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Travessias nos Jardins das Delícias: Machado e Eça
Andreia Amaral (Universidade do Porto)
O mito das origens do Mundo e do Homem, narrado nos três primeiros capítulos de Génesis tem encontrado amplo tratamento na tradição literária.
Foi também a partir deste 'material' que Eça e Machado 'mitografaram', utilizando determinados processos e técnicas no tratamento do mito do Éden ou do «Jardim das delícias», variação-paráfrase presente nos contos Adão e Eva no Paraíso (1896) 1 e Adão e Eva (1885) 2. Passemos então à análise comparativa dos referidos textos, o que nos permitirá desenhar travessias entre os espaços míticos (re)criados por cada um dos escritores em apreço.
Comecemos pelos elementos que fornecem pistas ao leitor, levando-o a criar determinadas expectativas. As manchas gráficas de um e de outro texto apontam, desde logo, para diferentes fôlegos, sendo que o conto queirosiano é mais extenso do que o de Machado.
Outro elemento, talvez o mais importante no que concerne à construção de expectativas do leitor, é o título. Sendo lugar de demarcação de uma fronteira onde se assinala, de forma mais ou menos evidente, a transição do mundo real para o mundo ficcional, o mundo possível, o título constitui-se como uma espécie de "moldura". Os títulos dos contos em causa remetem para as figuras míticas de Adão e de Eva e convocam, de imediato e pelo menos, as coordenadas narrativas do relato do Génesis , criando assim determinadas expectativas no leitor em relação às tradicionais categorias de Personagem, Acção, Espaço, Tempo e Narrador.
Se o leitor esperava encontrar uma espécie de glosa da narrativa genesíaca nos contos de Eça e de Machado, teve de confrontar-se com o estranho incipit queirosiano - «Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às duas horas da tarde..» (p. 9) - e com o enigmático anúncio da personagem machadiana Sr. Veloso, o juiz-de-fora: «as cousas no paraíso terrestre passaram-se de modo diferente do que está contado no primeiro livro do Pentateuco, que é apócrifo» (p. 274).
Podemos desde logo constatar que há um desvio em relação ao relato do Génesis : em Eça, pela adição de precisões temporais ao acto da criação, e em Machado, pelo «modo diferente» de contar o mito do paraíso terrestre.
Comecemos pelo tratamento simultâneo da diegese, do tempo e do espaço. Ao nível da diegese, deparamo-nos logo com 'formatos' diferentes. Machado opta por uma estrutura mais complexa, encaixando uma segunda narrativa - a de Adão e Eva - na primeira, que é a do convívio de um grupo de amigos na casa de D. Leonor, «uma senhora de engenho, na Bahia, pelos anos de mil setecentos e tantos». Contrariamente, Eça contempla apenas uma história: a do percurso de humanização dos "nossos veneráveis pais". Todavia, esta história única não deixa de ser o cruzamento de outras histórias.
Os fios que tecem a narrativa queirosiana em questão provêm de diferentes fontes citadas no próprio texto: a obra Annales Veteris et Novi Testamenti , de Usserius, a Bíblia , os compêndios de antropologia, as tradições, as crónicas, a lenda, os poemas semíticos ou os poetas mesopotâmicos do Génesis e as crónicas de Backum.
Por outro lado, a presença de monstros pré-históricos - o ictiossauro e o plesiossauro - , bem ao gosto dos paleontologistas, nas palavras do narrador do conto queirosiano, assim como de outros elementos estudados pela Paleontologia, como é o caso das amonites (p. 24), comprova a inclusão indirecta das teorias que surgiam no mundo científico de oitocentos e que funcionam como 'histórias' na narrativa queirosiana em apreço. São também exemplo disso as 'histórias' das descobertas da lança/caça (pp. 42-43) e do fogo (pp. 43-44), ocorridas no Paleolítico, e a descoberta da agricultura, que viria a desencadear a revolução neolítica (p. 49).
Deste modo, podemos concluir que em Adão e Eva no Paraíso se entrelaçam duas grandes 'histórias' relativas às origens do homem: a doutrina religiosa da Criação e a perspectiva científica da Evolução. Mais do que isso. Estas grandes 'histórias' convivem pacificamente no conto de Eça a ponto de se contaminarem mutuamente.
Já o conto de Machado de Assis está projectado numa outra dimensão. A fonte da história de Adão e Eva é o «livro autêntico», que surge em oposição ao livro de Génesis , que é «apócrifo». Por outras palavras, a 'mitografia' de Veloso, no plano da diegese, e de Machado, no plano extra-diegese, constrói-se sob o signo da negação:
Aqui está como as cousas se passaram. Em primeiro lugar, não foi Deus que criou o mundo, foi o Diabo ... (...) mas Deus, que lhe leu no pensamento, deixou-lhe as mãos livres, cuidando somente de corrigir ou atenuar a obra.
( Adão e Eva , p. 275)
Importa ver agora como é que se processa o desenvolvimento da diegese nos contos em causa.
Os cinco dias de Criação, em que tem lugar a preparação da Terra para receber o Homem, são descritos na sua totalidade por Machado e parcialmente por Eça. Com efeito, neste último há uma omissão dos dias 24 e 25 de Outubro, correspondentes aos segundo e terceiro dias genesíacos. Seguindo a ordem já enunciada no Génesis , Machado de Assis transforma a Criação numa obra 'a quatro mãos', entre Deus e o Diabo (p. 275), enquanto que Eça opta por descrever a Terra que se auto-cria no sentido em que se completa, se abastece e se enfeita «durante os dias genesíacos de 26 e 27», «para acolher condignamente o Predestinado que vinha» (p. 9).
Relativamente à criação do homem, a personagem machadiana conta o seguinte:
No sexto dia foi criado o homem, e logo depois a mulher; ambos belos, mas sem alma, que o Tinhoso não podia dar, e só com ruins instintos. Deus infundiu-lhes a alma, com um sopro, e com outro os sentimentos nobres, puros e grandes.
( Adão e Eva , pp. 275-276)
Neste passo, podemos observar que o homem é também criado entre Deus e o Diabo, facto que se inscreve na estratégia adoptada por Machado. Esta parceria aparecerá, ainda que com algumas variações, no capítulo IX de Dom Casmurro (1900).
O desvio de Eça em relação à criação do homem relatada no Génesis ilustra plenamente a coexistência e a contaminação das duas grandes 'histórias' das origens, referidas anteriormente:
Então, numa floresta muito cerrada e muito tenebrosa, certo Ser, desprendendo lentamente a garra do galho de árvore onde se empoleirara toda essa manhã de longos séculos, escorregou pelo tronco comido de hera, pousou as duas patas no solo que o musgo afofava, sobre as duas patas se firmou com esforçada energia, e ficou ereto, (...) e concebeu o deslumbrado pensamento do que era, e verdadeiramente foi! Deus, que o amparara, nesse instante o criou. E vivo, da vida superior, descido da inconsciência da árvore, Adão caminhou para o Paraíso.
( Adão e Eva no Paraíso , p. 10)
Inicia-se assim o caminho de Adão que o levará a humanizar-se, marcado pela constante luta pela sobrevivência, sendo esta sempre acompanhada de um enorme esforço. Podemos ser tentados a ver, em primeiro lugar no percurso de Adão e depois no caminho dos nossos veneráveis pais, uma ilustração do conceito darwiniano struggle for life . Contudo, nesses «tombos modificantes», Adão é amparado por «Alguém» que o levanta. Desta forma, a coexistência e a contaminação das duas grandes 'histórias' das origens é evidente.
Cansado do seu primeiro dia no Éden, Adão adormece e «toda a animalidade do Paraíso» tentará destruir e eliminar da Terra «a força inteligente, destinada a submeter a força bruta» (p. 30). Porém, o sono de Adão é velado por uma entidade sobrenatural - «uma Figura séria e branca» - que mais adiante sabemos tratar-se de um anjo. Este passo constitui, assim, mais um exemplo da coexistência e da contaminação das duas grandes 'histórias' presentes no conto em causa.
Em relação à presença 'em cena' de Adão e de Eva, verificam-se também escolhas diferentes por parte de Eça e de Machado. O Adão queirosiano faz uma boa parte do seu percurso rumo ao «jardim das delícias» sozinho, dado que Eva surge após o sono repousante do nosso venerável pai (p. 31). Em Machado, podemos verificar que Adão e Eva, a partir do momento em que o seu processo de criação é finalizado por Deus, surgem sempre ou quase sempre juntos e que partilham das mesmas ideias, estando assim em comunhão. Deste modo, podemos dizer que funcionam como uma personagem desdobrada em duas partes complementares: o masculino e o feminino.
Regressemos novamente ao conto de Eça. Adão e Eva, «sempre a tremer, sempre a ganir, sempre a fugir!» (p. 35), deparam-se agora com a fúria da Natureza ao encetarem a vida no «Jardim das Delícias» (p. 37) e isto porque, contrariamente ao que é contado no Génesis , «A terra ainda não era uma obra perfeita: e a Divina Energia, que a andava compondo, incessantemente a emendava» (p. 35).
Repare-se na ironia que a expressão genesíaca «Jardim das Delícias» adquire neste contexto. Para além disso, é nesse mesmo 'jardim' que vemos os nossos veneráveis antepassados a serem torturados pelos pterodáctilos. É então legítimo perguntar «Como sobreviveram nossos Pais, neste Jardim de Delícias?» (p. 41). A resposta que encontramos no conto queirosiano é, no mínimo, irónica: «De certo muito faiscou e trabalhou a espada do anjo que os guardava!» (p. 41). Desta forma, a referida resposta corrobora a estratégia adoptada por Eça de tecer a sua mitografia a partir da coexistência e da contaminação das duas grandes 'histórias' das origens do homem.
Se atentarmos na descrição do paraíso machadiano, verificamos que o explêndido locus amonus que o caracteriza se encontra, portanto, no pólo oposto ao do jardim das delícias de Eça.
A este propósito importa ainda referir que as descrições do Éden queirosiano são mais extensas e ricas em pormenores relacionados com a flora, com a fauna, com as condições climatéricas, com a geologia e com a geografia. Recuperam-se assim elementos já referidos no Génesis , como o ónix, o «ouro muito bom do país de Hevilath» (p. 9) e o rio.
Passemos agora ao episódio da serpente. Na narrativa queirosiana, o mítico animal pertence ao grupo dos «furiosos seres» a quem deve o homem «a sua carreira triunfal», dado que «leva Adão, por amor de Eva, a colher o fruto do Saber». (p. 41)
Vejamos então como Eça reescreve o mitico episódio do pecado original:
Recordemos, meus irmãos, que nossa Mãe, com aquela adivinhação superior que mais tarde a tornou Profetisa e Sibila, não hesitou, quando a Serpente lhe disse, coleando entre as Rosas: - "Come do fruto do Saber, que os teus olhos se abrirão e serás como os Deuses sabedores!" Adão teria comido a serpente, bocado mais suculento. (...) Eva, porém, com a credulidade sublime que sempre no mundo opera as transformações sublimes, comeu logo a maçã, e a casca, e a pevide.
( Adão e Eva no Paraíso , p. 46)
Deste modo, Eça transforma o episódio genesíaco da tentação numa etapa da conquista da humanização, retirando-lhe toda a carga moral negativa que lhe era inerente. As noções de tentação e de pecado não fazem sentido no texto queirosiano, na medida em que este não se enquadra numa axiologia do Bem e do Mal.
Machado de Assis recupera no seu conto a simbologia que associa a serpente do relato de Génesis à tradicional figura do Diabo, construindo um diálogo entre eles cujo assunto consiste na preparação da trama que conduziria Adão e Eva à queda. Todavia, perante a tentação, Eva não cede, recusando conhecer «a origem das coisas e o enigma da vida», assim como «o resplendor dos tempos» (p. 278). E Adão aproxima-se de Eva, não para comer do mesmo fruto, mas para confirmar a sua resposta. Não podemos deixar de referir aqui as interessantes variações que a figura da serpente conhece no conto machadiano. A sua capacidade de persuasão é ainda maior do que a que é sugerida no Génesis , dado que o seu discurso é precedido pelo acto de comer o fruto «da árvore do bem e do mal» (p. 278). Por outro lado, a serpente, em discurso profético, ou se preferirmos a terminologia de Genette, através da narração anterior 3, vai enumerar uma série de exempla com o propósito de mostrar a Eva o que o fruto lhe reserva:
Escuta-me, faze o que te digo, e serás legião, fundarás cidades, e chamar-te-ás Cleópatra, Dido, Semíramis; darás heróis do teu ventre, e serás Cornélia; ouvirás a voz do céu, e serás Débora; cantarás e serás Safo. E um dia, se Deus quiser descer à terra, escolherá as tuas entranhas, e chamar-te-ás Maria de Nazaré. Que mais queres tu? Realeza, poesia, divindade, tudo trocas por uma estulta obediência.
( Adão e Eva , p. 278)
Se em Eça verificamos que o desvio em relação ao episódio genesíaco da serpente se dá essencialmente ao nível da interpretação, que é claramente positiva ao encará-lo como uma etapa da conquista da humanização, em Machado podemos observar que se opera uma espécie de peripécia, que se inscreve na estratégia por ele adoptada de recontar a história do Génesis 'pela negativa'. Assim, esta estratégia acaba por gorar por completo as expectativas do leitor, criando assim uma sensação de estranhamento.
Não é menos surpreendente o final da história machadiana de Adão e Eva: « pela repulsa às instigações do Tinhoso», eles são conduzidos pelo arcanjo Gabriel ao paraíso, à «eterna bem-aventurança», ficando a Terra entregue «às obras do Tinhoso». (p. 279)
É interessante notar os efeitos que a conclusão apresentada por Veloso tem nos seus ouvintes, efeitos esses que se estendem do plano diegético ao plano extradiegético em que se posiciona o leitor:
Tendo acabado de falar, o juiz-de-fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente.
( Adão e Eva , p. 279)
Regressamos assim, no final do conto Adão e Eva , à primeira história, facto que confere circularidade à narrativa machadiana. É a curiosidade de Veloso, perante o anúncio de «um certo doce particular», que vai despoletar a discussão sobre o 'género' da curiosidade, que, por sua vez, dá origem a outra discussão: a da responsabilidade da perda do paraíso. A atmosfera da primeira história é também enigmática, na medida em que o enigma das origens do homem encontra paralelo metafórico no do doce. A pergunta relativa às origens dessa «cousa primorosa» fica sem resposta, constituindo-se assim apenas como mera hipótese. O mesmo se passa em relação à contra-narrativa de Veloso, dado que a dúvida de D. Leonor não encontra uma resposta totalmente clara, facto que converte, ou melhor, reconverte, essa narrativa que se dizia autêntica numa hipótese quase improvável:
- Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa. É ainda aquela sua antiga doceira de Itapagipe?
( Adão e Eva , p. 279)
Passemos agora ao final da narrativa queirosiana. Depois do nascimento de Abel, estabelece-se um clima de tranquilidade no Paraíso, dado que «O mundo pressente e aceita a supremacia do homem» (p. 50) e o processo de humanização dos nossos veneráveis pais continua: « em breve, dentro dumas centenas de milhares de curtos anos, Eva será Helena e Adão será o imenso Aristóteles» (p. 51) .
Podemos sentir a tentação de ler, neste discurso profético ou narração anterior, uma visão optimista da evolução do ser humano. Contudo, o final da narrativa de Eça, que funciona como uma espécie de epílogo, questiona essa mesma concepção: «Mas não sei se vos felicite, oh Pais veneráveis! Outros irmãos vossos ficaram na espessura das árvores - e a sua vida é doce» (p. 51).
Depois de opor ironicamente a felicidade do orangotango ao sofrimento do homem, consequência de «arrastar consigo, irresgatavelmente, esse mal incurável que é a sua alma» por não ter tido «a previdência ou a abnegação de declinar a grande supremacia», «no terrível dia de 28 de Outubro», Eça vai estabelecer uma espécie de ponte entre os nossos veneráveis pais e o narrador e o leitor na forma inclusiva da primeira pessoa do plural: «continuemos a reinar sobre a Criação e a ser sublimes» (p. 53). E, num crescendo de ironia, coloca em evidência a profunda incapacidade de compreenção, por parte do ser humano, quer das suas origens, quer da sua condição. Essa incompreensão terá presidido ao tratamento irónico das duas grandes 'histórias' da origem do homem, que se misturam e que se contaminam na narrativa em apreço.
Eça e Machado mitografam a partir do texto matriz, a narrativa do «Jardim das delícias». Eça, sob o signo da ironia, distancia-se das duas grandes 'histórias' que comparecem na feitura da sua 'mitografia'. Machado, sob o signo do enigma, também ele irónico, parodia o discurso genesíaco e depois reconverte essa contra-narrativa em hipótese quase improvável, deixando em aberto a questão das origens do mundo e do homem.
Partindo das conclusões apresentadas, passemos agora ao tratamento da categoria Narração. O narrador queirosiano é heterodiegético e dirige-se a um público - o leitor/espectador, dado o visualismo que caracteriza o conto em apreço - posicionado no plano extradiegetico. Porém, o tratamento da voz narrativa em Eça não é tão simples como poderíamos pensar à primeira vista. Na verdade, a voz única do narrador de Adão e Eva no Paraíso entrelaça uma série de auctoritates , criando-se assim um efeito de polifonia na instância narrativa queirosiana. Mesmo quando as referidas vozes são convocadas de forma mais ou menos irónica, aproximando-se também em maior ou menor grau do registo paródico, continuam a funcionar como tal.
Quanto à instância narrativa machadiana, verificamos que, embora seja também plural, consegue esse efeito através de outra técnica. O facto de Machado optar por uma arquitectura narrativa mais complexa, na qual uma segunda história se encaixa na primeira, tem obviamente consequências no que diz respeito à voz narrativa. Temos portanto em Adão e Eva duas vozes narrativas - a do narrador heterodiegético e a de Veloso, que se constitui como narrador heterodiegético da segunda história - e dois públicos - D. Leonor, Frei Bento, João Barbosa e os restantes amigos, no nível diegético, e o leitor, no plano extradiegético.
Importa aqui destacar um dado pertinente na caracterização de Veloso, narrador heterodiegético da segunda história, que o converte numa verdadeira auctoritas . É Frei Bento o responsável pela descrição das qualidades superiores do juiz-de-fora, facto que é fundamental, uma vez que se trata de um representante da comunidade eclesiástica.
Relativamente à categoria Personagem, saliento apenas o contraste existente entre o desenho das figuras de Adão e Eva, resultante aliás das diferente opções de Eça e de Machado.
Os retratos de Adão e de Eva são bastante mais 'económicos' em Machado do que em Eça. Comecemos pelo conto machadiano. Adão e Eva são criaturas belas que andam «altas e direitas como palmeiras» (p. 277) e que, ainda sem a intervenção criadora de Deus, só têm «ruins instintos» (p. 276), ocorrendo depois a mudança:
Eva, antes que Deus lhe infundisse os bons sentimentos, cogitava de armar um laço a Adão, e Adão tinha ímpetos de espancá-la. Agora, porém, embebiam-se na contemplação um do outro, ou na vista da natureza, que era esplêndida.
( Adão e Eva , p. 276)
Verificamos assim e mais uma vez que, em Machado, Adão e Eva funcionam como uma personagem desdobrada em duas, visto que são descritos em conjunto. O mesmo não se observa nos retratos queirosianos de Adão e de Eva.
O retrato físico de Adão inscreve-se também na estratégia irónica de desvio a que já me referi. Esta aparece claramente marcada pela negativa exclamativa «Não, não era belo, nosso Pai venerável, nessa tarde de Outono, quando Jeová o ajudou com carinho a descer da sua Árvore!» (p. 11).
Como tivemos a oportunidade de ver, Adão vai-se libertando, através dos «tombos modificantes» (p. 13), da animalidade, no seu caminho para a humanização. O mesmo sucede com Eva, apesar de surgir desenhada com traços de animalidade mais suaves (p. 31).
Do ponto de vista psicológico, Eva é dotada de uma «adivinhação superior» e revela serenidade nas descobertas/conquistas que vai fazendo com Adão ou sozinha. O mesmo não se verifica em relação a Adão, que é caracterizado como «o bruto Pai» por se irritar com determinados gostos e modos de Eva. O episódio da domesticação do cachorrinho perdido constitui, a este propósito, um bom exemplo (p. 48).
No final do conto queirosiano, é traçado o último retrato de Adão, agora mais humanizado: «A lareira flameja: e alumia a face de nosso Pai, que o esforço da vida embelezou, onde já os beiços se adelgaçaram, e a testa se encheu com o lento pensar, e os olhos sossegaram num brilho mais certo» (p. 50). Não deixa de ser curioso que a última descoberta/criação levada a cabo por Adão - a criação artística e estética - ocorra nesta fase (pp. 50-51).
Da análise comparativa levada a cabo, concluo que Machado, sob o signo do enigma, por natureza irónico, parodia o discurso genesíaco, reconvertendo posteriormente essa contra-narrativa em hipótese quase improvável, e acabando, assim, por devolver o mistério ao tema das origens do mundo e do homem. Eça, por seu lado, também sob uma orientação irónica, distancia-se das duas grandes 'histórias' que comparecem e convivem pacificamente na feitura da sua 'mitografia': a doutrina religiosa da Criação e a perspectiva científica da Evolução . Podemos, portanto, dizer que tanto Eça como Machado, apesar de partirem da mesma matriz - a narrativa do Génesis - , 'mitografaram' de modos diversos, criando assim textos autónomos que se relacionam ao nível da hipertextualidade.
Eça de QUEIRÒS - Adão e Eva no Paraíso , in Almanach Encyclopedico para 1897 , Livraria de António Maria Pereira, Lisboa, pp. XIX-LV, 1896. No presente trabalho, utilizei Adão e Eva no Paraíso , Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2001.
Machado de ASSIS - Adão e Eva (1 de Março de 1885), in Gazeta de Notícias . Publicado posteriormente em Várias Histórias (1895). No presente trabalho, utilizei a edição de J. Gledson, Machado de Assis, Contos/Uma Antologia , Companhia das Letras, São Paulo, vol. II, 1998.