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Afinal quem está escrevendo esta história?: memórias, violência e silêncio em "Lullaby" e "Obasan"
Lúcia Helena de Azevedo Vilela (UFMG)
Em seu ensaio "Who is telling This Story, Anyway?", Paula Gunn Allen revela como seu pai adora contar histórias e como sua mãe gosta de pesquisar a história da família incluí-las em suas memórias. O fato curioso destacado por Allen ocorre quando seu pai encontra-se em um momento crucial de um de seus relatos e é interrompido por sua esposa, que faz uma correção: não era fulano e sim sicrano que chegara naquele momento. O pai insiste em seu ponto de vista e a mãe retruca até que ele termina com o desabafo: "Afinal quem está contando esta história?" 1 Allen nos diz que ama de tal forma as histórias que gostaria de ter ouvido a versão de sua mãe também, assim como várias outras versões de várias outras histórias.
Esse episódio curioso pode ser transposto para o mundo acadêmico no qual temos acesso a uma multiplicidade de vozes e que penetramos, através de ensaios críticos, em universos tão distintos dos nossos. Como pesquisadora de literaturas étnicas sinto-me, às vezes, no papel da mãe de Allen, tentando colocar meus olhos para além do texto dos autores dessas obras e me perguntando se, caso pudessem me ouvir, não diriam como o pai de Allen: "Afinal quem está contando esta história"? O impasse persiste, mas penso que um possível caminho está no texto da própria Allen quando diz,
São tantas histórias; tantas vozes contando uma enorme, complexa, múltipla história, uma história tão longa que um único romance não seria capaz de abarcá-la, uma história tão vasta que só o conceito de ciclo pode começar a dar uma pista de sua dimensão, uma história tão complexa que a grande variedade de recursos, técnicas e pontos de vista, estilos e exemplos pode refletir com justeza as infinitas facetas reluzentes, sondar seus inúmeros túneis e corredores ocultos - são tantas as histórias que para um professor de Literatura Americana é difícil saber como começar e como prosseguir diante dessa vastidão 2
E conclui Allen, "Mas, como aconselha o oráculo, deve-se penetrar a vastidão - então comecemos" 3 Parto, portanto, dessa perspectiva de que, ao analisar os contos aqui focalizados, estarei sondando mais alguns túneis e corredores conectados à imensa rede engendrada pelas histórias narradas por Silko e Kogawa, sem tentar contar a mesma história de outra forma, sem tentar interferir no processo daquele que narra, mas acrescentar o meu olhar à imensa cadeia de significados por ela produzida, conforme o conceito de Homi Bhabha que menciono a seguir de "Terceiro Espaço". Ainda tendo em mente o impasse que sempre surge na análise de literaturas étnicas, lembro aqui o desafio colocado por Bhabha sobre um questionamento do lugar do crítico acadêmico como aquele que corre o risco de se enclausurar "dentro dos arquivos eurocêntricos de um ocidente imperialista e neocolonial" 4. Em oposição a esta possibilidade teórica, haveria aquele que se lança a uma análise política da representação dos antagonismos sociais. E Bhaha questiona:
Será que nossa única saída de tal dualismo é a adoção de uma oposicionalidade implacável ou a invenção de um contra-mito originário da pureza radical? Deverá o projeto de nossa estética liberacionista ser para sempre parte de uma visão utópica totalizante do Ser e da História que tenta transcender as contradições e ambivalências que constituem a própria estrutura da subjetividade humana e seus sistemas de representação cultural? 5
O olhar que lanço aqui sobre os contos "Lullaby", de Leslie Silko, e "Obasan", de Joy Kogawa busca percorrer as falas dos narradores desses textos e mostrar como o processo de contar histórias é afetado por circunstâncias de violência e opressão, tendo uma visão política das questões envolvidas, mas evitando uma perspectiva baseada em uma visão utópica das culturas focalizadas. Trata-se daquele espaço ao qual Bhabha se refere como o "Terceiro Espaço" 6, que seria instigante para a articulação da diferença cultural. Busco nos textos de Silko e Kogawa os ecos do silêncio que permeiam a fala dos seus narradores. Referindo-se ao silêncio simbólico imposto pelos processos de colonização, Bhabha afirma, "É um silêncio que transforma o triunfalismo imperial no testemunho da confusão colonial; aqueles que ouvem o seu eco perdem suas memórias históricas" 7. Nas entrelinhas das narrativas de Silko e Kogawa parece travar-se uma luta entre o silêncio e a memória. Nessa luta, forças militares opressoras favorecem a predominância do silêncio e o esforço pela persistência da memória torna-se intenso.
Referências ao silêncio de sua família e especialmente de sua tia -Obasan - acompanham o relato da narradora de Kogawa, que tenta recuperar a memória daqueles nipo-canadenses forçados a viver em campos de internamento durante a Segunda Guerra mundial. O tio da narradora perde aquilo que lhe era mais caro na época: barcos que eram verdadeiras obras de arte são confiscados pelo exército norte-americano. Após a morte do tio, a narradora encontra a tia solitária, encolhida e praticamente surda. Anos de silêncio parecem terem-lhe exaurido a vitalidade. Tenta erguer-se da cadeira, mas titubeia, "estende as mãos em sinal de cumprimento" 8, mas estas caem sobre a mesa. A narradora percebe que, qualquer pergunta que faça, soa como "pornográfica" 9 diante da tia, que lhe contara anos antes que já não chorava, pois seus canais lacrimais haviam se obstruído. As recordações do passado são sufocadas pelo sacrifício que a família pensa fazer ao não reclamar do confisco de seus bens e de suas vidas pelo exército norte-americano: "As memórias são afogadas em um sorvedouro de silêncio protetor" 10 As palavras de que tudo é "pelo bem das crianças" 11 são sussurradas constantemente. Toda essa contenção das palavras e das memórias reflete-se no estado físico de Obasan, como relata sua sobrinha/narradora: "A linguagem do desgosto é o silêncio. Ela a havia aprendido bem e conhecia suas expressões, suas nuances. Ela havia tido os melhores instrutores disponíveis. O desgosto no interior de seu corpo era gordo e vigoroso. Um verme todo-poderoso" 12. Mais adiante a narradora acrescenta: "O silêncio de Obasan era aquele da criança atemorizada" 13.
As fortes expressões relacionadas aos longos anos de silêncio, são seguidas por outras referências às suas conseqüências. Além do definhamento do corpo e do ânimo de Obasan, o silêncio se reproduz na casa à qual ela não se refere como a sua casa, mas a casa, apesar dos protestos da sobrinha. Toda a memória sufocada pelo silêncio se materializa em uma metáfora: um baú que a narradora encontra no sótão da casa da tia onde a visão de um pássaro morto prenuncia o que vão encontrar ali: "Ela (Obasan) tenta levantar a tampa do baú. Cadáveres de insetos negros caem no chão. Por entre as placas de madeira, mais insetos preenchem as rachaduras. Velhas teias de aranha se dependuram como sangue coagulado, grossas e negras como o teto tosco e anguloso" 14. No meio de todo esse entulho, a narradora encontra resquícios do passado da cultura dominante norte-americana: pilhas e pilhas da revista Life dos anos 50. Encontra, ainda, a foto de casamento de Obasan e uma caixa de sapatos repleta de documentos. Após examinar papéis e fotos e perguntar à tia o que deveria fazer com eles, a narradora não obtém nenhuma resposta e recoloca a tampa na caixa. A narradora oberva, então que, "do lado de fora o céu dos campos na primavera é dolorosamente azul" 15. O contraste se faz com o interior da casa no qual "os quartos permanecem emudecidos" 16. Ao constatar a permanência do silêncio de Obasan refletido na personificação da própria casa, a narradora aponta para o espaço de sua interferência. Apesar da tentativa de manutenção do silêncio por parte de Obasan, a narradora escolhe falar dessas memórias.
Enquanto Obasan decide esconder as memórias de um passado de opressão em seu silêncio eloqüente, Ayah, a protagonista de Silko em "Lullaby" decide cultivar as suas memórias, ainda que em condições inóspitas, através das cantigas de ninar. Argumento aqui que as vozes dos narradores revelam as assimetrias de tempo e espaço que se apresentam nos universos étnicos das protagonistas: indígena, no caso de Ayah e nipo-canadense, no caso de Obasan. Através dos olhos da narradora é possível perceber que o universo de Obasan se restringe ou se amplia assimetricamente. Ora seu olhar se concentra no tempo e espaço de seu presente no Canadá, ora se amplia rumo ao Japão, onde busca forças para sacrificar-se "pelo bem das crianças" 17. e é a força dos ancestrais que a faz silenciar-se. À sobrinha, entretanto, cabe tomar a força dos ancestrais e lançá-la na narrativa. Ocorre aqui um trânsito entre as fronteiras da memória.
No caso da narrativa de Silko, as circunstâncias históricas que combinam militarismo, opressão e violência, estão igualmente presentes. A narradora em terceira pessoa se aproxima de Ayah, que sorri ao lembrar-se de como havia sorrido para seus filhos: "Ela era uma mulher idosa agora, e sua vida havia se tornado memórias" 18. Ayah representa diversas perdas dos povos indígenas para a cultura dominante, restringindo-se à sua individualidade, mas ampliando-se assimetricamente em direção ao espaço simbólico de seus ancestrais. Através dela vemos todo o universo de um povo oprimido por autoridades militares e governamentais. Dentre suas várias perdas, ela representa a própria possibilidade de perda da memória cultural de seu povo, após a sua morte, já que é o único membro da família em condições de guardar o legado dos antepassados. Ayah se protege do frio não com um cobertor indígena, mas com "um velho cobertor do exército" 19. Essa é uma marca da ruptura da possibilidade de aproximação com uma noção de identidade coletiva. Ayah luta sozinha para guardar a memória dos ancestrais. Através desse signo - o cobertor -- a narradora gradualmente revela como esse objeto chegou às mãos da protagonista - enviado por seu filho Jimmie - morto como soldado do exército norte-americano em uma guerra que seu povo não escolheu, mas da qual foi obrigado a participar. O objeto que a faz recordar o filho, faz também com que ela rememore como aprendera a tecer a lã com sua avó. A memória se amplia de forma assimétrica à sabedoria dos ancestrais para conseguir forças para suportar o presente no qual encontra-se despossuída de sua família. Ela se lembra de quando era menina e sua avó lhe dera instrumentos de tecer. Lembra-se de todas as etapas da confecção de cobertores e especialmente daqueles feitos por sua mãe: "Os cobertores que sua mãe fazia eram macios e tecidos em pontos tão apertados que as gotas de chuva rolavam por sobre eles como penas de pássaros" 20. Além de Jimmie, a narradora conta ainda como Ayah perdera os dois filhos menores por suspeita de doença contagiosa. Sendo assim levados pelas autoridades médicas norte-americanas, acompanhadas de policiais, contra a sua vontade. A doença é também um motivo de esquecimento da herança cultural indígena. A contaminação trazida pelo homem branco causara a morte de sua avó e provocara a perda de dois outros filhos, além de Jimmie: "Foi pior do que se tivessem morrido; perder os filhos e saber que em algum local em um lugar chamado Colorado, em um lugar cheio de doentes e moribundos estranhos, seus filhos estavam sem ela (...) Ela não conseguiu dormir por um longo tempo depois que levaram seus filhos" 21.
Ao final do conto, Ayah lança mão de tudo que lhe resta para proteger a si mesma e ao marido, sendo ele vítima do efeito devastador do álcool e da perda do trabalho em uma terra que não lhe pertence: "Ela oferece a ele a metade do cobertor e eles se sentam agasalhando-se juntos" 22 . Tudo que lhe resta se concentra em uma antiga cantiga de ninar que a faz recordar que, apesar de tudo, fica a memória e a proteção da terra: "a terra é sua mãe, ela sustenta você; o céu é seu pai, ele protege você" 23.
As palavras dessa cantiga ressoam ao final de "Lullaby", ao contrário do que ocorre com a figura encarquilhada da mulher silenciada em "Obasan". Em ambas as narrativas, temos a presença da violência institucionalizada como forma de interrupção do fluxo dos elementos constitutivos das culturas envolvidas e das noções de identidade individual e coletiva, tão necessárias à expressão e construção das narrativas. A presença do autoritarismo militar nos dois contos - sinédoque do que Bhabha se refere como o ocidente imperialista e neocolonial - faz com que a fricção na fronteira entre culturas se intensifique e ocasione perdas dos laços necessários para a tessitura da prática de narrar histórias. Este texto se coloca como mais alguns fios nessa narrativa, como um terceiro espaço de observação, aquele da articulação das diferenças culturais, sem se aventurar a ver através dos olhos das protagonistas das narrativas, mas lançando sobre elas mais um olhar, que é evidentemente delineado por um viés político abrangente e não radical. Esse olhar observa Ayah e Obasan e compartilha com elas suas memórias e silêncios diante da violência e da opressão institucionalizadas que estão tão presentes nos universos das minorias étnicas.
Bibliografia
ALLEN, Paula Gunn. Off the Reservation: Reflections on Boundary-Busting, Border Crossing, Loose Canons . Boston : Beacon Press, 1998.
BHABHA, Homi. O Local da Cultura . Trad. Myriam Ávila, Eliana Reis, Gláucia Gonçalves. Belo Horizonte : Editora UFMG, 1998.
KOGAWA, Joy. "Obasan". In: BROWN, Russell; BENNET, Donna & COOKE, Natalie (eds.). An Anthology of Canadian Literature in English. Toronto : Oxford Univ. Press, 1990, p. 549-558.
SILKO, Leslie Marmon. "Lullaby". In: McQUADE, Donald (ed. ) The Harper American Literature. New York : Harper & Row, 1987, p. 2663-2668.
Notas
ALLEN, Paula Gunn. Off the Reservation: Reflections on Boundary-Busting, Border Crossing, Loose Canons . Boston : Beacon Press, 1998, p. 145.
BHABHA, Homi. O Local da Cultura . Trad. Myriam Ávila, Eliana Reis, Gláucia Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998, p. 43.
KOGAWA, Joy. "Obasan". In: BROWN, Russell; BENNET, Donna & COOKE, Natalie (eds.). An Anthology of Canadian Literature in English. Toronto : Oxford Univ. Press, 1990, p. 550.
SILKO, Leslie Marmon. "Lullaby". In: McQUADE, Donald (ed. ) The Harper American Literature. New York : Harper & Row, 1987, p. 2663.