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Cura e Memória na Literatura Indígena Norte-Americana
Marta Ramos de Oliveira (UFRGS)

Vou falar sobre cura e memória na literatura indígena norte-americana com especial referência a duas obras contemporâneas de escritoras indígenas: Ceremony , de Leslie Marmon Silko, e Solar Storms , de Linda Hogan.

Pode parecer estranho falar em cura quando estamos tratando de literatura. Em geral, reservamos a palavra cura para o contexto médico, em que significa o processo de restabelecimento da saúde, ou a cicatrização, no caso de feridas, de modo a tornar inteiro de novo, superando uma condição de mal-estar. Mas aqui vou usar cura no sentido de superação de um estado de alienação do indivíduo em relação a sua comunidade de origem, a sua história pessoal e coletiva e a sua capacidade de gerar sentidos de modo a restabelecer uma noção de identidade que lhe permita situar-se no mundo. Valendo-me do conceito de mediação de James Ruppert 1, argumento que essa cura é possível a partir do aprendizado que o protagonista e o leitor, por extensão, fazem de modo a integrar dois sistemas epistemológicos distintos: o indígena e o não indígena. A seguir demonstro como essa negociação de diferentes modos de produção de sentidos opera dentro dos romances analisados.

Na literatura indígena norte-americana contemporânea, é comum encontrarmos romances de formação com protagonistas deslocados de sua comunidade, marginalizados e destituídos social e culturalmente, sem saber que lugar ocupam na geografia imaginária que lhes assegure um lugar na história e saberes locais.

Nessa comunicação, pretendo abordar como os romances Ceremony e Solar Storms diagnosticam as causas e as conseqüências desse estado de alienação dos seus protagonistas e quais as estratégias discursivas que irão conduzir esse mesmo protagonista a encontrar seu papel em diferentes níveis: espiritual, comunitário e histórico. As duas narrativas abordam o processo de cura em dois níveis, performático e discursivo, e, dessa forma, propõem uma leitura que sirva como processo de cura para o leitor também, na medida em que este aprende a interpretar a história que se desenvolve a partir de duas epistemologias diferentes: indígena e não indígena, e a integrá-las numa mudança que permita a sobrevivência e a cura do leitor em paralelo com a do protagonista. Assim, nesse contexto, a cura pode ser definida como a incorporação de uma nova epistemologia que assegure a sobrevivência não apenas do indivíduo, mas de toda a comunidade, incluindo as relações interculturais e com o meio ambiente, com a terra, as plantas, os animais, as águas, as pedras e os seres espirituais num equilíbrio delicado e dinâmico. James Ruppert desenvolve o conceito de mediação para explorar de que formas os romances indígenas interpelam os diferentes leitores, indígenas e não indígenas, de modo a expandir sua forma de conceber e organizar o conhecimento. Assim, ao se valer de diferentes tipos de discurso, que vão incorporar a representação a partir de um outro lugar, segundo categorias de gênero, etnicidade e formas discursivas, o leitor se vê confrontado com diferenças que o obrigam a reavaliar seus pressupostos culturais. Conseqüentemente, nesse exercício para dar coerência à narrativa, o leitor indígena aprende a usar formas de análise ocidentais, como, por exemplo, a noção de gênero literário, que, no caso do romance cria expectativas de análise psicológica e sociológica, através da compreensão dos fatores que motivam a ação do protagonista. Por outro lado, o leitor não indígena aprende a reconhecer um padrão maior na história, geralmente referido como discurso mítico em que as separações entre passado e presente, humano e não humano, saúde e doença entram em colapso num todo contínuo onde, conforme a expressão bastante citada de Silko, "não [há] fronteiras, apenas transições" (246) 2. Esse aprendizado diferenciado é de suma importância, pois não é apenas o protagonista indígena que se encontra desequilibrado, mas é todo o mundo moderno que precisa ser imbuído de um sentido que englobe todos os seres.

Tanto Silko como Hogan constroem suas narrativas baseadas em acontecimentos históricos cujo tratamento ficcional irá, não apenas desenvolver categorias narrativas ocidentais como a motivação psicológica do protagonista num determinado contexto social, que, no caso, podemos identificar como romances de protesto, ou, numa outra acepção, de um "romance de volta às raízes" 3, mas envolverá também estruturas narrativas a partir de uma perspectiva indígena com a incorporação de mitos que se entrelaçam na narrativa de maneira multidimensional, fundindo as noções ocidentais de tempo, espaço, individualidade e narrativa. Para Tayo e Angel, os protagonistas de Ceremony e Solar Storms , respectivamente, a cura se estabelece pelo desemaranhar das narrativas, pela redescoberta do padrão da história que sempre esteve lá e que eles devem reconhecer para poderem mudar a sua história e encontrar o seu lugar na comunidade. Portanto, a memória que se requer aqui não é aquela que permite a recapitulação de fatos aprendidos anteriormente, mas aquela que permite a inserção do protagonista na história maior da comunidade, nas histórias que conhecemos como mitos e na história da terra e suas conexões com os outros seres vivos. Ter memória significa saber seu lugar nas histórias coletivas reais ou imaginadas, resgatando, através das narrativas tradicionais, o passado de opressão individual e comunitária não contado, e desempenhar a ação correta, pois a memória se atualiza não apenas discursivamente, mas também performativamente, isto é, se estabelece a nível psicológico e de uma atuação no mundo, definindo o desenrolar final da história.

Em Ceremony , o romance de Leslie Marmon Silko, publicado em 1977, a narrativa começa em forma de poema, com Thought-Woman, literalmente a "Mulher-Pensamento", um ser supernatural da tradição dos Pueblo, a qual Silko pertence, contando e, conseqüentemente, criando a história que vem a seguir. E o que ela diz é:

Vou lhe contar algo sobre as histórias,

[ele disse]

Elas não são apenas entretenimento.

Não se iluda.

Ela é tudo o que temos, entende,

tudo o que temos para afastar

a doença e a morte. (2)

O que se segue é uma narrativa que toma a forma de uma cerimônia que se desenvolve em diferentes níveis. Assim como as narrativas orais possuem uma expressão padrão para marcar seu início e seu fim, algo como "era uma vez" e "viveram felizes para sempre", a história de Tayo é delimitada pela palavra "sunrise" (nascer do sol), definindo o início e o fim da cerimônia em que o protagonista e o leitor irão participar através da contação de histórias. Ainda, segundo a "Mulher-Pensamento":

A única cura

que conheço

é uma boa cerimônia,

isso é o que ela disse. (3)

No romance, Tayo, um veterano da segunda guerra mundial, volta para casa sofrendo de alucinações por causa da malária e daquilo que os médicos diagnosticam como "trauma de guerra" (8). O tratamento oferecido pelos médicos euroamericanos se revela ineficiente, pois buscam fazer com que Tayo se esqueça de tudo o que aconteceu, da morte do primo de quem prometera cuidar, da projeção do rosto do tio no de um prisioneiro japonês em quem ele deveria atirar, da maldição lançada contra as chuvas tropicais que só faziam piorar o estado do primo moribundo. O resultado do tratamento é que Tayo sente-se como "fumaça branca" (14), sua boca habitada por um "roedor morto" (15) incapaz de comunicação. Neste ponto, a narrativa segue a forma do romance ocidental em prosa, mas a linearidade se encontra rompida pela presença de sonhos, alucinações e uma incapacidade do protagonista de distinguir tempo presente e passado. À medida que Tayo, com a orientação de dois homens da medicina, vai tomando consciência de que suas histórias se integram num padrão maior e que tudo que ele viu não eram alucinações mas apenas a memória do todo sem organização ele pode partir numa busca que o levará a integrar a visão de mundo Laguna/Pueblo com a nova configuração social e cultural que o cerca. Nesse ponto, é importante ressaltar que tanto Tayo como seus ajudantes, o velho Betonie, Night Swan e Ts'eh Montaño, a mulher-espírito que vai despertá-lo para o amor, são mestiços. Nas palavras de Night Swan, "a maioria das pessoas tem medo da mudança. Elas acham que se seus filhos tiverem a mesma cor de pele, a mesma cor de olhos, que nada está mudando... São uns tolos. Eles nos acusam, aqueles que parecem diferentes. Dessa forma, eles não têm que pensar no que aconteceu dentro deles." (100). Ser mestiço é estar apto a viver na transição entre dois mundos diferentes e saber lidar com a mudança. É ser capaz de reconhecer o padrão, pois os acontecimentos devem ser traduzidos num constante ir e vir entre duas formas diferentes de conhecer e interpretar o mundo.

Essa idéia, que se manifesta no nível da história, se reproduz no entrelaçamento discursivo que ocorre na narrativa. A narrativa em prosa é entrecortada com histórias tradicionais Laguna Pueblo dispostas como se fossem poemas alinhados no centro da página. À medida que Tayo vai recuperando sua memória, esses "poemas" vão saindo desse espaço diferencial para se imbricar na narrativa principal, ao mesmo tempo que outras histórias, como, por exemplo, as histórias dos veteranos que, de tão repetidas, vão virando mito, passam a ser apresentadas nessa forma visual tipo poema. Mito e narrativa passam a ter existência única, de forma que o leitor é levado a aprender a ler num sistema epistemológico diferente daquele que usava no início da leitura. Não é de estranhar, portanto, que a memória e as histórias desempenhem papel tão importante para esse protagonista e, por extensão, para o leitor, uma vez que são justamente essas histórias que lhe permitem recuperar a visão do padrão geral e superar as mentiras que o mantêm prisioneiro do final almejado pelos destruidores, ou seja, para estes, as histórias contadas terminam em tragédia, separação, inferioridade, opressão, desagregação da comunidade, como se Tayo fosse apenas mais um índio bêbado que não conseguiu se adaptar ao mundo branco. O que finalmente Tayo compreende é que é possível resgatar as histórias que sempre estiveram dentro dele e reclamar o seu lugar dentro da comunidade sem estar preso a uma essencialidade retrógrada que não admite mudanças.

Lançado 18 anos mais tarde, Solar Storms , de Linda Hogan, também vai se estruturar como um romance de formação, ou mais especificamente, assim como Ceremony , como um "romance de volta às raízes". Solar Storms começa com o relato oral de uma cerimônia de doação. Nessa cerimônia, Bush, a quase avó de Angel, doa todos os seus pertences e corta o seu longo cabelo em honra da criança que lhe foi tirada. Angel é apenas mais uma de uma longa história de crianças indígenas retiradas da sua família para adoção em famílias euroamericanas. Nesse pequeno relato, o leitor é informado do mistério envolvendo a mãe da protagonista: "Não sabíamos nomear aquilo que havia de errado com ela e desconfiávamos de tais coisas sem nome. Ela era como o ferro subterrâneo que puxa a agulha do compasso para um norte falso." (12) Assim a descreve Agnes, a bisavó de Angel, para em seguida associá-la a uma velha história dos Cree "sobre o coração congelado do mal que era a fome, a inveja e a cobiça, como ele [o mal] havia enganado as pessoas para a morte ou doença ou as havia levado à loucura" (13). A cerimônia de doação nada mais representava que uma tentativa de Bush de conduzir a batalha com o mal a "um frágil equilíbrio" (13) até a volta de Angel.

De fato, após uma série de famílias adotivas, das quais era obrigada a sair por fuga ou roubo, sempre motivados pelo medo e pela raiva, a identidade de Angel se resumia a uma pilha de papéis guardados nos arquivos do governo (p 26). Finalmente, movida pelo desejo de saber a origem das horrendas cicatrizes do seu rosto, que sabia estarem conectadas com a sua mãe, Angel volta para casa para tentar "salvar o que pudesse achar dentro de [si]" (27). Sua história, sua vida só pode ser resgatada através das narrativas daquelas mulheres que a esperam em Adam's Rib. Para sua surpresa, as histórias que Angel ouve em nada se parecem com aquele passado que ela inventou para si mesma em que uma mãe adorável havia morrido de desgosto pela separação e a protegia nas suas orações. Angel descreve o seu processo de cura da raiva e do medo, que conduziam à sua auto-destruição, como se ela fosse água voltando para si mesma, ou seja, como uma volta ao seu elemento vital.

Nesse processo, as histórias contadas por Bush, Agnes e pela trisavô, Dora-Rouge, servem para restaurar os elos perdidos da sua memória. "As suas histórias me chamavam de volta para a casa, mas essa casa não era, de forma alguma, aquilo que eu esperara" (48), diz Angel. Assim como Tayo, as lembranças de Angel remetem a feridas, no caso, às infligidas por sua mãe. Para entender isso, Angel precisa montar a partir dos relatos que lhe são oferecidos uma história que a explique. No entanto, tudo que recebe são fragmentos, restos de uma história oficial que não se importou com o rastro de destruição deixado para trás. Não por acaso, a narrativa de Angel começa com a história das águas de Adam's Rib. "Naquela época", diz Angel, "eu não sabia que o que eu realmente queria nenhum de nós jamais teria. Eu queria uma linha ininterrupta entre eu e o passado. Não queria ser os fragmentos e pedaços deixados para trás pelos mercadores de pele, soldados, padres e escolas" (77)

Se a narrativa linear não serve como ponto de apoio sobre a qual construir sua cura é porque a marca que carrega no rosto é mais do que uma deformidade física. O vazio emocional, psíquico, social e espiritual que produziu um ser tão gélido e inumano como Hannah Wing, a mãe de Angel, é apenas um degrau a mais dos atos de deslocamento e traição que levou à ruptura do elo existente entre os animais e os homens, entre a terra e a água. A devastação é visível não apenas em Adam's Rib, onde as mulheres e as crianças foram abandonadas no rastro deixado pelo comércio de peles, mas se manifesta também na atitude eurocêntrica que permite o desrespeito à vida em todos os níveis. O tratamento cruel dispensado a um urso em cativeiro, o quase extermínio dos castores , a exploração de uma baleia beluca, os animais deixados para apodrecer após terem seu pele retirada, a destruição das plantas medicinais, o desvio dos cursos das águas, o assassinato dos lobos para dar lugar ao gado, a devastação das florestas, a exploração das minas de ferro para a construção dos trilhos de trem, a dinamitação de uma nascente de águas curativas ordenada pela igreja católica para acabar com a superstição pagã, o estupro de mulheres, o envenenamento de um povo inteiro, o rapto de crianças ¾ são alguns dos males que se fundem em Hannah Wing, desumanizando-a. Os crimes listados mostram a forma como a devastação infligida aos animais, plantas, florestas, rios e terra não se diferencia dos atos de deslocamento e traição a que foi submetida a população local. É nesse contexto que Angel, junto com suas avós, vai percorrer de barco os rios até o Norte e se juntar ao povo de onde vieram, para protestar contra uma barragem que implicará o deslocamento da tribo dos Fat Eaters e a destruição de plantas e dos animais que dependem desse ambiente para viverem. A luta contra a barragem representa mais um ato de resistência pela soberania e pelo direito de autodeterminação do povo. O protesto pacífico, no entanto, não é compreendido, porque a visão não indígena não consegue entender que mudar o curso das águas acarreta na destruição da aliança de mútua proteção entre os homens e os animais, entre a terra e as águas. Em contraponto a essa necessidade de proteger todo um modo de vida, o que vemos é a arrogância cultural de construtores e soldados euroamericanos que agem como se tudo lhes pertencesse, como se tudo estivesse já morto.

É durante esse momento de resistência que Angel vai aos poucos descobrindo seu valor interno, seu lugar na comunidade, sua comunhão com a água, seu pertencimento "à mesma equação que os pássaros e a chuva" (79) Angel passa a ver um mundo onde não há fronteiras entre o espiritual e o real, entre os homens e os animais, entre as águas e a terra. Seu novo mundo lhe faz sentir que "se nós não tivéssemos nenhuma palavra separada para dentro e fora e não houvesse fronteiras entre eles, nenhum muro, nenhuma pele, você poderia me ver" (54) Angel, assim como Tayo, passa a adquirir visibilidade através do desemaranhar das histórias orais, que lhe revelam as verdadeiras relações entre seres humanos e animais, água e terra, devastação e comunidade, abandono e abuso. Reconhecer o padrão verdadeiro, saber encontrar as causas nos tempos imemoriais é se tornar apto a seguir o curso das águas, como "chuva que volta para o rio", no dizer de Angel, ou como a chuva restauradora do equilíbrio que Tayo busca recuperar através da cerimônia.

Mais importante, contudo, é perceber que esse resgate epistemológico não implica numa volta a um passado perdido. Muito antes, trata-se de uma avaliação de quanta separação poderemos suportar até que ela comece a destruir nossos corpos, sociedade, meio ambiente, espírito e nossa história. Para nós, leitores não-indígenas, essa fusão epistemológica representa um claro convite para que reavaliemos nossa conduta, nossas histórias e nossa relação com o todo, a fim de manter o equilíbrio delicado a nosso favor novamente, para que não deixemos o final da história na mão dos destruidores que nos fazem acreditar na separação entre povos, etnias, animais e seres humanos, terra e seres humanos, real e supernatural, vida e morte.

 

 

Ruppert, James. Mediation in Contemporary Native American Literature . Norman : University of Oklahoma Press, 1995.

Todas as citações foram traduzidas por mim para essa comunicação.

Utilizo a definição dada por G. Thomas Couser no seu artigo "Oppression and Repression: Personal and Collective Memory in Paule Marshall's Praisesong for the Widow and Leslie Marmon Silko's Ceremony ". IN: Memory and Cultural Politics: New Approaches to American Ethnic Studies . Eds. Amritjit Singh, Joseph T. Skerrett, Jr., Robert E. Hogan. Boston : Northeastern University Press, 1996.