudo depende do caráter da réplica para esse ato de contar se desdizendo. Contraditório, como são contraditórios os vivos, Brás Cubas não consegue se livrar de algumas vaidades e escreve para ver seu nome gravado num frontispício que lhe dê mais repercussão que um emplasto ou uma lápide. Com essa perspicácia, o narrador prepara o palco para o riso melancólico, conclui seu prólogo, e abre seu romance, instaurando o circuito interativo entre esse narrador (que não perdoa ninguém) e o leitor que não sabe se ri ou se chora: "A obra em si mesma é tudo: Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus."

Deixando o prólogo ele convida o leitor a entrar no romance e fazer seu próprio julgamento. O seu já foi feito nessa poucas linhas. A aparência de indiferença, na releitura do prólogo após o término da leitura do romance mostra a fragilidade dos homens. Mas a grandeza de Brás Cubas reside justamente no seu estilo pensante: no 1º parágrafo fala do livro e das suas expectativas e da forma como o escreveu; no 2º, basicamente fala apenas de prólogos e de como escreveu o seu. Depois, nos primeiros capítulos, retoma a idéia anunciada no título, desdobrando a epígrafe-dedicatória e o assunto do prólogo - o fato de suas memórias serem póstumas. A pena da galhofa e a tinta da melancolia, relacionadas paradoxalmente, retomam ainda uma vez mais o leitor estampado em todo o prólogo. O narrador, ao sair do prólogo, entra, de repente, no romance e assina, vaidosamente, seu nome, já escrito no título e no contexto do prólogo entre grandes escritores: "BRÁS CUBAS".

Como destacamos em nossa introdução , a essencialidade desses romances que se pensam enquanto se fazem é exatamente a pista deixada por Brás Cubas em seu prólogo: a escrita paradoxal de romances saídos do conúbio ente a pena da galhofa e a tinta da melancolia e que espelham (para usar um termo de Stendhal) sentimentos contraditórios inerentes a todo homem. O essencial, aparentemente maquiado pelo riso dos narradores e pelas vozes dos personagens, capazes de parodiarem-se a si mesmos, revela-se nesses livros, nas excêntricas idéias fixas. As digressões, além de desviarem os rumos da narrativa, propiciam divagações sentimentais que espelham o próprio homem.

Pensando seu contexto, mostrando dentro do texto como e porque escrever enquanto escreve, o que sente enquanto narra, o que viveu e pensa e, ao mesmo tempo, tentando advinhar o que pensará ou estará sentindo o seu leitor, o escritor defunto Machado de Assis inscreve-se na tradição moderna. Já o homem Brás Cubas, que não legou nada, não fez nada e não foi nada, deixou a seus possíveis leitores (nem frívolos, nem sérios) ou para os bibliômanos e críticos (que sabem que morrem, ao contrário dele) ao menos suas saudosas memórias difusas.

 

ASSIS, M. de. Obra completa. 8ª ed. Nova Aguilar. Rio de Janeiro, V.I, 1214 p.1992.

STERNE, L. A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shand. 2ª ed. Cia das Letras, São Paulo, 640p. 1998.

MAISTRE, X. de. Viagem à roda do meu quarto. Estação liberdade, São Paulo, 160p. 1989. Stendhal. Armance, ou, algumas cenas de um salão parisiense em 1827 . Estação liberdade, São Paulo, 288p. 2003

Meyer, Augusto. De Machadinho a Brás Cubas. Revista do livro . Rio de Janeiro. Vol. 11, ano III, setembro, 1958, pp. 09-18.

Luciano de Samósata, séc. II Diálogo dos mortos. 2ª ed. Edusp. São Paulo, 214p. 1996.

Vide Sylvio Romero, Afrânio Coutinho, Augusto Meyer entre outros.

Bakhtin, M. M. Problemas da poética de Dostiévski . 2ª ed. Forense universitária. Rio de Janeiro. 275p. 2002.

Vale lembrar a epígrafe melancólica, inscrita na primeira versão das Memórias póstumas , publicada na Revista Brasileira (15 de janeiro a 15 de dezembro de 1880), e que foi suprimida na versão definitiva: "As you like it: I will chide no breather in the world but myself; against whom I know most faults" ("Não é meu intento criticar nenhum fôlego vivo, mas a mim mesmo, em quem descubro senões").

Candido, Antonio. Viagem à roda da vida.