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Sinatra, Woody Allen e a Estátua da Liberdade: a afiada ironia de Howe esculpindo a 'nova' Nova Iorque
Liane Schneider (UFPB)

LeAnne Howe, em seu conto "An American in New York" 1, introduz, logo em sua primeira sentença uma idéia de decepção ou surpresa com a Nova Iorque dos anos oitenta:

The first thing I realized when I went to New York City was that everyone is something different from what they seem: JAPs are Jewish American Princesses, Arabs are Towel Heads and Haitians are cab drivers. (Howe, p.245)

 

Ou seja ,

 

A primeira coisa que percebi quando estive em Nova Iorque é que todos ali são diferentes do que parecem ser: JAPs são princesas judaico-americanas, os árabes são os "cabeças de pano" e os haitianos são taxistas. 2 (Howe, p.245)

 

A autora não está aqui apenas introduzindo seu texto com a idéia de que todos naquela metrópole, de perto, parecerem diferentes do que se imagina, mas também destaca os estereótipos que são aplicados aos sujeitos com base nas suas diferenças étnicas, raciais, culturais, mesmo num ambiente como Nova Iorque, onde a diversidade sempre foi regra. Nesse sentido, o título do conto "An American in New York" já indica o tom irônico que o texto irá assumir. Nada seria mais provável do que o fato de se encontrar um (ou vários) americano(s) em Nova Iorque , principalmente se este americano for da América do Norte. No entanto, no relato que passa a construir, a autora não apenas mostra a diversidade da composição da população de Nova Iorque, como também mostra a estranheza que um nativo, ou "a" americana mencionada no título de seu conto, enfrenta ao tentar se situar dentro de um dos marcos da cultura americana e ocidental - a 'Big Apple', com todos seus shows da Broadway, o Central Park e suas carruagens turísticas, a Estátua da Liberdade, uma Manhattan que não exclui nem a Hell's Kitchen, e que se constrói como um enigma ao longo da narrativa. Lembrando que Linda Hutcheon afirma em Teoria e Política da Ironia 3 que a cena da ironia, é sempre uma cena social e política, "que envolve relações de poder baseadas em relações de comunicação, envolvendo assim inevitavelmente tópicos sensíveis tais como exclusão e inclusão, intervenção e evasão" (Hutcheon, p.17), é possível ler o título do conto como uma tentativa de inclusão do olhar da narradora na história daquela megalópole. Seu olhar sobre Nova Iorque é crítico e é político, como veremos a seguir.

A protagonista e narradora, que relata e descreve os fatos em primeira pessoa, uma narradora, aliás, muito próxima da própria LeAnne Howe, autora, faz uma recuperação dos fatos ocorridos ao longo da sua estadia na Big Apple. Essa é uma estória de viagens e experiências, aliás, bastante freqüente nas tradições tribais, sendo que aqui as mais variadas vozes que compõem a cultura estadunidense contemporânea, inclusive as não-nativas, colaboram com algumas pinceladas. Em meio a esses relatos, apresentações e desconstruções da cidade e cultura norte-americanas, a narradora, uma indígena de Oklahoma, confessa que veio a NY a negócios, como representante do governo americano. De imediato ela afirma haver algo hipócrita no fato de uma indígena estar vendendo títulos do governo dos Estados Unidos (Howe, p. 246). Sua função em NY seria melhorar as vendas dos títulos governamentais, e seu chefe espera que ela, munida de dinheiro, "convença" os compradores, pagando-lhes jantares, saídas e bebidas, a comprarem os títulos. São as palavras do chefe: "Divirta-os, leve-os para jantar fora, deixe-os de pileque, leve-os a shows. Faça o que for preciso para que eles negociem nossos títulos de forma mais eficiente" (Howe, p. 246). Aqui ocorre uma óbvia inversão de posições historicamente assumidas, onde a indígena irá seduzir o branco com ofertas atraentes a fim de executar um negócio que lhe interessa, pelo menos indiretamente. Após essa ordem do chefe, a narradora resmunga consigo mesma, relembrando a história da colonização do país: "Yes, Kimosabe. Me go to New York. Me make ' em like Indians " (p.246), decidida a levar suas proteções espirituais consigo, suas penas de falcão e outros objetos significativos. Contudo, no relato que está construindo dois anos após tal viagem e que compõe o conto em questão, afirma ter usado as penas não apenas como proteção, mas também como propaganda. "Afinal, um índio de penas é tudo que aquele pessoal reconheceria", considera, reforçando a observação com a frase "afinal, eu sou uma americana em Nova Iorque " (Howe, p.247). A narradora lamenta que ninguém captou a ironia, assim como ela não entendeu nem reconheceu na cidade a magia que Frank Sinatra cantava em New York , New York . Vale citar novamente Linda Hutcheon, quando essa afirma que, "para que a ironia funcione, ela precisa ter uma aresta crítica, uma complexidade semântica, dependendo de comunidades discursivas" (Hutcheon, p.19). Se a ironia acontece em alguma coisa chamada "discurso", "suas dimensões semântica e sintática não podem ser consideradas separadamente dos aspectos social, histórico e cultural de seus contextos de emprego e atribuição (Hutcheon, p. 36)". Portanto, se a comunicação aqui não foi satisfatória, se a ironia inclusive parece não funcionar, isso se deve ao fato de Howe, mesmo sendo americana, estar traduzindo a cidade a partir de um outro lugar. Quando Howe cita que sua protagonista seria 'Uma americana em Nova Iorque ', ela está querendo marcar esse lugar ocupado por ela na cidade como de exceção, já que parece que ninguém é dali de fato e ela, sim, teria motivos para defender seu pertencimento.

Após visitar ansiosamente todos os pontos turísticos possíveis procurando pela cidade imaginária, a protagonista conclui: "Não foi à toa que vendemos todo esse lugar por 26 contos e umas contas. Eu não pagaria nem 26 centavos por toda a ilha hoje. Ela cheira mal. Há enormes pilhas de lixo por todo o lado. (.) Não dá para ver o céu. É horrível" (Howe, p.247).

Depois do contato com esses aspectos negativos e após a desidealização do que seria o símbolo do 'sonho americano', ela simplesmente resmunga um 'sonofabitch' entre os dentes, pensando em Woody Allen e seu filme Manhattan . Tudo artificial e decepcionante, ela conclui. Relembra que isso é tão decepcionante para ela quanto deve ter sido para o nova-iorquino que foi a Oklahoma, a encontrou trabalhando no aeroporto e questionou: "Onde estão todos os índios e as ocas?" "Bem aqui a sua frente", ela respondeu. "Eu sou indígena". "Você? Você quer dizer que vive em uma casa como nós?", confere o nova-iorquino. "Bem, na verdade eu vivo em um apartamento", responde ela (Howe, p. 248). Pela comparação entre as duas situações, através da justaposição de estereótipos quanto ao lugar ou às pessoas que o habitam, a narradora consegue perceber a fragilidade das definições do 'outro', conscientizando-se quanto ao problema da representação. Tanto ela não vive em oca, como Nova Iorque não é só o que cantou Sinatra e retratou Woody Allen. Em "Quando foi o pós-colonial? Pensando no limite" 4, Stuart Hall defende que "os binarismos políticos não estabilizam o campo do antagonismo político (se é que já o fizeram)" e que "as posições políticas não são fixas" (Hall, 2003, p.104). Assim, segundo Hall, o pós-colonialismo seria uma tentativa de posicionamento dentro desse campo aberto e flexível que é a situação pós-colonial. LeAnne Howe em "An American in New York" parece pouco interessada em criar ou demonstrar meras oposições entre os mundos indígena e norte-americano hegemônico. A ironia é seu instrumento para deslocar-se sem fixidez, demonstrando que são risíveis tanto as expectativas de nova-iorquinos quanto a ocas contemporâneas quanto de indígenas em Nova Iorque em busca do "verdadeiro" clima da Broadway.

Após todos esses necessários deslocamentos e quebra de estereótipos, tanto a partir da perspectiva cultural dominante quanto da narradora, que se sente à margem, o texto faz uma referência ao fato de que em Nova Iorque vivem todas as populações do mundo: há mais dominicanos em NY do que em qualquer parte, exceto Santo Domingo, mais gregos do que em qualquer outro lugar, exceto Atenas. A maioria dos imigrantes vem para NY sabendo que ali sempre podem encontrar outros conterrâneos, uma cidade onde todos são 'alien'(estrangeiro, forasteiro) e onde, ao mesmo tempo, ninguém é 'alien' 5. Exatamente por poder ser retratada como sendo composta por "todos" os povos e, assim, por nenhum, Manhattan estaria, simbolicamente preparada para representar o entre-lugar, o lugar que é de todos e de ninguém, onde identidades se constroem e se dissolvem sucessivamente. Seria interessante inclusive considerar-se comparativamente ao conto "An American in New York" a canção de Sting, "An Englishman in New York", já que seus títulos parecem convidar tal justaposição. O sujeito inglês ali se diferencia pelos hábitos, afirmando: "eu não tomo café, tomo chá, gosto da minha torrada passada, você pode ouvir no meu sotaque, sou um inglês em NY. Me observe andando pela 5ª. Avenida (...), sou um inglês em NY". E no refrão ele reforça, "I'm an alien, I'm a legal alien, I'm an Englishman in NY" (sou um estrangeiro, sou um estrangeiro legal, sou um inglês em NY) 6. Entre todas as diferenciações de hábitos que a canção aponta, de culturas que teriam a mesma raiz, mas que com o passar dos séculos se distanciaram, o inglês da canção se dá ao direito de comentar que "gentileza e sobriedade são raras naquela sociedade". O que se pode destacar aqui é que, tanto na canção de Sting quanto no conto de Howe, há uma clara necessidade de expressar o não-lugar, o não-pertencer, o ser diferente. Como os dois textos, conto e canção, são construídos tendo Nova Iorque como referência, pode-se ler em ambos uma crítica à cultura dominante dos Estados Unidos a partir das duas vozes vinculadas tanto á cidade quanto ao processo de colonização. Ironicamente, de um lado a crítica vem de quem questiona a autoridade da 'Big Apple' se dizer tão americana - uma nativa e os povos que, como ela, vivem ali desde os tempos imemoriais; por outro, quem questiona é um representante do primeiro povo colonizador, que já não se reconhece mais como vinculado à cultura que se estabeleceu nas novas terras. Portanto, esses dois exemplos parecem reforçar a idéia de uma megalópole onde a identidade tem de ser afirmada a cada instante, onde todos grupos sociais têm necessariamente de se organizar a fim de obter alguma visibilidade e evitar o desaparecimento em um mar de diferenças tão variadas e estereótipos incessantemente reconstruídos.

Por ser um entre-lugar, a cidade impõe à narradora do conto de Howe situações que a deixam completamente insegura e sem referência. Quando decide contratar um passeio de carruagem pelo Central Park, o condutor lhe apresenta a cidade é um irlandês recém-chegado aos Estados Unidos de sobrenome MacDonald (seria essa mais uma ironia?). A narradora paga um extra a fim de que o condutor deixe o parque e circule por outras ruas e bairros. Na verdade, o que ela compra aqui é mais uma visão de posições invertidas e deslocadas. Logo de início o irlandês começa a criticar as políticas de imigração da atualidade, que deixam todos "esses novos imigrantes, esse pessoal do Oriente Médio, esses fugitivos haitianos que chegam de navio, esses hispânicos perambulantes que não podem ser assimilados por nossa sociedade" entrar aqui (Howe, p.251). "Nossa sociedade?", questiona ela. "Sim, nossa sociedade", confirma ele, afirmando que em breve terá cidadania americana e que quer o que todos querem - "comer hambúrgueres e pizza, comprar roupas de grife e relógios suíços. (...) É para isso que viemos para cá" (Howe, p. 251), retruca o condutor, que sonha tornar-se um destacado lutador de box, apesar do corpo bastante franzino. Quando a narradora, perplexa, tenta se diferenciar desses quereres e desses sonhos dizendo que "há mais na vida do que simplesmente coisas" o irlandês retruca: "você está se referindo a algo mais do que passeios caros em carruagens e o teatro da Broadway?" (Howe, p. 251). Sentindo-se mais rasa e contraditória do que a análise cultural que acabou de ouvir, vê a carruagem desembocar no Hell's Kitchen, então bairro de prostituição na baixa Manhattan . Ela, numa carruagem turística, passeando entre as prostitutas e michês, não consegue deixar de perceber o tom surreal que o passeio assumiu. O trânsito pára enquanto uma das prostitutas estimula o motorista do carro à frente da carruagem. A narradora confessa ter ficado como que hipnotizada ao ver aquela mulher morena curvada na janela do carro, só com as pernas de fora. O irlandês compara todos ali a ratos, que somem assim que a polícia se aproxima. Depois que o sexo acaba e o carro a sua frente volta a andar, o irlandês afirma que seu passeio também acabou. A narradora desce da carruagem, coloca as penas de falcão, agora por proteção, e espera por um táxi. Em mais um encontro ou desencontro de identidades diversas, agora o taxista é nigeriano. Quando ele pergunta de onde ela é, ela afirma: "Eu sou daqui mesmo, eu sou indígena" (p.253). O nigeriano se emociona e afirma que ela, sim, é a verdadeira americana; que ele está estudando na escola sobre os índios, que ele sente muito por tudo. Mal acreditando no que ouve, a narradora conclui: "Aqui está esse nigeriano que mal fala inglês, me guiando por Nova Iorque durante a madrugada, tentando me confortar quanto aos problemas dos índios". (Howe, p. 253). Quando ele a deixa na Staten Island Ferry, já que ela pretende ver a Estátua da Liberdade, a narradora só consegue pensar sobre sua ambivalência em relação aos imigrantes recém-chegados. Olhando positivamente, poderia chamar o que sentia de ambivalência. Negativamente, seria racismo (Howe, 253). Mesmo dividida, conclui que toda a leva de gente branca que veio para as Américas foi responsável pelo seu nascimento (já que também é, em parte, branca). Indo ao encontro da Estátua da Liberdade, ela considera que talvez a vinda de imigrantes tenha sido, no final das contas, positiva. Acabou tornando os indígenas mais fortes. Afinal, ela conclui, os sujeitos híbridos vivem às margens de duas raças, como se fossem cortados ao meio. Definir amores e ódios é mais difícil para eles. Ela afirma por vezes sentir que seu sangue como uma mistura mortal do fator RH negativo e RH positivo (Howe, p. 255).

Quase no final do texto, a narradora aproxima-se da Estátua da Liberdade. Olhando para a estátua, ela lembra de todos os indígenas, amontoados em reservas, as prostitutas que viu, dependendo de seus cafetões, o condutor irlandês, o taxista nigeriano. Mesmo dois anos mais tarde, durante os festejos de 4 de julho e os 100 anos da Estátua, ao reconstruir tal relato a narradora dá-se conta de que em todas essas celebrações nenhuma palavra foi mencionada sobre os indígenas; apenas os imigrantes foram citados, aqueles que vinham acreditando que esse país seria melhor do que o deles. Ainda assim, a narradora acredita que Emma Lazarus, poeta-judia americana, portanto, outra indentidade hifenizada, que escreveu o famoso poema adaptado como boas vindas aos imigrantes que chegavam à América, poderia bem ter sido indígena, já que disse: "Me dêem suas massas cansadas, pobres, ansiosas por respirar liberdade...". E Howe termina com a frase: ""isso feito, para onde vamos agora?" (Howe, p. 255), apontando que nada foi solucionado nem está garantido. As massas amontoadas de pobres e cansados continuam existindo também nos Estados Unidos e a liberdade continua sendo um sonho para a maioria da população mundial.

Linda Hutcheon afirma que, no caso específico dos indígenas norte-americanos, as "arestas da ironia dão aos seus textos uma habilidade de sobrevivência, um instrumento para reconhecer complexidade, um meio de expor ou subverter ideologias hegemônicas opressivas, e uma arte para afirmar a vida ao enfrentar problemas objetivos". (p.49). O que LeAnne Howe parece estar apresentando no conto analisado é um exame complexo do que é ser americano ou americana hoje, desmascarando as ilusões antes vendidas e hoje perdidas quanto ao sucesso de um modelo capitalista aparentemente inclusivo, onde todos teriam entrada desde que vendessem seu trabalho de forma barata e consumissem o que lhes fosse oferecido. Se a ironia, ainda segundo Hutcheon, tem sido bastante usada por "feministas e escritores pós-coloniais como um instrumento poderoso na luta contra uma autoridade dominante, servindo para deslocar e aniquilar uma visão dominante de mundo" (p.54), aqui Howe a utiliza como instrumento de desconstrução de uma visão dominante do símbolo maior do Ocidente contemporâneo, a tão desejada maça americana ('big apple'). Segundo Sonia Torres em Nosotros in USA 7, Jean Franco já teria definido Nova Iorque como uma cidade de Terceiro Mundo, já que tem em seu bojo várias culturas antes periféricas e que são hoje parte da marca do hibridismo cultural e lingüístico da cidade (Torres, p. 12). Talvez após tais considerações o título do conto de Howe pudesse ser satisfatoriamente substituído por "Aliens in New York", marcando tal megalópole não como o símbolo do sucesso da América do Norte, e sim, como uma terra de ninguém e de todos, que comporta todo e qualquer sujeito eternamente estrangeiro.

 

Howe , LeAnne. "An American in New York " in Spider Woman's granddaughters , Paula Gunn Allen's (ed.). New York: Fawcett Columbine, 1989.

As traduções são de autoria e responsabilidade da autora do artigo.

Hutcheon , Linda. Teoria e Política da ironia . Belo Horizonte: UFMG, p.303, 2000.

Hall, Stuart. "Quando foi o pós-colonial? Pensando no limite". In: ____. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte, Editora da UFMG, p. 434, 2003.

Preferi aqui conservar o termo em inglês, 'alien', pois, além de significar estrangeiro, forasteiro, tal significante também incorpora uma idéia de alienígena, não-pertencente ao mundo como o conhecemos.

Essa comparação surgiu em uma discussão em sala de aula, com os alunos de Literatura Norte-Americana da UFPB, 2003. Agradeço esse insight ao grupo, portanto.

Torres , Sonia. Nosotros in USA : literatura, etnografia e geografias de resistência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 186, 2001.