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A leitura como travessia entre o leitor e a cultura indígena
Flávia Brocchetto Ramos (UCS/UNISC)

A menina apareceu grávida de um gavião.

Veio falou para a mãe: O gavião me desmoçou.

A mãe disse: Você vai parir uma árvore para a gente comer goiaba nela.

E comeram goiaba.

Naquele tempo de dantes não havia limites para ser.

(Manoel de Barros)

 

1 Um pouco de história

O primeiro escrito em solo brasileiro sobre o País é a Carta ao Rei Dom Manuel, redigida por Pero Vaz de Caminha, em 1500. Trata-se de uma crônica na qual Caminha presta contas ao rei de Portugal sobre aspectos do local descoberto, tais como o relevo, a vegetação, os habitantes e as moradias. Ao referir-se aos indígenas, o narrador assim se manifesta:

A feição deles é serem pardos, quase avermelhados, de rostos regulares e narizes bem feitos; andam nus sem nenhuma cobertura; nem se importam de cobrir nenhuma coisa, nem de mostrar suas vergonhas. E sobre isto são tão inocentes como em mostrar o rosto. Traziam, ambos, os beiços de baixo furados e, em cada um, metidos neles ossos de osso mesmo, brancos, medindo uma mão-travessa e da grossura de um fuso de algodão e agudo na ponta, como furador.

 

Havia, aqui, um povo que já habitava o espaço, porém era diferente do colonizador, e, se havia moradores, certamente, existia uma língua e uma cultura própria. Os nativos recebem o estrangeiro, cedendo suas redes, oferecendo seus alimentos. Tanta ingenuidade e amabilidade, gradativamente, transformam o índio em estrangeiro no seu território - fica sem terra, sem teto e sua língua e cultura estão em fase terminal.

A literatura brasileira viu no nativo um tema para suas obras. José de Anchieta compunha versos com a intenção de doutriná-lo, ou melhor, subjugá-lo. O Arcadismo recria o indígena, através de Moema e Paraguaçu, personagens do poema épico Caramuru , de Santa Rita Durão. Já o Romantismo, por meio das narrativas de José de Alencar, apresenta o índio em algumas obras marcantes: Iracema e O guarani são exemplos, sem esquecer de poemas como "Canção dos tamoios" e "Marabá", de Gonçalves Dias. Embora a produção seja vasta no Romantismo, a representação do indígena é bastante fantasiosa. Iracema padece por seu amor ao português, enquanto a índia configurada em "Marabá" é branca e, por isso, rejeitada pelo seu povo. Peri também é um herói que assume traços do colonizador. Todos os nativos citados submetem-se ao europeu.

Na literatura para a infância, o nativo foi ignorado nos enredos por bastante tempo. O gênero segue tendências educativas e modelos europeus, adaptando clássicos como Dom Quixote de la Mancha, de Cervantes, As viagens de Gulliver , de Jonathan Swift . Ainda são traduzidos contos direcionados à criança, como as publicações de Perrault, cujo tom educativo é explícito; irmãos Grimm, que priorizavam uma visão romântica das situações representadas, e Andersen, cujo conteúdo humano e artístico se mostra com mais força. Paralela à chamada literatura infantil, crescem as publicações didáticas, de modo que o melhor livro para as crianças era o didático ou a Bíblia.

Como o indígena não estava representado nas histórias ficcionais que vinham para a Colônia e não havia produção local considerável, continuava a não aparecer nos enredos. No caso da literatura infantil brasileira, é Monteiro Lobato quem insere personagens com cores locais nos seus conflitos e marca a fundação do gênero, com a tentativa de configurar uma identidade nacional para o público mirim. O negro surge na obra do escritor, principalmente, pelas figuras de Tia Anastácia e do Saci. Porém, o indígena continua ausente na sua produção.

A decisão sobre a cultura representada numa obra passa pelo conceito de diferença cultural. Conforme Bhabha 1, tal conceito:

"concentra-se no problema da ambivalência da autoridade cultural: na tentativa de dominar em nome de uma supremacia cultural que é ela mesma produzida apenas no momento da diferenciação. E é a própria autoridade da cultura como conhecimento da verdade referencial que está em questão no conceito e no momento da enunciação

 

O índio, de dono da terra, passa a ser o Outro, o alienígena, que quase não está presente em conflitos para a infância. Apenas na década de 80, o cenário começa a mudar. Ciça Fittipaldi escreve e ilustra a série "Morená", da editora Melhoramentos, privilegiando a cultura nativa. Na década de 90, a lenda da vitória-régia e da lua cheia, entre outras, são publicadas pela série "Lendas brasileiras", da Ediouro. Destacamos ainda, o projeto "América Morena", da José Olympio, cujo texto que dá abertura à série é Amor índio , em 1999.

Neste estudo, pela sua brevidade, optamos por enfocar o modo como o índio e sua cultura são representados em dois livros - A lenda do guaraná , de Ciça Fittipaldi 2 (1986) e A lenda da vitória-régia , de Terezinha Eboli 3 (2001) - a fim de analisar aspectos referentes ao modo como é revelada a cultura indígena e a sua contribuição para o imaginário infantil. Os livros selecionados são produzidos por escritores brasileiros e contam histórias do imaginário dos nossos índios.

O prazer de contar e de ouvir acompanha o homem desde a antigüidade. A narrativa, verdadeira ou ficcional, é um dos aspectos constitutivos do homem. Entre as modalidades contadas está a lenda, história que se caracteriza por relacionar-se a um personagem, local ou evento de certa comunidade. A lenda contém caráter regional, pois cada povo vale-se de princípios do seu imaginário para tentar compreender fenômenos que o cercam. Entre os indígenas, convivem muitas lendas cujo conflito agrada ao leitor mirim.

2 Entre o homem-planta e a planta-homem: A lenda do guaraná

O modo como surgiram as coisas é uma questão que nos inquieta. A criança freqüentemente indaga ao adulto sobre o aparecimento de certos seres e, muitas vezes, não sabemos responder-lhe. O indígena, entretanto, explica, por meio da narração, fatos, como a existência de uma estrela, de uma planta ou de um fenômeno como o fogo.

Ciça Fittipaldi, na série Morená, termo que designa a terra mítica onde morava o criador, atualiza várias crenças indígenas, entre elas a do surgimento do guaraná. O modo como é explicado o nascimento da planta encontra apoio na mente primitiva, a qual dialoga com a forma como a criança apreende e entende o mundo. O simbolismo, presente tanto na narrativa verbal, como também na ilustração, mobiliza o leitor, seja criança ou adulto. As cores escolhidas e as formas desenhadas apóiam-se na arte rupestre, representando o traçado indígena.

A proposta visual auxilia o leitor na apreensão do texto. Basicamente há três linguagens na obra: a ilustração em preto e branco e a palavra nas páginas pares e a ilustração colorida nas ímpares. Os códigos contribuem para que o leitor percebe peculiaridades da vida dos nativos: nas páginas pares encontra-se uma seqüência de imagens que constituem uma narrativa à parte, caracterizando costumes do povo sateré-maué, como, por exemplo, a colheita e processamento do guaraná (Figura 1) e a festa Tocandira, a cerimônia de iniciação dos jovens. Assim, a obra narra a lenda, mas também informa sobre hábitos dos índios, através das ilustrações em preto e branco.

O narrador, mesmo contando uma história que segue os padrões do conto tradicional, inova no estilo, substituindo, por exemplo, o clássico "Era uma vez" por "Diz que lá na lonjura do tempo, no comecinho de todas as coisas,..." A busca do princípio já é sinalizada no início da narrativa e culmina com o surgimento do guaraná e do povo sateré-maué.

O começo é sinalizado pelo tempo mítico onde as coisas se formaram. "Dois eram homens, e a irmã, Onhiamuaçabê, era moça bonita, também chamada Uniaí." A irmã tem dois nomes, assim como tem sua atuação no enredo dividida em duas partes: antes e depois do nascimento do filho. A índia conhecia o poder das plantas e era a fonte de conhecimento da família, ao contrário dos irmãos que apenas usufruíam a sabedoria da jovem. A convivência entre os familiares também aponta para a dualidade entre masculino e feminino.

Mesmo com a disputa entre antagonistas, o princípio da unidade reina no texto, já que todos, inclusive os bichos, se habilitam a casar com Uniaí. Nessa página, a ilustração potencializa o sentido anunciado pela palavra, pois apresenta os animais que pretendiam se casar com a jovem.

Uniaí engravida e nasce o filho, fruto do encantamento. O gestar não prescinde de contato físico: "Quando a moça passou, a cobrinha olhou com firmeza nos olhos dela e desejou que fosse sua esposa. Com este simples encanto, qualquer alguém, árvore, bicho ou gente, já estava casado e gerava filho." O menino, o novo, desestabiliza a família: os irmãos da índia ficaram com medo de que ela não se dedicasse mais a eles. Assim, a gravidez implica, além de mudança do estado físico, também da moradia: precisa abandonar o espaço conhecido do Noçoquém, onde estavam plantas cujo segredo conhecia, e vai viver em outro ambiente. Sai do familiar para o desconhecido, de acordo com os preceitos da cultura popular que o homem deve partir para constituir a sua identidade.

O leitor não familiarizado com a cultura indígena é respeitado no texto pela linguagem visual e verbal. A ilustração figurativa auxilia a criança na apreensão do enredo, porque pode identificar as formas dos seres desenhados. Já a palavra vale-se de elementos poéticos, os quais se constroem, preferencialmente, por meio de comparações como "[a castanheira] pendurava seus ouriços, que nem caixinhas de surpresas, que são as castanhas que tem dentro". O código verbal, aliado à ilustração, intensifica a significação: a visualidade mostra a copa da árvore que ocupa toda parte superior da página e representa o dia e a noite, através do sol, da lua e das estrelas. Se a palavra aponta a luta dos irmãos com Uniaí, a ilustração mostra os rapazes brigando entre si, de modo que o texto (palavra e ilustração) é solidário com o leitor e a visualidade potencializa a poesia da obra.

Além das linguagens, encontramos outros aspectos que ajudam o leitor na apreensão do texto. Destacamos elementos da cultura popular, presentes na literatura infantil, como o princípio da unidade, através do qual homens, animais, plantas e minerais pertencem ao mesmo cosmos e, portanto, estão unidos, formando uma identidade. Assim, ocorre a gravidez, o nascimento do menino e o surgimento do guaraná.

O afastamento do herói, através da saída de casa, é um princípio do conto de tradição popular, já sinalizado por V. Propp e amplamente conhecido do leitor mirim. Nessa história, a gravidez implica o afastamento da índia do Noçoquém, para que a vida surja. Como o ser primitivo está integrado à natureza, ele nasce da terra e ao morrer volta à terra de onde novamente brota, ressaltando a circularidade, aspecto inerente à cultura popular e à mente infantil. Nessa obra, linguagem visual e verbal contam a história e atuam como um apoio na travessia que o leitor contemporâneo realiza para mergulhar no imaginário do índio.

3 Uma história de amor: A lenda da vitória-régia

Uma história inicia antes que comece o texto verbal. O livro mostra-se, primeiro, pela capa, folha de rosto, ou seja, pela sua materialidade. Quando a palavra anuncia o "Era uma vez" ou algo similar, enfoca Naia, mas a narrativa já havia iniciado. A trama de A lenda da vitória-régia é envolvida por um cenário negro e a negritude é mantida. Na página que inicia o conto, vê-se um feixe de luz branca que entra no canto superior esquerdo e segue verticalmente, entretanto, ao tocar a página seguinte bate em uma silhueta que se funde com o preto do cenário. O trajeto da luz altera-se e ela reflete-se na água e nela se espraia. Essa imagem (Figura 2) é a síntese da trama e já anuncia o desfecho da história. A história de Naia e de seus costumes vai se constituindo pelas linguagens verbal e visual.

Na base preta, a ilustração e a palavra estão colocadas. Esta sempre na cor branca, aquela através de tonalidades marrons/ocre, verde e vermelho, aparentemente, pela técnica de pastel em superfície granulosa. O contraste entre cores - preto, vermelho e branco - anuncia luta, oposição e sofrimento, revelados pela palavra. A única figura humana ilustrada é Naia, cujas formas nunca estão definidas, apenas uma silhueta se mostra. O esboço do seu corpo parece vazio no início da história, mas, à medida que a trama avança, vai assumindo sua identidade, o corpo começa a ter detalhes como pinturas na cintura e nas pernas. A concretização de Naia depende, essencialmente, da imaginação do receptor, ao contrário da vitória-régia que é ilustrada com detalhes.

O motivo da lenda é o surgimento da vitória-régia, cuja flor é reconhecida por sua beleza. É tão linda e sedutora que já mereceu a atenção de Mário de Andrade, o qual lhe dedica um texto bastante poético:

Noite chegando, a vitória-régia roxa toda roxa, já quase no momento de fechar outra vez e morrer, abre afinal, com um arranco de velha, as pétalas no centro, fechadas ainda, fechadinhas desde o tempo de botão. Pois abre, e lá do coração nupcial da grande flor, inda estonteada pelo ar vivo, mexemexe ramelento de polém, nojento, um bando repugnante de besouros cor-de-chá.

É a última contradição da flor sublime... (Mário de Andrade)

 

O escritor revela o ambiente onde a planta nasce, lembra das lagoas serenas, fala da brevidade da vida da flor, que dura apenas um dia, como também aponta seu instinto de proteção para com aqueles que desejam tocá-la, pois parece "ouriço espinhento em que nem inseto pousa. E assim cresce arredondada, esperando a manhã de ser flor". Naia, a protagonista de A lenda da vitória-régia , apresenta características semelhantes às da flor. Seu temperamento pouco sentimental a torna arredia ao assédio dos moços da tribo.

Sucintamente, o enredo conta a história da jovem Naia, que se apaixonou pela lua, Jaci, e passou a segui-lo. Durante o tempo em que a lua não aparece, a índia se desespera, pensando que Jaci não havia entendido seu amor. Uma noite, Naia vê o reflexo da lua no rio e mergulha, pensando que seu amado estava ali. No lugar onde a índia desaparece, nasce uma flor extraordinariamente bela, a vitória-régia. Naia se centrava no exterior distante e misterioso e não em si. Ela apreciava o céu, o grande rio e as canoas. A canoa é o meio de transporte que, assim como traz elementos para o povo, também pode levá-los para outros lugares; a canoa pode ser a ligação entre Naia, o rio e o céu.

A brevidade da vida da flor assemelha-se a brevidade da vida da jovem. Naia e a vitória-régia são belas, exuberantes e seduzem quem as vê, porém são temperamentais e vivem pouco. Além disso, enquanto a moça é arredia, a flor dispõe de um mecanismo de defesa em seu interior. A flor assume, assim, características da índia, confirmando o preceito de que há fusão de elementos: humanos e plantas. A protagonista rasga sua pele nos espinhos, anunciando o sofrimento da protagonista para chegar ao momento sublime de ser flor. A jovem só muda pela dor, pois ainda não tem a sabedoria dos velhos. O desejo de ascender ao desconhecido, ao longínquo impõe o mergulho nas águas do espaço familiar e a derradeira união com ele. O intuito da índia de alcançar um extremo (o céu, morada da lua) através do outro extremo (o lago, abaixo do céu), também converge para uma idéia de circularidade.

O mistério atribuído à vida e, principalmente, à morte da jovem, como também ao surgimento da vitória-régia, estende-se ao modo como o livro é organizado. Todas as páginas e a capa são pretas, exceto as partes internas da capa, a folha de rosto e a de guarda, que estão em amarelo. Enquanto a negritude enfatiza a noite, período em que acontecem os fatos, como também referenda o mistério dos mesmos, o amarelo simboliza a luz, a vida, o nascimento.

A dualidade percebida no objeto livro aparece também no modo como se constitui a história. O narrador é um sujeito civilizado e que conhece fenômenos como as fases da lua; a índia não. Evidencia-se, ainda, a dicotomia que há entre os fatos concretos e o modo como Naia apreende o mundo:

As horas iam passando e Jaci seguia seu caminho. Ela deveria rolar pelo céu, iluminar outros lugares e, quando viesse a madrugada, recolher seu brilho para dar lugar ao sol. Mas Naia não sabia nada disso. Sabia apenas o que as velhas índias haviam contado em suas histórias: que a lua era um belo moço chamado Jaci. Por isso, quando a lua começou a se afastar, Naia ficou desesperada. Será que Jaci não havia sentido seu amor?

 

Ao revelar como a protagonista apreende e, portanto, conhece o mundo, o narrador atualiza a cultura indígena, auxiliando o leitor na travessia que consiste em sair do seu lugar e chegar ao modo como o primitivo dá sentido ao mundo e o conhece. O narrador apóia-se na voz das velhas índias, mesclando o seu discurso com pontos daquele dos idosos. Quando Jaci reaparece, o narrador lembra do depoimento dos idosos para dar segmento a história: "Contam as velhas índias da tribo que Naia já não sabia mais o que falava diante do silêncio de Jaci. Parecia que havia ficado louca.". É ainda a lembrança dos idosos que conclui a narrativa: "Isso é o que contam até hoje as velhas índias daquela tribo que viram a magia do amor e da morte de Naia, transformando-a na mais linda flor da Amazônia, a vitória-régia." O narrador evoca as velhas como testemunha dos fatos, em virtude de que a experiência delas dá mais autenticidade à trama.

Nessa história, não há distinção entre os seres. Mais uma vez, seguindo os padrões da cultura popular, homens, animais, vegetais e minerais se mesclam e fazem parte do mesmo cosmos. Na mente primitiva, a lua é vista pelos nativos como um rapaz e, nessa condição, pode ser cortejada, assim como Naia transforma-se em planta, a vitória-régia. A transformação é um aspecto essencial da mente primitiva e da narrativa. O homem compreende os fenômenos a partir de si e, por isso, o indígena olha a natureza como um eu igual a ele.

O modo como um texto se organiza pode auxiliar ou dificultar o diálogo com o leitor. A literatura infantil tende, além de se valer da visualidade como um processo de acolhimento do receptor, incorporar aspectos da oralidade no texto verbal. Visualidade e oralidade estão presentes em A lenda da vitória-régia , orientando o destinatário a ingressar na cultura primitiva. O leitor infantil dialoga com o imaginário apresentado que, assim como o seu modo de relacionar-se com o mundo, pauta-se em elementos do universo mágico. Pela imaginação da criança e pela cultura do índio, é possível a aproximação entre o homem e a lua, como também a transformação do homem em planta.

4 Considerações finais

O esquecimento em que a literatura infantil colocou o índio agora vem dando lugar à produção de narrativas, embora em número restrito, que falam do universo do nativo. Ao inserir o índio como protagonista das tramas, a literatura passa a mostrar o modo como a cultura brasileira se reconhece, através das projeções que efetua.

Além disso, o ato de ler implica abrir-se para o outro, ou seja, dialogar com a alteridade. Quando o leitor contemporâneo dialoga com obras que representam a cultura indígena, abre-se para um universo, quase desconhecido atualmente, e passa a interagir com o Outro por meio do imaginário expresso pela palavra e visualidade do livro.

O leitor dessas lendas convive com valores e com uma cultura diferente da sua. Uniaí trilha seu próprio caminho, mas também precisa sair do conhecido, do lugar onde cresceu para cumprir sua missão de gerar o guaraná e o primeiro índio da nação sateré-maué. Naia representa a juventude com sua inexperiência, ao contrário das velhas da tribo que possuem a sabedoria. A jovem desconhece e, por não saber, sofre, não consegue interpretar o que vê. Ela assume-se como índia somente quando acredita na voz das velhas. Talvez o brasileiro também só se reconheça ao conhecer a cultura dos diversos povos que o constitui.

Figura 1

 

Figura 2

 

 

BHABHA, Homi. O local da cultura . Trad. Myriam Ávila. Ed. UFMG, Belo Horizonte, 1998. p. 64.

FITTIPALDI, Ciça. A lenda do guaraná . São Paulo: Melhoramentos, 1986.

EBOLI, Terezinha. A lenda da vitória-régia . Il. Graça Lima. 5 ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.