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A concepção de conto em Machado, Poe e Tchekhov: diferenças e similitudes
Ana Helena Krause Armange (UFRGS)

O objetivo desta comunicação é comparar as idéias de Machado de Assis sobre o conto com as do americano Edgar Allan Poe e do russo Anton Tchekhov, apontando a existência de diferenças e semelhanças.

Em 1842, em uma resenha crítica sobre os contos de Hawthorne, Poe apresenta, breve mas densamente, sua teoria. Primeiramente, ele defende a existência de gêneros "mais favoráveis para o exercício de talentos mais elevados", 1 organizando-os de forma hierárquica. Em primeiro lugar está a poesia rimada, em segundo, o conto e, por último, a novela, (qualificada como "mera prosa"). Poe ressalta a importância de a leitura de um poema não ultrapassar uma hora - para que possa ser feita de uma vez só e a unidade de efeito e de totalidade se mantenha -, nem ser demasiadamente breve, a fim de que a impressão do receptor seja intensa e duradoura. A leitura do conto, por sua vez, deveria durar de meia a uma ou duas horas. A brevidade, para Poe, tem fundamental influência na concretização do "efeito único", que deve ser visado pelo autor antes de mais nada, no processo de concepção do conto. Os incidentes só deveriam ser criados depois e combinados de maneira que tudo convirja para este efeito, a fim de que ele seja transmitido da melhor maneira possível. Em relação ao poema, Poe ainda afirma que o conto tem um ponto de superioridade sobre ele. Ora, se a idéia mais alta do poema é a Beleza e a do conto, a Verdade, este último se situa em uma dimensão muito mais abrangente do pensamento humano e as formas de expressão permitidas por ele são muito mais variadas do que as oferecidas pela poesia. No texto "A filosofia da composição", de 1846, em que descreve o processo de construção do poema "O corvo", Poe reafirma as convicções do texto anterior quanto à importância de as obras literárias terem uma extensão adequada, declarando que "todas as emoções intensas, por uma necessidade psíquica, são breves" 2 e enfatiza, novamente, a necessidade de que o autor só pode conferir causalidade e conseqüência ao desenrolar de uma obra, tendo em vista o seu desfecho que, por sua vez, necessita de coesão no que lhe antecede. Segundo Gilda Bittencourt, ambos os textos são um marco na história do conto como gênero, e sabemos que vários contistas assimilaram estas idéias e passaram a seguir o modelo apresentado por Poe.

A obra do contista russo Anton P. Tchekhov ficou conhecida por ter criado novas possibilidades estéticas no cenário literário do final do século XIX. Embora não tenha sistematizado suas idéias sobre o gênero, como Poe, abordou o assunto em cartas. Sophia Angelides, pesquisadora brasileira que trabalhou com o material e reuniu suas conclusões no livro A.P. Tchkhov : cartas para uma poética, afirma que a peculiaridade dos contos que mais chamava a atenção do público contemporâneo do escritor era o fato de que os textos enfatizavam muito mais a focalização de elementos extraídos da realidade do que a fábula em si (fábula, aqui, considerada na acepção de Tomachevski), como, por exemplo, a caracterização das personagens. Outros aspectos incômodos para os críticos, além da ausência de uma postura ideológica explícita, eram a falta de um acontecimento impressionante, que despertasse interesse como assunto, e de uma seqüencialidade causal visível, sendo Tchekhov, portanto, considerado um transgressor das concepções literárias baseadas na tradição.

Angelides afirma que o russo persegue o efeito de estranhamento, rompendo com a visão desgastada dos objetos que representa, processo que exige também o distanciamento do emissor do texto, o que explica a aversão de Tchekhov a narradores que revelam sua subjetividade. Seus contos, em que o cotidiano está sempre presente, procuram desmascarar aparências e ridicularizar estereótipos, com muita ironia, além de revelarem a preocupação do autor com a forma literária, verificável no esmero formal na descrição do comportamento das personagens.A valorização da objetividade alia-se a uma concepção profundamente realista de literatura: "A literatura artística é denominada artística porque descreve a vida tal como ela é na realidade. Seu objetivo é a verdade absoluta e honesta [...] o escritor não é o confeiteiro, nem maquiador, nem animador de espetáculos", 3 ou seja, os textos devem retratar a realidade exatamente como foi observada ou vivida, mas, como qualquer objeto é passível de representação se lhe é conferido tratamento adequado artisticamente, a escolha do tema é irrelevante.

A pesquisadora observa que outra característica dos contos de Tchekhov, mesmo daqueles com final inesperado, é imprimir a tônica da narrativa ao seu desenrolar, e não ao desfecho. Afinal, neles a ênfase recai na descrição dos processos psíquicos das personagens, através de um narrador que penetra em suas consciências, mostrando a repercussão dos eventos do cotidiano e fazendo prevalecer o ponto de vista do herói.

O texto afirma que Tchekhov também enveredou por caminhos filosóficos, abordando os conflitos do ser humano consigo mesmo e com o mundo e a busca de soluções para eles. Ao fim do conto, porém, ou não são resolvidos ou ficam em aberto. Em seus textos mais tardios, o herói passa a ter uma consciência - os fatos chegam ao conhecimento do receptor a partir do seu ponto de vista - e a narrativa, que se constitui em um recorte de um momento da vida da personagem, passa a ser mais fragmentada, a fim de expressar pensamentos e eventos descontínuos, como no conto "Angústia".

Sophia Angelides afirma que o tom da composição de Tchekhov decorre de uma certa postura existencial: as idéias, os sentimentos e a percepção das coisas são incertos e, por isso, não podem ser traduzidos de maneira harmoniosa no texto. Segundo ela, o contista também toma o cuidado de representar a realidade de maneira que o herói fique desorientado, justificando a existência dos conflitos. Angelides ainda acrescenta que a relação entre realidade e obra na concepção do russo é muito diferente da de Edgar Allan Poe, uma vez que, no texto de Tchekhov, não se encontra a convergência gradual dos fatos em direção a um determinado efeito no final. Assim, para Angelides, a narrativa do contista russo estaria mais de acordo com a realidade e com a interioridade "fluída e contraditória" do ser humano.

A nova estética de Tchekhov opõe-se ao modelo de Poe em alguns aspectos: o efeito idealizado por este ocorre no final da narrativa, como se ela percorresse uma trajetória ascendente, em termos de tensão dramática, enquanto o texto daquele desenha uma parábola, pois o meio do conto é mais dramático do que o final, como nos contos "O marido" e "Cronologia viva". A impressão que se tem ao ler um conto de Tchekhov, ao invés da convergência de todos os eventos para o final, é de que os episódios não se organizam numa hierarquia, formando o crescendo do texto de Poe, mas que o desfecho banal dos textos corresponde, deliberadamente, à realidade do ser humano, estratégia que denuncia a concepção realista de literatura do russo. Segundo Sophia Angelides, o efeito buscado por Tchekhov, ao encerrar uma narrativa, é de que a vida continua e a realidade é inesgotável.

Mas também existem semelhanças entre o russo e o americano, como a preocupação com a forma, mesmo sendo em diferentes dimensões da obra. Poe escolhe a fábula que se adecua a um desfecho pré-concebido (no texto do americano, a fábula só tem importância enquanto meio de causar, da melhor maneira, o efeito pretendido). Tchekhov também dá mais valor ao efeito que pretende causar do que à fábula, a grande diferença em relação a Poe é que o russo deixa de lado a idéia de que se transmite melhor o efeito no fim.

Ao contrário de Poe, Machado de Assis não chegou a expressar de forma sistemática suas idéias sobre o conto. Entretanto, diferente de Tchekhov, que nunca escreveu artigos teóricos sobre a sua poética ou sobre a literatura em geral, o brasileiro não se absteve da crítica literária, publicada em jornais e revistas, ao longo de vários anos. Talvez pelo fato de o conto ainda não ser um gênero muito cultivado na jovem literatura nacional, que, ao lado da portuguesa, protagonizava as análises de Machado, não há críticas dirigidas a contos ou contistas brasileiros. Apesar disso, ele mesmo se dedicou ao conto com a mesma força criativa empregada nos outros gêneros e demonstrou estar consciente de suas peculiaridades.

Em 1873, quando tinha publicado apenas Contos Fluminenses e Histórias da Meia-Noite , Machado já demonstrou estar consciente de que o conto é gênero independente do romance e com estatuto estético próprio, destacando, no ensaio "Instinto de Nacionalidade", a escassez de manifestações neste âmbito, em nossa literatura. De acordo com o texto, o conto "é gênero difícil, a despeito de sua aparente facilidade, e creio que essa mesma aparência lhe faz mal, afastando-se dele os escritores, e não lhe dando, penso eu, o público toda a atenção de que ele é muitas vezes credor". 4 No prefácio a Papéis avulsos , a primeira coletânea publicada, em 1882, após o lançamento das Memórias póstumas de Brás Cubas , Machado torna a falar da natureza do gênero, com o costumeiro tom irônico e ambíguo: "O livro está nas mãos do leitor. Direi, simplesmente, que, se há aqui páginas que parecem meros contos [...]". 5 Não é o autor que associa o termo "meros" a "contos", este é o discurso do senso comum, que os vê como um gênero menor; é o do leitor, que tem o livro em mãos e já se põe a julgá-lo, conforme a suposição do autor, que se defende desse discurso, recorrendo a uma metáfora: sob a aparência insignificante, há sentido, assim como na besta apocalíptica, que oculta o sentido sob sua aparência caótica. Embora afirme que, de acordo com Diderot, os contos alegram e fazem o tempo passar quase imperceptivelmente, muitos contos machadianos, como "A causa secreta", "Conto alexandrino", "Viver!", "Na arca", "A igreja do diabo" e muitos outros, não visam ao mero entretenimento.

No prefácio a Várias histórias , de 1896, o autor, novamente, se vale da já referida afirmação de Diderot de que o conto faz passar o tempo, acrescentando que os seus contos "não pretendem sobreviver como os do filósofo". 6 Essa artimanha de Machado, a nosso ver, visa diminuir as expectativas dos leitores em relação aos textos, para que, durante e depois da leitura dos cotos, eles as superem. No final, afirma o autor: "O tamanho não é o que faz mal a esse gênero de histórias, é naturalmente a qualidade; mas há sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos". 7 Portanto, de acordo com Machado, o conto não é apenas um "romance curto", é um gênero com estatuto próprio e que, sob alguns aspectos, sobrepõe-se ao romance, embora tanto um gênero quanto o outro precisem ser praticados com qualidade, ou seja, de acordo com o que as normas de cada um exigem.

A ressonância da obra de Edgar Allan Poe na de Machado de Assis é apontada e analisada por vários críticos, de Herman Lima 8 a Patrícia Lessa Flores da Cunha, 9 principalmente por causa do caráter fantástico de alguns contos, como em "A chinela turca" e "Entre Santos" e da escolha do duplo como um tema recorrente, como em "O espelho", "Teoria do medalhão", etc. Tanto Poe quanto Machado valorizam extremamente os aspectos formais na construção de seus textos. Enquanto o primeiro cria uma estrutura anterior, que só depois vem a ser preenchida pelo episódio, subordinado ao efeito; o segundo se esmera, por exemplo, na exploração variada dos recursos composicionais, construindo vários tipos diferentes de narradores que fazem a narrativa progredir através do diálogo com seus interlocutores, ironizando personagens, citando outros textos, criando alegorias, relatando experiências testemunhadas ou protagonizadas, escrevendo um diário...

Dois contos que sintetizam muito bem a adoção dos princípios de Poe por Machado são "A cartomante", em que todos os elementos da narrativa conduzem, harmoniosamente, ao desfecho, de efeito surpreendente; e "A causa secreta", em que o clímax ocorre no momento em que o olhar do narrador se desloca da perspectiva de Garcia para a de Fortunato, e o sadismo deste chega ao ápice, contemplando a "dor moral" daquele. Entretanto, também há concepções divergentes entre o brasileiro e o americano: para Machado, não é necessário que todos os elementos do texto sempre convirjam para o desfecho.

Em relação a Anton Tchekhov, Machado de Assis tem semelhanças significativas, além de diferenças de suma importância. Marta de Senna julga improvável que um desses dois escritores contemporâneos e "distantes no espaço" tenha lido o outro, já que só foram traduzidos para o francês após morrerem. Em seu ensaio "Machado e Tchekhov: conto de memória", ela une os dois autores como representantes da prosa impressionista, típica do fin de siècle , e que se caracteriza por impressões subjetivas de estados cambiantes de alma, pela análise psicológica em detrimento da ação concreta, pela percepção sensorial contra a confiança na razão e no engajamento político explícito, pelo esteticismo, pela presença do tempo e de ritos de memória, em textos nos quais a sugestão é o que importa, ao invés do fato. 10 A professora da UFRJ comenta algumas semelhanças entre os contos "Cronologia viva", de Anton Tchekhov e "Missa do galo", de Machado de Assis. Em ambos os textos, que falam, cada um a seu modo, do passado, o adultério feminino é sugerido através de uma ação escassa, de parcos movimentos e final sutil. Outro conto machadiano que se aproxima da estética de Tchekhov é "Singular ocorrência", em que um homem narra a um amigo a traição de uma ex-cortesã, de caráter irreprochável, em relação ao amante, sem que nenhum dos interlocutores do conto consiga encontrar uma explicação racional para ela.

Tanto Tchekhov quanto Machado tematizaram o cotidiano e o casual, o conflito do homem com o meio que o cerca, que geralmente não é resolvido no desfecho das narrativas, além de terem sido acusados de não tratarem das questões sociais de seu tempo. No nível da técnica, o brasileiro e o russo se assemelham em vários aspectos: como Poe, ambos dão muita ênfase ao discurso, e acreditam que qualquer objeto é passível de representação e pode ser utilizado como assunto, pois a construção do argumento é o que realmente importa para eles. Além disso, Machado também escreveu muitos contos em que o desenvolvimento é mais importante que o desfecho. Ambos se valem da ambigüidade, e buscam o efeito de estranhamento, Tchekhov através da satirização de tipos sociais por um narrador pretensamente objetivo; Machado, na emergência de um narrador que também ironiza as personagens e até o seu interlocutor, mas de forma lúdica, revelando sua subjetividade e, freqüentemente, comentando com o narratário o processo de elaboração do texto, como em "Miss Dollar", "O diplomático", "Uma senhora". A quebra da seqüencialidade causal e cronológica das ações, o humor, a ironia e o ceticismo também são características de ambos.

A principal diferença a ser assinalada entre os dois escritores é sua concepção de arte. Para Tchekhov, a literatura deve descrever a realidade como ela é, a fim de atingir a verdade, portanto, uma visão realista, não se descartando a hipótese da influência francesa. O russo ainda defendia a objetividade como forma de atingir o distanciamento indispensável para se estabelecer o efeito de estranhamento. Machado, por sua vez, afirma que a verdade é uma ilusão e acredita que se pode perceber melhor a realidade através da transformação e da deformação, enfim, da recriação que a arte nela promove.

Por fim, podemos unir os três escritores em torno de um objetivo comum: a construção de narrativas que visam ao estabelecimento de um efeito específico, seja ele a surpresa, no defrontamento com o fantástico, no caso de Poe, a banalidade da vida cotidiana, para Tchekhov, ou como Machado soube reunir de forma tão diversificada, em sua admirável produção contística, ambas as coisas e muito mais.

 

POE, Edgar Allan. A primeira teoria do conto. Revista Letras de Hoje , Porto Alegre, n. 18, dez. 1974, p. 14.

POE, Edgar Allan. A filosofia da composição. In: ______. Poemas e ensaios . Globo, Rio de Janeiro, p. 103, 1985.

ANGELIDES, Sophia. A.P. Tchekhov: Cartas para uma poética. EdUSP, São Paulo, p. 89, 1995.

ASSIS, Machado de. Literatura Brasileira: Instinto de Nacionalidade. In: ______. Críticas literárias . Editora Formar, São Paulo, p. 161, s.d.

ASSIS, Machado de. [Prefácio.] In: ______. O alienista . Clube do Livro, São Paulo, p. 19, 1964.

ASSIS, Machado de. [Prefácio.] In: ______. A cartomante . Clube do Livro, São Paulo, p. 9, 1966.

Ibidem .

LIMA, Herman. Evolução do conto. In: COUTINHO, Afrânio (org.). A literatura no Brasil . Sul-americana, Rio de Janeiro, p. 39-56, 1971.

CUNHA, Patrícia Lessa Flores da. Machado de Assis , um escritor na capital dos trópicos. IEL, Porto Alegre; Ed UNISINOS, São Leopoldo, 1998.

SENNA, Marta de. Machado e Tchekhov: conto de memória. In: ______. O olhar oblíquo do bruxo : ensaios em torno de Machado de Assis. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, p. 106, 1998.